quinta-feira, 14 de março de 2024

A lâmpada mágica

 

Foto: Pinterest

Em um distante povoado de algum lugar vivia um povo infeliz, mas em perfeita ordem. O governador não permitia sonhos, então eles iam dormir quando as lâmpadas das ruas se acendiam e levantavam quando elas se apagavam. Quando as lâmpadas estavam acesas não se via o céu e o povo que ali vivia nunca tinha visto o brilho das estrelas.

Tudo era perfeito até que um dia uma das lâmpadas não funcionou como deveria e não acendeu. O governador logo pensou num ataque terrorista ou de opositores de seu governo.

À princípio apenas poucas pessoas tiveram interesse em acercar-se até o poste apagado, e às escondidas puderam perceber um pequeno pedaço de céu estrelado e contaram aos amigos tão encantadora experiência.

O governador solicitou urgente a reparação da lâmpada. Entretanto, o eletricista tentou encontrar onde estava o problema, mas como não obteve sucesso, resolveu trocar por outra lâmpada.

Porém a lâmpada nova não funcionava bem, acendia e apagava quando queria a qualquer hora do dia e sempre quando as noites estavam nubladas. Era um mistério que ninguém conseguia entender.

Pouco a pouco, as pessoas começaram a frequentar aquele ponto da rua onde estava a misteriosa lâmpada,  porque dali podiam ver as estrelas quando era noite clara e ficavam ali a admirar, a conversar uns com os outros, a fazer planos, amizades, jogavam, riam e foram desenvolvendo fortes vínculos dia após dia. E a cada dia chegava mais gente. Começaram a amar aquela lâmpada defeituosa porque ela espalhou a harmonia e o amor por aquele povoado como nos contos de fadas.

O governador ficou preocupado e furioso, porque foi perdendo a autoridade  e o poder sobre aqueles que dizia ser "seu" povo e armou um plano. Mandou sabotar a entrega de água em alguns pontos da cidadezinha, destruiu pequenos pontilhões que serviam à comunidade, queimou árvores de frutas e alguns galpões de armazenamento de alimento e depois culpou a misteriosa lâmpada pelas adversidades que o lugar estava passando.

Os acontecimentos deixaram a maioria do povo com medo, ficaram vulneráveis e enfraquecidos  e acreditaram no governador que incutiu no povo a culpa numa suposta malignidade e poder da lâmpada. Pouco a pouco, eles foram voltando para casa, para sua ordem e normalidade anteriores.

Foram poucos os sonhadores que não acreditaram no governador e tentaram uma revolta, mas no final o governo se reuniu e tomou a decisão de destruir a tal lâmpada mágica e sumir com os revoltosos. Quando isso foi feito, ninguém mais teve sonhos naquele lugar, ninguém mais riu, ninguém mais brincou, nunca mais viram as estrelas e voltaram a ser os autômatos, frios e tristes de antes.

Moral: Lute contra tudo e todos que pretendam destruir seus sonhos, não se deixe intimidar, mantenha sua lâmpada mágica sempre intacta acendendo e apagando a seu bel-prazer.

Tradução livre do original em inglês, The Magical Street Lamp, autor desconhecido

sábado, 9 de março de 2024

O desespero



Um dia ela começou a ser perseguida pelo desespero que durante vários momentos insistia em tomar conta de seu humor já muito combalido. Era preciso estar atenta, pois ele vinha a qualquer hora, assim como relatam pessoas com pânico. Talvez, similar ao pânico, o desespero é um pouco disso, uma desesperança, uma angústia, uma dor que não dói fisicamente, é uma dor do espírito. 

Era o desespero do tempo passando, das lembranças, das perdas, das confusões, dos erros, das vidas deixadas para trás, dos amores perdidos, da solidão, das casas vazias, dos objetos espalhados e esquecidos nos cantos. Ela precisava fugir da desesperança e tentava reinventar tudo a sua volta.

Na casa nova—já tinha parado de contar quantas— objetos significantes foram reunidos, não importava se fossem trastes velhos. Havia novos também para contrabalançar. Precisava ter por perto coisas que faziam parte de tempos que pareciam indefinidamente felizes. Ela nada sabia sobre a impermanência de tudo e todos. Nada sabia sobre a morte que veio de roldão, rasgando as páginas de seus projetos de vida. Quem parte deixa uma desordem, isso é um fato, e ela que ficou viva, não sabia o que fazer para pôr tudo em ordem de novo. Era preciso acostumar-se com a desordem como seu novo normal.

Agora ela teme os projetos longos, porque aprendeu que de hora em hora, Deus não melhora, como diz o dito popular. Tudo muda, se por interferência divina, não sabia. Agora ela entendia até de sua própria impermanência. Por isso somente vai lutando contra o desespero dia após dia, pois desesperar não resolve nada, mesmo porque uma parte dela já tinha ido, lutava então pela parte que ficou.  


Insônia