quinta-feira, 20 de junho de 2019

Mais além do complexo de vira-latas





Manuela D'Ávila, a jovem jornalista, ex-vereadora, ex-deputada, candidata a vice-presidência da República nas últimas eleições e militante política brasileira vem apresentando seu livro Revolução Laura mundo afora e sempre acompanho seus movimentos nas redes sociais. Dias atrás, ela e o Pastor Henrique Vieira reuniram pessoas para o lançamento do livro deste último O amor como revolução em um ambiente inusitado e inabitual, ao ar livre nas escadarias do viaduto da Avenida Borges de Medeiros em Porto Alegre o que parece ter chocado alguns, mas a mim muito mais, quando me deparei com o seguinte comentário em rede social:

—Cena Patética ... sentada na BORGES é o quadro da dor. É tipo navegar no arroio dilúvio da Ipiranga e achar que está em Veneza.

Esse é o retrato fiel do complexo de vira-latas brasileiro, um complexo de inferioridade já estudado por alguns autores, mas cuja expressão foi criada por Nelson Rodrigues para designar não só o trauma sofrido pelo povo brasileiro ao perder a copa do mundo de futebol para o Uruguai em 1950, mas que também designa algo mais :

"Por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima."

É justamente por causa deste vira-latismo que os lugares emblemáticos vão se degradando pelas cidades brasileiras. É justamente pelo descaso e pelo ódio de alguns  pela sua terra, pelas suas coisas e pela exaltação desmesurada pelo que é de fora, o quadro é bem mais do que doloroso. O complexo faz pessoas desqualificarem sua própria cidade, seus monumentos, sua cultura, seu patrimônio e até sua gente.  Que teria dito a moça do comentário se o evento fosse no Parque da Redenção? Que Manuela, certamente estaria fantasiando estar no Hide Park de Londres, no Parque del Retiro de Madrid ou no Central Park de Nova York
O Arroio Dilúvio poderia ser muito bem equiparado aos canais de Veneza ou de Amsterdan se os porto-alegrenses tivessem mais respeito ao meio-ambiente, ao patrimônio natural e valorizassem seu entorno.

Seguramente, Manuela já circulou por todos esses lugares e tenho certeza que age com a mesma naturalidade quando vai a Nova York, Madrid, Paris, Porto Alegre, São Paulo, Pontevedra, Quixeramobim ou Formigueiro. Ela não se acha superior, tampouco inferior a nada nem a ninguém e seguramente esteve muito à vontade e com alegria compartilhando com aquelas pessoas numa escadaria da sua cidade e ora vejam, falando de amor e revolução.

Cabe ressaltar também que Manuela D'Ávila vem sendo alvo sistemático dos odiadores de plantão desde que se tornou conhecida pelo país afora durante a campanha eleitoral de 2018. O extremismo de direita não poupa e sua artilharia de ofensas é sempre muito pesada contra a ex-deputada. No caso do comentário em questão, bem mais que o ódio, a inveja também está claramente manifesta.

Patética é a inveja. Patética é a ignorância. Patética é a incapacidade de entender que a dor não é ocupar um espaço público que se tornou feio, degradado e de má reputação pelo descaso. A dor está no desprezo e na indiferença da população, na negligência e na inércia política, quando todos subvalorizam os espaços públicos. Dor ainda maior é saber que o poder público nada ou pouco faz para manter esses espaços organizados, humanizados, cheios de gente orgulhosa e disposta a cuidar do que é naturalmente seu.

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