quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Um Salvador da Pátria às avessas


O Brasil acaba de eleger um novo Presidente, depois de uma campanha eleitoral cheia de atipicidades e irregularidades. Aconteceram denúncias de Caixa 2, uso de contratação de empresas para disparar mensagens instantâneas com conteúdos falsos, lives em redes sociais, ausência de debates televisivos para confrontação de ideias, pouca discussão sobre os planos de governo e muito questionamento sobre moralidade,  gênero,  classe e raça. Além de tudo, houve um inusitado e estranho ataque à faca ao candidato favorito que até o momento não está totalmente elucidado, aberto à muitas especulações para futuros desdobramentos, esclarecimentos e outros fatos afins que poderão vir à tona.

Em meio aos principais problemas que a população apontava legitimamente, a preocupação com a corrupção, com a roubalheira institucional e com a violência nos centros urbanos, abriu-se um espaço para ir modelando uma candidatura reacionária e fascistóide que a  princípio me parecia um tanto surreal para o século XXI e para o Brasil, uma terra conhecida pela cordialidade, pela boa convivência com a diversidade e pela alegria de sua gente. 

Assim como nos Estados Unidos, um país essencialmente democrático e livre, Donald Trump também parecia irreal. Eu confesso que resistia à ideia e não achava possível uma candidatura desse porte sobreviver e alcançar o posto mais alto da República. Até hoje me repugnam as falas do Favorito e não suporto ver sua figura nas redes e na televisão, assim como de seus seguidores, uma turma afeita à violência, à truculência, à ostentação de armas e à atitudes e falas ignorantes e bizarras contra as minorias, escancarando preconceitos, racismos, pregando opções militaristas para os problemas do país, ao mesmo tempo que seu slogan de campanha dizia: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, típico do nazi-fascismo.

A classe média brasileira encontrou enorme reflexo nessa fala feroz do ex-capitão do exército que fazia oposição aos governos do Partido dos Trabalhadores. As políticas de inclusão e de distribuição de renda já vinham causando, a princípio veladamente, bastante  desconforto. Mas esse desconforto foi, aos poucos, sendo verbalizado à medida que as denúncias de processos criminais iam se acumulando na tão famosa operação Lava Jato que ia priorizando apurar denúncias de quem estava no governo.

Começaram assim as manifestações anticorrupção verde-amarelas regadas a champanhe, selfies e abraços com a polícia e, principalmente muita disseminação de ódio às esquerdas e ao PT que todos conhecemos. Assim foram-se repercutindo imensas críticas negativas a todas as políticas de inclusão e de distribuição de renda implementadas pelo governo petista.
Aliada às denuncias de corrupção, mais esse pontos de desconforto que revoltavam a classe média, não casualmente, todas envolviam o repúdio à ascensão social dos mais pobres. 

Primeiro foi a política de cotas, porque afinal não era mais suportável ver seus próprios filhos na mesma Universidade pública ou privada dos filhos de seus empregados ou diaristas. Para ilustrar o fato cito o exemplo do premiado filme Que horas ela volta de Anna Muylaert, o retrato do comportamento classe média brasileira. Depois, com o crescimento do poder de compra da classe mais pobre, para a classe média era insuportável ver seus empregados e diaristas chegarem de carro no trabalho, por exemplo. 

O mesmo aconteceu com incremento do turismo, também pelo aumento do poder de compra, mais pessoas passaram a viajar e lotar os aeroportos, lugar antes reservado aos ricos. Tornou-se insuportável para a classe média ver aquela gente  na sua frente na fila do check-in e do seu lado no assento do avião. 

O mesmo fenômeno ocorria nos restaurantes e nos shopping centers. Outra barbaridade cometida pelo governo do PT foi estender direitos trabalhistas para as empregadas domésticas como FGTS, férias, décimo-terceiro, carteira de trabalho, etc. Muito melhor era manter aquela jovem ou senhora— as mais das vezes negra— morando naquele quartinho minúsculo de suas casas, disponível 24 horas do dia até para alcançar-lhes um copo d' água ou ajudar a trocar de roupa —coisas que qualquer mortal pode fazer sozinho— e não pagar um centavo a mais. 

Conservava-se assim o regime de semiescravidão secular e a elegante tradição de exibir a criadagem uniformizada nos lares abastados brasileiros. Lembrem que a própria engenharia dos prédios no Brasil contempla— ao menos os mais antigos— elevador de serviço e elevador social -afinal, classes distintas não podem dividir espaços- e dependência de empregada que é sempre um cubículo mal ventilado e mal iluminado. 

Alguém há de lembrar também que haviam ascensoristas em prédios de grande circulação de pessoas e ainda persistem os sempre atuais porteiros nos condomínios fechados que seguem abrindo portas ou apertando o número do andar para as madames, para os doutores sem doutorado, para as patricinhas e mauricinhos também bastante aderidos à candidatura do Favorito.

Seria natural que em meio a esses descontentamentos sociais e econômicos poderia crescer uma candidatura tão espúria como essa advinda de uma das muitas legendas de aluguel existentes no Congresso Nacional? 

O Favorito é a antítese do ideal de qualquer ser humano— quem dirá de um político— pois um estadista precisa ter algumas qualidades para lidar, articular e negociar com a sociedade. Este é declaradamente homofóbico, misógino, machista, racista, estúpido, violento, irascível, favorável à tortura e amigo das ditaduras. Basta abrir seu histórico de declarações na Câmara dos Deputados, na TV e na Internet e comprovar que está tudo lá. 

Recentemente estava sendo julgado um único processo por apologia ao estupro no qual foi condenado. Todas as milhares de declarações suas que são recheadas de inconstitucionalidades não chegam aos tribunais, pois está protegido pela imunidade parlamentar de incríveis 27 anos de vida pública.

Com um plano de governo reacionário de extrema-direita, segundo especialistas mal fundamentado e com pontos bastante obscuros, declarava em campanha a sua ignorância em vários assuntos que os delegava aos especialistas de sua confiança o que escancarava sua total inépcia, falta de argumentação, de conhecimento  político e do funcionamento da máquina pública.

Baseados na indignação com o sistema  corrupto, leio em redes sociais uma infinidade de pérolas de seus apoiadores. Um exemplo: O Brasil precisa ser desinfetado com Qboa(alvejante) e que só um Presidente com huevos (testículos) para dar conta do recado. 

Pergunto, o quê precisa ser desinfetado? Ou quem ? O que significa dar conta do recado? Afinal, o que os eleitores do Favorito querem para o Brasil? Que projeto de país têm em mente? Acabar com a corrupção. Certo, é uma boa resposta para começar, mas me pergunto se a partir de agora a corrupção, que será combatida, retoricamente com o presidente com huevos como foi prometido, vai MESMO acabar ou ela apenas NÃO SERÁ MAIS NOTICIADA?

Outra pergunta, quais são as características de um presidente com huevos? O que vejo é um homem arrogante, intolerante, de caráter violento e vociferante. Durante a campanha política, nos palanques, era de praxe fazer sinal com as mãos como se estivesse empunhado uma arma sendo engatilhada, inclusive estimulando crianças de colo a fazerem o gesto. Vejo no novo presidente um homem de riso sarcástico e que não sorri ou que, quando o faz é um sorriso nervoso e um tanto forçado. Pior ainda é quando ele  e seus pares evocam a religião num Estado constitucionalmente laico. O neoliberalismo econômico, a austeridade com políticas de inclusão e o militarismo darão o tom de seu governo.

Enfim, sinto que os eleitores desse protótipo de estadista serão frustrados em um breve espaço de tempo, porque tudo que ele representa não faz parte do mundo civilizado e do ideal que o mundo civilizado, ainda não alcançado, continua perseguindo. Não há governo que governe só para uma parte da sociedade que tenha êxito, a não ser que o próprio governo elimine a outra parte—como ele mesmo citou. Bem, isso é bastante comum nas ditaduras que ele mesmo apoia. 

Um dado também ficou claro, o Favorito era o favorito dos mais ricos, dos grandes empresários, dos profissionais liberais, dos meios de comunicação e dos bancos. O analfabetismo político, a manipulação midiática histórica, a ignorância e os preconceitos  da classe média deram a tônica num processo eleitoral dos mais bizarros da história do Brasil. 

E nesse sentido haverá uma tentativa de calar, criminalizar e perseguir movimentos populares de moradia, de terras, de indígenas, de comunidades LGBT, estudantis, sindicatos de trabalhadores e organizações de proteção às minorias. Inevitavelmente, haverá revoltas populares. Quem é invisível ou largado à margem da sociedade sempre tenta encontrar uma maneira de se fazer visível e ter voz, e isso tanto para bem quanto para mal. E diante de todo esse quadro não cabe a um presidente e suas assessorias punir ou fazer exortações justiceiras e represálias. Para isso existe a Justiça. Ao Presidente cabe cumprir a Constituição e governar para o bem do país e de todos. Ao menos nas democracias é assim. Mas, será o Brasil uma democracia a partir de janeiro de 2019?

A nós, incompreendidos e demonizados pelo senso comum das simplificações e das generalizações, defensores das liberdades individuais, do Estado Democrático de Direito, da Igualdade e do Socialismo Humanitário nos cabe sempre a difícil tarefa de nadar contra a corrente, resistir e seguir.  



quarta-feira, 17 de outubro de 2018

"Os Olhos dos Pobres" de Charles Baudelaire

        




  Uma analogia às atitudes de nossos amigos que optaram pelo fascismo
                                                                                     

"Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será mais fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar. 
Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou. 
De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança. 
Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade. 
Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda. 
Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?" 

Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!"


Como é difícil nos entendermos, queridos amigos, quando o pensamento se tornou estéril e vazio, enquanto os argumentos gritam de um lado, mas não alcançam os ouvidos de outro!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Filhos do solo gentil de mãos dadas com a barbárie

Eleição, opção, escolha, voto, sufrágio são palavras e atos dos mais dignos usadas numa democracia, pois teoricamente são responsáveis por mudar o destino, aperfeiçoar, criar condições de bem-estar e organização de uma comunidade, de um Estado, de um país. Democracia representativa significa a forma de poder que o povo exerce escolhendo periodicamente seus representantes para legitimar governos através da escolha de chefes de governo, presidentes, governadores e parlamentos. Não é ainda uma forma perfeita de organização social, de soberania e de representação popular, mas é a que está vigente no mundo civilizado depois de séculos de guerras, revoluções, quedas de regimes, tratados, declarações e convulsões sociais.
Exercer a cidadania é escolher pelo voto qual candidato, qual partido político ou qual regime político representa o mais perto de nossos anseios de arranjo e conformação social. Então, o respeito à dignidade desse ato se faz necessário, porque todos são chamados a opinar, mesmo que uns não queiram ou que prefiram viver em suas bolhas existenciais. A não ser que você viva na floresta, coletando ou plantando seu alimento, bebendo água da fonte ou da chuva, provavelmente você não necessita organizar-se com ninguém e ninguém vai opinar quanto ao seu modo de vida. Mas quando você vive em sociedade seja numa grande ou pequena cidade do interior européia, americana, asiática, mesmo numa tribo indígena, africana ou esquimó você estará sujeito à regras. E essas regras, no mundo ocidental, você é chamado a construir, a votar, a promulgar através de seus representantes os quais você escolheu livre e secretamente- o voto livre e secreto também foi uma escolha sua aprovada numa Constituição.
É espantoso, portanto que uma atividade tão digna e importante na vida das pessoas tenha sido tão vil e irresponsavelmente denegrida e desonrada nesse momento tão decisivo para o país.
Me refiro ao grotesco vídeo que circulou pela internet no dia das eleições presidenciais mostrando uma pessoa digitando o número de seu candidato - não sem espanto, a escolha fascista  - na urna eletrônica com o cano de uma arma. Eu ainda torço para que isso não tenha realmente acontecido numa sessão eleitoral e que foi só o delírio de um psicopata, buscando likes e seguidores entre seus pares, destes muitos que existem por aí que criam bizarrices e  enchem o sub-mundo da internet.
Mas o vídeo está aí e foi visualizado e compartilhado milhares de vezes para o espanto de uns e divertimento de outros. Espero que esta selvageria tenha sido devidamente denunciada e que os responsáveis sejam devidamente punidos. Se não, os simpatizantes da violência e do ódio contra a política e as instituições terão cada vez mais  salvo-condutos para praticar todo tipo de barbaridades e crimes amparados pela inércia da justiça e pela impunidade.
Nas duas situações, na autenticidade ou não do vídeo tento fundamentar a atitude da pessoa ou do grupo responsável pela postagem e tentar entender no que se baseiam atitudes dessa natureza no inconsciente dessas pessoas.
Nos últimos tempos, o assunto política e políticos ganharam uma posição de grande rejeição, indignação, escárnio e cólera por grande parte da população, quando viram os meios de comunicação sistematicamente jogarem  enxurradas de denúncias de corrupção e abertura de inquéritos policiais contra uma infinidade de políticos de todos os partidos. E ocorreu um fenômeno, cuja mídia e sistema judiciário também são responsáveis. O simples fato de alguém ser  denunciado já caía na percepção dos cidadãos como fatos verdadeiros, consumados, líquidos e certos. Ou seja, o "onde há fumaça, há fogo" prevaleceu e sabemos que essa máxima nem sempre é verdadeira. Os processos judiciais, geralmente morosos não acompanham as notícias que são instantâneas, então até que um processo judicial se conclua muitas reputações já foram enxovalhadas pela imprensa e a população digere o fato sem contestar. Tempos depois, quando sai uma decisão judicial inocentando alguém, isso já nem é notícia. Torna-se mais relevante o linchamento público, as acusações, as condenações sem provas e as punições ao "arrepio da lei". A despeito disso, é extremamente compreensível um nível de revolta contra todos os crimes cometidos por corruptores e corruptos que foram comprovadamente praticados e têm sido denunciados e provados por operações policiais até o momento. É incompreensível, no entanto, por que toda essa revolta é canalizada para gerar apoio a uma candidatura bizarra, fascista e que, perigosa e sistematicamente afronta a Constituição, se associa à violência e prega a necessidade do armamento do cidadão para sua "paz e segurança". As armas sairão de dentro das urnas e pergunto para quem, afinal serão apontadas? Quem são os alvos desses "cidadãos de bem" bem armados? Quem será condenado à execução sumária? Infelizmente, essa pergunta já está sendo pouco a pouco  respondida nas ruas e nos discursos de ódio na internet. Bom entendedor, entenderá.
O que faz uma parte da sociedade acreditar que a violência, a truculência e atitudes anti-democráticas sejam a solução para os problemas estruturais de uma Nação e que só um Chefe de Estado com características autoritárias, ditatoriais e de discurso tosco e agressivo sejam a solução para um país tão complexo como o Brasil. Desde 2014, estamos vivenciando uma crise ética e política que agora culmina, espantosa e perigosamente para uma crise civilizatória.

 Já dizia Berthold Brecht : "Que tempos são esses em que é necessário defender o óbvio?"

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

#Ele Não



Para quem perdeu o trem da história nesse 29 de setembro de 2018, porque "preferiu ficar sozinho bordando de ouro o seu umbigo engelhado", afirmo, com Thiago de Mello:
 "Para repartir com todos"
"Vamos achar o diamante
para repartir com todos.
Mesmo com quem não quis vir
ajudar, pobre de sonho.
Com quem preferiu ficar
sozinho bordando de ouro
o seu umbigo engelhado.
Mesmo com quem se fez cego
ou se encolheu na vergonha
de aparecer procurando.
Com quem foi indiferente
e zombou das nossas mãos
infatigadas na busca.
Mas também com quem tem medo
do diamante e seu poder,
e até com quem desconfia
que ele exista mesmo.
E existe:
o diamante se constrói
quando o procuramos juntos
no meio da nossa vida
e cresce, límpido, cresce,
na intenção de repartir
o que chamamos de amor.
Fascismo, Nunca Mais!

Insônia