domingo, 26 de julho de 2020

Puxando memórias I

Porto Alegre Anos 60
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O apartamento

Uma das mais nítidas lembranças da infância, eu não teria mais que cinco anos é o quarto onde dormia. Lembro da cama junto à janela, a cama de meus pais e no outro extremo o berço de minha irmã mais nova, enquanto éramos só nós quatro. Durante a noite percebia a iluminação da rua entrando pelas frestas da veneziana fechada, enquanto escutava o ruído de algum carro zunindo no asfalto, passando longe no meio da madrugada. Até hoje quando ouço um barulho assim me ajuda a dormir. A sensação é reconfortante, assim como ouvir grilos ou sapos na noite quando se vive no interior. Morávamos num apartamento de um pequeno sobrado de dois pavimentos com uma vizinhança muito amigável entre conhecidos e parentes. 

O apartamento tinha dois quartos, uma sala pequena, banheiro, cozinha e um corredor. O piso era de parquet de cor clara— termo francês usado no Brasil para designar peças de madeira acopladas. A cozinha tinha um ladrilho acinzentado imitando pedra, paredes revestidas de azulejos brancos, iguais em piso e parede também num banheiro de louças claras. Lembro quase nada dos móveis e utensílios dessa cozinha, não saberia descrevê-los. Uma janela basculante de vidro e uma porta na cozinha davam para uma área de serviço. Ali tínhamos a vista de parte da cidade de Porto Alegre, o Morro da Polícia como era chamado o Morro da Embratel com as antenas de televisão e as estações de rádio lá para os lados dos bairros Teresópolis e Glória. 

O apartamento

O Morro do Caracol

Eu ouvia os adultos chamarem nosso bairro de Morro, pois era localizado numa zona alta e com muitas ladeiras. Outros chamavam de Caracol, pois a conformação das ruas era de muitas curvas fechadas que desciam ou subiam num ziguezague de caminhos asfaltados. Talvez o nome original —provindo de uma Porto Alegre mais antiga— fosse Morro do Caracol e depois na linguagem coloquial foi reduzido. O certo é que aquele local ficava entre os bairros Rio Branco e Bela Vista de hoje.

A cada curva as ruas pareciam mudar de nome, mas não tenho certeza que fosse assim. Esse tipo de urbanização transpassava também por bairros mais acima, onde havia lindas construções cada vez maiores e mais ostentosas conforme alcançava o topo daquela elevação de terreno. Tanto na zona nobre quanto na popular daquele entorno não havia edifícios muito altos como já havia no centro da cidade. Ambas eram zonas residenciais, a primeira com muitos palacetes e grandes sobrados símbolos da arquitetura daquela época e no nosso bairro—mais popular— havia desde pequenos sobrados até casas baixas de alvenaria ou de madeira com calçadas bem postas e ruas arborizadas. 

Eu ainda não saía sozinha, só lembro de brincar na escadaria do prédio junto com outras meninas que viviam no mesmo sobrado ou na mesma rua, mas minha mãe me deixou uma vez comprar balas no pequeno armazém que havia ali. Com o dinheiro enrolado na mão fui até o armazém do Seu Décio, figura conhecida de todo o Morro. 

Lembro de reuniões familiares na cozinha desse apartamento, conversas soltas de adultos que a mim não faziam sentido. Lembro de minha irmã pequena no banheiro sentada num pequeno urinol com as perninhas tapadas por uma manta de bebê. No corredor, havia um móvel branco de duas portas e gavetões onde guardávamos os brinquedos. Meus favoritos eram um coelho preto com olhos bordados de vermelho e a boneca Sissi, muito loira, mexia as pálpebras com grandes pestanas e olhos azuis. 

Um dia me feri no rosto na altura do osso zigomático num canto da gaveta desse armário e me levaram ao hospital para dar pontos. Ali enrolaram todo o meu corpo numas faixas brancas para não me debater durante o procedimento. A tortura maior foi exatamente essa, ter sido amarrada, pois não senti absolutamente nada quando me costuraram. 

Na casa de uma tia que morava na mesma rua havia uma televisão novinha e íamos ali, minha irmã e eu, ansiosas por assistir desenhos animados. Porém, naquela época estava em curso a Campanha da Legalidade, movimento político antes do golpe militar de 1964, quando os políticos ocupavam os canais de televisão—que ainda eram escassos—para difundir os acontecimentos que estavam em curso. Esperávamos em vão para assistir Zé Colméia, Bob Pai, Bibo Filho ou Gasparzinho. Mais adiante quando já tínhamos nossa própria TV gostava de assistir A Feiticeira, Perdidos do Espaço, Os Flintstones, Viagem ao Fundo do Mar ou Batman. Também era tempo das séries Bonanza e O Fugitivo que toda a família assistia.  A maioria eram produções americanas e ainda em preto e banco. 

Uns anos depois, quando meu pai tinha uma camionete Kombi, a primeira de umas três, costumávamos fazer o trajeto de subir e descer o Morro quando íamos para Canoas ou São Leopoldo onde moravam outros tios e primos. Às vezes saíamos de passeio aos domingos para almoçar em algum restaurante tomando a BR-116 em direção à Serra Gaúcha. Lembro também de passear no Parque da Redenção, andar de balanço, rodar no carrossel e comer algodão doce. Algumas vezes íamos ao cinema Atlas ou no Rio Branco —ou seria Ritz?— com uma prima mais velha e assistimos clássicos como Branca de Neve e os Sete Anões, Pinóquio, Mary Poppins, Se Meu Fusca Falasse e Deu a Louca no Mundo.

Uma das curvas do Caracol e o sobrado em verde

A Casa do Bar 

Quando completei sete anos fui para a escola primária e já havíamos mudado para outra rua, não muito longe do apartamento. Ali meu pai deixou de trabalhar como taxista e se estabeleceu com um comércio de bar e armazém. Seria como uma mercearia hoje, pois vendia desde frutas, verduras, alimentos secos, balas, confeitaria, lanches, cigarros e bebidas. Inclusive servia bebidas no balcão. Lembro dos clientes bebendo nos copinhos de aperitivo à tardinha, em pé em frente a um grande balcão de granito. Havia uma geladeira industrial com quatro portas e puxadores enormes onde se estocavam as bebidas e que fazia um barulho inconfundível de liga-desliga percebido bastante durante a noite. 

Às vezes escutava discussões acaloradas que hoje, presumo, versavam sobre política e me impressionou uma vez a fala de uma senhora conhecida como Dona Mirta. Vaticinava ela que, num futuro—não sei se próximo ou distante— só comeríamos capim ou só teríamos capim para comer, algo assim. Certamente o mau agouro da vizinha se referia às políticas salariais, ao desemprego ou um suposto caos na agricultura. Bem, já se passaram mais de cinquenta anos e felizmente o capim não entrou na nossa dieta, ao contrário, a produção e oferta de alimentos teve grande desenvolvimento, embora o flagelo da fome ainda não tenha sido superado, tampouco a luta por justiça social.

A casa nova era de madeira pintada de verde-escuro e janelas marrons acoplada a uma construção de alvenaria onde estava instalada a mercearia. Ficava na esquina das ruas Amélia Teles e Lavras e havia um pátio grande onde brincávamos. Tivemos um cachorro que diziam ser policial, mas acho que era um pobre vira-lata que vivia preso na coleira e chamávamos Lobo. Não éramos incentivadas a interagir com ele, pois os cães naquela época eram usados como vigias e passou muito tempo para que eu entendesse que são seres amigáveis. Também havia uma gata amarela que teve filhotes atrás de uma cama-estante num dos quartos, mas não tenho ideia do que foi feito deles. Nessa casa e em outras ocasiões até a adolescência lembro de alguns episódios  de sonambulismo que desenvolvi em criança. Acordava noutro lugar, em pé ou caminhando, mas acho que isso acontecia só quando tinha febre. 

Tenho ótimas lembranças da casa do bar, ali cresci e vi nascer mais uma irmã e um irmão. Ali também passamos Natais e Páscoas muito divertidos reunidos com a família, tios e primos. Lembro de uma árvore de Natal muito alta e cheia de enfeites num canto da sala. Confeccionávamos os ninhos de Páscoa com caixas de sapato, forradas com papel de seda colorido e os enfileirava na mesa da sala para no domingo de manhã encontrá-los cheios de ovos de açúcar e bombons. 

Lembro de estudar no chão da sala, com os livros e cadernos espalhados no assoalho de tábuas vermelhas que minha mãe encerava e nos mandava lustrar com panos de lã. Às vezes eu também fazia as lições na mesa da cozinha, um cômodo muito claro e agradável, enquanto comia bolacha Maria que pegava numa lata grande onde meu pai as estocava para vender a granel. 

Naquela época não era comum os pais ditarem restrições alimentares quanto à doces, refrigerantes etc. Só lembro de uma regra imposta por minha mãe—que sigo até hoje— que não era permitido comer doces antes das principais refeições. Fora isso, eu adorava as guloseimas da época, bala de banana, bombom Beijo de Moça e Beijo Africano, rapadura de amendoim, chiclete Ping-Pong, picolé de chocolate, guaraná e refresco de framboesa. Mas mesmo tudo estando à disposição, não comia nada sem pedir. 

Esquina Avenida Lavras com Rua Amélia Teles onde antes existia a casa do bar


A Escola

A Escola Primária ficava a pouco mais de um quilômetro a pé, mas eu ia de ônibus pois havia a linha do Bela Vista que passava justo em frente de casa e largava em frente à escola. Chamava-se Grupo Escolar Dona Leopoldina, por acaso, um personagem histórico que aprendi a respeitar e uma das mais bonitas biografias que li. O prédio era antigo, mobiliário velho, escuro e mal conservado. Os banheiros cheiravam mal, as torneiras não funcionavam e escorria água e de tudo mais pelo chão.

Na volta do primeiro dia de aula da primeira série tive uma queda estúpida em frente de casa, onde havia um desnível da calçada, o que causou uma fratura em meu braço esquerdo. Estive engessada por um tempo, mas fui às aulas normalmente. A professora só não me deixava subir nos brinquedos na hora do recreio. Lembro um dia dela me recolher lá de cima do escorregador. Dona Solange era uma senhora gordinha, baixa e afável, usava muito uma saia azul-claro pregueada e pintava os lábios com batom vermelho que muitas vezes manchava seus dentes. Tinha uma letra de forma linda que eu procurava imitar e me alfabetizei rapidamente com ela.

Na escola havia um gabinete dentário e às vezes nos mandavam ali para revisar os dentes, mas a doutora era uma senhora sem paciência e mal-humorada. Usava o cabelo curto muito preto, cheio de líquido fixador— o famoso laquê— que parecia uma juba negra. Felizmente, nem tudo eram visitas ao dentista, pois também tínhamos aulas de música, participava de uma bandinha escolar, fazia educação física e de vez em quando saíamos de excursão. Uma vez fomos à Tramandaí e molhei os pés no mar, outro dia no Jardim Zoológico, vi uma girafa pela primeira vez na vida ou ainda saíamos a ver exposições por Porto Alegre. 

Nessa época as escolas adotavam uniformes e usávamos umas batas brancas cheias de pregas com um laço de fita azul no pescoço. Os meninos, ao invés do laço, usavam uma pequena gravata. Quando estava mais velha voltava à pé para casa na companhia de colegas, descendo devagar e despreocupada pelas ruas Carazinho e Lavras até chegar em casa.

No último ano que estive ali, a escola foi transladada para um prédio novinho em folha. Lembro de um cheiro suave de tinta fresca, da claridade e limpeza das salas de aula. As classes e bancos de madeira escura e formais, rabiscados e sujos do prédio antigo foram substituídos por mesas individuais e cadeiras de fórmica verde-clara.  O pátio era enorme, limpo e coberto.

Escola Florinda Tubino Sampaio, ex- G.E. Dona Leopoldina na Rua Montenegro, prédio reconstruído

Por infortúnios e circunstâncias alheias à vontade de uma criança só vivi até os doze anos em Porto Alegre, mas a cidade e esses lugares ficaram marcados para sempre deixando em minha memória uma infância feliz e protegida. Justamente nessa época, quando terminava o curso primário, um acidente veio para mudar os rumos e os planos da família que escolheu deixar a capital e voltar para o interior de onde meus pais tinham vindo. Isso coincidiu também com o final dos anos sessenta. 


terça-feira, 14 de julho de 2020

A Educação que não floresceu


"As administrações petistas ampliaram expressivamente as verbas do MEC, em particular com a criação de estabelecimentos e a contratação de professores e funcionários. A dispendiosa expansão, contudo, não se fez acompanhar das devidas preocupações com a qualidade do aprendizado.(Editorial da Folha de São Paulo, 29 de junho de 2020)

Esta observação vem em editorial da Folha de São Paulo cobrando um Ministério da Educação mais qualificado, idôneo, eficiente e programático depois da pasta passar mais de um ano no mais profundo desastre sob o comando de dois ministros absolutamente desqualificados, mais afeitos a destruir que construir e a impor suas incapacidades, inépcias e grosserias como política de Estado. 

Nas últimas semanas surgiu um terceiro candidato ao cargo, mas que vergonhosamente ficou às voltas tentando provar que seu currículo não estava "adornado" com doutorados, pós doutorados e docências refutadas por todas as instituições citadas. Agora acaba de assumir um quarto ministro e ao que parece é mais do mesmo e o atraso, o reacionarismo e a inatividade seguirão.

Nesses tempos, infelizmente não podemos esperar nada auspicioso. Vemos as mesmas atitudes de sempre por parte de um governo que subestima o conhecimento e a ciência, que carece de experiência básica em administração pública, além do desapreço e desleixo com as instituições quanto à escolha de bons nomes na composição de seus quadros. O que prolifera são cabeças medíocres, autoritárias, reacionárias, ameaçadoras, delirantes e totalmente ignorantes do potencial da Educação e do ato de educar para o crescimento de um povo.
 
Voltando ao editorial da Folha, penso e escrevo como leiga no assunto. Percebo muitas deficiências na formação, contratação e processos de avaliação de professores e o quanto faltou aos governos anteriores revisar conteúdos programáticos e investir em qualidade. Concordo que se fazia necessário num primeiro momento a criação de estabelecimentos e contratação de pessoal para suprir a demanda da inclusão a que se propunham como relata o editorial. Por outro lado, creio que houve desatenção à qualificação profissional e devida revisão curricular, principalmente no ensino médio, mas que justamente são atribuições dos governos estaduais com posições político-ideológicas e prioridades as mais divergentes. 

Além disso, com o intuito de suprir deficiências históricas no Ensino Superior não tenho dúvidas que o foco maior foi a criação de mais vagas em cursos e pólos de ensino públicos e alocação de privados através do PROUNI. Segundo o Ministério da Educação, de 2003 a 2010 houve um aumento de 45 para 59 as universidades federais. ¹

Os retrocessos aos quais o país está submetido na atualidade, o crescimento de ideias e de grupos com tendências fascistas, o encantamento de parte da população com militarismos e ditaduras, as crenças infundadas de grupos e pessoas manipuladas por extremismos, a influência de igrejas e grupos religiosos no poder me parece estar bastante vinculados a um insucesso histórico, para não falar em falência da Educação brasileira. 

No mínimo foram muitas as omissões e lacunas que deveriam começar a ser repensadas se o país tivesse interesse em consolidar-se como uma democracia moderna e com cidadãos orgulhosos e cientes da verdadeira acepção da palavra, mas que muitos professores foram incapazes de aprender e obviamente não souberam ensinar.

Lembro que há pouco tempo se discutia a exclusão ou a não obrigatoriedade das matérias de Sociologia, Filosofia, Artes e Idiomas no currículo escolar e já antevia o descaso com temas que, segundo alguns, não agregava valor ao conhecimento de quem optaria por seguir carreiras em áreas biológicas ou tecnológicas. Esse viés ideológico a meu ver é simplista e rasteiro, porque nega aos jovens a pluralidade do conhecimento, a livre escolha e o exercício de suas habilidades e vocações.

Ao invés de excluir seria interessante incluir temas que dessem ao indivíduo condições para exercer plena cidadania o que incluiria conhecimentos básicos dos direitos e deveres do cidadão, do direito e da necessidade da participação popular na escolha das políticas de Estado, não só nas eleições escolhendo representantes. A busca pela transparência dos atos do governo deveria ser constante até chegarmos a um modelo ideal de Igualdade, Equidade, Justiça e Democracia se é que esses valores existem em plenitude. 

Dentro deste mesmo tema seria interessante incluir conhecimentos básicos da Constituição Brasileira, como se organizam os poderes, em que valores democráticos e humanos está baseada e um conhecimento mínimo do funcionamento da máquina estatal. Com isso a população teria condições de garantir essa transparência através de uma permanente fiscalização, como incipientemente já existem mecanismos para isso, porém minimamente conhecidos e pouco exercidos.

O ensino da Língua Portuguesa me parece muito aquém da qualidade que tinha nas décadas de 70 e 80, incrivelmente anos de ditadura e pré-constituição de 88.  Tenho informações que muitos professores cometem hoje os mais básicos erros de redação, ortografia e gramática, obrigando muitas vezes os pais a corrigirem os professores nos deveres dos  filhos. Isso é inaceitável e desalentador, pois gera constrangimento entre as partes, possíveis represálias entre professor e aluno e insegurança no estudante. Seguramente existem ferramentas de avaliação de desempenho que as escolas podem lançar mão, detectar estas falhas e promover reciclagens nesse aspecto.

O ensino de História não poderia dar espaço a revisionismos baratos, à distorção de fatos, ao rebaixamento ou enaltecimento de vultos históricos ao bel-prazer de indivíduos ou tratar superficialmente acontecimentos relevantes do processo histórico mundial. Temos tido oportunidade de perceber essas situações pelos discursos de alguns crédulos de teorias facebookianas e de youtubers pouco estudiosos. Edmund Burke (1729-1797), pensador irlandês escreveu que "o povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la" é uma reflexão das mais verdadeiras. 

As origens de nossa terra, língua e povo devem ser ensinadas e valorizadas assim como a diversidade étnica-cultural da humanidade. É inaceitável, no entanto que teorias etnocêntricas e preconceituosas façam do lugar e do modo como vivemos o melhor e o mais correto, portanto "os outros" e seus costumes e crenças devem ser combatidos, ridicularizados ou ignorados.

O incentivo e estímulo à leitura é parte integrante da vida escolar, mas provavelmente muitos professores apenas leem romances e folhetins. Não tenho nada contra romances, mas infelizmente alguns educadores em sua incapacidade de entender Paulo Freire, optam pela vergonha de desprestigiar e depreciar um dos maiores nomes da Educação Brasileira e do mundo. Da mesma forma, muitos sequer valorizam o Sistema Público de Educação o qual estão inseridos com a mesma intensidade com que são desvalorizados por governantes e pela sociedade. É uma mútua relação histórica. É nesse ponto que a Educação entra em falência, quando a mediocridade e as visões estreitas são permitidas. 

E muito antes de falar numa política salarial condizente, plano de carreira e aperfeiçoamentos constantes e imprescindíveis para o exercício do educador, teríamos que ter em conta o talento natural dessas pessoas para a tarefa, desenvolvendo mecanismos de contratação voltados para além do conhecimento técnico, mas para a valorização e lapidação dessas vocações desde a Universidade até o exercício  profissional.

Perseguir o exemplo da Finlândia e dos países nórdicos onde o professor está no topo das carreiras mais escolhidas, pois são os profissionais mais valorizados e respeitados tanto pela classe política como pela sociedade, seria pedir demais à sociedade brasileira destroçada pela ignorância e pelo desdém ao conhecimento e à Educação. Um dia, talvez...

Aos meus amigos professores peço perdão pelos achismos, simplificações e opiniões não fundamentadas ou infundadas, o que trago aqui são somente leituras e observações do cotidiano.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Bolsonaro, até quando?


Muito antes de começar a campanha eleitoral de 2018, quando somente uma possível candidatura de Jair Bolsonaro tomava forma, eu comentava que os que na época já se alinhavam com essa possibilidade não o faziam por simples opinião, ponto de vista, convicção ou ideologia política. Era uma questão de caráter e de afinidade. Perdi algumas amizades por essa afirmação e porque não via a mais remota possibilidade de alguém tornar-se um estadista respeitado e preparado depois de ouvi-lo pronunciar aquelas barbaridades na fatídica noite da votação do impeachment da ex-Presidente Dilma Rousseff. Antes e depois daquela afirmação foram muitas e muitas outras, mas foi ali que conheci esse senhor e a mais asquerosa e escarnecedora face do povo brasileiro ali representado naquele palco de horrores instalado no Congresso Nacional naquela noite.

Uns dias depois da posse do recém-eleito presidente do Brasil, mais precisamente dia 05 janeiro de 2019, assisti um programa da Televisão Espanhola RTVE chamado Informe Semanal com o título de Giro Extremo. O programa analisava a eleição brasileira, mostrava cenas da posse e entrevistava apoiadores e adversários. Num dado momento, um senhor apresentado como professor de Ciência Política de uma Universidade de Brasília, indagado pelo repórter sobre a personalidade do novo presidente, diz:  As instituições estão funcionando bem, portanto Bolsonaro vai ter que entrar num figurino, num marco institucional e se comportar de uma maneira mais tranquila e moderada. O dito professor dizia essa frase, enquanto fazia o gesto de um quadro com as mãos, ou seja, ele percebia a necessidade do presidente enquadrar-se

Atualmente essa afirmação soaria como piada, não fosse o cerne de toda a tragédia brasileira que instalou-se desde então. Gostaria de saber o que esse professor diria hoje de sua tão confiante assertiva da época. Eu discordei veementemente dessa fala, porque além de duvidar do alinhamento do presidente frente às instituições, eu percebia que desde 2015 estas já não funcionavam bem, quando o Ministério Público e Polícia Federal já operavam num sistema de exceção e cometiam graves violações à Constituição Federal como já veio à público no caso da Operação Lava Jato. 

Pois, como foi possível comprovar ao longo dos meses, o senhor presidente não só não se moldou como sistematicamente extrapolou todas as possibilidades de  enquadrar-se às instituições democráticas. Não fosse as instâncias superiores da Justiça, de parte do Congresso e parte da imprensa mais judiciosos, estaríamos mergulhados na maior anarquia capitalista da história, onde as desregulamentações seriam a medula do governo, onde cada um faria o que quisesse e o Deus deles que fizesse por todos. Todos, no caso, são somente parte dos brasileiros que ainda o apoiam e para os quais ele governa.  

Bolsonaro e sua família são os típicos liberais que pregam o Estado mínimo para o povo, mas que se beneficiaram toda uma vida do Estado máximo através dos orçamentos tanto do Exército como do Poder Legislativo.  Agora, pouco mais de um ano de mandato e em meio à pandemia do coronavírus o Fora Bolsonaro vem tomando forma, mas ao contrário de 2016 me parece ainda distante que o fisiologismo e clientelismo do Congresso Nacional cedam a essa pauta. É certo que já somam quase cinquenta  pedidos de afastamento do presidente que estão com a Presidência do Parlamento que a meu ver espera o momento mais propício, segundo informações, para colocar o assunto em debate, ainda que os bastidores possam estar nesse movimento, mesmo timidamente.

Ao aderir ao Fora Bolsonaro, em hipótese alguma devemos enjeitar o devido processo legal e as ferramentas que a Constituição Federal dispõe para que uma eleição democrática seja questionada e impedida com base na lei. Todas as razões jurídicas estão dadas hoje e são incomparáveis com as de 2016 quando depuseram uma Presidente íntegra. Hoje enfileiram-se crimes de responsabilidade, de improbidade administrativa e inclusive crimes comuns. O maior crime configura-se indubitavelmente contra a saúde pública pela negação, inércia e desprezo governamental pela pandemia da Covid-19, o que espero que no futuro todos sejam responsabilizados diante de um Tribunal Internacional. 

Agora mesmo faltam só as razões políticas que o golpismo, o antipetismo e o oportunismo de alguns políticos, empresários, dos ricos e também de falsos ricos que não querem abrir mão, tampouco reconsiderar e repensar sobre o grave erro cometido ao dar apoio a essa desgraçada aventura chamada bolsonarismo.

Seriam somente três as vias legais para afastar um presidente da República: sua própria renúncia, o impeachment ou a cassação da chapa. Talvez ainda haveria uma quarta via, o afastamento por incapacidade psicológica/psiquiátrica. Mas não estou segura.

renúncia, a meu ver está fora de cogitação pela personalidade sociopata de Bolsonaro, que se alimenta de delírios e teorias absurdas, vive numa bolha influenciado por gurus destrambelhados, por uma turba de apoiadores e familiares iguais de patológicos e/ou marginais incapazes de enxergar seus delitos e leviandades diárias. 

A cassação da chapa da eleição de 2018 por conta do inquérito das fake news me parece também bastante improvável, mesmo com um conjunto de provas robustas, salvo que haja uma iluminação inédita na cabeça dos juízes. Na maioria das vezes eles devem estar habituados a condutas comedidas, quando possíveis abalos sísmicos nas estruturas do Estado ficarem ligados a seus nomes.  

Resta a terceira, a via do impeachment, que já comentei, ainda vejo longe no horizonte por conta de características infelizes de metade dos congressistas, afeitos a negociatas e associações espúrias. São necessários 342 votos para que se inicie o processo e muitos creem que não haveria legitimidade uma votação dessa natureza acontecer de maneira remota agora na pandemia.

O que é certo, sim é que o Fora Bolsonaro precisa ganhar mais força e ecoar cada vez mais alto para que chegue aos ouvidos de um Congresso que se ponha a olhar mais para as necessidades do conjunto da população e menos para seus próprios negócios, que seja consciente que logo terá que correr atrás de votos e que o apoio popular do presidente já vem caindo. 

Não podemos esquecer também que se acontecer o impeachment virá um vice-presidente que também precisará ser enfrentado, enfim que a luta é árdua e a recompensa pode vir, mas só em 2022. Enquanto isso, espero que aos que têm olhos para ver esse Brasil destruído, isso tudo sirva de lição.


Insônia