quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A maior revelação é o silêncio


O silêncio invariavelmente é saudável, instrutivo, reflexivo, prudente, calmante, paliativo nas dores e nas tentativas de compreensão da realidade. Mas existe um silêncio que ensurdece, que machuca os ouvidos alheios e que revela um estardalhaço de verdades muito mais do que um discurso articulado e coerente.
2019 começa com esse silêncio,  um retumbante e ensurdecedor mutismo coletivo.
É o silêncio daqueles que dizem não ter nada com ISSO, pois o mundo a sua volta é somente um habitat que não exige comprometimento e interação.
É o silêncio dos vaidosos que só percebem a si mesmos como criaturas e suas próprias conquistas como única fonte de contentamento e forma de vida.
É o silêncio dos cruéis, perversos e cobiçosos que colocam nos ombros do outro a culpa de suas próprias fragilidades ou se valem das fragilidades do outro para sacar-lhes o pouco que lhes resta acumulando assim fortunas privadas oriundas de patrimônio público.
É o silêncio dos rudes, dos ignorantes, dos equivocados, dos incautos, dos analfabetos  políticos que, desprovidos de razão e pensamento crítico, desconhecem como funciona o mundo fora de suas limitadas zonas de (des)conforto.
É o silêncio dos raivosos que antes gritavam aos quatro ventos o seu poderoso ódio em sons guturais e inumanos, indignados com comportamentos deturpados que eles mesmos continuam reproduzindo.
É o silêncio também daqueles que não se permitem vociferar, mas cuja indiferença os alimenta diariamente, porque afinal não são maus, feios e sujos como aquela maioria de estranhos seres que não são da sua classe.
É o silêncio dos homofóbicos que preferem ver calados, mortos ou espezinhados aqueles cuja figura teima em lembrar-lhes algo muito incômodo dentro de si mesmos.
É o silêncio dos covardes, que não sendo cegos, sentem-se molestados  pelo desconforto de uma gritaria que vem de dentro deles mesmos.
É também o silêncio dos invejosos e medíocres que desejam para si o mesmo protagonismo dos que gritam com propriedade e com algo a dizer.
Há também o silêncio dos caridosos que precisam da pobreza e das catástrofes para doar o que não precisam, desde que se mantenham imutáveis as situações e invisíveis a face dos que recebem.
Por último há o silêncio dos distraídos, indiferentes ou neutros que nunca entenderam o barulho e agora sequer escutam o próprio silêncio.

E em meio a esse silêncio, o que resta é o murmúrio dos arrogantes, dos grotescos, dos sarcásticos e dos desvairados que fazem da extrema ignorância e da idiotice seus bens mais valiosos.

Haverá o tempo do arrependimento, da razão, da prudência, da ponderação, da reflexão e do bom senso ao menos em baixo volume?



quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O avanço da ignorância e o elefante na sala



Imagem : https://www.independa.com.br/livro/paulocamposdias/

Informe Semanal é um programa da Televisão Espanhola TVE1 onde pudemos assistir no último sábado, dia 05 de janeiro uma reportagem sobre a posse do novo Presidente do Brasil Jair Bolsonaro. Com o título "Giro Extremo", a reportagem inicia dentro de um ônibus acompanhando um grupo de apoiadores do presidente eleito em caravana de São Paulo a Brasília para o dia da posse. Segundo o repórter, "o clima é de exaltação nacionalista com matizes religiosos". Vestidos com camisetas verde-amarelas, muitos iam enrolados na bandeira do Brasil,  cantando hinos de campanha- "Deus salve a Pátria Brasileira"- e fazendo o característico sinal de arma na mão que se popularizou na campanha do então candidato Bolsonaro.
Em outro momento, um casal gay é entrevistado e falam sobre seus temores quanto à sua condição que é mal vista pelo governo eleito. Contam que se casaram antes da posse e que mesmo vivendo em um bairro amigável, dizem eles, evitam manifestações de carinho em público pelo temor do rechaço ou violência a que estariam expostos nesses tempos de bolsonarismo. Esse é o momento mais lúcido da reportagem.
Um professor de Ciência Política de Brasília diz que "as instituições estão funcionando bem, portanto Bolsonaro vai ter que entrar num figurino, num marco institucional e se comportar (como governante) de uma maneira mais tranquila  e moderada". Aqui percebo que o repórter poderia ter pesquisado mais a fundo o real estado das instituições brasileiras e ter questionado o entrevistado sobre a factibilidade de suas afirmações. O professor disse ainda, "que o presidente vai ter que se articular com o Congresso para aprovar suas pautas". Isso é dizer apenas o óbvio, porque essa é uma das principais prerrogativas de um estadista, isso é fazer política. 
Outro entrevistado, um professor de Direito Internacional cita o economista e político liberal Roberto Campos, dizendo que "o Brasil precisa de um choque de capitalismo", mas a reportagem não indagou o que significa isso exatamente, na prática. Temo que a palavra "choque"  aliada a "capitalismo" realmente não seja nada auspicioso.
Impressionante. Impossível saber como e por que foram pinçados os depoimentos destes dois professores e por que não fizeram perguntas mais pertinentes a quem, por obrigação, deveria ter as informações mais qualificadas e aprofundadas do momento histórico brasileiro.
As imagens eram de Brasília, mas era estranho reconhecer o Brasil real ali. Parecia um lugar longínquo, uma republiqueta recém-descolonizada com seus habitantes totalmente desconectados da realidade. 
Os depoimentos dos apoiadores bolsonaristas, como de praxe, são repletos de simplificações e reacionarismos, expondo a mais completa indigência intelectual, tanto que algumas falas são dignas de piedade. Muitos carregam além das cores do Brasil, bandeiras  de Israel e Estados Unidos, bem como fotos  de seus líderes Trump e Netanyahu ao lado de fotos de Bolsonaro. Não creio que algum deles entenda o que significa o país norte-americano e o Estado de Israel no contexto brasileiro. Eu teria perguntado quem deu a idéia de mesclar as duas bandeiras estrangeiras às comemorações, pois havia na Esplanada dos Ministérios muitas bandeirolas americanas  e israelenses sendo vendidas pelos ambulantes no dia da posse.
Retorno ao relato do interior do ônibus e uma senhora diz ao repórter que era esquerdista na juventude, agora teve uma conversão radical e chora ao comentar sobre o atentado à faca sofrido pelo presidente meses antes. Diz ela:
- "Faço parte de um grupo de caravanas"... Nunca tivemos uma direita legítima no Brasil, nem com PSDB, nem com PMDB. Hoje a gente tem clareza pela internet, que nos permitiu fiscalizar todos os políticos e que a mídia é manipuladora, não dá todas as informações, mas agora isso acabou." conclui. 
Realmente é de doer tamanha inversão, desconhecimento e reducionismo dos fatos.
Eu perguntaria a ela se esse "nunca tivemos direita" é desde quando? Desde as Capitanias Hereditárias, do Império, da Ditadura Militar, do Golpe de 1964? Ora, deixemos para lá, quem se interessa por essas velharias de História do Brasil. É justamente essa incultura e obscurantismo, essa desconexão da realidade tão próprios da personalidade medíocre de Bolsonaro e de seus seguidores, que explicam a sua eleição e a aversão que ele tem à exposição à mídia, entrevistas, debates ao vivo e ao enfrentamento do contraditório. Seus marqueteiros perceberam que era inviável essa candidatura nos moldes tradicionais. Escondê-lo e protegê-lo dentro das redes sociais foi uma estratégia que deu realmente muito certo. 
Ainda sobre a senhora bolsonarista, questionada sobre sua opinião quanto às uniões homossexuais, depois de hesitar um pouco afirma que é contrária ao tema. Eu perguntaria em quê sua vida pessoal é afetada diretamente pelo fato de existirem casais homossexuais e eles estarem casados. 
Enfim, para seus seguidores, dizia a reportagem: "Bolsonaro veio para colocar as coisas em seus devidos lugares e voltar a um Brasil idílico e tradicional" seja lá o que isso dizer.
Pode-se intuir, segundo a fala dessa senhora, que para eles um "governo de direita" quer dizer um governo direito, decente, correto, na direção certa e que "esquerda" seja todo o contrário. Relembrar aqui Jacobinos e Girondinos certamente faria de mim uma idiota que lê demais.
Indiscutível  a vergonha monumental e a exposição de tamanha ignorância exposta numa reportagem fraca, simplificada e superficial, talvez bastante contaminada pelos entrevistados que tinham pouco a dizer e pelo curto tempo de dezesseis minutos.
Enfim, ela não revela os motivos e as circunstâncias mais importantes que levaram à Presidência tal "ideário". Não entrevista os maiores líderes oposicionistas, tampouco nenhuma personalidade mais sensata (se existe) do novo governo, não analisa os interesses geopolíticos e as relações de poder entre os países do continente americano. Entretanto, deixa clara a tomada de posse de um personagem autoritário, discricionário e de extrema direita, que se notabilizou pelo extremismo de suas falas, pela campanha eleitoral feita pela internet e chamando atenção para o fato de que a eleição e aprovação de Bolsonaro só não ultrapassaram a de Lula em seus dois mandatos como Presidente do Brasil.
A reportagem seria melhor arrematada informando também que a elite econômica, a classe média e os políticos conservadores brasileiros que, sem candidato viável depois que lideraram o impeachment da Presidente Dilma, viram por bem apoiar um medíocre Bolsonaro com uma única grande finalidade, a de extinguir a esquerda e o Partido dos Trabalhadores. E com isso tomar de volta seus privilégios perdidos. Ainda a articulação do poder econômico com o sistema judiciário propiciou que a candidatura de quem seria invencível nas urnas fosse impedida e a (in)Justiça brasileira transformou um político preso e condenado sem provas, no primeiro preso político brasileiro do século XXI.
Agora o Brasil tem um elefante dentro da sala. 

http://www.rtve.es/alacarta/videos/informe-semanal/informe-semanal-giro-extremo/4926358/

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Combarro, um (en)canto do mundo


Morei por sete anos num pequeno povoado chamado Combarro. Está situado no litoral da Província de Pontevedra, Comunidade de Galícia, Espanha. Segundo informativos turísticos, ele figura entre os povoados mais bonitos do país. Era uma povoação independente até início do século XX, depois foi anexado ao município vizinho de Poio e considerado sítio histórico desde 1972. Combarro abriga pouco mais de dois mil habitantes, tem fortes características marinheiras, é banhado pelo Oceano Atlântico e fica às margens de um típico acidente geográfico da região chamado "ria". 

Uma ria é semelhante a uma baía ou uma enseada onde o mar adentra um litoral bastante recortado onde, invariavelmente encontra a foz de um rio. Uma ria ostenta uma infinidade de minúsculas praias de mar calmo, quase sem ondas e águas pouco profundas. Na Galícia elas formam as chamadas Rias Baixas. Os peregrinos que fazem o Caminho de Santiago pela rota portuguesa passam há menos de cinco quilômetros de Combarro, pois Pontevedra, cidade vizinha e capital da Província faz parte do roteiro original. 

A fundação de Combarro data do século XII e tem relação com o início da construção do bonito Monastério de San Xoán, hoje um monumento emblemático na cidade de Poio. O centro histórico reúne um aglomerado rústico de casas de pedra, a maioria com dois pavimentos e com pé direito bastante baixo, dotadas de pequenas portas e janelas de madeira, vielas muito estreitas e pavimentadas com pedras rústicas. As paisagem tem o mar a sua frente e uma pequena elevação de montes por detrás. As  diminutas sacadas das casas e os parapeitos das janelas são enfeitadas com vasos de plantas que florescem na primavera. 

A ria, estando sujeita às marés, pode trazer o mar até as fundações das edificações e é comum algumas ruas terem seu final exatamente onde inicia o mar. A parte térrea do casario é bastante ocupada por negócios turísticos como lojinhas de souvenires, restaurantes, bares, taperias, tavernas e cafeterias. Conforme o turismo foi crescendo, alguns nativos foram vendendo suas propriedades antigas da família, bastante valorizadas, para se afastarem do tumulto dos turistas e viverem em zonas mais tranquilas.

As casas têm aspecto úmido pelo movimento das marés e pelo clima que em algumas épocas do ano pode ser bastante chuvoso. As múltiplas borrascas que vêem do oceano podem fazer com que faça chuva e vento forte durante dias e até semanas seguidas sem aparecer o sol em nenhum momento do dia. Os ventos agitam o mar e podem prejudicar os serviços de pesca, mas também proporcionam espetáculos de ondas gigantescas incríveis em algumas praias de mar aberto próximas à Combarro.

Em compensação, quando finalmente o tempo abre, o paraíso se revela. No verão, o dia pode durar até às dez e meia "da noite", o ar cheira à mar e peixe e a temperatura é tão cálida que não exige aparatos de refrigeração. Embora o inverno seja muito frio de dezembro a abril, com temperaturas médias não ultrapassando os dez graus, as precipitações de neve são muito raras, porque sua localização à nível do mar não propicia esse evento.

As gaivotas são habitantes naturais da região. Seu canto, vôo e plumagem encantam e embelezam a paisagem, algumas até parecem domesticadas, quando se aproximam das pessoas querendo algum petisco.  A Canteira é uma minúscula praia do povoado, de areia fina e águas calmas e claras onde os banhistas se amontoam nos verões. A água é insuportavelmente gelada para brasileiros acostumados com o Brasil tropical, mas isso não evita largos banhos de mar aos mais corajosos, principalmente as crianças.

O povo é em essência composto de famílias de marinheiros que passaram a vida tirando sua subsistência do mar, coletando peixes e mariscos e/ou da terra numa agricultura que aproveita os montes que estão por detrás do povoado. Ali se cultivam uvas, batatas, tomates, pimentões, milho e verduras. A produção de vinho é de larga escala, muito desenvolvida e o Vinho Alvariño é muito famoso dentro  e fora do país.

O porto abriga barcos de pesca e de passeio. Desde o final da primavera e no verão, há uma linha regular de passeios de barco bastante disputada pelos turistas. Ali crianças, jovens e adultos costumam fazer aulas de canoagem ou jogar pólo aquático, um tipo de handebol na água. Em determinadas épocas do ano o passeio público, a praça e as vielas do centro histórico estão repletos de turistas. Os excursionistas chegam dos mais variados recantos da Europa e se pode ouvir muitos idiomas. Eles são franceses, ingleses, suíços, alemães que amam o sol da Espanha e  portugueses, os vizinhos fronteiriços  que também estão sempre por aqui.

"Hórreos" são construções antigas típicas galegas, edificações de pedra e madeira, tendo como base quatro altos pés que os elevam do chão. A estrutura tem pequenas fendas nas paredes para circular o ar, onde os antigos guardavam os produtos da colheita, principalmente batatas. Estão dispostos nos terrenos atrás ou em frente às casas o que torna o imóvel muito valorizado pelo apelo histórico e turístico. Os cruzeiros são colunas feitas de pedra com cruzes e esculturas de santos que se verificam em algumas esquinas do sítio histórico. Os cruzeiros eram construídos, segundo os especialistas para servirem de proteção aos marinheiros que estavam ou que voltavam do mar.

O povo é simpático, sem ser efusivo, cordial sem ser caloroso tanto entre eles quanto com os estrangeiros. Muitos homens e mulheres têm uma forma um tanto rude no falar, em geral em volume alto, usando muitos impropérios que dão aparência que estão sempre em meio a discussões. Fala-se o idioma oficial, o galego, uma mistura de castelhano com português, o que dificulta um pouco o aprendiz de castelhano e facilita ao falante de português, embora custe algum tempo para que um estrangeiro possa diferenciar de uma vez por todas o castelhano do galego.

A qualidade e expectativa de vida do povo são bastante altas, consequentemente há grande percentual de idosos. Eles andam as dezenas pelo passeio público, saem de viagem em passeios subsidiados pelo governo e em geral são bem humorados e falantes. As senhorinhas do povoado saem às compras com seu avental de "ama de casa"— adjetivo que designa a mulher que não trabalha fora. O avental é um vestido de tecido leve, geralmente num quadriculado minúsculo, sem mangas, abotoado na frente e colocado por cima de todas as roupas. 

Invariavelmente, as pessoas se encontram na praça onde as crianças brincam ou no passeio público, aos grupos ou aos pares para um tanto de conversa, para uma caminhada matinal ou de final de tarde. A maioria do povo gosta muito da rua, dos espaços públicos, das pistas de caminhada e das cafeterias e o tempo permitindo estão todos por ali.

Os moradores nativos se conhecem bastante e todos podem ser um pouco parentes, então é normal que muitos saibam muito da vida de todos, embora se perceba uma certa discrição—mas não desinteresse— quanto ao hábito da bisbilhotice. Assim é um pouco do Combarro que conheço.


Horreos





Cruzeiro













sábado, 5 de janeiro de 2019

Nós, o lixo marxista por Vladimir Safatle




Folha de São Paulo / 05 de janeiro de 2019
Vladimir Safatle
Nós, o lixo marxista
Tomou posse o primeiro governo eleito de extrema-direita do Brasil. Com ele, não há negociação alguma possível. E nem ele procura alguma forma de negociação com aqueles que não comungam seus credos, que não louvam seus torturadores e que não acham que “é duro ser patrão no Brasil”. Não há razão alguma para se enganar e acreditar em certa normalidade: a lógica que irá imperar daqui para frente é a da guerra. Pois isto não é um governo, isto é um ataque. 

Já o discurso do sr. Jair Messias foi claro. Questões econômicas e sociais estiveram em segundo plano enquanto as duas palavras mais citadas eram “deus” e “ideologia”. Deus estava lá, ao que parece, para nos livrar da “crise moral” em que a república brasileira se encontra. Isto, diga-se de passagem, há de se conceder ao sr. Jair Messias: vivemos mesmo uma crise moral profunda. Ela está instalada no cerne do governo brasileiro. Pois como justificar um governo cujo ministro da justiça ganhou seu cargo como prêmio por ter colocado o candidato mais popular a presidente nas grades e pavimentado a estrada para a vitória de seu atual chefe? Como descrever um governo que já nasce com ministros indiciados e um réu confesso que se escarnece da população brasileira ao afirmar “já ter se acertado com Deus” a respeito de seus malfeitos? Como descrever um presidente cujo motorista foi pego em operações financeiras absolutamente suspeitas e se negado duas vezes a comparecer à justiça sem sequer ser objeto de condução coercitiva? 

Mas o destaque evidente é a mais nova luta do estado brasileiro contra a “ideologia”. Enquanto uma de suas primeiras medidas governamentais foi diminuir o valor previsto do aumento do salário mínimo, mostrando assim seu desprezo pela sorte das classes economicamente mais vulneráveis, o sr. Jair Messias convocava seus acólitos à grande cruzada nacional para lutar contra o socialismo, retirar das escolas o lixo marxista e impedir que a bandeira brasileira seja pintada de vermelho. 

Alguns podem achar tudo isto parte de um delírio que normalmente acomete leitores de Olavo de Carvalho. Mas gostaria de dizer que, de certa forma, o atual ocupante da presidência tem razão. Sua sobrevivência depende da luta contínua contra a única alternativa que nunca foi tentada neste país, que nunca se acomodou nem às regressões autoritárias que nos assolam, nem aos arranjos populistas que marcaram nossa história. Pois ninguém aqui tentou expropriar meios de produção para entregá-los à autogestão dos próprios trabalhadores, ninguém procurou desconstituir o Estado para passar suas atribuições a conselhos populares, aprofundando a democracia direta, e nem levou ao extremo necessário a luta pelo igualitarismo econômico e social que permite a todos os sujeitos exercerem sua liberdade sem serem servos da miséria e da espoliação econômica. 

Ou seja, a verdadeira latência da sociedade brasileira que poderia emergir em situações de crise como esta é um socialismo real e sem medo de dizer seu nome. A sociedade brasileira tem o direito de conhece-lo, de pensar a seu respeito, de tentar aquilo que ela nunca viu sequer a sombra. Ela tem direito de inventa-lo a partir da crítica e da autocrítica do passado. Mas contra isto é necessário calar todos os que não se contentam com a vida tal como ela nos é imposta por essa associação macabra de militares, pastores, latifundiários, financistas, banqueiros, iluminados por deus, escroques que tomaram de assalto o governo e que sempre estiveram dando as cartas, de forma direta ou indireta.

Assim, quando Jair Messias fala que irá lutar contra o lixo marxista nas escolas, nas artes, nas universidades, entendam que esta luta será a mais importante de seu governo, a única condição de sua sobrevivência. Pois ele sabe de onde pode vir seu fim depois de ficar evidente o tipo de catástrofe econômica e social para a qual ele está nos levando.


Insônia