quarta-feira, 28 de junho de 2023

Uma vez fui viajar



Isla de Arousa, Galicia, arquivo pessoal


"Uma vez fui viajar e não voltei", li na página da minha querida, aventureira e
intrépida amiga @gabriscarvalho_ a quem eu devo horas de consolo. Lembrei que como ela, uma vez eu peguei um avião, fui e voltei várias vezes e nunca mais fui a mesma. Se estou melhor ou pior, eu não sei. Diferente, totalmente. Cruzei um oceano várias vezes, de lá para cá e de cá para lá. Andei quilômetros por terra, água, asfalto, trilhos, pontes e túneis.  Cruzei cidades, praias e montanhas. Senti frio e calor extremos. Entrei em mares gelados de praias repletas de conchas e areia branquíssima. Também vi o mar em fúria batendo nas rochas em dias de ventania. Conheci olivais, bosques de sequoias, campos de girassóis, vinhedos, carvalhos coloridos no outono e observei o fundo do mar em passeios de barco. Aprendi muita história, geografia, um segundo idioma e sobre culturas diversas acabando de vez com etnocentrismos e preconceitos que nem percebia que carregava. Senti fomes da comida de minha terra, senti falta de meu idioma, mas me adaptei às comidas, às falas e às gentes por onde passei. Cada vez que o avião pousava de volta, sentia que já estava em casa. Minha casa agora se estende desde Roraima ao Rio Grande do Sul, do Acre à Paraíba, onde se localizam os quatro pontos extremos do Brasil. Entabulei conversas com inúmeras pessoas nas diversas conexões e nas longas esperas nos aeroportos. Os viajantes ora estavam alegres e esperançosos, loucos por ver terras novas, ora estavam tristes, curtindo a saudade de tudo que haviam deixado. A primeira lição aprendida é que longe pode ser o medo, a falta de dinheiro ou a acomodação, mas definitivamente é um lugar que não existe.  A segunda é que quando botas o pé na estrada, não consegues mais parar de andar. Agradeço ter encontrado há exatos 10 anos a @perezchapela, meu companheiro de andanças e de sonhos infelizmente interrompidos. Se o universo conspira, que volte a conspirar. Quem sabe um dia retomemos nossa jornada juntos. Por ora, espero ter saúde para seguir andando, retribuir com meus olhos e dedicar a ele todas as próximas viagens. Arriba, América!




terça-feira, 27 de junho de 2023

Um café e um pequeno cosmo

                                                        

Imagem: Pixabay


Sento na cafeteria e peço um cappuccino. O espaço é pequeno, mas há uma mesa vazia junto à vidraça — o melhor lugar. Dali posso observar tanto o movimento na rua quanto dentro do local. Vejo quem chega, quem sai. Quase sempre em duplas: mulheres com mulheres, homens com homens, ou pequenos grupos femininos.

Sou uma pessoa de mente aberta, mas ainda enxergo o mundo sob a lente binária de gêneros: masculino e feminino. Reconheço que isso faz de mim mais próxima da regra do que da exceção. Acolho as questões identitárias e respeito a diversidade LGBTQIA+, procuro aprender com os estudos sociais e comportamentais. Ainda assim, admito: sou conservadora no aspecto das aparências. Distingo as pessoas pelas expressões visuais do gênero — biológico ou sugerido pelo vestuário. E não consigo, por ora, usar linguagem neutra em meus escritos, muito menos na fala. Talvez um dia — quem sabe daqui a muitos anos —, pois a língua é viva, e tudo muda.

Todas as duplas parecem, à sua maneira, formar casais. Duas moças entram; uma carrega um cachorrinho no colo. Talvez também sejam um casal. Observo. E me chama a atenção outro traço desse tempo: animais em estabelecimentos. Até pouco tempo atrás, isso seria inadmissível.

Sorrio por dentro ao pensar, de forma talvez absurda, que se a continuidade da humanidade dependesse apenas das pessoas ali ao meu redor, talvez ela estivesse ameaçada. Ou não — talvez surjam mais bancos de esperma, de óvulos, talvez o desejo de ter filhos reapareça em outras formas. Duvido, às vezes. Os cães e gatos parecem preencher uma lacuna afetiva que antes era ocupada por filhos. — E agora, que palavra usar para denominar esse instinto humano de forma não binária? Maternidade? Paternidade? Talvez esse instinto já ande meio extinto.

Neste ponto, imagino que já tenha provocado incômodos em alguns leitores. Não quero ser mal interpretada. Não critico as escolhas de ninguém. Eu mesma já tive uma vira-lata adorável, companheira de muitos anos. Só me pergunto sobre essa relação quase humana com os bichos — e a seletividade com que lidamos com os animais. Cães e gatos ganham roupas, colo, cama, festas de aniversário. Enquanto isso, outros animais são criados para o abate e compramos seus corpos embalados no supermercado. O capitalismo lucra em ambas as frentes. São apenas observações, não julgamentos.

E minha impressão talvez não seja tão absurda assim. A humanidade pode estar vivendo mais e com mais qualidade, mas em contrapartida, a natalidade já vem caindo há décadas na Europa e, mais recentemente, na Ásia. A Coreia do Sul, por exemplo, já apresenta o menor índice de natalidade do mundo (dados de 2021).

Todos precisamos de afeto: amizades, amores, laços que nos sustentem. Há quem encontre isso nos animais, e é legítimo. O amor, em qualquer forma, é essencial. Mas também percebo uma tendência ao individualismo, ao desejo de não se comprometer — talvez por medo, talvez por uma busca por praticidade. Compreendo. Somos afetivos, mas cheios de expectativas e transformações. Difícil, às vezes, nos mantermos em harmonia.

Feliz de quem consegue preservar o amor, os filhos, os bichos — e a si mesmo — em relativa harmonia ao longo da vida. Relativa, porque a perfeição não existe.

Ao final do café, concluo que o mais duro de tudo é a solidão de amor. Aquela que, como canta Alceu Valença, devora. Claro que o que vi foi apenas um recorte, um instante, um microcosmo. Mas foi essa a percepção que me atravessou naquele momento, com a música Solidão ecoando em minha mente, e tentando fazer com que aquele café preenchesse, ainda que por instantes, o grande deserto que carrego — não por escolha, mas por desígnio.

Não escolhi a solidão, como alguns talvez escolham. Mas também não farei dela bandeira. Não me tornarei uma senhora rodeada de mascotes, como tantas que vejo nas ruas. Se foi a solidão quem me escolheu, então me resigno a ela — e me junto, em silêncio, aos perdidos.



Insônia