terça-feira, 28 de abril de 2020

Na pandemia entre dois mundos


La Vanguardia.mx
Moro há quase seis anos na Espanha, mas graças à internet, aos aplicativos de comunicação instantânea e redes sociais podemos viver virtualmente em qualquer lugar do mundo desde que dominarmos a língua e os costumes. Por isso eu vivo também no Brasil e acompanho diariamente tudo que acontece me comunicando com a família, amigos e lendo os noticiários.
Obviamente sempre fiz as mais diversas comparações, confrontações ou equiparações tanto positivas quanto negativas entre os dois países. Ao mesmo tempo sempre dedico a cada um o mesmo carinho e apreço quando exalto suas belezas naturais,  seu patrimônio histórico, sua história, seus costumes e seu povo. Estando aqui sinto falta física do Brasil, assim como quando estou no Brasil sinto falta daqui. E assim será até o fim.

Agora em meio à pandemia do coronavírus é impossível não fazer maiores observações e ponderações quanto ao manejo particular de cada um dos meus dois países no enfrentamento dessa crise sanitária e humanitária que vive o planeta.
Quando houve uma escalada de casos da doença em meados de março e assustada pelo que já estava em curso na Itália, a Espanha adotou corajosa e firmemente o isolamento social. O governo fechou escolas, universidades, pontos turísticos, serviços, estabelecimentos comerciais, praças, parques, praias, etc. e passou a controlar o deslocamento das pessoas e dos meios de transporte.  

Ao mesmo tempo  adotou medidas para atenuar o impacto econômico, fomentando o teletrabalho, desestimulando as dispensas trabalhistas, prestando auxílio aos trabalhadores e aos pequenos e médios empresários utilizando modelos econômicos anteriores e também criando novos modelos e alternativas para o enfrentamento da crise. Além da manutenção dos serviços essenciais, a criação de novos leitos hospitalares e de terapia intensiva, a captação de serviços privados de saúde, a regulação dos preços e a compra de insumos médicos e de proteção individual passou a ser a preocupação central do governo.

Hospitais de campanha precisaram ser instalados, assim como necrotérios e para isso foram utilizados pavilhões de eventos e até uma famosa pista de gelo. Um programa de renda básica da cidadania já está em estudo para ampliar a rede de proteção social do país que, mesmo sem crise já conta com muitos tipos de ajudas sociais.  Um comitê científico e outros vários segmentos do governo além da Saúde, Defesa, Segurança e Economia comparecem diariamente para coletivas de imprensa direto do Palácio de La Moncloa, sede do governo espanhol e dali passam relatórios atualizados da evolução dos casos, mortes, pessoas recuperadas e sobre todas as providências e problemas que enfrentam no dia a dia da pandemia. E não foram poucos os problemas. A oposição muitas vezes acusou o governo de agir com improvisação, mas mesmo com críticas não deixaram de aprovar as ações que deveriam ser submetidas ao parlamento. 

Os ministros da Defesa e Segurança informam todas as movimentações dos efetivos civis e militares para o fiel cumprimento do Decreto de Estado de Alarma que vigora há mais de um mês. Essas coletivas estão abertas aos questionamentos dos jornalistas de  maneira virtual e ao vivo. A certa altura da epidemia começaram a proliferar atitudes de solidariedade por parte da sociedade e do empresariado. Alguns hotéis que ficaram ociosos pelo decreto do isolamento ofereceram suas dependências para abrigar pacientes menos graves ou para servir de hospedagem para que trabalhadores em saúde protegessem sua família. 

Uma rede de alimentação de rua, os chamados foodtrucks passaram a fornecer comida de graça para os trabalhadores de alguns hospitais da capital e muitas organizações não governamentais também passaram a arrecadar alimentos para fornecer às famílias mais vulneráveis. Em consequência dessa interlocução entre sociedade e governo, a população contribui, em sua maioria, de forma responsável e disciplinada fazendo a sua parte, assim como respeita e confia nas instituições e percebe o caráter solidário de sua conduta que vai além da preservação de sua própria saúde. Me sinto segura confinada aqui, sabendo que essas instituições estão empenhadas e envolvidas em tempo integral na defesa da saúde das pessoas sem interferências de assuntos menores ou alheios à pandemia.  A crise do coronavírus é a ordem do dia de todos os dias.

Quanto ao Brasil, vejo numa posição totalmente desprivilegiada e preocupante pelo absurdo e ineditismo do cenário atual do governo.  Segundo informações, o Brasil figura entre os quatro países do mundo em que seus governantes negam as estatísticas, desdenham dos fatos e minimizam a pandemia. Três deles são  os regimes totalitários da Nicarágua, Belarús e Turcomenistão.

O Brasil já foi palco de muitos infortúnios, mas hoje está particularmente envolvido num de seus piores momentos políticos e ainda exposto a um microrganismo pouco conhecido, sem vacina e sem tratamento eficaz que evite todas as mortes. Enquanto isso, povo e governo se metem num caldo de comportamentos diversos movidos por impulsos opinativos, geralmente burros, infames e simplistas num momento onde só caberia ouvir a sensatez e a lógica do conhecimento científico. 

O distanciamento social foi decretado na maioria dos Estados brasileiros, mas com adesão média de uns 50% da população, porque não há um mínimo de esforço coordenado e articulado entre os Estados, municípios e União. Não tenho conhecimento que haja um gabinete gestor da crise do coronavírus no governo central. Um presidente sem juízo nem competência ocupa-se com assuntos desconectados da realidade. Ele só trata de seus problemas pessoais e de suas pretensões eleitorais, enquanto demite ministros, que em seu delírio psicótico, poderiam interferir em suas ambições de permanência no poder. Poder e popularidade que estão sendo corroídos a cada dia.

A mídia brasileira cita corriqueiramente um tal gabinete do ódio e não tem veemência para cobrar que se instale urgentemente um gabinete humanizado para gerir a crise do coronavírus a nível central. É estarrecedor que se trate o ódio como algo trivial na condução de um governo e que esse gabinete se mantenha muito provavelmente com financiamento público.
O que se observa, enfim são os governadores dos Estados elaborando planos diversos, também sem muita adesão pela total desarmonia dos discursos e pela falta de um programa a nível central que pudesse convergir com os programas estaduais. 

O que se vê são só divergências, delírios e troca de insultos entre gestores e a presidência. Mais estarrecedor ainda que, em meio à pandemia, onde já foram contaminados no momento mais de 50 mil brasileiros, faleceram mais de 3 mil e há quase 60 dias do surgimento do primeiro caso, o presidente da República demite o ministro da saúde, um médico e toma para si a tarefa de recomendar e fazer propaganda de remédios, além de participar e incentivar aglomerações, manifestações de caráter notadamente ilegais e chamar a Covid-19 de gripezinha.

Aqui na Espanha já se iniciou a redução da curva de crescimento dos casos e o governo já prepara as medidas de desconfinamento que serão graduais. Nesse domingo, 26 de abril, já foi permitido que crianças até os 14 anos de idade pudessem sair a brincar até 1 km das cercanias de casa acompanhadas de um adulto por uma hora diária. Até a próxima semana, provavelmente serão liberados os adultos maiores de 60 anos para que possam fazer caminhadas. E assim vão encaminhando o país para voltar a uma normalidade que sabemos nunca mais será normal. 

Enquanto isso, o Brasil convivendo com essas duas graves crises,  aparece nos noticiários daqui como uma tragicomédia que ao mesmo tempo me preocupa e me envergonha. O governo brasileiro escancara sua incompetência, dando livre passagem para que se instale uma catástrofe. Quem presta atenção ao mundo sabe, mas parece que alguns brasileiros percebem como mundo um lugar que só chega até os limites de suas cidades e de suas visões estreitas.


domingo, 12 de abril de 2020

A Nau Brasileira dos Insensatos


Hyeronimus Bosch, 1500 Museu do Louvre
Enquanto o mundo todo assume a necessidade e adota o confinamento e o distanciamento social como um instrumento eficiente e de esforço coletivo para barrar a propagação do coronavírus, salvar vidas e evitar a agonia dos sistemas de saúde, no Brasil sucedem fatos curiosos que desorganizam, inquietam e escandalizam a mente dos mais sensatos e prudentes.
Alguns incautos foram às ruas nessa Semana Santa dos católicos, vejam só, para criticar e vociferar contra os governantes que impuseram a medida.  Milhões de pessoas estão sofrendo a difícil situação de confinamento e a imensa maioria tem consciência da grandeza de sua finalidade e a noção explícita de que a circunstância vivida tem por objetivo salvar vidas e proteger os milhares que estão numa linha de frente arriscando as suas próprias.
Eu só tenho perguntas a fazer, nenhuma resposta conclusiva e alguns pequenos palpites para explicar esse escandaloso e vergonhoso fato, cujo resto da população mundial se põe tão boquiaberta quanto eu.
Pergunta 1: O que leva um grupo de fanáticos  negar a Ciência em pleno século XXI?
Palpite 1: Falta de estudar Biologia e Matemática.
Pergunta 2: O que leva um grupo de extremistas defender e seguir um líder insano e perigoso?
Palpite 2: Falta de estudar Biologia, Matemática e História.
Pergunta 3: De onde vem a ideia de que o Brasil é diferente do resto do mundo? Essas pessoas sabem que existe um "resto do mundo"?
Palpite 3: Falta de estudar Geografia e História.
Pergunta 4: O que leva um grupo de supostos cristãos pedir "vida normal" e "liberdade de ir e vir" quando já foram afetados pela doença mais de um milhão e meio de pessoas e mais de cem mil já morreram no mundo?  
Palpite 4: Falta empatia, compreensão emocional e identificação com outras pessoas.
Pergunta 5: O que leva um grupo de raivosos negarem as notícias que chegam do mundo e repudiar o jornalismo, digamos profissional e oficial? 
Palpite 5: Me atrevo a dizer que o mesmo jornalismo que desinformou e incitou ódios num passado recente pela falta de informação de qualidade e imparcialidade, acrescentou o negacionismo aos alienados. A internet e a possibilidade do uso de mensagens instantâneas minaram o campo da informação com mentiras, enganações, teorias conspiratórias, ofensas e a exaltação de falsas sumidades. A falta de discernimento entre verdadeiro e falso confundiu algumas cabeças não afeitas ao exercício do raciocínio lógico e os transformou em opinativos contumazes.

No entanto, meus palpites, ao menos quanto à falta de estudo não procedem, porque até supostos estudiosos, acadêmicos e pessoas com curso universitário têm tido esse mesmo comportamento e pensamento atravessado. Supõe-se que tenham estudado noções básicas dessas matérias ao longo do período escolar. Supõe-se, mas o ato de estudar é o preparo para o saber, não o saber em si. Ao contrário, também conheço pessoas que com poucos anos de estudo, além de mentes abertas têm uma sabedoria adquirida com a vida por um anseio natural pelo conhecimento.
Lembro então da expressão "nau dos insensatos", uma antiga alegoria muito usada na cultura ocidental e nas artes, ela descreve o mundo e seus habitantes como uma nau, cujos passageiros perturbados nem sabem, nem se importam para onde estão indo.¹ Na verdade, a humanidade nunca soube mesmo para onde está indo, mas no correr desses fatos decorrentes da pandemia imagino que muitos estão começando a perceber e se importar, sim com o  rumo que a humanidade tomará depois de passada a tempestade.
Voltando ao caso brasileiro, vejo esses passageiros serem portadores de alienação aliada à ignorância como a causa dessa perturbação. Mas o que é ignorância? Num sentido filosófico existem dois tipos. A ignorância sábia é aquela de quem sabe que não sabe. E existe a ignorância profunda, aquela que não sabe que não sabe.
Nem vou falar da ignorância sábia, pode parecer altivez e arrogância, embora minhas convicções  me dizem que como Sócrates, " eu sei que nada sei". Vou me ater à ignorância profunda que é aquele estado de desconhecimento profundo da realidade dos fatos e do saber científico que em alguns manifesta-se muitas vezes numa forma até desprezível de agir e de ser. Já percebi que quanto mais profunda a ignorância, mais agressivos se mostram esses ignorantes, justamente pela incapacidade de entender.
A alienação pode ser uma forma de loucura e insanidade mental, termo usado na medicina antiga,  mas pode ser também um distanciamento da realidade motivado pela ignorância consciente ou inconsciente dos fatos. Além disso, pode se constituir também num grande projeto de não-educação orquestrado por um sistema instrumentado invisível às democracias. Mas cá estou eu caindo numa teoria conspiratória da qual talvez eu tenha escapado. O porquê, não sei, mas a mim não me foi sequestrada a capacidade de pensar.
Enfim, com muitas perguntas sem resposta eu vejo a nau dos insensatos brasileira repleta de alienados e/ou ignorantes que além de envergonhar o seu povo, serão os responsáveis pela perda de muitas vidas humanas que com pequeno esforço de entendimento, empatia e dedicação poderiam ser salvas.
Uma grande pena o Brasil estar sendo protagonista de mais esse infame episódio que ficará na história como mais um subproduto da eleição de um fanático. Mas esse é outro assunto.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

A pandemia e o paquiderme



O mundo vive uma calamidade, a pandemia da Covid-19 provocada por um coronavírus que infectou um ser humano pela primeira vez em dezembro de 2019 na província de Wuhan na China. Existem algumas hipóteses que o comércio de animais silvestres vivos e mortos nesse país esteja relacionado com a infecção pelo microrganismo em um ser humano, mas não há nada conclusivo ainda.

Desde o primeiro contágio já foram contaminadas quase um milhão e meio de pessoas e quase cem mil já morreram no mundo inteiro. É a primeira grande pandemia do século XXI de um vírus relativamente desconhecido e ainda não houve tempo hábil para que os cientistas  desenvolvessem uma vacina para prevenir a doença, como temos para a grande maioria das doenças infecciosas, nem um tratamento eficaz que evite a morte de todas pessoas contaminadas, embora a letalidade da doença não seja alta e centenas de pessoas já se recuperaram.

A Espanha é o segundo país mais afetado no mundo com a cifra de 150 mil casos no momento e o governo sob a orientação da Organização Mundial da Saúde e seus técnicos, decretou “Estado de Alarma” desde o dia 15 de março impondo o isolamento social horizontal. O decreto colocou toda a população em confinamento como forma de evitar a propagação do vírus, proteger as pessoas mais vulneráveis, os idosos e portadores de doenças crônicas, assim evitando o colapso da Unidades de Terapia Intensiva para onde vão os casos mais graves, porque a doença afeta o sistema respiratório. O decreto do governo espanhol é audacioso e corajoso. É um verdadeiro “lockdown”, termo em inglês que significa que as pessoas não têm autorização para sair de suas casas ou de um determinado espaço por causa de uma situação de emergência.

As autoridades sanitárias do país passam boletins diários pela televisão para manter a população informada e todos os ministérios estão envolvidos nesse esforço, articulados e coordenados para promover a solução dos problemas gerados pelo isolamento e gerir a epidemia propriamente dita.

A Espanha, com um dos melhores sistema públicos de saúde da Europa, relutou no começo da epidemia, como fez a Itália, em determinar o isolamento social temendo o impacto na economia. Mas de maneira firme, corajosa, com inteligência e norteada pela ciência vem manejando a crise e logo poderá ver o sucesso das medidas se tornarem uma realidade, quando diminuir a curva de contágios e a epidemia finalmente estiver controlada.

O medicamento hidroxicloroquina jamais foi citado pelas comunidades científicas da Espanha, da China, da França ou da Itália como uma terapia que tivesse apresentado resultados absolutamente favoráveis em algum paciente em seus territórios. Se houve experimentos ou não, eles têm a responsabilidade e a ética de manter em sigilo seu uso.  Se acaso o uso do medicamento tivesse tido sucesso, eles teriam a mesma ética e responsabilidade de informar à comunidade científica internacional.

O Brasil, nesse momento passa pela fase em que se encontrava a Espanha em fevereiro, quando os casos ainda não tinham explodido em progressão geométrica e a população não tinha consciência do que viria, embora já com medidas de confinamento em andamento.
Agora, infelizmente, está seguindo um rumo perigoso. Embora muitos Estados e cidades decretaram estados de emergência, os meios de comunicação estejam orientando relativamente bem as pessoas para permanecer em casa e cumprir as normas de prevenção, muitas pessoas não estão conscientes da gravidade do problema. Pelos estudos de especialistas, a explosão de casos no Brasil virá nos meses de maio e junho e atingirá em cheio as camadas mais pobres da população pela precariedade de moradia, das condições alimentares e de saúde.

Para piorar a situação, o Brasil tem um governo central incoerente, inepto, desarticulado, desarmônico, alheio à realidade, não respeita as necessidades do povo, desdenha das leis de proteção social, ocupa-se de questões eleitorais e ideológicas e não tem um plano de medidas sistemáticas e fundamentadas para enfrentar essa grave crise da humanidade.

Para piorar ainda mais o drama brasileiro, está um paquiderme dentro da sala da presidência da República que toda vez que se move quebra uma regra constitucional e desonra a Nação com pronunciamentos vexaminosos. Além de apresentar sérios problemas cognitivos e de sanidade mental, o paquiderme está sob a orientação de pessoas de caráter duvidoso e de zero conhecimento científico. Esses baseiam-se em estudos não conclusivos, mentiras e pseudoteorias desenvolvidas por fanáticos que frequentam os nichos mais obscuros da internet. Além disso, o paquiderme esforça-se em críticas e maledicências contra quem está tentando tomar atitudes corretas. 

Nessa direção equivocada, o monstro do Planalto invade competências alheias, contraria as instituições públicas e humilha profissionais de saúde, recomendando o uso de um medicamento que não tem comprovação científica nem para curar nem para prevenir a Covid-19. Essa é uma atitude totalmente irresponsável que pode prejudicar pessoas com outras enfermidades que necessitam do medicamento e que fazem seu uso correto. Os preços podem aumentar pelo aumento da demanda incentivada pela propaganda enganosa ou provocar uma desenfreada procura no mercado negro. Isso tudo é muito perigoso para o conjunto da população e com consequências que podem ser hoje inimagináveis e imensuráveis.

Sendo testemunha do que está acontecendo na Espanha e diante desse caos que avisto no panorama brasileiro, peço encarecidamente aos sensatos, prudentes e equilibrados que se ajudem para melhorar e fortalecer o isolamento social.  Mantenham sob proteção e vigilância os idosos e as crianças. Quem pode, permaneça em casa e só saia para as compras essenciais protegendo-se com luvas e/ou máscaras. Tentem passar essa fase de um jeito mais criativo e otimista possível. Não é fácil e para alguns será muito difícil, mas vale a pena, vale a vida. 
Sem mais, peço desculpas aos elefantes.








Insônia