segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Uma estrangeira há dois mil dias

Vista do Porto Deportivo de Combarro- arquivo pessoal


Marlena de Blasi, chef e escritora americana radicada na Itália escreveu Mil Dias em Veneza, publicado em 2002 contando como se transferiu dos Estados Unidos para a Itália numa decisão baseada em amor. Li o livro em meados de 2009 e algo ali me parecia muito familiar, como um pressentimento.

Anos mais tarde fiz a mesma mudança de continente pelo mesmo motivo de Marlena e agora já passa de dois mil dias desde que me transladei de mala e cuia— literalmente— para esse paraíso chamado Galícia, extremo oeste da Península Ibérica, terra dos antigos celtas, das fadas, das Rias Baixas, dos mariscos, do Finisterra—o Fim da Terra— do galego, língua irmã do Português e de Combarro, um dos pueblos mais bonitos da Espanha.

Cheguei no último dia de verão de 2014, 21 de setembro— dos breves dias de calor e praia galegos— e começo da temporada gelada e úmida que dura mais ou menos até abril.  Entrei no país com o passaporte visado pelo Consulado Espanhol de Porto Alegre e em seguida dei entrada nos documentos necessários para permanência: permiso de residencia—carteira de identidade de estrangeiro—empadronamiento—registro na prefeitura—conta em banco e linha telefônica.

Nos dois primeiros anos senti muita falta de antigos hábitos, de lugares, de pessoas, da família e até do trabalho do qual já me havia retirado. Felizmente já existiam os aplicativos de mensagem e os grupos aonde permaneci conectada e voltei ao Brasil todos os finais de ano para passar as festas. Apesar da saudade da família— preço a pagar por essas escolhas—seja uma constante, a falta de amigos, os costumes e o idioma foram desafios ora já superados.

O idioma

Logo que cheguei descobri um curso de Espanhol na Cruz Vermelha que, além de serviços médicos, presta atendimento à idosos, crianças, imigrantes etc. As aulas eram gratuitas, ministradas por voluntários e tinham como objetivo a inserção social dos imigrantes em seu novo país. Ali conheci pessoas de vários lugares. A maioria eram mulheres de nacionalidade marroquina que fazem parte de uma grande comunidade aqui na Espanha.

Além delas conheci também dezenas de brasileiros que nos últimos anos haviam emigrado para a Península em busca de oportunidades de trabalho, estudos ou pelo casamento. Este curso porém, não foi muito efetivo para meu aprendizado, porque meus colegas de língua árabe exigiam um ritmo mais lento, mais atenção dos professores e não avançávamos muito. No entanto, esse convívio foi uma rica troca de experiências com outras culturas, com gente muito querida e divertida.

Na verdade, meu primeiro contato com a língua foi mais custoso, porque aqui coexistem dois idiomas oficiais, o castelhano e o galego e no início não os distinguia bem. O galego é similar ao português, porém tem uma entonação muito diferente e a escrita me parece uma mistura de português antigo com castelhano. Faz parte do currículo escolar, todos entendem, mas nem todos falam. Há um certo preconceito por parte da sociedade que se recusa a falar em galego, pois considera uma língua de pueblo— linguajar de interior.  A ditadura franquista—que durou quarenta anos até 1978—não reconhecia o idioma, o que obrigava as pessoas a falar somente em castelhano. Porém, nas últimas décadas isso mudou, existem canais de televisão transmitidos em galego, o povo adquiriu mais segurança no falar e os jovens são incentivados a ter orgulho do idioma de sua terra.

Assim eu pouco entendia os nativos e eles também não me entendiam. Fui educada em meio à ditadura militar, onde a língua Inglesa era mais valorizada e não havia a disciplina de Espanhol. Nós, brasileiros acostumados a estar de costas para nossos vizinhos sul-americanos, parece que desconsideramos a cultura vizinha. Preferimos cultivar apenas vazias rivalidades no futebol em detrimento do saudável intercâmbio social e cultural. Isso faz com que muitos brasileiros pensem que é fácil comunicar-se nos países de língua espanhola bastando puxar aquele famoso portunhol. Não é verdade. 

Passei a assistir telejornais, novelas, séries e filmes, prestando atenção até na publicidade para acostumar o ouvido. Nos primeiros tempos, quando precisava ir à lojas ou supermercados levava as frases memorizadas. Mais tarde, após deixar o curso na Cruz Vermelha, decidi preparar-me sozinha para as provas de certificação de nível A2 em espanhol pelo Instituto Cervantes—uma das exigências para entrar com o pedido de nacionalidade espanhola. Agora leio e compreendo perfeitamente os dois idiomas oficiais, mas como segui falando português em casa e fiz muitas amizades brasileiras não adquiri fluência, embora use naturalmente muitas palavras em espanhol no meio das frases. 

A Gastronomia

Meu marido trabalhava de oito às três da tarde, então me incumbi de cozinhar. Precisava manter meu horário de almoço até, no máximo à uma da tarde como o hábito brasileiro. Os espanhóis costumam almoçar por volta das 3— mas nunca me adaptei. Inclusive alguns pequenos comércios fecham nessa hora para reabrir das 5 às 9 da tarde—mesmo no inverno, quando o dia se faz noite, eles chamam tarde até pelas 22 horas.

Tive um pouco de dificuldade para adaptar-me com a comida, não que eu exigisse muito, mas carne, feijão e arroz tiveram que ser substituídos por peixes, mariscos, batatas e verduras em pratos bastante simples e únicos. Estamos acostumados no Brasil com uma variedade de iguarias nos buffets à quilo e por isso me resultava estranho preparar somente um ou dois pratos acompanhado de fatias de pão, ítem obrigatório. 

Eu procurava substituições por outros ingredientes que pudessem adaptar-se aos pratos que estava acostumada, mas na prática não dava muito certo. Foi difícil, por exemplo, substituir a banana-prata—meu alimento favorito no café da manhã— pelo plátano das Ilhas Canárias, um fruto maior e menos doce, mas o café solúvel de sempre e o pão de barra tradicional galego equilibraram os meus sentidos. 

O arroz mais popular é um tipo integral de grãos redondos ou de aspecto quebrado muito usado nas típicas paellasprato de arroz caldoso com frango e mariscos que se quisermos cozinhar como o arroz no Brasil não há maneira de ficar solto. Tempos depois, uma amiga brasileira me apresentou o arroz Basmati tailandês, um tipo de arroz muito branco e fininho que cozinha rápido e sempre fica soltinho. 

O feijão preto está sempre disponível nos supermercados, mas não é costume. Aqui preferem o feijão branco, aquele grão maior, para fazer fabada—prato típico asturiano com linguiça— ou nas saladas. Outro grão muito apreciado são os garbanzos — grão de bico— que é cozido como se fosse feijoada com muitas carnes e especiarias.

A yuca é um tubérculo como a mandioca, cozinha muito rápido, vem da América envolta em parafina para não estragar e é muito fácil de descascar. Também está disponível nas fruterías papaya—mamão— também uma planta tropical. Ambos não são produtos baratos, mas são encontrados facilmente. Embora tenha trazido os apetrechos—cuia e bomba— para tomar chimarrão, não me animei a experimentar a única marca de erva-mate que encontrei por aqui— a argentina Cruz de Malta. Tanto que abandonei o hábito.

Enfim, era preciso adaptar frutas, verduras e legumes mais usados aqui e empreender a mudança para o consumo de pescados— opção audaciosa para quem estava acostumada a comer peixe só na Sexta-Feira Santa— e um caminho resignado para a sobrevivência, o menor dos males.  Torço para que os nutricionistas não voltem atrás nas recomendações de gorduras ômega-3— presente nos peixes— para a saúde do coração e do sistema circulatório.

As pescaderias e as lonjas —postos de venda de pescado direto das cooperativas de pescadores ao consumidorpossuem sempre grande variedade, aonde diariamente chegam peixes frescos como merluzas brancas ou rosas, atum, rape, bacalhau, raia, sardinha, jurel, cavala, rapante, linguado etc. Aprendi a comer mariscos, aqui muito apreciados como pulpo, mejillones, calamares, chocos, langostinos, cigalas, almejas, berberechos e zamburiñas. Hoje já não me faz falta comer arroz e carne todos os dias, que foram substituídos por ovos, batatas, legumes variados ou massa e peixe intercalando com frango. 

Pelas tardes adquiri o hábito de frequentar cafeterias, costume muito arraigado aqui, onde as pessoas estão desde o café-da-manhã—nas milhares que existem em todos os lugares—antes de irem para o trabalho. Esses locais têm por tradição oferecer um petisco grátis—um pincho—tanto se pedes um café ou uma bebida. Os pinchos podem ser desde frutos secos, batata chips, pequenos churros, um pedaço de bolo, uma bolachinha industrializada ou até um doce cheio de creme. Um verdadeiro perigo para o sobrepeso.

Às vezes éramos convidados para jantar em casa de amigos espanhóis e ali as curiosidades eram muitas. Os pratos podiam ser churrasco de solomillo—picanha— ou chuletón, ambos feitos com pouco sal e malpassados para meu paladar. Uma noite havia arroz com bogavante—um tipo de lagosta—e me custou comer aquele bicho que antes tinha visto mover-se na panela. Nunca faltava a tortilla de patata—o prato genuinamente espanhol— ou as batatas fritas com pimentão, pão, cerveja ou vinho. No final, para fazer a digestão, uns vermutes, café com leite ou chá de camomila—manzanilla.

O Contraponto

Galícia tem uma área territorial semelhante ao Estado de Alagoas— segundo menor Estado brasileiro— com menos de 30 mil km². Possui um deslumbrante relevo costeiro e uma paisagem verde, fértil e abundante no interior, faz bastante frio e chove muito no inverno. As cidades possuem uma coleção de parques, praias e pistas de caminhada que favorecem e estimulam o exercício físico e a higiene mental pelo contato com um dos cenários mais bonitos do mundo.

Tínhamos por hábito sair todas as tardes para conhecer lugares diferentes, explorar um lugar turístico, um castelo medieval, uma festa de pueblo, uma praia de mar aberto, um porto marítimo, um sendero pouco conhecido, um mirante e os centros históricos sempre cheios de gente como os de PontevedraVigo, Santiago de Compostela ou A Coruña  lindas cidades que dariam um capítulo à parte desta narrativa. 

As belezas naturais, o modelo de mobilidade urbana, a segurança pública, a infraestrutura educacional, de saúde e serviços, a estabilidade social e econômica, a valorização dos espaços públicos e de ócio que se desfruta nesse lugar são exemplos de qualidade de vida. Sou privilegiada por estar aqui e, não renegando meu país e minha cultura, a Galícia—definitivamente—é um lugar onde gostaria de ter nascido e crescido.












Vexames recreativos

O Brasil é um lugar inigualável para bizarrices na política, embora na vida em sociedade também não lhe escape fatos anômalos, que em outros países seriam tratados com muito mais seriedade.

O fato de políticos serem flagrados pela polícia escondendo dinheiro debaixo das roupas ou em malas dentro de apartamentos vazios não é novidade. Os criminosos de gravata conseguem façanhas insuperáveis em montante e criatividade se comparados com ladrões comuns que são rapidamente encarcerados em flagrante delito e assim mantidos povoando as prisões.

Um faminto roubando comida num supermercado, um usuário de drogas assaltando pedestres, ladrões de bancos ou veículos parece que provocam mais revolta na opinião pública do que os atos criminosos dos senhores de Brasília ou de quaisquer outros cargos eletivos, protegidos, para o bem da democracia—mas valendo-se da malversação— pela imunidade que lhes confere o artigo 53 da Constituição Federal.

Além da imunidade esses distintos senhores que, entre outras qualidades se intitulam patriotas e cristãos—mesmo portando dinheiro público em espécie e de finalidade questionável— aproveitam-se do espírito jocoso, bem-humorado, abstraído da realidade e da memória curta dos brasileiros calejados de tanta impostura e assaltos aos cofres públicos.

Assim, por breve tempo, o senador com dinheiro nas partes íntimas é alvo de piadas, memes, vídeos, mensagens instantâneas que infestam as redes sociais e os veículos de comunicação de divertimento e perda de tempo, sem que haja uma linha de desprezo e repúdio por parte de seus pares ou da instituição da qual faz parte. Sequer há um pedido de afastamento e de aclaração do assunto por parte do próprio senador perante, ao menos, aos eleitores de seu Estado. 

A bem da verdade é bem difícil explicar tanto dinheiro em espécie fazendo volume entre as nádegas do distinto senhor. Fosse uma mulher teria a opção do sutiã, local mais digno onde pequenas notas podem ser camufladas. Mas não era uma mulher, tampouco eram poucos reais. Num país sério, honradez e retidão de caráter seria o mínimo exigido de um homem público e é intolerável para os racionais tamanha falta de decoro e descaramento. No entanto, o sistema político brasileiro banaliza os fatos, abraça o corporativismo, não age com presteza e rigor e persiste dando margem para que o povo associe sempre política com vigarice.

Vivemos num país escaldado pelas rudezas, pela sordidez e o cinismo de homens públicos, escolhidos pelo povo, muitas vezes de maneira desvirtuada e irresponsável, segundo interesses de uma minoria e fora do interesse coletivo. O dito senador talvez seja afastado num processo moroso e dissimulado, mas seguramente voltará ao parlamento ou será convidado para exercer outro cargo público. Precisamos aprender a votar? Sim, é preciso aprender, mas antes de tudo, há lições mais importantes a serem aprendidas pelos parlamentares e instituições. Eles devem respeito às leis, aos eleitores, ao patrimônio público que deve continuar público e à população que tem o direito de não ser eternamente expoliada e enganada. Parece simples e elementar, mas essa é a utopia brasileira.

“Não podemos enxergar essas ações como aceitáveis. Precisamos continuar no esforço de desnaturalização das coisas erradas no Brasil.” (Ministro Luis Roberto Barroso - STF)




quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A janela de Maria Antonieta

Janela dos aposentos de Maria Antonieta, Palácio de Versalhes
Arquivo Pessoal

Foi em 2006 meu primeiro contato com a personagem Maria Antonieta, a rainha consorte da França através do filme de mesmo nome estrelado pela atriz Kristen Durst. Última rainha da França, condenada à morte por decapitação aos 37 anos em 1793— seu marido Luis XVI obteve a mesma pena. Suas prisões, julgamentos sumários e assassinatos representam um dos capítulos mais importantes da história da humanidade, a Revolução Francesa.

Maria Antonieta, na biografia escrita por Stefan Zweig, é retratada à princípio como uma menina assustada, de poucas letras, apegada à família, obediente e consciente de seus deveres protocolares. Sua mãe Maria Teresa da Áustria ao ficar viúva precisou engendrar vários planos de manutenção de poder e territórios costurando o matrimônio político de sua filha mais nova com o príncipe consorte francês Luis, futuro Luis XVI, um jovem pouco mais velho que ela, neto de Luis XV. Antonieta foi contemporânea de Mozart e a história conta sobre um encontro deles no palácio em Viena, quando ainda eram crianças e o músico ainda pequeno já começava a dar concertos. Depois de adulta e já como rainha da França permaneceu inculta, avessa à leitura, ao estudo, despolitizada e apaixonada por festas e banquetes. Foi muito criticada pelos franceses por suas frivolidades e caráter perdulário. 

Antonieta estava com 15 anos quando se despediu da Áustria, do palácio onde havia nascido e crescido, da mãe e dos familiares para nunca mais voltar. Uma suntuosa caravana da monarquia austríaca com mais de cem pessoas a deixou nos limites entre os dois impérios, próximo a Estrasburgo onde ali esperava o séquito francês também numeroso e imponente.

Nesse ato de entrega a menina teve que despir-se de toda sua vestimenta, deixar todos os pertences austríacos e vestir-se com roupas francesas, numa cerimônia que estabelecia uma renúncia total ao seu país, inclusive ao idioma alemão e declarar obediência e fidelidade à corte de seu futuro marido. Não por acaso, naquela época de casamentos puramente por interesse, Maria Antonieta seria a tia-avó da também austríaca e que se tornou a princesa brasileira Dona Leopoldina, cuja biografia desvenda um dos personagens mais marcantes da história do Brasil. Ao contrário da tia, Leopoldina foi uma mulher culta, estudiosa, uma pessoa generosa, querida pelo povo e por vezes bastante ativa politicamente na corte brasileira. 

Em 2015 visitei o Palácio de Versalhes em Paris e durante a passagem por alguns das centenas de cômodos— impossível ver tudo num só dia—me pus a imaginar Antonieta vivendo ali, tendo seus filhos, num convívio nem tão difícil com o marido que era sua antítese—um homem retratado como um tanto débil, muito tímido e alienado—e com os todos os rigores e hipocrisias sociais,  familiares e palacianas. Talvez fosse injusto acusar de frívola uma mulher que apenas estava tentando viver, já que não teve direito a muitas escolhas na vida.

Imaginei as extravagantes e pródigas festas da monarquia, as decisões políticas tomadas ali frente à organização social da época, o trabalho exaustivo e pouco valorizado de toda a criadagem para alimentar e manter além da família real, a nobreza francesa, seres totalmente parasitas do Estado. Não por acaso, contrastando com a miséria do povo essa vida de iniquidades, ambições, esbanjamentos e ostentações culminaram numa revolução popular, inaugurando a Idade Contemporânea em 1789.

No entanto, simpatizei com a jovem Antonieta. Viver naquele mundo fechado representava a única vida que ela conhecia— limitada por muros e jardins palacianos, dentro da rigidez da época, com muito controle de tutores, da Igreja, sobretudo por sua condição de mulher  e tendo a vida particular completamente exposta ao público. Conta-se que ela foi a primeira vez numa festa no centro de Paris fugida da vigilância—junto com o marido—muitos anos depois de chegar a Versalhes.

Em sua biografia o autor conta também que o casamento só se consumou sete anos depois por inabilidade e imaturidade do jovem marido, ademais do dormitório do casal ser extremamente frequentado durante as 24 horas do dia.  Antonieta sentia-se muito incomodada com estes costumes atrasados dos franceses. Era obrigada a deixar-se vestir e desvestir todos os dias por pessoas desconhecidas. Era comum que pessoas da nobreza passassem por ali pelas manhãs a saudar os reis, a lhes fazer mesuras, assim como na hora do almoço ou jantar eles também terem assistência. Aos nobres era uma verdadeira honraria assistir as refeições dos monarcas, numa demonstração de puro servilismo e adoração.

Enfim, eram dois jovens alienados do mundo real, emocionalmente imaturos, forjados por e para o absolutismo, pensando ser divindades com poderes supremos, assim como até hoje alguns reis acreditam ou hipocritamente creditam sua posição privilegiada a um caráter divino.

Certamente Antonieta jamais se perguntou de onde vinha tanta abundância de comida e riquezas que tinha ao alcance da mão ou de uma simples ordem aos criados. Talvez nunca tenha olhado através das janelas para saber em que condições eles trabalhavam às centenas nos jardins, nas cozinhas, nas lavanderias, nas cocheiras. Seguramente ela não sabia quantos exerciam submissos suas funções mal pagas, somente à custa de comida e teto e alguns até felizes e honrados de seu servilismo.

Com que espírito e percepção da situação Antonieta, o marido e dois filhos—outros dois já haviam falecido crianças—fugiram, quando o povo faminto marchou até Versalhes e invadiu o palácio alguns meses depois da Queda da Bastilha dando início à Revolução Francesa? O que sentiu tempos depois quando foram todos presos—inclusive as crianças? O mais jovem e herdeiro denominado pela monarquia Luiz XVII acabaria morrendo aos 10 anos na prisão depois do assassinato dos pais pelas péssimas condições do cárcere. A filha mais velha na época com 13 anos foi a única sobrevivente, porque foi acolhida pela família austríaca.

Maria Antonieta passou quase quatro anos na prisão antes da sentença final num julgamento marcado por misoginia, calúnias, humilhações e privação do direito de defesa. Como seu marido, foi condenada à morte pela guilhotina, método aplicado na França sugerido pelo  médico J. Guillotin, que segundo ele, causava menos dor aos condenados. Teve seu martírio assistido por uma multidão na Place de la Concorde em Paris no dia 16 de outubro de 1793—alvorecer do século 19. Estava com 38 anos. Certamente é uma grande história de uma das mais importantes personalidades mundiais daquele final de século.


Aposentos de Maria Antonieta, Palácio de Versalhes
Arquivo Pessoal







sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Realeza irrealista



Alguma vez você já chamou seu filho(a) ou neto(a) de príncipe ou princesa? 

Se eles nasceram no final da década de noventa ou nos dois mil, origem e apogeu da exibição social proporcionada pelas redes, certamente que sim. Essa forma de nominar crianças e jovens  popularizou com o advento das redes sociais. Meu filho nasceu em 1981 e nunca meus pais, meus amigos e amigas que tiveram filhos na mesma época chamaram os seus assim— os netos, talvez. Hoje as crianças são fotografadas mal saem da barriga da mãe e já ganham seu título de nobreza. 

Segundo o dicionário Caldas Aulete, príncipe/princesa significa filho de reis, membro de família reinante, alguém que governa um principado e no sentido figurado, alguém que é o primeiro em mérito e talento ou pessoa que está sempre bem vestida, que é gentil e educada. Ainda, que é o primeiro ou principal, que está em primeiro lugar.

Obviamente, o adjetivo ou o pronome de tratamento não cabem no Brasil que é uma República há mais de cem anos. Pelo mundo restam poucas monarquias—a maioria tenta manter muita discrição— e o rechaço por esse tipo de regime só tende a crescer. O problema está— claro —no sentido figurado da palavra. O problema é reconhecer como estão se comportando ou se comportarão esses príncipes e princesas na vida adulta. Alguns, ao que tudo indica— embora sempre bem vestidos— passam longe de gentis e educados. 

À primeira vista a crítica pode parecer exagerada para algo aparentemente singelo, como decorar o quarto das crianças com adornos pomposos ou enfeitá-las com coroas e capinhas de pele. No entanto,  é preciso estar atento à educação que esses pequenos nobres estão recebendo. Alguns podem carregar para a vida uma percepção de família e de mundo equivocadas, quando tratados por um adjetivo que os distingue dos demais, pelo dinheiro que suas famílias possuem ou por características inerentes de distinção social que acreditam ser dotados. 

Exemplifico. Muitas pessoas acreditam que brancos são melhores que negros, que os ricos são melhores que os pobres, médicos pensam que são melhores que o restante de todas as profissões de saúde, alguns empresários pensam que são melhores que seus funcionários, cristãos acreditam que são melhores que todos os que professam outras religiões, ocidentais  que são melhores que orientais, alguns homens— incrivelmente— ainda pensam que são melhores que as mulheres, etc. 

Vejo um modo tirânico de ver a vida e uma permissividade quase patológica em alguns jovens e adultos que talvez passe despercebida pelas famílias e pela sociedade. Há uma supervalorização de egos aliado a essas percepções discriminatórias, à banalização das desigualdades sociais e a intolerância com a diversidade que faz com que não avancemos nesse terceiro milênio.

Nos últimos tempos temos tido exemplos realmente aterrorizantes de jovens e adultos, brasileiros de classe média e alta que apenas se vêm nesse mundo de individualidades, egocentrismos  e aparências. Ao que parece, recusam enxergar que o mundo não é só deles, que existem os outros e outras realidades fora de seus condomínios e dos centros comerciais.

Comecemos pelas atitudes na pandemia. Já foram muitas as histórias de negação ao isolamento social, recusa a usar máscaras e a adotar medidas de proteção nos locais públicos ou de respeitar o horário de fechamento de bares e restaurantes. Presenciamos muitas reações arrogantes desses nobres jovens e adultos proclamando a sua liberdade em detrimento da saúde de todos. 

Por conta de irresponsabilidade promoveram festas clandestinas e já provocaram a segunda onda da pandemia em diversos países. Muitos deles saíram às ruas, contrariando a ciência— mesmo estudados e diplomados—reagindo aos governos, cuja obrigação de conter a propagação do vírus e proteger a população lhes custa entender. Esses príncipes e princesas podem ter sido criados tão superprotegidos que acreditam estar imunes a tudo— inclusive às leis e às regras de boa convivência.

Muitos estão acostumados a dar carteiradas identificando-se como médicos, engenheiros, advogados, amigos de autoridades e ostentando sobrenomes, exigindo o cumprimento de seus desejos que, segundo o antropólogo Roberto Damata, no livro Carnaval, Malandros e Heróis é sintoma de uma cultura que tem aversão ao igualitarismo.

Outros adotam comportamentos em público sem atentar que as mínimas regras de convivência lhes impõem limites e diferenciam atitudes privadas de públicas por uma questão de respeito ao outro. Por exemplo, em alguns países o ato de arrancar flores de um jardim é atitude muito reprovável, assim como beijar em público em países islâmicos. Cometer esse tipo de atitude nesses lugares em nome de nossa liberdade é ignorar e desrespeitar pessoas e culturas. 

Trata-se de algo simples de entender para quem enxerga os outros além de sua individualidade, mas para a nossa nobreza brasileira arcaica e inculta resulta bem difícil. Segundo a jornalista Mariliz Pereira Jorge do canal My News esse tipo de  comportamento típico de Balneário Camboriú dos anos 90 é cafona e ultrapassado. Ela deve estar com a razão em relação ao balneário, porém cafona e ultrapassado são adjetivos bastante generosos para designar certas atitudes.

Fale com seu príncipe ou sua princesa sobre isso, enquanto ainda há tempo para que se tornem homens e mulheres de verdade.







 

Insônia