domingo, 24 de outubro de 2021

20 de outubro, quarta- feira, 20 horas



Faz quatro dias que me despedi de J. depois de passar algumas horas com ele no hospital. Por sugestão da enfermeira, saímos por alguns minutos a fazer um passeio pelo largo corredor, naquela hora, começo de noite, praticamente vazio. No meio do caminho ele quis descer da cadeira de rodas e andar um pouco, porém cansou logo, retomamos com a cadeira e demos mais outras pequenas voltas. Naquele diminuto trajeto, não nos dissemos nada. Apenas eu lhe pedia que fôssemos mais devagar, enquanto caminhávamos e nos segurávamos um ao outro. Ele sempre andava mais rápido que eu. Depois de uns minutos, ele sinalizou que queria voltar e retornamos ao quarto daquela Unidade de Cuidados Paliativos.

Perto da vinte horas, era a hora da despedida. Sem chorar, me abracei a ele, disse que o amava e não conseguia deixar de segurá-lo tentando reter aquela proximidade. No fundo, eu sabia que não seria um "até breve". Ele, me segurando os braços, forçou-me lentamente a deixá-lo, sinalizando que já era tarde, que era hora de ir-me. Peguei minhas coisas na cadeira devagar e da porta atirei um beijo, aí sim, lágrimas já me molhavam a máscara. Ele retribuiu o beijo, mas continuou me recordando, com sinais, que se fazia tarde. E fui... Nem lembro mais como cheguei em casa naquela noite. 

A hora da despedida foi decidida por ele ali. Tudo parecia determinado. Quarenta e oito horas depois eu já estava no Brasil e ele já não respirava mais. Nossa história chegava ao fim.

Nos últimos meses, nos comunicávamos por escrito, porque o tratamento tinha lhe quitado a fala. Do hospital, um dia me escreveu um e-mail, extremamente conformado e aconselhando-me com sua costumeira sensatez:

"A tristeza e a depressão não nos servem de nada. Eu não posso mais te fazer feliz e a mim tampouco ninguém mais pode. Ao menos não aqui, nessa situação de dor e impossibilidades físicas. Seja feliz tu onde queiras, refaz tua vida da maneira e no lugar que preferires. Ser feliz é uma obrigação. Eu vou te amar para sempre."

Sim, meu amigo, meu amor,  só o tempo vai me ajudar a refazer minha vida. Mas neste momento e sempre resultará impossível esquecer nossa curta e plena vida em comum. Desde nosso primeiro encontro no aeroporto de Porto Alegre em 2013 até aquele quarto de hospital em Pontevedra foram oito breves anos de amor, "ganas de vivir", de vontade de abarcar o mundo, de desfrutar da maturidade, de realizar sonhos de juventude, de aplacar nossas sedes e desejos, de nos apaixonarmos de novo, e mais, só mais uma vez...

Queda comigo tua alegria, teu otimismo, teu impressionante senso de justiça, tua placidez, tua prudência, teus ensinamentos, tua fé na vida e nas pessoas. Levo comigo teu olhar azul que disfarçava bem teus rancores e ressentimentos passados, teu sorriso feliz quando chegava em casa do trabalho, assim como tua recente luta, teu sofrimento físico e tua coragem dos últimos tempos.

Vou te amar para sempre desejando que nos encontremos de novo um dia, não na morte, mas numa outra vida se isso é possível. Assim, quando tivermos nossos vinte anos de novo eu estarei te esperando lá no nosso farol, na Lanterna dos Afogados, porque sei que voltarás do mar. Como siempre!

Temos um amor para continuar, nossos filhos querem nascer. Então, descansa agora, mas depois, vê se não demora!

Foto: Arquivo Pessoal, Paris, setembro de 2015. 

sábado, 23 de outubro de 2021

Escritos do amanhecer

Combarro, Galícia Foto: Arquivo pessoal

Fazia mais ou menos três meses que eu não tinha o prazer de dormir sete horas seguidas. Foi desde que J. voltou do hospital, não para convalescer, mas pela simples e dura razão que o setor de Oncologia informou que não poderia fazer mais nada por ele. Estive ocupada esse tempo atendendo suas demandas, tentando confortar e aliviar suas dores e uma multiplicidade de sintomas que um paciente com câncer pode acumular.

A minha dor física começou justamente aí, quando os médicos oncologistas o abandonaram depois de três anos de tratamento e minha dor psicológica já estava há muito instalada. Comecei, então a me encher de cansaços, de ansiedade, de dores por todo corpo. Tinha dificuldade até para levantar da cama de manhã, os músculos pareciam enrijecidos, doía para me vestir, para esticar as pernas e até para pentear os cabelos. Fui atrás de ajuda médica, porque os dias estavam tornando-se insuportáveis e empilhando mais um doente dentro de casa. Com dois eu não podia.

Minhas dores, as quais eu atribuía de origem emocional, se converteram num diagnóstico comprovado por testes de laboratório chamado de polimialgia reumática.  O médico prescreveu um tratamento com prednisona durante três meses e disse: Tranquilavás a te poner bien. Ele tinha razão, eu já estava bastante aliviada em cinco dias de tratamento. 

Agora, precisamente há dois dias, J. voltou para o hospital. Está na Unidade de Cuidados Paliativos e eu prestes a tomar um voo de volta para o Brasil. Tinha passagem comprada desde julho, mês que costumava começar a me organizar para passar o final de ano no Brasil. Mas naquele ano, as coisas estavam tomando um rumo diverso. Ele não iria comigo e eu não queria estar presente quando ele partisse. Era sabido que isso podia acontecer a qualquer momento. Pensei que uma despedida ali nos Cuidados Paliativos seria menos dolorosa. O ambiente hospitalar, embora pesado e propício a emoções mais fortes, sempre podemos dar um jeito de dissimular e fazer do momento como se fosse algo trivial. E ele, seguramente, estará entorpecido e letárgico, já não mais aflito com a sua e a nossa tragédia pessoal, mas ansiando somente que não tenha dores e possa estar tranquilo.

Agora sozinha em casa e tendo só a mim para cuidar, nesta manhã de domingo me sinto quase feliz. Ontem adormeci muito rápido com a ajuda de um fitoterápico, de um comprimidinho tarja preta, lendo um romance bobo de Danielle Steel e com o barulho de uma chuva forte que caía. Dormi horas seguidas e repus boa dose de energia. Ao me levantar, precisei logo de um café, porque depois de tomar a prednisona fica um gosto forte na garganta. 

As malas estão prontas e há um checklist curto ao lado do computador: comparecer amanhã ao laboratório para o teste PCR exigido pela companhia aérea, preencher um formulário de saúde para o governo brasileiro e fazer uma recarga em meu celular do Brasil. Liguei a televisão da sala e levei o controle até um canal de rádio como sempre fazia quando J. estava saudável, trabalhando e só chegava às três da tarde. Na Melodia FM tocava Phil Collins, seu Easy Lover como num dia tranquilo, porém disfarçado de cotidiano. Tentei abstrair, porque definitivamente os tempos não estão normais. 

Assim como é provável que J. não volte mais para casa, eu não sei se volto a esse lugar e a esse país que me concedeu uma outra nacionalidade. Aqui nesse apartamento tive a sorte de viver tendo uma das vistas mais lindas do litoral da Galícia, acordando todas as manhãs com o barulho de barcos e de gaivotas. Aqui vivi durante mais de cinco anos plenos de felicidade, amor e crescimento pessoal. Porém, ficarão sentimentos contraditórios, de dor e alegria, incredulidade e aceitação, inquietação e paz.

De agora em diante, uma pergunta seguirá comigo para sempre ou até que eu seja digna de uma resposta. Por quê?

                                                                                             17 de outubro de 2021

 


Insônia