terça-feira, 14 de novembro de 2023

As estações

Foto: Arquivo Pessoal

Há tempos sinto certo fascínio misturado com melancolia pelo vai e vem das estações do ano.  Em que estação foi a aurora do mundo há milhares de anos? Era frio, quente, havia sol, chovia ou nevava?  Virou esse ciclo infinito de primaveras, verões, outonos e invernos. Não importa qual será a próxima. Nossas preferências individuais não tem nenhum valor para a natureza. A Terra vai continuar a girar em translação e rotação, seu eixo de inclinação vai seguir seu movimento, ou até que uma catástrofe prevista ou não pelos cientistas venha a destruir nosso velho planeta. 

É evidente que a natureza segue seu curso, estação após estação, mesmo que no último século, a ação humana esteja fortemente ligada aos eventos climáticos que têm ocorrido ao redor do mundo. Assim como o homem, a natureza reage. Porém, o homem tem perdido a batalha. É a lei de ação e reação e os ecossistemas vêm resistindo bravamente. 

A questão ambiental é importante, mas quero enfatizar minha demanda subjetiva, minha atração sobre esse loop, essa repetição infinita das estações.  Os quatro elementos  são conhecidos desde a antiguidade pelos sábios povos babilônios que já percebiam as mudanças pela posição do sol. Já Pitágoras no século VI AC. associava as quatro estações às fases da vida humana: infância, juventude, maturidade e velhice. Será por isso que se diz que fulano está completando tantas primaveras? Claro, seria de mau agouro dizer quantos invernos completamos a cada ano. Ainda mais para alguém como eu, no outono da vida, segundo o filósofo. Nesses momentos eu relembro uma canção interpretada por Elis Regina, composta por S. Natureza e Tunai,1979. Ela faz analogia das estações com o amor/desamor poetizando esse vaivém incessante dos sentimentos. Eis a última estrofe:

"As aparências enganam

Aos que gelam e aos que inflamam

Porque o fogo e o gelo se irmanam

No outono das paixões

Os corações cortam lenha

E depois se preparam pra outro inverno

Mas o verão que os unira

Ainda vive e transpira ali

Nos corpos juntos na lareira

Na reticente primavera

No insistente perfume

De alguma coisa chamada AMOR".

sábado, 11 de novembro de 2023

Outro aniversário

Foto: Arquivo Pessoal


"Algumas pessoas não estão destinadas a ficarem na tua vida,

Tuas músicas favoritas mudam,

Os créditos acabam subindo na tela no final do filme

Todos os livros chegam ao fim

Deixarias de escutar música, ver filmes ou ler livros só porque acabam? Não deveríamos fazer o mesmo com o amor?

A vida não se trata do tempo que duram as coisas, e sim da sua qualidade e de haver dedicado o tempo a amar de verdade.

Os momentos felizes não duram para sempre, e se fosse assim, não poderíamos valorizá-los como merecem. Virão mais momentos, experiências e oportunidades.

Se segues te aferrando ao passado

Não terás espaço para o futuro,

Ainda que aqueles que amamos se foram de nossas vidas suas lições sempre vão ficar

E é isso que importa."

Não sei quem escreveu este texto, mas poderia ter sido escrito por J. se ele pudesse comunicar-se de onde está agora. Dentre as últimas mensagens que ele me escreveu, não esqueço de um trecho: " A tristeza e a depressão não nos servem de nada." Acho que ele está feliz, ainda mais hoje no dia dos seus 66 anos ou sabe-se lá quantos mais de quantas outras vidas! Espíritos livres não têm idade! 

Feliz aniversário, espero te ver do outro lado. Até um dia!💔


domingo, 5 de novembro de 2023

Declaração de Amor


Foto de Jess Bailey na Unsplash

Clarice Lispector escreveu num texto chamado "Declaração de Amor" (1968) a seguinte frase: "Todos nós que escrevemos, estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida".

A cada dia eu descubro essa necessidade de dar vida às milhares de tumbas interiores para não ficarem guardadas só nos pensamentos. E essa necessidade me chega pela dor, pela sensibilidade e empatia da maturidade. Também com seu sabor. O conflitos da juventude obstruem nosso interior. É um arrancar de dentro—sem ousar o talento de uma Lispector—o que, antes ininteligível ou obscuro, sai em palavras escritas que além de ganhar vida e forma, desoprime, alivia e por vezes conforta. Como uma droga, escrever é viciante.

Esse dar vida às palavras talvez seja o prenúncio da trilha do túnel desconhecido por onde todos vamos passar, então eu já vou me adiantando e revisando os fatos. Não pretendo reconhecimento ou a absolvição alheia. Eu me valorizo dentro de valores humanos pelos quais me guio e tento me absolver, mesmo com a carga de resoluções solitárias certas ou erradas que fui tomando ao longo da vida. Sempre senti meu espírito livre, mesmo sendo uma mulher. Ainda que não fui de todo isenta de repressão, críticas, julgamentos e remordimentos inerentes e atávicos ao meu gênero.

O pensamento vivo de hoje é para dizer que quem foi amado continua sendo amado. Reveses, entraves, deslealdade, abandono, escolhas, desilusões e perdas não revogam o amor, fazem parte do conjunto dos nossos mais profundos sentimentos. É uma coleção de nossa vida interna que nunca vai morrer, porque ficará escrita para sempre aqui ou noutro lugar a quem interessar possa. 💕


Insônia