sábado, 20 de julho de 2019

Apollo 11, o tempo e o salto


Era madrugada do dia 20 de julho de 1969 e meu pai nos acorda para assistir na televisão um evento ao vivo que ficaria para a história. Naquela época, o mundo vivia a previsão eufórica de um futuro tecnológico repleto de invenções e inovações, apostando como seu apogeu o século XXI e a chegada do então ainda distante, anos 2000. O Programa Apollo norte-americano havia começado alguns anos antes no que se denominaria de Corrida Espacial iniciada pela então União Soviética. Os Estados Unidos instigado a lutar pela supremacia tecnológica após a Segunda Guerra Mundial toma para si o desafio e o objetivo de explorar o espaço e chegar à lua, único satélite natural da Terra.¹ Assim, como sempre acirrando-se as disputas entre as potências mundiais.

A década de sessenta vivia o transe da conquista do espaço como um sinal de novos tempos e de novas conquistas da humanidade. As artes se impregnavam de temas galácticos como 2001, música da banda nacional Os Mutantes, 2001- Uma odisseia no espaço filme de Stanley Kubrick (1968), assim como Barbarella de Roger Vadim e O Planeta dos Macacos em sua primeira versão de 1968, entre tantos outros.

Astronautas, viagens e naves espaciais estavam no imaginário infantil e lembro de brincar com meus primos, colocando aqueles saquinhos de maçã na cabeça, imitando com o que tínhamos à mão os personagens do famoso seriado de televisão da época Perdidos no Espaço. Ali nos deliciávamos em ver as mais bizarras criaturas naquele planeta distante da Terra onde nossos heróis aportaram e viveram suas aventuras.

Não tenho muito claro na memória o que vi naquela noite de 20 de julho, pois o que lembro posso estar confundindo com as imagens que tomaram conta dos noticiários e das revistas posteriores ao evento. De qualquer modo, lembro da televisão Admiral em preto e branco na sala de estar, um narrador falando em outro idioma e as imagens eram de um ambiente escuro, com uma luz branca artificial e em câmera lenta. A tela mostrava um homem naquele traje branco espacial (EMU), de capacete e que descia cuidadosamente a escadinha* da nave, aos poucos vai tateando o solo lunar até pisar definitivamente num chão cinzento, arenoso e brilhante deixando aquela pisada que se tornaria famosa. O homem anda uns poucos metros como que aos pulos pela falta de gravidade e crava no solo a bandeira americana. O ambiente é claramente inóspito, desabitado, inabitável e escuro. Como naquela madrugada em Porto Alegre também era noite na lua, embora lá dias e noites sejam contados de maneira diferente. 

Depois do acontecimento começamos a conviver com alguns termos como alunissagem, amerrissagemmódulo de comando, módulo lunar, nomes de lugares como Cabo Cañaveral, Mar da Tranquilidade e os nomes dos astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins tornaram-se nossos conhecidos do dia-a-dia tamanha a publicidade foi dada ao fato. As escolas exploraram o tema incessantemente, contrataram palestrantes e professores para explicar os feitos, exigiram trabalhos de pesquisa e até um museu itinerante passou pelas capitais brasileiras expondo pedras e minerais que foram trazidos de lá. As pedras ficavam em expositores de vidro como joias numa joalheria.

O Brasil vivia plena ditadura militar e o governo mirava-se no país norte-americano como um exemplo a ser seguido de capitalismo e desenvolvimento. Apesar de viver uma fase de relativo progresso, a maioria do país ainda era um exemplar terceiro-mundista atolado em desigualdades, miséria e atraso. Muitas pessoas seguramente sequer ouviram falar no acontecido naquele dia, salvo quem tinha rádio e televisão, ou ao menos pelas capas de jornais alguns dias depois.

Muitas pessoas pelo mundo afora também nunca acreditaram que homens tivessem feito essa proeza. Anos mais tarde criaram-se vários mitos e teorias da conspiração para desacreditar os fatos ou dar-lhes outro sentido.

Seguramente o Projeto Apollo deixou para a posteridade muita tecnologia, ciência e conhecimento que não ouso contestar aqui. O que me ponho a refletir sobre o legado dessas viagens espaciais é que realmente não foi encontrado nada na superfície lunar que fosse economicamente valioso para a vida na Terra ou que viabilizasse a sobrevivência humana por lá, pois obviamente o projeto era de caráter exploratório e demarcatório assim como o homem sempre agiu ao chegar à territórios distantes.

Entre acertos e desacertos, sucessos e fracassos o projeto foi abandonado totalizando seis missões com início em 1968 e finalizado com o Apollo 17 em 1972 por falta de verbas e pelo desinteresse da opinião pública.

Lá ficou uma placa colocada por Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na lua onde lê-se:
Aqui homens do planeta Terra pela primeira vez colocaram os pés na Lua, Julho de 1969, A.D. Viemos em paz por toda humanidade.

E Neil Armstrong é também o autor de uma das frases mais icônicas da história : 

Esse é um pequeno passo para um homem, um salto gigante para a humanidade.

Felizmente, constato que em 50 anos completos no dia de hoje não saltamos tanto, não colonizamos a lua, não extraímos nada de lá, não passamos a promover viagens espaciais de recreio, não utilizamos matéria-prima lunar para fabricar coisas na Terra. Ela continua lá intocada e a nos proporcionar belos espetáculos, iluminar nossas noites e influenciar as marés. E não posso ver missão mais bela.

Memorial da Apolo 11



quarta-feira, 10 de julho de 2019

Trabalho infantil e cegueira social





Eu não queria estar escrevendo sobre trabalho infantil, porque imaginava que fosse página virada, ao menos no sentido institucional, legal e em repúdio social depois que o Brasil aprovou o Estatuto da Criança e do Adolescente em 13 de julho de 1990. Nosso país foi um dos primeiros a seguir os princípios das Nações Unidas em relação aos direitos da criança.

Porém, as redes sociais se encarregam diuturnamente de nos bater na cara com opiniões sem fundamento, generalizações rasteiras e distorções das mais variadas sobre assuntos complexos, sensíveis e doloridos da vida e da história.

O combate ao trabalho infantil, embora sendo tema de vasta legislação, infelizmente segue sem ser erradicado no Brasil e no mundo. Existe muita literatura disponível e dados nacionais e internacionais para quem quer aprofundar o assunto sobre a exploração do trabalho infantil ao longo da história. 

O que quero chamar a atenção é o quanto a desigualdade econômica, característica gritante do país, se manifesta aliada à cegueira social nestas falas que classificam como trabalho quando crianças de classe média e alta fazem pequenas tarefas caseiras, como guardar os brinquedos, arrumar a cama, lavar pratos ou varrer o quintal. Ou ainda que uma criança ajude os pais no comércio da família ou que faça pequenos artesanatos ou doces para vender à vizinhança.

Tudo isso sem ter a obrigação de entregar o valor obtido de seu trabalho para que retorne em alimentação, teto ou estudo, porque a família lhes garante a subsistência. Tarefas desse tipo não podem ser denominadas trabalho, pois apenas devem fazer parte do mundo lúdico infantil e não há nenhum problema em serem estimuladas.

Todavia, falar em trabalho infantil sem sair do âmbito das classes que comem, vestem, moram, trabalham, estudam, viajam e se divertem é fechar os olhos para a miséria e pobreza extremas, uma dura e extensa realidade que parece não ter a mínima importância ao conjunto da sociedade que se expressa nas redes, tampouco dentro do atual governo. 

Quem de nós gostaria que seu filho de 6 a 16 anos engraxasse sapatos numa praça de uma grande cidade à mercê de adultos de todo tipo, ou empurrasse um carrinho de picolé durante quilômetros no sol de uma cidade quente, ou tivesse que puxar uma carrocinha pesada de catador?

Quem de nós se sentiria confortável tendo que mandar as crianças para andar no meio de um lixão a procurar algo humanamente usável ou consumível, ou ver calos em suas mãos por estar cortando cana-de-açúcar, ou fazendo feridas nas mãos e nos pés em uma carvoaria, ou ainda vê-las passar doze horas por dia extraindo minérios para a indústria?

Quem de nós já se imaginou criança tendo que passar doze horas costurando roupas de marca para a indústria da moda ou manipulando agrotóxicos numa lavoura ou  arriscando a vida vendendo doces num sinal de trânsito ou carregando excesso de peso na construção civil?

Tragédia maior seria imaginar nossa filha de 15 anos obrigada a  prostituir-se para comprar alimentos numa rodovia do norte-nordeste do país, ou se sua filha de 10 anos tivesse a responsabilidade de cuidar de seus irmãos menores, dois ou três pequenos para alimentar e estar de olho enquanto vocês estão fora trabalhando.

Em todas essas situações, o mais grave ainda seria que nossos filhos estariam definitivamente fora da escola. Em todos esses poucos exemplos, indiscutivelmente, o trabalho rouba a infância e em consequência rouba vidas adultas saudáveis.

Tudo se tornou seletivo nesse país, até a dignidade ou a indignidade.

É inacreditável que ainda precisamos voltar aos velhos temas e chamar a atenção de jovens, adultos, parlamentares e governantes sobre esse flagelo humano e tantos outros como a homofobia, o racismo, a xenofobia, a tortura e a violência de gênero. 

A disrupção e a linguagem tóxica tomaram conta dos discursos do poder e estão contaminando o país. Muitas vezes isso vem acontecendo para tentar desviar a atenção de temas tão ou mais relevantes. Mas não podemos permitir que manifestações vulgares, descompromissadas e descontextualizadas contribuam para a normalização da desigualdade, pela invisibilidade dos excluídos e por destruir a percepção do direito universal de qualquer ser humano ao bem-estar social.

Trabalho infantil é crime.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Trabalho_infantil_no_Brasil

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Democratas e demagogos




Fala da Professora Marcivania (PCdoB - AP) na Sessão Legislativa da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados ( 02/07/2019)


Durante quase 10 mil anos a humanidade viveu sob o império da legalidade autoritária: todos estavam submetidos à lei, exceto os governantes. Estes pairavam sobre a lei, ou melhor, a lei era a sua vontade, o seu desejo e as suas convicções.
Até que 2.500 anos atrás, os gregos antigos deram um outro sentido à ideia de lei. A partir deles, todos, sem exceção, inclusive e principalmente os governantes, estavam submissos à lei. Ninguém estaria destinado a pairar sobre o sistema legal.
Essa foi uma conquista que a humanidade adotou como condição civilizatória sine qua non. E é justamente esse princípio civilizatório básico que está em destaque nesta nossa audiência de hoje.
Sr. Ministro Sérgio Moro, presente hoje na qualidade de dependente voluntário, gostaria de cumprimentá-lo pela obediência ao seu dever público de dispor-se a prestar os devidos esclarecimentos que a sociedade brasileira anseia que sejam, devida e eticamente, prestados, bem como deixar claro que ninguém nesta Casa tem predisposição contra sua pessoa. Todavia, estamos aqui em busca da verdade.
E adianto a V.Exa. que o que nos interessa aqui não é a suposta ilegalidade da obtenção das informações que colocaram sob suspeita a correção do seu comportamento enquanto juiz dos processos decorrentes na chamada Operação Lava Jato. O que nos interessa é se as informações que lhe dizem respeito são verdadeiras ou não. Esses diálogos aconteceram? Esses grupos de troca de mensagens existiram ou não? E não se trata de respostas simples do tipo "sim" ou "não". Que fatos ou documentos V.Exa. nos traz que corroboram suas respostas?
Sim, porque os veículos de imprensa que estão disponibilizando ao público o teor das conversas que V.Exa. supostamente mantinha com outros juízes e procuradores o estão fazendo associadas a eventos, fatos e documentos que corroboram a autenticidade dos diálogos. Assim, pensamos que V.Exa. deve no mínimo ter o mesmo zelo com suas respostas e esclarecimentos, pois o País merece saber a verdade. E, para tanto, é necessário que ela seja cristalina e não dê margem a dúvidas. Daí a necessidade de haver comprovação a respeito das alegações feitas.
Neste sentido, pedimos-lhe que nos trate com a mesma coragem e honradez com que compareceu aqui, corroborando com a verdade. Afinal de contas, não há nunca que se admitir a possibilidade de ocultação da verdade, especialmente para fatos tão relevantes para as nossas instituições. Em qualquer lugar do mundo, sabe V.Exa. que uma autoridade mentir diante de uma Comissão de representantes do povo é um grave crime contra a ordem democrática e o Estado de Direito. Por exemplo, O senhor, que tem frequentado as instituições norte-americanas, sabe muito bem como um crime desses é tratado nos Estados Unidos da América. Por outro lado, gostaria de ressaltar um importante aspecto colateral da situação que colocou o Ministro Moro sob suspeita de desvio ético e legal. A primeira, no afã atabalhoado de livrar-se a qualquer custo da suspeita de atentados à ordem democrática e ao estado de direito, que lhe paira a responsabilidade, o Sr. Ministro agrega mais uma tentativa de violação das liberdades democráticas, agora é a liberdade de imprensa que está na alça de mira. A tentativa de criminalização dos jornalistas que colocaram sob o domínio público informações do mais relevante interesse social e político é outra ignominia a se juntar ao portfólio de tantas outras.
 
Diga-me, Ministro, em que país democrático e sob estado de direito, um jornalista, que obtendo informações de interesse público, é obrigado a denunciar sua fonte? Bob Woodward e Carl Bernstein foram inibidos pelo estado por conta das matérias do escândalo de Watergate? Glenn Greenwald foi perseguido ao tornar público os arquivos da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América? Não. Ao contrário, ganhou o maior prêmio do jornalismo mundial. O modo como foi conseguida as informações, se foi legal ou ilegal, isso não é responsabilidade do jornalista, sua responsabilidade é verificar se as informações são autênticas ou não e publicá-las. Se foram obtidas de modo legal ou ilegal, essa apuração é responsabilidade do Estado.
Por outro lado, a questão central, parece-nos que é aferir se o teor das mensagens é verdadeiro e se as conclusões de práticas lesivas às instituições democráticas e ao Estado de Direito são verdadeiras ou não. Se ocorreram, não há como se achar normal tais violações, pois que elas constituem crimes gravíssimos e ameaçam a estrutura de nosso Estado democrático e esse é e deve ser o nosso maior bem. É assim que se tratam as instituições nos países mais desenvolvidos e civilizados e é assim que devemos tratar aqui também.
Por fim, gostaria de lhe dizer que se a autenticidade dos diálogos que V.Exa. travou com a força-tarefa da Lava-Jato vierem a se confirmar, e ao que tudo indica é verdadeira, V.Exa. praticamente colocou a pó o Código da Magistratura Nacional, dos 37 artigos, o senhor violou 18, a saber: quebra do decoro, quebra do dever de independência da Magistratura, quebra do dever de imparcialidade da Magistratura, quebra do dever de transparência, quebra do dever de informação imparcial, quebra do dever de discrição social, uso privado de bens públicos, quebra do dever de prudência, quebra do dever de sigilo profissional, violação da dignidade, do decoro e da honra da Magistratura.
Parece-me, Sr. Ministro, que essas são suspeitas extremamente graves, daí a imprescindibilidade de seus esclarecimentos. Estão em jogo aqui a legitimidade e a equidade de nossas instituições e da luta contra a corrupção. É um contrassenso usar um método corrupto para lutar contra a corrupção. E é um contrassenso lutar contra uns corruptos e fechar os olhos para as práticas corruptas de outros.

Voltando aos gregos, notadamente, Aristóteles, não à toa o filósofo estagirita dizia que a forma corrupta da democracia era a demagogia, aquela que predomina o cinismo, que diz uma coisa e pratica outra diametralmente oposta.

Um bom trabalho a todos nós. (Palmas.)

Insônia