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20 de outubro, quarta- feira, 20 horas



Faz quatro dias que me despedi de J. depois de passar algumas horas com ele no hospital. Por sugestão da enfermeira, saímos por alguns minutos a fazer um passeio pelo largo corredor, naquela hora, começo de noite, praticamente vazio. No meio do caminho ele quis descer da cadeira de rodas e andar um pouco, porém cansou logo, retomamos com a cadeira e demos mais outras pequenas voltas. Naquele diminuto trajeto, não nos dissemos nada. Apenas eu lhe pedia que fôssemos mais devagar, enquanto caminhávamos e nos segurávamos um ao outro. Ele sempre andava mais rápido que eu. Depois de uns minutos, ele sinalizou que queria voltar e retornamos ao quarto daquela Unidade de Cuidados Paliativos.

Perto da vinte horas, era a hora da despedida. Sem chorar, me abracei a ele, disse que o amava e não conseguia deixar de segurá-lo tentando reter aquela proximidade. No fundo, eu sabia que não seria um "até breve". Ele, me segurando os braços, forçou-me lentamente a deixá-lo, sinalizando que já era tarde, que era hora de ir-me. Peguei minhas coisas na cadeira devagar e da porta atirei um beijo, aí sim, lágrimas já me molhavam a máscara. Ele retribuiu o beijo, mas continuou me recordando, com sinais, que se fazia tarde. E fui... Nem lembro mais como cheguei em casa naquela noite. 

A hora da despedida foi decidida por ele ali. Tudo parecia determinado. Quarenta e oito horas depois eu já estava no Brasil e ele já não respirava mais. Nossa história chegava ao fim.

Nos últimos meses, nos comunicávamos por escrito, porque o tratamento tinha lhe quitado a fala. Do hospital, um dia me escreveu um e-mail, extremamente conformado e aconselhando-me com sua costumeira sensatez:

"A tristeza e a depressão não nos servem de nada. Eu não posso mais te fazer feliz e a mim tampouco ninguém mais pode. Ao menos não aqui, nessa situação de dor e impossibilidades físicas. Seja feliz tu onde queiras, refaz tua vida da maneira e no lugar que preferires. Ser feliz é uma obrigação. Eu vou te amar para sempre."

Sim, meu amigo, meu amor,  só o tempo vai me ajudar a refazer minha vida. Mas neste momento e sempre resultará impossível esquecer nossa curta e plena vida em comum. Desde nosso primeiro encontro no aeroporto de Porto Alegre em 2013 até aquele quarto de hospital em Pontevedra foram oito breves anos de amor, "ganas de vivir", de vontade de abarcar o mundo, de desfrutar da maturidade, de realizar sonhos de juventude, de aplacar nossas sedes e desejos, de nos apaixonarmos de novo, e mais, só mais uma vez...

Queda comigo tua alegria, teu otimismo, teu impressionante senso de justiça, tua placidez, tua prudência, teus ensinamentos, tua fé na vida e nas pessoas. Levo comigo teu olhar azul que disfarçava bem teus rancores e ressentimentos passados, teu sorriso feliz quando chegava em casa do trabalho, assim como tua recente luta, teu sofrimento físico e tua coragem dos últimos tempos.

Vou te amar para sempre desejando que nos encontremos de novo um dia, não na morte, mas numa outra vida se isso é possível. Assim, quando tivermos nossos vinte anos de novo eu estarei te esperando lá no nosso farol, na Lanterna dos Afogados, porque sei que voltarás do mar. Como siempre!

Temos um amor para continuar, nossos filhos querem nascer. Então, descansa agora, mas depois, vê se não demora!

Foto: Arquivo Pessoal, Paris, setembro de 2015. 

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