sábado, 25 de junho de 2022

Aquela tarde vazia




A primeira vez que ela chamou, ele estava na cafeteria que costumava se refugiar. Aquela tarde tinha começado infinitamente vazia, ainda que o vazio e o infinito pareçam antagônicos. Igualmente a manhã tinha sido das mais rotineiras. Saiu do escritório rumo à casa com o tédio colado no corpo.  Sentia falta de novos planos, expectativas, algo criativo para dedicar-se. Estava cansado das tardes quentes do último verão fazendo manutenção no jardim e na casa, embora essa atividade ajudava a preencher alguns dias menos desastrosos, assim como o trabalho no escritório e a companhia dos colegas davam certo suporte a sua rotina.

Depois do almoço, sempre às três da tarde, ele ficou uma hora ou mais sentado em frente ao computador, relendo as notícias da manhã meio sonolento. Sua mulher seguia o hábito de assistir todas as novelas da tarde na sala da televisão no andar de cima da casa, coisa que o enfadava já havia algum tempo.  A desatenção, a indiferença e a frieza foram corroendo o relacionamento e agigantando a distância entre eles. Os diálogos eram breves e somente sobre temas da vida prática. Uma barreira imaterial chamada desamor tinha se levantado e qualquer convite que viesse da parte dele, mesmo por mera cortesia, era recusado. 

Pelas cinco resolveu pegar a moto e sair. Ninguém na casa sentiria sua falta àquelas horas. Talvez se não voltasse, também não. Nos últimos anos acostumou a sair sem avisar, pois sentia não ter mais relevância na vida daquela família. Quando começou a derrocada do casamento, ressentiu-se muito do rumo das coisas e tentou com todas suas forças consertar o que mais tarde entendeu que não tinha conserto. Desistiu. Agora o assunto divórcio era um tema que deveria ser tratado, porém ele sabia que não partiria dela, era uma pessoa demasiado retraída, avessa a expor seus sentimentos e, comumente de pouca atitude. Se quisesse que algo acontecesse deveria partir dele, mas adiava, não sabia bem porquê.

O tempo estava bom, embora o verão estivesse quase acabando e a temperatura já diminuíra. Ele gostava de passear de motocicleta, além de ter mais liberdade no tráfego e mais vagas nos estacionamentos, a sensação do vento contra o corpo sempre o despertava, como se mudasse seu estado psicológico. A velocidade o reavivava e o mundo desde aquela perspectiva parecia transcorrer diferente. 

Depois de quase trinta minutos de trajeto estacionou perto da cafeteria Aroa. Já era cliente habitual daquele ambiente. Os fregueses eram na maioria turistas desconhecidos e ele escolheu a última mesa do fundo, sua preferida e quase sempre livre. Pediu o café para a atendente, uma moça de olhar cansado e perdido, de avental e lenço em forma de bandana, ambos pretos amarrados em sua respectiva parte do corpo. Ela fazia todo o trabalho, atendia as mesas, cobrava, buscava os pedidos na cozinha, ia e voltava equilibrando a bandeja cheia.

Retirou o tablet que carregava consigo na bolsa a tiracolo e conectou-se à rede da cafeteria. Adorava aquele dispositivo comprado recentemente, vinha com muitos recursos e obtinha ótimas fotos. Já tinha dezenas delas na galeria, pois a paisagem era digna de ser capturada. Morava numa zona litorânea e era encantado pelo lugar onde tinha nascido, crescido e vivia até então.

Tinha descoberto havia algumas semanas e participava de vez em quando de um fórum de idiomas. Ali conectavam-se pessoas do mundo inteiro interessados em aprender inglês, espanhol, alemão, italiano, mandarim, etc. Porém nem sempre os assuntos lhe interessavam. A maioria dos usuários eram pessoas muito jovens e para um senhor de 50 anos muito do que era tratado ali não fazia muito sentido. Assim que não era sempre que interagia. No entanto, face ao nível de tédio daquela tarde, resolveu entrar e divertir-se um pouco vendo o que sucedia naquele mundo virtual.

Escrevia, lia e compreendia razoavelmente o inglês e gostava de ensinar os que tinham interesse por sua língua nativa. Ensinava os significados, as flexões, as construções frasais e verbais, as expressões do seu idioma, assim que quando lhe cabia essa tarefa a vida parecia fluir com mais propósito. Nesses momentos, pensava que deveria ter sido professor, ao invés de ter se metido a trabalhar com  assuntos burocráticos da administração pública.

Ao abrir a página de idiomas logo percebeu que havia uma notificação de mensagem. Era algo incomum, pensou que seria dos próprios desenvolvedores ou da inteligência artificial advertindo sobre alguma atualização.  Abriu e leu o seguinte texto em inglês: 

Prezado @vivendosemar,

Procuro pessoas para compartilhar conhecimentos de inglês. Tenho nível intermediário e gostaria de poder tratar de temas diferentes dos que comumente são tratados nas salas deste website. A maioria dos usuários são pessoas muito jovens e com interesses e preferências diversos de pessoas da minha idade. Vi em seu perfil que partilhamos da mesma geração e talvez você tenha a mesma percepção que a minha. Se for do seu interesse entre no meu perfil e veja minhas preferências, de onde sou e todo o resto. Poderíamos formar um grupo diverso já que a plataforma nos permite esse movimento.

Atenciosamente,

@entediadacriativa

No mesmo instante ele foi ao perfil da Entediada, pois teve afinidade com seu nome de usuário e logicamente com o conteúdo da mensagem. Ela vivia em outro continente, mas falavam a mesma língua nativa. O perfil não dizia muito mais: 50 anos, professora de História, vivia numa grande cidade da América Latina, gostava de viajar, de ler e gostaria de adquirir fluência em Inglês. Em seguida ele formulou a resposta e enviou:

Prezada @entediadacriativa

Interessante sua proposta. Entendo sua preocupação, por isso quase não frequento esse ambiente. Portanto eu aceito seu convite. O que devo fazer?

Att

@vivendosemar

Esperou uns minutos para ver se obtinha resposta, enquanto navegava por outras páginas da internet. De repente surgiu a pequena janela de mensagens instantâneas:

@entediadacriativa: Olá, por ora não precisa fazer nada, estou com dificuldades para encontrar pessoas com o nosso perfil, por enquanto só quem aceitou foram uma italiana, um belga, um panamenho e tu.

@vivendosemar: Olá...Bem, já somos cinco. Desde quando buscas?

@entediadacriativa: Nem imaginas, já faz mais de mês. Estou para desistir.

@vivendosemar: E os outros o que pensam?

@entediadacriativa: Não sei...Eles só aceitaram participar, mas estão sempre off-line como podes ver...

Ele passou os olhos pelos nomes do grupo. Ali estavam @madalenaruggeri, @antonbraich e @juanjomorales, além deles, todos off-line. Teve a curiosidade de ver a foto da Entediada. A imagem parecia coincidir com a idade informada, cabelo castanho, óculos escuros, mostrava ela de corpo inteiro com roupas de viagem, carregando uma mochila numa espécie de colina com a vista de uma imensa ponte sobre um rio e uma grande cidade por detrás. Parecia bonita e até aparentava menos idade do que estava no perfil, mas essas fotos sempre dão margem para desconfiar da autenticidade.  Com a curiosidade aguçada, resolveu continuar o chat e provocar um pouco a interlocutora, sempre em inglês:

@vivendosemar: Pela sua foto de perfil vejo que não combina muito com seu nickname...parece mais uma viajante e aventureira, nada entediada.

@entediadacriativa: O seu também não combina, se não não estaria aqui falando comigo...Ou te perguntaria, onde é esse lugar que se vive sem ar?  Porém, creio que entendo a metáfora e me lembra uma música.

@vivendosemar: Claro que é uma metáfora, gosto da música do Maná. Então, me explicas porque o tédio?

@entediadacriativa: Claro, se me explicas porque escolheste o "viver sem ar"...

@vivendosemar: Já disse ...gosto da música, principalmente os primeiros acordes...Conheces?

@entediadacriativa: Conheço, também gosto...Bem, quanto ao tédio...Não sou uma nômade, embora gostaria, mas não posso estar viajando o tempo todo como na foto de perfil. Então entre uma viagem e outra o tédio se estabelece e preciso criar formas suportáveis de viver...Daí vem o nickname. E a falta de ar? 

@vivendosemar: Faz sentido tua explicação. Bem, a falta de ar está instalada desde um tempo impreciso, mas ainda não desisti de voltar à superfície e poder inspirar e expirar normalmente.

@entediadacriativa: E estar aqui ajuda ou dá na mesma?

@vivendosemar: Às vezes ajuda, outras dá na mesma...

Assim os dois mantiveram um agradável diálogo por mais de três horas sem que os demais companheiros de grupo aparecessem. Em dado momento ele percebeu que já estava tarde,  gentilmente despediu-se prometendo que estaria ali em outro momento e a ajudaria a captar interessados naquela conversação. 

@entediadacriativa: Ok, obrigada, foi um prazer falar com você. Da próxima vez traga um tema para discussão, embora nosso chat tenha sido bastante divertido e diferente.

@vivendosemar: Já vi que tens hábitos de professora...Ok, vou pensar em algo, mas você também pode fazer o mesmo. 

@entediadacriativa: Desculpe, não era uma ordem, apenas para não ficarmos aqui como os adolescentes, discutindo temas dispensáveis, irrelevantes, fazendo piadinhas sem graça e rebelando-se com um mundo que desconhecem. Confesso que estou um pouco cansada deles. 

@vivendosemar: Entendo e também achei a conversa muito agradável.  Costumo estar aqui sempre por estas horas, assim que se te parece bem, amanhã falamos. A ver se me ocorre um bom tema...Boa noite.

@entediadacriativa: Amanhã por estas horas estarei em classe, porém mais tarde, seguramente...Boa noite!

Ele seguiu o rumo da casa já passava um pouco das nove da noite, a conversa tinha lhe absorvido e, entretido, não viu o tempo passar. Sua interlocutora pareceu-lhe uma pessoa agradável, inteligente, bem informada e os temas que abordaram vinham de encontro às suas ideias e pensamentos em sua maioria. Nem um, nem outro deram detalhes pessoais de suas vidas, local exato de moradia, estado civil, tampouco se tinham família, filhos, e sequer seus nomes verdadeiros. Os temas giraram em torno de viagens, lugares conhecidos ou para conhecer, atividades desenvolvidas em suas respectivas profissões, alguma ideologia política e pensamento de mundo.

Na tarde seguinte ele precisou deslocar-se até o centro da cidade em busca de reparos para a porta da garagem, pois o sistema remoto tinha emperrado. Acabou demorando-se por lá,  encontrou um amigo e ficaram colocando assuntos em dia. À noite, conectou-se à página de idiomas, pois lembrou da agradável companhia da tarde anterior. Ela estava online e havia um chat em desenvolvimento entre ela e o tal @juanjomorales, o panamenho.

@vivendosem ar: Boa noite a vocês!

@entediadacriativa: Boa tarde, sr. Sem Ar!!!Pensei que não estaria por aqui hoje.

@vivendo sem ar: Estive a tarde ocupado, mas agora estou livre. Bem, vejo que já tens companhia. Prazer, @juanjo.

@juanjomorales: O prazer é meu. Boa tarde! Para nós aqui da América ainda é cedo.

@vivendosemar: @entediadacriativa, sinto, mas não tive tempo de preparar um tema. De que assunto tratam hoje? 

@entediadacriativa: Sem problema, estamos aqui falando de amenidades. É a primeira vez de Juanjo por aqui e lhe expliquei o objetivo do grupo.

@juanjomorales: Sim, e achei interessante, embora não posso prometer que estarei muito por aqui. No próximo mês estarei envolvido com um trabalho novo que vai me absorver bastante. Me dedico a projetos governamentais ambientais. Sou Engenheiro. Agora mesmo tenho que deixar vocês. Até outro dia.

Assim Nora e Luiz, ele espanhol, ela uruguaia estabeleceram uma comunicação incessante a partir daquela tarde. Deixaram para trás a página do Inglês e seus nomes fictícios que a partir dali não faziam mais sentido. Ela por nunca mais ter se entediado, embora continuasse criativa e ele porque conseguira sorver ar para respirar. Depois de um mês adotaram uma comunicação mais privada através dos vários aplicativos disponíveis e puderam compartilhar suas vidas por inteiro até que numa noite de julho de 2013, menos de um ano após àquela tarde, ele desembarcou em Montevidéu para um primeiro encontro.

Nunca foram tão felizes!









                                                       

 






















terça-feira, 7 de junho de 2022

Eu só queria te ver mais uma vez


Monção, Portugal - arquivo pessoal


Evelina vislumbrou seu próprio corpo sem vida na cama daquele precário hospital espanhol do começo da década de 40. Havia acabado de dar à luz. O bebê tinha sobrevivido e dava pequenos murmúrios alheio à morte da mãe no colo da bisavó que chorava num misto de alegria e tristeza. Apesar de ver seu corpo inerte e o rosto pálido daquela perspectiva extracorpórea, ela sentia que tinha outro corpo, mais leve, mais volátil, menos denso. Uma luz forte, um tanto irritante, tinha lhe atraído para aquela posição. Não sentia mais as dores do parto difícil que tivera e intuiu que estava noutro patamar, além da vida, um estágio pós-morte.

Percebera a gravidez um mês depois da morte do marido. Julián tinha sofrido um acidente no mar. A embarcação em que ele trabalhava fora atingida por uma forte tempestade e naufragou. Seu corpo foi encontrado dias depois em meio às rochas, alguns quilômetros do povoado costeiro onde viviam. Por este infortúnio, Evelina passou toda a gestação imersa em depressão profunda. Pensou até em dar um fim àquele estado que sabia só lhe traria recordações de uma vida que não teria mais. Amava Julián, estavam casados há pouco mais de dois anos, eram muito felizes. Julián era um marido maravilhoso e distinto dos homens daquela época, quando concebiam as mulheres apenas como servidoras de casa, mães de uma prole, objetos sexuais e moeda de troca para negócios familiares. Sua avó tinha por certo que a vinda da criança lhe serviria como grande consolo. Ela duvidava, porém entregou-se apática àquela situação que o destino lhe colocava pela frente.

Sabia que seu filho seria bem cuidado, então estava em paz naquele momento que entendeu que partia. Quem sabe poderia reencontrar Julián. O padre em seus sermões na missa não falava em vida eterna? Pois haveria de comprovar. Com isso em mente encheu-se de esperança, deixando-se levar por aquela sensação indefinível. Depois de uns minutos naquele interposto, o mesmo sinal de luz arrancou-lhe subitamente dali. Sentiu que viajava numa velocidade extrema, atravessando algo como um túnel gigante. Flutuou por ali sem medo, não havia atrito com nada material. Não sabia que direção percorria, pois o movimento era ultrarrápido o que prejudicou seu raciocínio, e foi perdendo o tênue fio que ainda mantinha de consciência e discernimento.

Evelina acordou depois de um tempo impreciso. Estava numa alameda com muitas árvores em frente a um enorme edifício cinza e envidraçado. Havia muitas pessoas por ali usando roupas estranhas e multicoloridas. As mulheres vestiam calças masculinas ou saias e vestidos exageradamente curtos. Os homens usavam o mesmo modelo de calça de um tecido azul meio desbotado, camisetas um tanto apertadas no tórax e muitos usavam os cabelos compridos, confundindo-se com as mulheres. Todos levavam livros nos braços ou carregavam mochilas nas costas. O ambiente era animado. Passou os olhos, impressionada, por aquela gente estranha e pelos inúmeros carros estacionados no meio fio, modelos muito diferentes dos poucos que conhecia. Até que avistou Julián. Ele conversava animadamente com um grupo de pessoas. Dirigiu-se para perto deles lentamente para ouvir o que diziam. Falavam de assuntos ininteligíveis para ela, ainda que em sua própria língua. Chegou mais perto e tocou-lhe o braço. Afora a roupa que usava e o cabelo mais farto, tinha a mesma aparência daquela noite que tinha saído ao mar para não mais voltar. Ele virou-se para ela, o que a deixou perplexa e feliz, reconhecendo o mesmo sorriso e os mesmos olhos azuis do marido.

—Pois não, moça. — O rapaz reagiu, com um olhar entre amistoso e curioso.

—Julián, não me reconhece? —Ela perguntou devagar e amedrontada.

—Desculpa, não estou lembrado. Precisa de ajuda?

—Que lugar é esse? Ainda é 1941? —Ela perguntou e os ouvintes começaram a rir da pergunta e da maneira que Evelina estava vestida, uma roupa que só viam em fotos antigas de família.

—Aqui em frente é o prédio da Faculdade de Direito de Santiago de Compostela e estamos em 1985. Você está bem? —O rapaz respondeu intrigado e paciente, pedindo mais respeito da parte dos colegas, enquanto notava familiaridade na voz e nos olhos da moça. Logo uma jovem do grupo abraçou-se a ele tentando desviar a atenção da desconhecida, dizendo:

—Vamos, Julián, ela deve ser aluna do curso de Teatro ensaiando alguma fala e pelo jeito fumou ou bebeu de tudo hoje.

Evelina ficou desconcertada e decepcionada notando a intimidade entre eles:

—1985?? Meu nome é Evelina, se você lembrar de mim, manda um sinal. Hoje só queria te ver mais uma vez. —E desapareceu da vista de todos pelo mesmo portal de luz do qual tinha saído.

—Ei, que tipo de sinal? — o rapaz tentou alcançá-la, surpreendido. Lembrou de um retrato em preto e branco do casamento de seus avós na sala de casa, onde estava escrito à mão com uma letra de criança no verso:  Mis papás, Evelina e Julián, 1938, hasta siempre!                                                                                                       


Insônia