sexta-feira, 23 de março de 2018

Não verás país nenhum

Painel Guerra e Paz, Cândido Portinari

Era uma vez um país imenso e rico que já tinha sido colônia, reino, monarquia, ditadura e que há poucos trinta anos tinha conquistado um "estranho" sistema político chamado democracia. Na mesma época foi promulgada uma bela carta de leis chamada Constituição onde dizia, entre muitas coisas, que os cidadãos elegeriam periodicamente seus representantes por meio de eleições livres. 

Em 2014 já era hora de novas eleições para escolher um novo presidente e o povo estava bastante dividido entre dois candidatos, que por acaso eram um Homem e uma Mulher e até o final do pleito não se sabia quem seria o vencedor, pois a disputa estava bastante acirrada. E os ânimos também.

O resultado final foi que 51% dos eleitores votaram na candidata Mulher e 49% no candidato Homem, mas é claro que o gênero aqui não importa ou ao menos não importava até então. A candidata Mulher estava concorrendo à reeleição e todos já a conheciam. O candidato Homem era um estreante na aspiração ao cargo, mas não na política. Quinze Povos (Estados) elegeram a Mulher e onze, mais a capital do país escolheram o Homem.

Ocorreu que o candidato Homem 49% e seus companheiros, inconformadíssimos, não aceitaram esse resultado e num primeiro momento pediram que os votos fossem recontados. Ao confirmar-se o resultado, os meios de comunicação, os grandes donos de empresas e as elites políticas do país que apoiavam o candidato Homem 49% continuaram muito insatisfeitos. Começaram então, uma grande campanha de ódio e difamação contra a mulher 51% e seus pares, acabando por respingar até em seus eleitores e simpatizantes, os seus próprios votantes.

A campanha difamatória contra a candidata vencedora foi tanta e alcançou níveis tão importantes que o grupo formado de 580 pessoas, maioria homens, chamado Congresso Nacional que também havia sido eleito para fazer as leis, achou por bem derrubar aquela Mulher 51% depois de quase dois anos no governo. A guerra estava deflagrada, pois os companheiros do candidato Homem 49% tomaram o poder e iniciaram um processo de desmontes de regras e retirada de direitos que tinham sido conquistados anteriormente através da Constituição. 

Esses desmontes visavam unicamente beneficiar os grandes empresários e os donos do dinheiro. As perdas e retrocessos eram enormes e atingiriam 90% da população. Instaurou-se assim uma grave crise política, social e econômica como poucas vezes tinha acontecido no país. As instituições ficaram desacreditadas e a instabilidade gerou grave insegurança jurídica e social. 

Esse plano difamatório foi muito aplaudido e apoiado pela Minoria 49%  que se apropriou das cores da bandeira do país, tomando as ruas a vociferar que só eles eram os legítimos "cidadãos de bem" e que os outros 51% deveriam "tomar vergonha na cara", pois passaram a ser  vistos como bandidos e mereciam ser banidos, execrados, submetidos ou escravizados. 

Nada ficou provado das ilicitudes que acusavam a Mulher 51%, inclusive, ela ainda pôde se candidatar livremente a outros cargos públicos e o tempo comprovou ser ela uma pessoa honesta. Ao contrário do candidato Homem 49%, foi descoberto ser autor de vários crimes com provas, cavou sua tumba política por conta de sua falta de caráter, inconformismo, truculência e irresponsabilidade. Mais cedo ou mais tarde ele deverá responder à justiça, assim como muitos dos articuladores do que se chamou Golpe.

E a guerra continuou, as pessoas cada vez mais se desentendendo e tomando partido com base em simplificações*, generalizações e manipulações. Muitos expunham a sua boçalidade e incultura  culpando a "estranha" democracia e pediam a volta da ditadura. Mal sabiam eles que foi justamente quando os 51% Maioria viram seus votos serem invalidados pela Minoria, nem chamo de perdedores, que aí foi onde tudo começou. A Constituição previa que as eleições seriam periódicas. Por que não  aceitar as regras?

Essa irresponsabilidade da Minoria 49% deu margem a que se destapassem as mais torpes formas de pensamento e de falta de caráter de uma parcela da população. Apareceu uma escória humana protegida pelo escudo das redes sociais que passaram a abusar sistematicamente da liberdade de expressão. Esses grupos criminosos foram capazes dos mais absurdos atos e manifestações contra os direitos humanos, contra a educação, contra o estado de direito e contra as liberdades individuais.

Alguns mais inocentes dos 49% agora, perplexos clamam aos céus pela paz entre os 51 e os 49, imploram para que boas energias e vibrações iluminem os 51 e os 49. Enfim, agora apelam para a interseção dos deuses. Outros estão silenciosos, talvez envergonhados do equívoco que cometeram e das injustiças que ajudaram a empreender quando aplaudiram tanta insanidade. O voto é livre, mas desrespeitar a vontade da maioria é pisar, anular e desmerecer a democracia e a justiça.

Esse ano o pais terá eleições novamente. O tempo passa depressa. Quanta energia desperdiçada com tantas brigas, tantas desavenças familiares, tanto xingamento, tantas amizades desfeitas, tantas decepções, tanto sofrimento, tantas mortes, tantos espancamentos, tanto desemprego. Quanto poderia ter sido evitado, quantas sequelas deixadas!
Espera-se que quem não está de acordo com as regras, que proponha novas e que se discuta,mas chega de golpes!
90% está cansado!
*Com esse texto não se pretendeu a simplificação e sim uma síntese livre de uma história para ser contada aos netos.Talvez eles nos darão as respostas.
*O título é uma alusão ao livro de Ignácio de Loyola Brandão, 1981.

Março de 2018
                                                              



quinta-feira, 1 de março de 2018

Cuidado com os trogloditas








Os trogloditas foram seres humanos pré-históricos que viviam em cavernas ou grutas desde o alvorecer da vida na Terra e que durante milhares de anos, segundo os estudos, foram aumentando o tamanho de seu cérebro e evoluindo para o que denominamos hoje Homo sapiens (gênero Homo, espécie sapiens) segundo a classificação biológica dos seres vivos.
Em um sentido figurado podemos designar troglodita como um adjetivo de dois gêneros que ​denota​ pessoas rudes, grosseiras, hostis, violentas e que agem com agressividade.
Me refiro aqui aos trogloditas modernos como seres cuja falta de educação, leitura e ​a incultura​ como seu ponto mais forte, os tornou esses tipos rudes, toscos e grosseiros que estão vociferando em caixa alta pelas redes sociais, entre nossos colegas de trabalho, amigos, dentro da nossa família, em grupos de whatsApp e o mais grave, fazem parte da classe política, do sistema judiciário e do jornalismo brasileiros.
Dentro da política incluo alguns espécimes chamados pastores da igreja evangélica que, ao entrar para a política, desconhecem o artigo 5 º, inciso VI da Constituição Federal que define a laicidade do Estado determinando que todas as religiões são aceitas, mas que a religião não pode interferir nos assuntos do Estado. Esses andam, pois com suas bíblias debaixo do braço a atacar pessoas e/ou arrancar seus parcos recursos pregando que estão do lado da Verdade, o que na verdade, isso é somente a opinião deles e de suas doutrinas e dogmas.
Trogloditas modernos são seres que se dizem religiosos, mas que abominam outros seres humanos pelo fato de serem mulheres, homossexuais, transexuais, negros, pessoas sem teto​, ​desempregados, subempregados​ ou estrangeiros. São seres que fazem apologias ao machismo, à violência de gênero, que apoiam o fascismo, a tortura, o armamento da população, a educação não democrática e ditatorial. Entre seus mais loucos delírios pedem intervenção militar no Estado sem nunca terem lido a Constituição Federal ou estudado História do Brasil e do Mundo.
São seres que, embora muitos tenham completado curso superior, negam o conhecimento e os avanços científicos, desconhecem a história da humanidade e agarram-se a um submundo de ignorância, brutalidades, idiotia, truculências e arrogâncias vivendo de atitudes estúpidas e muitas vezes cruéis. 
​Seres que se dizem cidadãos de bem, mas que assassinam ou abusam de suas companheiras, que apoiam o extermínio de jovens negros e pobres das periferias, que dão como solução aos problemas do tráfico de drogas o massacre em série das periferias,  que culpabilizam a pobreza por sua condição, criticam programas de distribuição de renda e referem-se às comunidades indígenas como animais (que se pesam em arrobas, antiga medida de peso de gado).
Eles são seres que se dizem anticorrupção, mas que não percebem a sua corrupção de cada dia, quando infringem ou criticam as leis e as normas de boa convivência e civilidade; quando se deixam manipular por meios televisivos e jornalísticos claramente afinados com oligarquias, com os bancos e com o poder do dinheiro, apoiando justamente os mais corruptos reproduzindo assim mais corrupção e injustiça.
Enfim, trogloditas modernos nasceram e/ou cresceram na consolidação da democracia, dos processos constituintes e dos direitos individuais, mas incrivelmente apoiam um sem fim de inconstitucionalidades e atrasos civilizatórios. E esse fenômeno não dá para nominar de outra forma mais delicada. Definitivamente é uma burrice monumental.
Dedico essas linhas a todas as pessoas que conseguem visualizar esses espécimes  a sua volta, aos que talvez se reconheçam e possam refletir e a todos os democratas, progressistas, anti-conservadores, socialistas, religiosos, estudiosos, humanistas genuínos e não só de fachada.
Os trogloditas antigos evoluíram com o conhecimento, mas trogloditas modernos insistem em negar esse conhecimento, repelem a noção da evolução do homem como ser social e solidário  e preferem continuar vivendo na escuridão de suas cavernas ou nas trevas da Idade Média.
Platão e os sábios iluministas devem andar nauseados de tanto revirar-se em suas tumbas.
Lembrem-se disso em outubro próximo. O Brasil agradece.





Insônia