Escritura Natural, Eliane B. Lago
Contos, crônicas, viagens, sentimentos, escrita criativa para inventar e curar a vida.
quinta-feira, 7 de agosto de 2025
sábado, 4 de janeiro de 2025
2025
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| Foto: Pinterest |
Essa noite eu tive um sonho. 2025 tinha desistido de sua estreia e era 2008 de novo. Não entendi o porquê de voltar 17 anos atrás. Terá sido 2008 um ano cabalístico, com um significado oculto? Ou só um número aleatório? Foi bom ver algumas pessoas conhecidas bem mais jovens, saudáveis, outras vivas e alegres. Eu não me vi, pois protagonizava aquele delírio noturno, mas sentia que os 17 anos tinham passado em meu espírito, alojados à força, a despeito da rebeldia do 2025.
A humanidade se curva ao tempo, mas no meu sonho pela primeira vez o tempo se curvou à humanidade. Posso até imaginar, o clichê Bebê 2025 espiando o Senhor 2024 antes da meia-noite e vacilando se nascia ou não. Bem, anos não nascem como bebês, são imateriais, mas este talvez tivesse certa racionalidade humana(?), certo sentido de prudência, sensatez e clarividência. É isso, clarividência.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2024
O Caderno, escritos do amanhecer
Queria escrever no teu caderno. Naquele que resgatei, antes de ser largado no lixo. Fiz isso talvez, digo talvez, por uma súbita intuição de desfecho.
Queria ler e juntar teus pensamentos com os meus, misturando as letras e os manuscritos. Queria poder juntar nossas inspirações, talvez criar um romance, um conto, uma narrativa breve que seja, mesmo que tenhamos estilos diferentes e tua criatividade vá muito além da linguagem e do meu amadorismo.
Queria misturar nossos traços, rascunhos, já quase ilegíveis, formados numa infância onde se fazia caligrafia— isso já faz tanto tempo!—até produzir um texto ao menos coerente e coeso como mandam as leis da escrita. Ou não, pois ainda busco a licença poética dos artistas, que têm liberdade com as palavras, ao contrário das palavras ditas que podem ser a nossa desgraça.
Eu precisava do caderno, não para descobrir teus segredos, mas para ter o privilégio de escrever de meu punho, junto ao teu, naquelas folhas amarradas em espiral com uma capa que lembra sempre que a Arte Salva.
Mas agora só resta mesmo a materialidade de um caderno. Tuas mãos, tuas canetas e tuas ideias estão longe dele e de mim e pouco ou nada ficou a salvo—dúvida cruel— a não ser nas memórias das conversas, dos risos, do aconchego, do prazer e nas imagens digitais. Memórias em geral são tristes e doloridas na mesma proporção da felicidade concreta. Mesmo assim, são necessárias, pois compõem a jornada da vida, que alterna amargos e doces períodos, como bem escreveu Cervantes há séculos.
Esse encontro de escrever seria lindo, mas a nossa brevidade impediu a escrita de uma longa história. As páginas que estavam em branco continuarão em branco, a não ser por uma pequena tentativa de intertextualidade com uma única reflexão pessoal tua em meio à anotações científicas. Ao menos, meu manuscrito ficará ali, perto do teu e a capa colorida da coleção de casarios para sempre, recordando a arte, o artista e a minha estupidez.
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
O Morro do Caracol
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| Foto: Rua Cabral, Barão de Ubá ao fundo e o Mato da Vitória à esquerda Arquivo Pessoal |
O povoamento de uma pequeníssima área do bairro Bela Vista em Porto Alegre, mais especificamente nas ruas Barão de Ubá que vai desde a rua Passo da Pátria até a Carlos Trein Filho e a rua Cabral, que começa na Ramiro Barcelos e termina na Barão de Ubá, está historicamente relacionado com a vinda de algumas famílias oriundas do município de Formigueiro, região central do Estado do Rio Grande do Sul.
O início dessa migração, provavelmente, ocorreu no final da década de 40, início dos anos 50, quando o bairro ainda não havia sido desmembrado de Petrópolis e aquele pequeno território era chamado popularmente Morro do Caracol. Talvez tenha sido alcunhado por esses mesmos migrantes ao depararem-se com aquele tipo de terreno. Quem vai saber!
O conceito em Wikipedia de que o bairro Bela Vista é uma zona nobre da cidade, expressão usada para lugares onde vivem pessoas de alto poder aquisitivo, pode ser aplicado apenas para um passado recente e para o presente. O lugar foi sempre inquestionavelmente uma zona residencial, mas delimitando no tempo estas duas ruas em particular e outras no entorno, como a Jaraguá e a Passo da Pátria eram formadas em sua maioria por construções baixas de madeira ou tijolos, sobrados de dois pavimentos, propriedades de trabalhadores e alguns pequenos comércios. No entanto, na parte mais alta do Morro as construções, aí sim eram mais ostentosas, havia muitos palacetes, como as pessoas costumavam chamar, construções maiores, com grandes áreas de terrenos murados e ajardinados, seguindo padrões da arquitetura de décadas anteriores.
A única menção a Caracol encontrada em buscas pela internet, foi em Praça do Caracol ou Praça Carlos Simão Arnt ou Praça da Encol, localizada na atual Avenida Nilópolis e inaugurada pelos idos da década de 80. A título de curiosidade pessoal, Encol foi uma grande empresa de construção civil brasileira que “adotou” a área da tal praça (sic) e mais tarde entrou em decadência nos anos 90 por um processo de falência.
O Morro do Caracol foi assim chamado pelos residentes evidentemente pela sua geografia e relevo, localizado numa parte alta da cidade com suas ruas desenhadas sob o formato de várias curvas muito fechadas que lembravam um caminho em espiral ou em zigue-zague. Dava impressão, e se confirma verificando mapas atuais, que a cada curva as ruas mudavam de nome, mas de maneira geral o nome do lugar era reduzido a simplesmente Morro ou Caracol pela vizinhança e pelos visitantes daquele microcosmo.
Segundo levantamento, ao menos vinte casais com raízes formigueirenses— chegados em diferentes tempos e por diferentes razões— fixaram residência distribuídos entre as ruas Barão de Ubá —que foi um português radicado no Rio de Janeiro, político, comerciante de couros e charque gaúchos e escravagista do século XIX— e a Rua Cabral, nosso “descobridor”, que dispensa apresentação. Salvo exceções, o Brasil nunca foi muito feliz, tampouco democrático ao nomear lugares públicos; os logradouros homenageiam em sua maioria homens de reputação duvidosa ou claramente já desmascarados. Há um rol de militares, ditadores, golpistas, torturadores, etc. Mas esse é outro assunto.
Conforme depoimento de pessoas que viveram ali na época, essa migração para a capital do Estado ocorreu pela busca de melhores condições de vida, emprego e em muitos casos para proporcionar educação formal aos filhos menores e/ou adolescentes já que a maioria dos adultos só havia feito até a quinta série do ensino primário, que era o que estava disponível na zona rural. Muitos venderam suas propriedades em Formigueiro e investiram na compra de casa própria no Bela Vista que naquela época florescia.
Alguns destes adultos talvez tiveram a oportunidade de seguir com os estudos, principalmente os homens que tinham mais liberdade de escolha. As mulheres daquela geração, todos sabemos, ficavam restritas à criação dos filhos e ao cuidado da casa. No entanto, muitas delas não só complementavam a renda, mas certamente agregavam importante aporte para a economia familiar desde que realizassem trabalhos exclusivamente femininos como cozinhar, fazer doces, lavar, passar, costurar e/ou reparar roupas sob medida.
Há um relato de que antes da mudança de Formigueiro para Porto Alegre, uma das mães de família estava mais pesarosa por ter que abandonar suas belas panelas de barro com que cozinhava no fogão à lenha do que ter que deixar a casa no seu lugar de nascimento. Imagino que ela foi mais persuadida do que ter ficado convencida de que na Capital poderia ter panelas de alumínio e fogão à gás, belas modernidades da época, as quais ela não estava familiarizada.
Certamente, nenhuma mulher teve voz nessas decisões tão importantes que cabiam só aos homens. O único que lhes restava era aceitar e acompanhar seus maridos e filhos fosse como fosse. Ideais feministas passavam longe dali e ainda hoje no século XXI andamos às voltas ora avançando, ora retrocedendo. Mas isso também é outro assunto.
Agora explico minha relação com o Morro do Caracol. Começa com a mudança de minha família, quando eu tinha não mais que três anos de idade, no início da década de 60. Vínhamos de Canoas, depois que meu pai vendeu a casa onde morávamos com a finalidade de mudar para mais perto do trabalho dele. Era taxista e minha mãe, dona-de- casa, já com duas filhas pequenas, a terceira nasceria 10 dias antes do golpe militar de 1964 e o único menino viria em 1967. Anos mais tarde, em 1974, nasceu uma menina “temporona", mas ela faz parte da história de outros lugares.
Meu pai tinha um “auto de praça” como costumavam chamar os táxis naquela época. O ponto ficava na popularmente chamada Praça do Triângulo, nome nunca oficializado por questões burocráticas do plano diretor de Porto Alegre. Desde 1966, a tal praça (uma pracinha, na verdade) se chama Marquesa de Sévigné que fica no entroncamento das ruas Lima e Silva, Coronel Genuíno, André da Rocha e Fernando Machado. O automóvel era um modelo Ford Mercury verde-claro da década de 50 e a mim parecia enorme, quando ele nos levava de passeio de vez em quando para o Parque Saint Hilaire(?) ou para um almoço de domingo em algum restaurante no caminho para a Serra Gaúcha. Visualizando a praça recentemente não pude entender como estacionavam os táxis ali naquele espaço tão diminuto.
Fomos morar em um dos apartamentos do número 1500, um sobrado branco da Rua Cabral. O prédio é dos poucos ou é o único que resta ainda daquela época, com a diferença que está todo gradeado e pintado de um tom verde oliva. A vizinhança, como mencionei no início, era de muitas famílias amigas e parentes oriundas da cidade natal de meus pais, Formigueiro. Sobrenomes como Cassol, Simões Pires, Wegner, Scherer, Machado, Kessler, Becker, Zambon, Tonelotto, Meleu e Santos— além de Brum e Silva, minha família direta— são muito conhecidos meus, lembro das pessoas, tanto dos adultos como das “crianças” que, como eu, são da geração baby boomers.
Uns anos mais tarde nos mudamos para outra casa também no Bela Vista, número 363 da rua Amélia Teles (eis aqui uma exceção, um nome de mulher) onde meu pai teve uma mercearia. As impressões sobre esse endereço já descrevi longamente noutro texto, cheio de cheiros, gostos, tatos e acontecimentos. Ali moramos até 1970, quando meus pais decidiram retornar para o interior do Estado. Por isso, eu nunca tinha ouvido falar na Praça da Encol, e a “rua” Nilópolis me lembra só um campinho de futebol.
A decisão de voltar para o interior afetou toda a família. Só depois de adulta pude sentir o quanto perdi— ou perdemos— por termos saído da cidade que foi minha grande referência de infância, onde morei exatamente até os 12 anos de idade. Sei quais foram as razões de meu pai, respeito e nunca falei sobre isso com ele. E essa mudança de cidade foi só o começo das dezenas de lugares que passei a viver a partir da adolescência e idade adulta. Inclusive também passei alguns anos morando fora do Brasil recentemente.
Talvez seja uma sina, mudar e mudar, mas quase nenhum lugar me trás mais memórias afetivas do que o Caracol. Ir para a escola com o ônibus da linha Bela Vista, descer a Protásio de bonde, ir ao cinema com uma prima mais velha, receber o carinho dos adultos, passear na Redenção, ouvir o barulho dos carrinhos de lomba dos meninos descendo a calçada, jogar amarelinha— que chamávamos “sapata”— com as meninas da vizinhança e a memória de uma enorme fogueira de São João no meio da rua são detalhes muito bem guardados.
Espero que alguns leitores se identifiquem, principalmente os da turma da Barão, Cabral e adjacências e possam trazer mais informações, histórias ou corrigir dados que possam estar equivocados—afinal, as impressões e memórias aqui relatadas são infantis— e assim recontarmos sobre esse canto de mundo, sobre essas pessoas, sobre esse tempo, sobre esse lugar pelo qual guardo tanta lembrança e benquerença.
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| Foto: Arquivo pessoal |
quarta-feira, 15 de maio de 2024
A devastação
Quando calamidades coletivas acontecem como foi na pandemia de Covid-19 e agora na devastação provocada pelas enchentes do Rio Grande do Sul, nos primeiros dias eu travo, fico bloqueada pelo impacto e pelo temor de que possa vir algo ainda maior e pior, pois o evento está em andamento. Imagens chocantes chegam de todos os lados, os fatos vão se desencadeando, como dominós caindo—no caso casas, estradas, pontes, pessoas, animais, plantações. O medo e a angústia tomam conta. Ouvir o barulho da chuva durante a noite já não é reconfortante, é gatilho de terror. Me recuso a ler comentários de rede social, só busco informação em canais oficiais de jornalismo. Sou leiga no assunto, por isso nessas horas não leio achismos, maledicências, calúnias, discursos de ódio e principalmente não quero saber que fake news andam espalhando. Eu travo mesmo, não consigo organizar as ideias para escrever alguma coisa sobre ou simplesmente desmentir absurdos. Os mal-intencionados não deixarão de ser mal-intencionados. Devem, sim ser responsabilizados por seus atos.
Hoje com a volta do sol, sim, é claro que o sol sempre volta, só o que eu posso avistar é um longo período de ação e reflexão que se avizinha, aos menos entre os mais ajuizados e sensatos. Sim, acho que eles existem. E entre eles estão os voluntários, os cientistas e os funcionários públicos que estão na linha de frente, salvando vidas, tentando reduzir danos e já estudando formas para que eventos dessa gravidade não aconteçam de novo. Porém, há relatos de pessoas que já passaram por inúmeras situações semelhantes— há que lembrar dois eventos significativos na Serra Gaúcha ocorridos há menos de um ano e outras inundações pontuais em localidades de moradia de populações vulneráveis e invisíveis para o senso comum. E isso nos revela que as ações sempre foram só paliativas.
Obviamente diante do tamanho da desgraça, a solidariedade e o espírito de caridade despertam a população, e são muito importantes, pois há necessidades básicas a serem supridas. Mas tudo isso a longo prazo acaba diluindo, porque essas ações não mudam a vida das pessoas, logo ali pode vir tudo de novo, e arrasa com tudo, de novo. Como veio para a região do Vale do Rio Taquari.
A água é democrática e pelo princípio físico dos vasos comunicantes atingiu lugares nunca antes atingidos. Varreu áreas enormes. Os desaparecidos vão começar a aparecer sob a forma de corpos quando a água baixar. Porto Alegre e região me parece que poderá virar um grande campo de refugiados. Sim, é um achismo, mas não consigo enxergar algo mais do que lonas espalhadas em alguma zona seca, similar às zonas de guerra, quando as águas baixarem e as pessoas não poderão ou serão impedidas de voltar às suas casas—as que estiverem em pé— e obviamente lugares classificados agora, inegavelmente, como áreas de risco.
Espero que a ambição e a arrogância de parte do povo gaúcho— nem todos são anjos protetores nessa hora— sejam reconhecidas como partes do problema. Muitos são responsáveis pelo não cumprimento de normas, regras, resoluções ambientais, etc. A negligência parece que está no DNA de nós sul-americanos, quando a máxima tão difundida no tempo das colônias hispano-americanas "Se acata, pero no se cumple" campeia não só no Rio Grande do Sul, mas pelo Brasil afora. É só lembrar de Brumadinho, do acidente radiológico com Césio 137 em Goiânia, das enchentes nas serras carioca e paulista, do rompimento da Barragem de Mariana, etc. com as devidas diferenças entre as características de cada evento.
Espero que tudo isso ao menos sirva de lição, mas à custa de muito sofrimento e desolação, como sempre.
quinta-feira, 14 de março de 2024
A lâmpada mágica
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| Foto: Pinterest |
Em um distante povoado de algum lugar vivia um povo infeliz, mas em perfeita ordem. O governador não permitia sonhos, então eles iam dormir quando as lâmpadas das ruas se acendiam e levantavam quando elas se apagavam. Quando as lâmpadas estavam acesas não se via o céu e o povo que ali vivia nunca tinha visto o brilho das estrelas.
Tudo era perfeito até que um dia uma das lâmpadas não funcionou como deveria e não acendeu. O governador logo pensou num ataque terrorista ou de opositores de seu governo.
À princípio apenas poucas pessoas tiveram interesse em acercar-se até o poste apagado, e às escondidas puderam perceber um pequeno pedaço de céu estrelado e contaram aos amigos tão encantadora experiência.
O governador solicitou urgente a reparação da lâmpada. Entretanto, o eletricista tentou encontrar onde estava o problema, mas como não obteve sucesso, resolveu trocar por outra lâmpada.
Porém a lâmpada nova não funcionava bem, acendia e apagava quando queria a qualquer hora do dia e sempre quando as noites estavam nubladas. Era um mistério que ninguém conseguia entender.
Pouco a pouco, as pessoas começaram a frequentar aquele ponto da rua onde estava a misteriosa lâmpada, porque dali podiam ver as estrelas quando era noite clara e ficavam ali a admirar, a conversar uns com os outros, a fazer planos, amizades, jogavam, riam e foram desenvolvendo fortes vínculos dia após dia. E a cada dia chegava mais gente. Começaram a amar aquela lâmpada defeituosa porque ela espalhou a harmonia e o amor por aquele povoado como nos contos de fadas.
O governador ficou preocupado e furioso, porque foi perdendo a autoridade e o poder sobre aqueles que dizia ser "seu" povo e armou um plano. Mandou sabotar a entrega de água em alguns pontos da cidadezinha, destruiu pequenos pontilhões que serviam à comunidade, queimou árvores de frutas e alguns galpões de armazenamento de alimento e depois culpou a misteriosa lâmpada pelas adversidades que o lugar estava passando.
Os acontecimentos deixaram a maioria do povo com medo, ficaram vulneráveis e enfraquecidos e acreditaram no governador que incutiu no povo a culpa numa suposta malignidade e poder da lâmpada. Pouco a pouco, eles foram voltando para casa, para sua ordem e normalidade anteriores.
Foram poucos os sonhadores que não acreditaram no governador e tentaram uma revolta, mas no final o governo se reuniu e tomou a decisão de destruir a tal lâmpada mágica e sumir com os revoltosos. Quando isso foi feito, ninguém mais teve sonhos naquele lugar, ninguém mais riu, ninguém mais brincou, nunca mais viram as estrelas e voltaram a ser os autômatos, frios e tristes de antes.
Moral: Lute contra tudo e todos que pretendam destruir seus sonhos, não se deixe intimidar, mantenha sua lâmpada mágica sempre intacta acendendo e apagando a seu bel-prazer.
Tradução livre do original em inglês, The Magical Street Lamp, autor desconhecido
sábado, 9 de março de 2024
O desespero
Um dia ela começou a ser
perseguida pelo desespero que durante vários momentos insistia em tomar conta
de seu humor já muito combalido. Era preciso estar atenta, pois ele vinha a
qualquer hora, assim como relatam pessoas com pânico. Talvez, similar ao pânico,
o desespero é um pouco disso, uma desesperança, uma angústia, uma dor que não
dói fisicamente, é uma dor do espírito.
Era o desespero do tempo
passando, das lembranças, das perdas, das confusões, dos erros, das vidas
deixadas para trás, dos amores perdidos, da solidão, das casas vazias, dos
objetos espalhados e esquecidos nos cantos. Ela precisava fugir da desesperança
e tentava reinventar tudo a sua volta.
Na casa nova—já tinha parado de
contar quantas— objetos significantes foram reunidos, não importava se fossem
trastes velhos. Havia novos também para contrabalançar. Precisava ter por perto
coisas que faziam parte de tempos que pareciam indefinidamente felizes. Ela
nada sabia sobre a impermanência de tudo e todos. Nada sabia sobre a morte que
veio de roldão, rasgando as páginas de seus projetos de vida. Quem parte deixa
uma desordem, isso é um fato, e ela que ficou viva, não sabia o que fazer para pôr
tudo em ordem de novo. Era preciso acostumar-se com a desordem como seu novo
normal.
Agora ela teme os projetos
longos, porque aprendeu que de hora em hora, Deus não melhora, como diz o dito
popular. Tudo muda, se por interferência divina, não sabia. Agora ela entendia
até de sua própria impermanência. Por isso somente vai lutando contra o
desespero dia após dia, pois desesperar não resolve nada, mesmo porque uma
parte dela já tinha ido, lutava então pela parte que ficou.
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Queria escrever no teu caderno. Naquele que resgatei, antes de ser largado no lixo. Fiz isso talvez, digo talvez, por uma súbita intuição de...
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Tempos atrás escrevi um texto com o título Sobre Malandros e Indolentes que falava sobre um comentário racista, desumano e perverso de um p...
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Era agosto de 2019 e tínhamos iniciado uma viagem desde a Galícia até a Andaluzia , comunidades autônomas da Espanha, passando por várias ci...







