domingo, 19 de maio de 2019

O Louco da Casa


Charge para a Revista IstoÉ


Pedro Almodóvar, o cineasta espanhol em entrevista ao Festival de Cannes deste ano de 2019 disse que "depois que os Estados Unidos elegeram Donald Trump em 2016, outros países seguiram o modelo e elegeram seus loucos de casa". E assim o Brasil elegeu Jair Bolsonaro, um militar reformado precocemente por problemas no exército, um político mais do que medíocre, com passagem em vários partidos, há trinta anos no parlamento sem ter se envolvido e aprovado nada relevante. Aproveitou o momento Operação Lava-Jato que disseminou o ódio à política e aos políticos e prometeu fazer a "diferença", influenciado por ideários de ultradireita e militarismos rasteiros. Ficou famoso dizendo bravatas sobre homossexualidade, racismo, misoginia e milhares de idiotices para outros idiotas se verem refletidos. Parte do Brasil escolheu o seu espelho, o idiota inculto, bruto, arrogante, truculento, racista, homofóbico e machista.

Conheci esse homem naquela horrenda sessão do impeachment em 2016. Ao votar foi o mais contundente, o mais canalha e o mais cruel dedicando seu voto— aos gritos— a um torturador. Ali já deixava claro— para os que queriam ver— que tipo de pessoa ele era. Na campanha eleitoral de 2018 fugiu dos debates como o diabo da cruz, até que por obra do "destino" foi esfaqueado por outro maluco e afastado da campanha, onde esteve confortavelmente a salvo da  exposição, não permitindo que o povo o escutasse e que se soubesse, afinal o que ele queria disputando e estando na Presidência da República.

Como presidente, vem passando várias vergonhas desde que assumiu o posto há quase seis meses, mas incrivelmente ele não percebe. Em sua mente delirante, as múltiplas críticas que vem recebendo de todos os lados repercutem como conspirações oposicionistas, tratando sempre de  desqualificar e distorcer os sentidos. Em sua visão estreita e alienada elas  partem  de corporativistas, de esquerdistas, da imprensa em geral que ele não encara com a disposição e a destreza que cabe aos estadistas. 

Para agravar o quadro, o infeliz presidente é respaldado pelos filhos, não menos delirantes— segundo investigações, também criminosos— alçados informalmente a influenciar no governo. Definitivamente, o presidente não consegue enfrentar o contraditório e muitas vezes nem o convergente, primeiro porque não tem civilidade, urbanidade e gentileza e por outra parte, porque não tem noções básicas de política, de sociedade, de legislação, de história, de geografia, de Brasil, de mundo e de nada. 

Só não viu, quem não quis, quem não se importou, quem igualou disputas políticas a torneios de futebol, quem vestiu camiseta da seleção, abraçou um pato amarelo e acreditou que a salvação seria só afastar de cena um grupo político e viria a redenção final do país. Podia ser "Qualquer Coisa", desde que varressem os que estavam e essa burrice funcional somada à  irresponsabilidade já está custando muito caro ao país.

O louco de casa brasileiro se mostra como algo bem pior do que muitos pensavam.
O embuste virou um estorvo que o Brasil não merecia.



sábado, 18 de maio de 2019

Por que temer a democracia?


Imagem : Pixabay


Sempre que há uma grande movimentação popular para a defesa de direitos civis, trabalhistas e de garantias descritas na Constituição Federal, no caso agora o movimento estudantil e dos professores contra os cortes na Educação e a reforma da Previdência, alguns pouco cautelosos em seus juízos e outros pilantras de todo tipo tratam de desqualificar manifestações e manifestantes.
No seu juízo rasteiro, todos os estudantes universitários são vagabundos, comunistas, maconheiros, filhinhos de papai, organizadores de orgias nas universidades, nudistas, baderneiros, idiotas que não sabem fazer contas, militantes políticos pagos pelos partidos e toda sorte de generalizações. 
Quando as mulheres saíram às ruas no Movimento#EleNão, trataram de demonizá-las, como é de praxe ao reacionarismo, pinçando comportamentos e fatos pontuais de uma ínfima minoria, se é que os fatos aconteceram, como se algumas dessas atitudes, digamos indecorosas, fizessem parte de todo o movimento. E vamos combinar que fazer xixi na rua é bastante aceito no mundo masculino, assim como tirar a roupa no carnaval e na praia. Indubitavelmente, as mulheres saíram às ruas numa grandiosa demonstração de civilidade, cidadania, harmonia, bom humor e coerência.
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, o MST, alvo ininterrupto de ataques desde sua fundação vem demandando constitucionalmente por terras improdutivas, convivendo com críticas, vivenciando embates, não raro com violência e mortes. A despeito de toda a anti-propaganda, o movimento hoje é responsável por grande parte da produção de alimentos orgânicos no país, além de grande exemplo de agricultura familiar e  sustentabilidade ambiental.
O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, MTST é da mesma forma menosprezado o tempo inteiro quando de sua luta por moradia digna, também um direito  garantido pela Constituição. Mas, segundo os desinformados, para dizer o mínimo, essas pessoas que fazem parte do movimento são vagabundos, miseráveis, drogados, prostitutas, gente de segunda classe que não merece vida digna. Segundo boa parte da sociedade brasileira, essas pessoas têm que continuar na rua, desde que invisíveis, porque se visíveis, atrapalham o passeio dos "cidadãos de bem" e seus animais de estimação. Em entrevista recente a um jornal local a secretária de Assistência Social de Porto Alegre, disse exatamente isso :

"Não vamos admitir uma cidade que esteja cheia de morador de rua. É um lugar público e as pessoas não podem levar seus pets, seus filhos. Não têm condições de caminhar nem em uma calçada, porque uma pessoa se acha no direito de morar na rua."

Esses gestores tem que decidir de uma vez por todas se os pobres têm direito a um teto ou têm que viver nas ruas? Além de depreciar seres humanos, os nobres gestores são incoerentes e desarticulados. Que tal um encontro entre a Segurança Pública, a Assistência Social, a Cidadania, a Saúde e a Economia ?
Os indígenas também são alvos, não tão constantes, por que são minorias, mas justamente por serem minorias mereciam mais respeito e atenção. Já ouvi muitos absurdos em relação aos índios, por exemplo: "se são índios o que vêm fazer nas cidades?", ou "os índios do nordeste todos têm motocicleta". Ou seja, a aculturação indígena dirigida pelos jesuítas, quando chegaram os brancos no Brasil não tinha problema nenhum, contanto que fosse para o índio trabalhar para o branco. O que é inadmissível para o "cidadão de bem" é índio estar nos lugares dos brancos, fazer e ter coisas de branco. 
Os reacionários se aferram a moralismos baratos e miudezas de todo tipo para generalizar, desprestigiar e afrontar  movimentos inteiros e assim  depreciar e desacreditar a luta e os que lutam.
A falácia do comunismo infiltrado nas universidades não é novo. Na minha época de universitária apontavam os estudantes mais ativistas dizendo que eram pagos, não sei por quem, para que fossem deliberadamente reprovados e seguissem por anos propagando pelos diretórios acadêmicos um comunismo que só estava na cabeça dos doidos e dos mal-intencionados. Eu mesma nunca encontrei nenhum que tivesse me cooptado para alguma revolução a não ser a do conhecimento e das relações humanas.

Érico Veríssimo escreveu em Incidente em Antares,1971 : "Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplesmente todo o sujeito que clama e luta por justiça social."

O Brasil pós-ditadura e pós Constituição Federal de 1988, graças às lutas populares evoluiu ainda que lentamente para uma social democracia e não tem talento para um sistema fechado, anti-capitalista e tampouco apoia totalitarismos, onde o homem é objeto e cativo do estado. 
O que os reacionários e idiotas sem pensamento crítico não suportam é a busca incessante pela diminuição das desigualdades e da pobreza que ainda são gritantes, o real cumprimento da Constituição, a inclusão, a liquidação das dívidas com o povo negro e índio, a valorização do trabalho e dos trabalhadores, a importância do conhecimento e da justiça social.
Não existe democracia se ela não for estendida a todos.
Por que temer a democracia? 




segunda-feira, 13 de maio de 2019

Papo de Mãe



A origem da comemoração do Dia da Mães remonta a Grécia e Roma Antigas quando conferiam homenagens a suas deusas e as distinguiam com o caráter de divindade às mulheres; o Cristianismo fez o mesmo além de outorgar dons divinos, acrescenta ainda às mães as virtudes da pureza e da castidade atribuídas à  Virgem Maria.  Na vida moderna a data  só interessa mesmo ao comércio pela publicidade e venda dos seus produtos como presentes. 

O conservadorismo também se apropria da data para idealizar a maternidade, enquanto segue discriminando e submetendo as mulheres ao machismo e à desigualdade de gênero. A rainha do lar e aquela que padece no paraíso são somente personagens da farsa judaico-cristã. Antes e depois de todo segundo domingo de maio somos todas pessoas comuns com  qualidades e  defeitos de qualquer ser humano. 

Portanto hoje, segundo domingo de maio de 2019, que seja um dia de menos presentes, menos florzinhas, mais conversa, mais convívio, mais risadas, mais escuta e mais respeito mútuo. Mães verdadeiras não só ensinam, não só controlam, não só ditam regras, não só vestem, não só alimentam, mas também podem aprender. Vamos tentar aprender algo com nossos filhos. Vamos tentar encontrá-los naquele lugar que não gostamos que eles estejam. E esse lugar pode ser um local físico ou um estado psicológico. Vamos tentar entender as suas circunstâncias. Vamos entender os conflitos próprios de cada idade. Vamos tentar resgatar a confiança que pode ter se perdido com o tempo. Tentemos não reproduzir comportamentos e falas que propiciaram afastamentos com nossas próprias mães. 

A despeito do amor incondicional, vamos tentar não fazer da maternidade uma muleta, uma entrega total para esquecermos de nós mesmas e cobrar dos filhos atitudes futuras. Responsabilidades com os progenitores se assumem pelo afeto e não pelo compromisso.
Seres humanos não são regidos por manuais de instruções por mais que queiramos que se enquadrem em algum modelo. Nunca seremos perfeitas e nunca teremos filhos perfeitos, por mais que possamos parecer nas fotos de família na rede social. 

Quando somos filhos, tecnicamente deveríamos ver na mãe uma pessoa madura, segura e sensata. Em realidade nem sempre funciona assim. O trato com filhos adolescentes é ainda mais laborioso porque exige uma aproximação com mais sensatez, menos insegurança e mais abertura para que a convivência seja melhor para os dois lados. Explicar a eles nossas debilidades não nos torna pessoas incapazes ou perdedoras. Portanto, não precisamos ser deusas maravilhosas, sendo humanas já está de bom tamanho.

Aos nossos filhos temos a tendência de pedir perdão por um dia pensar que tínhamos o poder de lhes entregar um mundo melhor. Não somos super poderosas, somos seres humanos.  A felicidade está em perceber que QUANDO e SE esse mundo chegar,  nossos  filhos  virão para nos contar o gosto que os frutos têm e farão a festa por nós.

E eu JÁ sou feliz só por saber disso. À minha mãe, já venho contando o gosto de tudo que tenho provado e ela sabe que sou feliz. Feliz Dia para nós com 🌷, para não dizerem que não gosto de flores.






Insônia