sábado, 12 de setembro de 2020

Coincidências em Londres




Em seis anos vivendo na Europa fui uma única vez a Londres. Era novembro de 2014, meu marido e eu saímos do aeroporto de Lavacolla em Santiago de Compostela pelas sete da noite e chegamos passava um pouco das nove horas em Stansted, aeroporto mais afastado e mais ao norte de Londres. Dali tomamos um ônibus que nos deixaria na Estação Victoria no centro, distante uns 60 quilômetros do aeroporto. O trajeto de ônibus ao chegar à cidade contornava o Rio Tâmisa e já pudemos ver o Big Ben todo iluminado. Era uma noite fria e àquela hora as ruas e o trânsito ainda estavam movimentados.

Tínhamos uma reserva num hotel em Norfolk Square perto da Estação do Metrô de Paddington. Tomamos um táxi na Estação Victoria, um carrinho preto Mini Cooper tipo Mr.Bean e passamos o endereço do hotel a um motorista impaciente e pouco simpático. Foram pouco mais de três quilômetros e pagamos uma tarifa de 14 libras—hoje quase 100 reais. O hotel ficava em frente a uma simpática praça num conjunto de prédios típicos parecidos com os do filme Um lugar chamado Notting Hill e, preparados com nosso razoável inglês para viagem, nos identificamos, dissemos de onde vínhamos e a moça da recepção, percebendo nosso acento latino, disse:

Podeis hablar en castellano, soy de Madrid. Primeira coincidência de um mundo pequeno. Ou talvez nem tanta, depois eu vim a saber que desde a crise de 2008, milhares de espanhóis de todas as idades saíram do seu país em busca de trabalho e oportunidades em outros países da União Européia.

Tivemos problemas com a fechadura da porta do quarto e a moça madrilenha nos transladou para outro provisoriamente. O cômodo era um tanto estranho. Uma peça grande no térreo com o chão mais rebaixado, sem estar no subsolo, tinha um degrau logo na entrada da porta, duas camas de solteiro, aspecto úmido e frio, mas com boa calefação, um banheiro razoável e bastante silêncio.

O café da manhã era bem escasso segundo minha experiência com hotéis brasileiros, espanhóis e portugueses onde há sempre abundância de frutas, sucos e variedades de pães. Logo na entrada era preciso esperar o atendente e fazer pedido de suco, café ou chá. Eu queria suco e café, mas parece que não era possível. Pedimos café, claro. Em cima da mesa já estava um pequeno bule com leite frio, depois serviram na mesa outro bule enorme com um café fraco e fumegante. Havia um diminuto buffet com mais raridades como rodelas de tomate, pedaços de manga e laranja e—felizmente— uns mini-croissants quentinhos. Não fosse pelos croissants teria passado fome. Quem come tomate e manga no café da manhã?

Optamos por nos locomover de ônibus pela cidade para aproveitar os double-decker vermelhos londrinos—ônibus de dois andares—onde nos púnhamos sempre na parte de cima para observar a paisagem. As primeiras horas andando no trânsito foi um pouco nauseante, creio que desequilibra o aparelho vestibular—o labirinto—por causa da direção pelo lado esquerdo e os volantes do lado direito, mas depois logo acostumas. Bem, ao menos para quem não está dirigindo.

Foram quatro dias divertidos apesar do frio e do tempo cinzento. Alguns momentos caía um garoa fina e o dia se punha a escurecer antes das cinco da tarde, então tínhamos poucas horas de claridade para os passeios. Vimos quase todos os emblemas da cidade, o Big Ben, a Abadia de Westminster, a cerimônia de troca da guarda no Palácio de Buckingham, andamos pela Oxford Street, pelo Saint James Park, tiramos fotos em Picadilly Circus—um cruzamento de ruas famosas e conhecido pelo seus cartazes luminosos. Esquadrinhamos a Oxford Square molhada pela chuva da noite, almoçamos em frente ao London Eye— uma roda gigante de 135 metros também chamada Roda do Milênio— e fizemos um passeio de barco pelo Rio Tâmisa até Greenwich Park onde está o marco zero do meridiano de mesmo nome. 

De noite jantávamos fish and chips—peixe com batatas fritas— comprados nos inúmeros botequinhos take away—comida para levar—perto do hotel. Era uma opção mais barata que os almoços no centro. Uma manhã andamos ao longo do Rio Tâmisa até a London Brigde, uma das pontes mais bonitas e famosas do rio. Perto dali havia uma instalação com milhares de tulipas de cerâmica em comemoração aos 100 anos da Torre de Londres. A imagem era linda e impressionava a todos os visitantes. 

Um dia fomos até à Estação Saint Pancras encontrar um casal nosso conhecido da internet e passamos o dia com eles nos mostrando a cidade e tentando entender-nos, pois eles só falavam inglês ou pouquíssimas palavras em espanhol. 

Outro dia aproveitamos para passear em Candem Town e erramos a direção da volta, porque não estávamos acostumados à mão contrária do trânsito, acabamos indo em direção ao final da linha do bairro e tivemos que voltar. Mas tudo era aventura. 

Não houve tempo para conhecer Abbey Road e fazer a foto tradicional do disco dos Beatles, nem foi possível andar pelo Hide Park num dia de sol e tampouco tomar um café ou comprar artesanato em Covent Garden.

Numa das saídas do hotel pela manhã, já alojados em nosso quarto original no segundo ou terceiro andar—não me recordo— tomamos o elevador junto com outras duas pessoas. Os dois devem ter percebido nosso acento quando perguntamo-nos algo e a moça quis saber de que parte éramos da Espanha— de Galícia, dissemos ela também era. O rapaz deduziu que eu era brasileira, confirmei e ele disse que era de Santos, São Paulo. Todos rimos, porque era inusitada a situação. Alguns segundos de viagem num elevador foram suficientes para se reconhecerem dois galegos e dois brasileiros no meio de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. A linguagem e nossa capacidade de comunicação é algo maravilhoso.

Em Candem Town também encontramos com grupos de brasileiros, porém naquela época isso não configurava casualidade. Em anos anteriores e mais alguns dois ou três posteriores àquele 2014, os brasileiros viajaram muito e era normal encontrar grandes grupos, famílias ou casais em lugares turísticos pela Europa. Em praticamente todos os lugares que visitei sempre me chamava atenção o quanto ouvia pessoas falando em português do Brasil. 

Infelizmente, em 2018 muitos destes brasileiros preferiram sabotar-se e ajudar a conduzir o país para essa vergonhosa situação em que hoje se encontra. Agora com a Inglaterra fora da União Européia, o real sendo uma das moedas mais desvalorizadas do mundo, a libra custando quase 7 reais, esse passeio a Londres está restrito somente à brasileiros muito ricos. E só depois de passar a pandemia, porque muitos países estão com as fronteiras fechadas para viajantes brasileiros.





Rede social, religião e moralismo




Ter uma crença ou religião que não faça parte da supremacia cristã ou mesmo não ter nenhuma religião deveria ser algo mais respeitado entre as pessoas. Mas quem é católico ou evangélico, praticante ou não, não entende isso. O Cristianismo e a Igreja Católica conquistaram sua hegemonia e durante séculos vêm doutrinando povos e tentando extinguir e massacrar outras crenças e religiões, assim muitos católicos acreditam que sua fé, dogmas e ritos são unanimidades incontestáveis, inquestionáveis e indubitáveis.

Em verdade, está comprovado que a maioria da população mundial é adepta do Cristianismo que faz parte do Grande Grupo das religiões no mundo. Mas também estão de maneira expressiva no Grande Grupo o Islamismo, o Hinduísmo, o Budismo e as religiões tradicionais chinesas como o Taoísmo e o Confucionismo. Em outro grupo chamado de Grupo Médio estão o Xintoísmo, o Judaísmo, o Espiritismo, o Seicho-No-Ie, o Paganismo e o Zoroastrismo citando as mais conhecidas.

A categoria dos Sem Religião é também bastante expressiva, predominante no mundo ocidental e só vem atrás do Cristianismo—2000 milhões— e do Islamismo —1500 milhões—. Pessoas que se dizem sem religião são 1100 milhões e se caracterizam pela tradição cultural do Secularismo, princípio da separação entre as instituições governamental e religiosa, que afirma o direito de ser livre do jugo do ensinamento religioso e dá prerrogativas a um Estado Laico.

O Brasil segue no mesmo sentido de liderança do Cristianismo Católico e Evangélico, mas  são bastante expressivas também o Espiritismo, o Candomblé originário da África, a Umbanda, uma mescla de catolicismo com religiões africanas e as crenças dos povos da floresta Amazônica indígenas ou nãoSob a égide desta liderança, muitos cristãos ao falar em nome de Cristo se delegam garantias para defender seus moralismos e interesses seja no campo social, político e econômico. As Cruzadas, a Santa Inquisição e outros movimentos de ocupação territorial são exemplos do quanto em nome de Cristo foram praticados os mais infames genocídios, guerras e injustiças durante séculos em todo o mundo.

Portanto, o mesmo Jesus Cristo que, historicamente foi retratado como líder pacificador, tolerante, generoso, altruísta e avesso à violência pode ser instrumento de ameaças e outros tipos de maldições nas mãos de um equivocado ou mal-intencionado cristão contra os que ousam colocar sua doutrina sob suspeita ou debate.

Nesses tempos de facilidade de comunicação entre as pessoas através de redes sociais seja entre conhecidos e desconhecidos, amizades virtuais ou reais, se percebe frequentemente um tipo velado ou explícito de doutrinamento ou pequenas tentativas de moralização travestidas de ajuda espiritual. E isso se dá principalmente vindo de parte de cristãos. Percebo nas redes o uso de conteúdo religioso ou auto-ajuda—essas coisas já se mesclam um pouco—sem muito critério de conteúdo e enviados massivamente por meio do que considero um péssimo hábito, o envio de mensagens em bloco.

Na verdade, hoje em dia não passamos de contatos para muitas pessoas e o que me refiro é que se o conteúdo é religioso e cristão—ainda melhor— quem está do outro lado a receber ou ler os comentários deve engolir e aceptar este hecho, incontestável e inquestionável mesmo que supostamente o contato do outro lado não seja cristão. Ah, as falsas unanimidades! Quanto nos equivocamos por não perceber e não considerarmos—muitas vezes, sequer respeitarmos—a fé e as crenças alheias e tampouco o direito à falta de fé.

Aos crédulos cristãos pode caber-lhes o direito e o dever de espalhar a palavra de Deus, mas os não religiosos ou não-cristãos, na medida da tolerância têm o direito de contestar, ignorar ou questionar essas mesmas falas. Isso se chama autonomia e livre pensar que exercitamos muito pouco. Eu agradeço as mensagens que por vezes recebo e a boa vontade de quem manda, mas  digo que minha fé passeia por muitas crenças e, às vezes, meu Deus é uma mulher.

Insônia