quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Repulsa x Desigualdade

Tempos atrás lia uma postagem em rede social sobre maus tratos aos cavalos que puxam carroças dentro das cidades. Chamou-me atenção um comentário de uma jovem que transcrevo aqui:

—“Essa gente—referindo-se aos carroceiros—nem devia ter cavalo só pra começar, cavalo é um bicho pra quem tem bastante dinheiro, é pra cavalgar e não pra enfiar em uma carroça com uns imbecis em cima cheio de tralha.”
Respondi ao comentário nesses termos: 
—C., eu não concordo com maus tratos, mas esses “imbecis” que tu chamas são gente muito pobre, em sua maioria catadores de lixo e a “tralha” que carregam pode lhes dar um mínimo de sustento. O mau-trato humano está aí bem escancarado no conjunto carroça-cavalo-carroceiro.

A menina me contesta :
—“Pra mim não muda o fato de serem imbecis, até porque vejo muitos catadores de lixo de manhã cedo no caminho pro colégio e eles usam um carrinho que eles mesmo puxam.”

Ou seja, no pouco discernimento e total falta de empatia dessa menina, não basta ser pobre. Tem que ser pobre e passar muito sacrifício carregando nas costas seus carrinhos com o seu ganha-pão. Bem, não posso dizer que ela não tenha empatia, tem ...mas só pelos animais. 

Sim, é certo, cavalos são feitos para cavalgar, mas através dos tempos também foram usados para o trabalho no campo, nas guerras, como meio de transporte de pessoas e de cargas. O mundo evoluiu e o cavalo foi domesticado, assim como cães e gatos. Em nossos dias não é aceitável maltratar, condena-se e pune-se a violência contra animais. É lei.

Mas por que essa falta de empatia pelo ser humano? Maltratar pessoas é normal e permitido?
Por que a repulsa, a indiferença, o desprezo, o afastamento quando se trata de pessoas que não têm teto, não têm emprego, não têm educação, não têm dinheiro, não têm família, não têm nada?

Pobre menina onde a visão de classe, de patrimônio e de meritocracia já estão impregnadas tão cedo como verdades absolutas e para quem a exclusão social segue tão invisível, incontestável e, segundo ela carregando suas próprias culpas.

Pobre menina que vê a desigualdade como algo que simplesmente faz parte da paisagem, como bem escreveu Norberto Bobbio.
                                                                                            Janeiro 2017






Belchior tinha razão


Uma vez uma postagem em rede social que comparava Rosane Collor e Marcela Temer, dizia que Rosane mesmo com toda sua empáfia, cafonice e falta de sensibilidade e responsabilidade frente à posição que ocupava foi ainda mais carismática que Marcela. Mas alguém comentou na postagem que conhecia Rosane Collor e que ela costumava superfaturar caixões de bebês que estavam condenados à morte no Nordeste.

Nunca ouvi ou li nada tão torpe, canalha, insensível, desumano e não sei mais como definir um sistema político e seus agentes públicos que se valem de tão triste fato quanto á morte de uma criança para tirar proveito e ganhar mais dinheiro e poder.

Me dou conta que sim, o sistema político brasileiro sempre foi corrupto, vil e canalha com o aval da própria sociedade que exalta o poder, o dinheiro, as aparências, as elites, as benesses, as classes e tudo que gera desigualdade entre as pessoas. O Brasil sempre chafurdou na lama da corrupção. 

Triste país, triste passado, presente e o que nos dirá o futuro. Não acredito mais que algo venha a melhorar nesse sentido. Desacreditei geral.

Belchior tinha razão nos seus versos: 
"A vida realmente é diferente. Ao vivo, a vida é muito pior."

                                                           
                                                                                                          Dezembro 2016

A Pátria Educadora Desce a Ladeira

Indescritível a sensação de impotência quando assisti a votação da aceitação do impeachment da Presidenta Dilma Roussef pela Câmara dos Deputados no dia 17 de abril de 2016, indescritível a sensação de ver tanta pequenez, tacanhice e vilezas condensadas  no meio daquela gente que ironicamente representava o povo brasileiro. Pensei que não veria nada pior, pois vi e o que vi me chocou ainda mais que a ordinária sessão, nas suas várias acepções da palavra ordinário.

Vi a Pátria Educadora descendo a ladeira, quando soube que o Ministro da Educação recebeu em seus primeiros dias de interinidade não um pedagogo ou alguma celebridade no vasto elenco de intelectuais, professores e pedagogos brasileiros. Não, quem foi recebido foi um ator de quinta categoria, para dizer o mínimo de sua biografia, que segundo consta, foi levar propostas para a educação brasileira. Aqui já não consigo escrever educação com E maiúsculo. Tal audiência foi amplamente divulgada nas redes sociais e recebida incredulamente por muitos. Incluía selfies e vídeos nas páginas dos envolvidos o que gerou, a meu ver, muita piada e pouca indignação. Nessas horas, creio que o espírito brincalhão do brasileiro se sobrepõe e  que para abafar a repulsa e o choro, rimos muito feito pequenos idiotas. Eu também, por momentos ri e me pergunto agora de onde vem esse poder que nos fez descer tão baixo?

Não sou professora ou trabalhadora em educação, porque se fosse me sentiria potencialmente mais rebaixada, maltratada, desprezada, aviltada e humilhada do que já me sinto como brasileira. Voltamos à idade das trevas. A ignorância aliada à astúcia, embasadas em tudo do mais arcaico e primitivo, pretendem governar o Brasil com a conivência e o aplauso de muitos que diziam preferir qualquer coisa a ter Dilma ou o PT governando, vale dizer que foram eleitos legitimamente em 2014.

Pois sinto dizer, seus sonhos tornaram-se realidade, a Qualquer Coisa chegou e vai desmantelar anos e anos de conquistas democráticas. A Qualquer Coisa vai disseminar-se por todos os ministérios. Na área da Saúde, já fui testemunha de vários avanços e retrocessos, mas o que pode vir já está se configura o maior desmonte da história.

Mas o que me levou a escrever foi sobre Educação  e aqui uso de novo a letra maiúscula.
A rede social é  hoje em dia o meio mais democrático e participativo que já houve no mundo, ao menos até prova em contrário. Vejo, leio e comento centenas de postagens, memes, montagens, comentários etc. Tudo muito válido, porque dissemina a troca de informação e pode formar opiniões saudáveis. Outros momentos,  leio discussões tão vazias e absurdas, que a rede me parece uma grande turma de crianças de cinco anos esperando na porta da sala de aula, fazendo birra uns com os outros. Imagino crianças pequenas  tapeando-se, puxando-se as roupas e choramingando. Então, me pergunto, onde ficou a Educação no meio desse caminho? De um lado, a criação de dezenas de Universidades, centenas e milhares de diplomados, mestrandos e doutorandos, de outro vemos o ódio e o escárnio ao saber, aos grandes pensadores, aos filósofos, ao ensino, ao professor, ao artista, à cultura, às artes e à música.

Os poderes  Executivo, Legislativo e Judiciário, enquanto isso estão blindados em suas fortalezas legitimadas e podres. Estão vivendo em seu mundo de faz-de-conta fortemente apoiados pelos interesses das grandes mídias, que sempre trataram de colocar a venda nos olhos da população, corporações e grupos que tratam somente de ganhar mais dinheiro à custa da riqueza do país e do trabalho do povo. Isso me lembra de algo chamado feudalismo. O que mais ainda está por vir depois da consumação do golpe? Só nos resta esperar pacientemente por 2018? Vai sobrar pedra sobre pedra?
                                           
  Maio 2016





                                                                                                       

Insônia