quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Cuéntame cómo pasó




Cuéntame cómo pasó é a série mais longeva da televisão pública espanhola TVE que começou a ser transmitida no dia 23 de abril de 2001, uma vez por semana, geralmente às quintas-feiras em horário nobre. A ideia original, roteiro e produção de Miguel Ángel Bernardeau  já leva atualmente vinte temporadas. 

Ambientada no bairro fictício de San Genaro em Madrid, a primeira temporada abre a série no ano de 1968. Tem como núcleo central a família Alcántara, o pai Antonio, a mãe Mercedes, a avó Herminia, os três filhos, dois adolescentes Inés e Toni, mais o menino Carlos e em outra década ainda viria a caçula Maria. 

Muitos outros personagens compõem a história como coadjuvantes encarnando outras pessoas da família, amigos e a vizinhança, num elenco de grandes nomes e talentos bastante conhecidos das artes dramáticas da Espanha. San Genaro representa um simpático bairro popular onde todos se conhecem e se encontram na igreja, na cafeteria, na escola, na banca de revista, no salão de beleza, na videolocadora e em outros pequenos negócios que vão abrindo com a passagem do tempo. 

A mais recente temporada já vem exibindo acontecimentos entre os anos de 1988 e 1989 e já está em marcha a gravação da 21ª temporada que certamente embarcará nos anos 90.
Um dado curioso e singular da série é que a maioria dos personagens do núcleo central, da família e da vizinhança de San Genaro segue sendo interpretada pelos mesmos atores, onde o espectador pode perceber a passagem natural e real do tempo para aos adultos, os jovens tornando-se adultos e as crianças tornando-se jovens nesses quase vinte anos de produção.

Os episódios revelam a vida cotidiana da família, os conflitos, as lutas diárias, as relações sociais e familiares— mas o mais interessante— o roteiro, não raro enlaça de alguma maneira com os eventos históricos do país e com as mudanças comportamentais e de percepções do povo espanhol à medida que o tempo passa na obra fictícia e nos eventos reais.

As temporadas estão disponíveis desde o princípio no sítio da TVE na internet, também no aplicativo da emissora. Até 2016 estava disponível a reprise de temporadas passadas no horário da tarde pela televisão aberta, versão similar ao nosso programa brasileiro das tardes Vale a pena ver de novo. Comecei a assistir a série justamente através dessas reprises logo que cheguei à Espanha com o intuito de aprender o idioma, o modo de vida e os costumes do novo país, para onde as circunstâncias e escolhas de vida me haviam trazido.

No começo foi bastante difícil. Eu não entendia muitas palavras e frases de maneira literal, mas à medida que ia me familiarizando com os personagens fui aos poucos compreendendo os contextos, as expressões usadas, a linguagem coloquial, a entonação dada às falas e as situações apresentadas. Com isso ia aprendendo espanhol e tentando conectar o que assistia com o que via e ouvia fora da televisão. Indagava também das pessoas para medir o quanto de popularidade e aceitação o público ainda dedicava ao programa, mas a maioria não mais assistia, me diziam estar fartos de tanto tempo do programa no ar. Creio que também porque já se iniciara uma era pós televisão aberta, de serviços de streaming e de televisão por assinatura.

Mesmo assim eu segui vendo capítulo a capítulo, temporada a temporada.  Cada episódio me contava um evento histórico, um acontecimento importante do país ou enfocava algum tema psicológico e social. Aprendi muito sobre o período de quarenta anos de ditadura franquista na Espanha, sobre os conflitos internos europeus, sobre a política interna espanhola, sobre a transição democrática e também sobre alguns acidentes que comoveram o país. 

Ao mesmo tempo acompanhava a narrativa da vida daquele grupo de pessoas que enfrentava as mudanças sociais e de costumes na sociedade daqueles tempos. A liberação da mulher, os problemas econômicos, a violência de gênero, o uso de drogas, os relacionamentos pais e filhos, marido e mulher, os avanços tecnológicos, os desafios da ciência para vencer as enfermidades, o desemprego, o subemprego, os preconceitos de raça, o poder da igreja católica, os momentos de crescimento do país e a busca por ascensão social das famílias eram e ainda são temas recorrentes.

Conheci através de Cuéntame uma infinidade de festas populares e a cultura geral do povo. Aprendi a reconhecer vários artistas, atores, comediantes, bandas, músicas, filmes, autores e livros que tiveram êxito nas mais variadas épocas e as premiações mais importantes que aconteciam todo ano. A Movida Madrileña foi um movimento contracultural surgido em Madrid durante os primeiros anos de transição da Espanha pós-franquista  que se estendeu a outras províncias com o nome genérico La Movida¹ e esse movimento é forte presença na história e na trilha sonora de Cuéntame.

Ademais do enfoque histórico e sociocultural, os temas psicológicos e humanos são tratados pelo autor de maneira sensibilíssima, com textos apurados e delicados. Como mulher pude me ver retratada em praticamente todos os personagens femininos, desde a avó até a adolescente. E ainda sob um olhar atento à todas as fases da vida da família fictícia e entremeada com a história do povo espanhol, o autor coloca uma narração de fundo feita na voz de Carlos, um dos filhos que se torna romancista e presumivelmente seja o personagem em que baseia sua vida.

Hoje, graças a Cuéntame e outras séries que venho acompanhando, adquiri enorme habilidade de ler e compreender o espanhol, mas ainda precisando muito evoluir na escrita e na fala.
Como curiosidade deixo aqui os links de duas das mais emblemáticas aberturas da série com a canção "Cuéntame" do grupo pop espanhol Formula V, mais a versão interpretada por Paula Gallego a jovem atriz que encarna Maria Alcântara, a mais jovem da família.
A letra da canção, também abaixo, me reporta fortemente a meu próprio autoexílio, quando "nela se interroga a um interlocutor o seu regresso depois de uma suposta viagem e suas experiências passadas no exterior."

Cuéntame cómo te ha ido, si has conocido la felicidad

1. https://es.wikipedia.org/wiki/Movida_madrile%C3%B1a
2. http://www.rtve.es/television/cuentame/temporadas/
 https://www.youtube.com/watch?v=TYS1UEFDBOM&t=85s
 https://www.youtube.com/watch?v=lSnaaXmC7hs
https://www.youtube.com/watch?v=qq1wzn3Ecu0


Cuéntame tú que has vivido,
el despertar de un tiempo que nos cambió,
volverás a ser un niño,
al recordar las largas tardes de Sol.
Háblame de lo que has encontrado
en tu largo caminar
Cuéntame como te ha ido
si has conocido la felicidad
Cuéntame como te ha ido
si has conocido la felicidad

Sentirás el dulce abrazo,
de aquellos padres, qué dieron todo por tí.
El sabor del primer beso,
todos los sueños que tú querías cumplir.
Háblame de lo que has encontrado
en tu largo caminar
Cuéntame como te ha ido
si has conocido la felicidad
cuéntame como te ha ido
si has conocido la felicidad

Hoy podré junto a tí
enbocar nuestro ayer
cuéntame cómo fue.
Háblame de aquellos días
Háblame de aquellos días
Háblame de aquellos días
Cuéntame como te ha ido
si has conocido la felicid














terça-feira, 19 de novembro de 2019

A rede, o ódio e as falácias


A rede social cumpre bem seu espaço para desabafos e desafogos e além de divertir aceita e recebe likes de toda sandice que sai da cabeça de quem quer que seja, inclusive da minha.  Leio muitas postagens opinativas de amigos, familiares, conhecidos e de pessoas desconhecidas. Não raro essas opiniões fogem totalmente do meu modo de ver as coisas, mas a pluralidade da rede social é a base para que ela se sustente, desde que essa liberdade de expressão  e de sentimentos não interfira na política de conteúdos da rede, que quase ninguém lê, é certo, mas vamos subentender aqui que a rede faça esse controle.

Me chama a atenção os discursos de ódio que andam bastante comuns e creio que aos usuários lhes falta um tanto de discernimento para separar o que é liberdade de expressão, notícia falsa e opinião nas questões científicas, nos fundamentos do estado de direito, nas políticas públicas e ou na legislação vigente para citar os assuntos mais recorrentes. É comum pessoas fazerem comentários e postagens totalmente inconsistentes, infundados e de falsidade aterradoras sobre assuntos que têm pouco, nenhum conhecimento ou conhecimento distorcido.

Para exemplificar, um dia desses me deparei com a postagem de uma senhora minha desconhecida, felizmente. Ela pedia licença aos seus amigos para mandar o ex-presidente Lula para aquele lugar. Lula, vai tomar no ... era o título da postagem. No seu entendimento Lula lhe ofendia muitíssimo, quando se dirigia ao conjunto dos trabalhadores igualmente, ou seja como se todos os trabalhadores ganhassem baixos salários

Que absurdo, não? Que amargura! E seguia dizendo que não era o caso de seu marido que tinha um ótimo salário, porque ele tinha estudado muito na vida e trabalhava várias horas por dia. Notem que se refere ao marido, não a ela. Dizia que seus filhos ao estarem cientes de que se quisessem ser alguém na vida, estariam horas e horas no quarto estudando também. A tal senhora, em nenhum momento fazia referência ou explicitava quais seriam suas próprias atividades. E seguia fazendo sua ode à meritocracia enaltecendo suas (?) posses, mas sem comentar se algo provinha de seu próprio trabalho.

Dizia também que já havia sido roubada por vagabundos assaltantes que prejudicam trabalhadores honestos como seu marido, a figura central de seu relato de boa esposa e dona de casa, cujo, ao mesmo tempo, mérito e pena é ostentar um valioso colar que só pode usar em fotografia de Facebook. Oh, Coitada!

A declaração dessa senhora é uma estrondosa afirmação de ódio aos pobres e à imensa parcela da população trabalhadora brasileira, porque justamente está baseada numa inverdade. Lula, como figura política e governante por dois mandatos, sempre esteve preocupado com o conjunto da sociedade e seus governos deram conta inegavelmente de melhorar a vida de uma grande parcela da população e inclusive dos banqueiros, diga-se de passagem. 

O desabafo dessa senhora é um escancarado discurso de ódio de classe. Como dizia esses dias a presidente interina da Bolívia — Eu sou ariana, europeia, não tenho nada que ver com esses índios— a senhora amargurada do Facebook quer dizer justamente o mesmo, não somos esses trabalhadores a que Lula se refere, somos de outra estirpe.

Claro que eu não desvalorizo a honestidade, o estudo e o trabalho. Tampouco subestimo a vida em família. Eu me espanto é com essa família tradicional brasileira que se auto-intitula gente de bem —como se todos os outros fossem do mal— e que vive na bolha de seus condomínios e  em nenhum momento observa ou questiona as diferenças sociais, que criminaliza a pobreza e desmerece os mais pobres. 

Eu interponho-me ao ódio que essas pessoas cultivam a quem quer e a quem promove justiça social e a diminuição das desigualdades. Não bastando a loucura das redes sociais, as instituições também levam incautos à discussões sem fundamento. Um grupo de deputados federais anda às pressas tentando mudar um artigo da Constituição que só pode ser mudado por outra Assembleia Constituinte com a única finalidade de manter preso um adversário político. Fruto óbvio da desinformação. 

Outro dia, uma manifestação de apoiadores do governo queria o fechamento do Supremo Tribunal Federal, porque algumas decisões dessa instituição contrariavam seus desejos. Outros mais audazes em ostentar sua ignorância cantavam o Hino Nacional agarrado à bíblias, porque são incapazes de entender a separação entre estado e religião. Enquanto isso, outros ainda enaltecem um juiz notadamente corrupto em frente a uma réplica de mau gosto da estátua da Liberdade americana, símbolo de uma loja de departamentos cujo dono tem sérios problemas éticos e cognitivos. Os adeptos do fora, tudo isso daí e esses fatos escancaram a ignorância e a malversação da informação.

A rede social poderia servir para uma finalidade mais didática e ensinar, por exemplo, o que está escrito na Constituição Federal Brasileira de 1988; quais são e o que é uma cláusula pétrea. Também seria interessante as pessoas conhecerem as Leis 8080 e 8142 , leis orgânicas do Sistema Único de Saúde, o Código Civil e Penal Brasileiros em seus princípios mais fundamentais. Poderia até  informar didaticamente como se organizam e quais as prerrogativas de cada Poder de Estado, Executivo, Legislativo e Judiciário. Um tanto de Ciência e História Geral cairiam muito bem também.

Contudo, para alguns isso significaria ao invés de informação e cultura chamariam de doutrinamento, palavra que, dependendo do conteúdo gera crítica ou não. Conteúdo religioso, por exemplo, não é considerado doutrinamento pelo senso comum, então ninguém se atreve a questionar. As igrejas doutrinam todos os dias há séculos e está tudo bem. Conteúdo político, dependendo do partido é aceito ou não. Mas na ideia de muitos seria melhor nem haver partidos. Uma monarquia absoluta, desfazendo o golpe que deram nos Bragança e representada por um rei maluco rodeado de príncipes alvoroçados e incultos caberia bem ao Brasil no parecer de alguns mais descuidados com a história do mundo. 

Enfim, é uma vastidão de barbaridades opinativas que saem da cabeça desse povo sem conhecimento e sem leitura numa época em que informação de qualidade está ao alcance das mãos literalmente. Em tempo, digo que toda pessoa tem direito a formar suas opiniões sobre todos os temas, o que é inadmissível é embasar essas opiniões em informações falsas e inverídicas cultivando assim ódios desnecessários e nocivos aos pactos de boa convivência.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Impermanências


"E era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e se sumia, a lua passava por todas as fases, as estações iam e vinham, deixando sua marca nas árvores, na terra, nas coisas e nas pessoas."(O Continente - Érico Veríssimo)



Quando eu nasci ela tinha dezenove anos e minha mãe convidou-a para ser minha madrinha de Crisma, segundo sacramento católico que tempos depois só seria oferecido à pré-adolescentes como uma confirmação ou ratificação do Batismo. Sacramentos e religiosidades à parte, lembro de quando passei a conviver com aquela moça um pouco mais jovem que minha mãe. Alta, bonita, bem vestida, perfumada, unhas e lábios sempre bem pintados. Ela morava numa casa grande junto com os pais, meus tios-avós e vários irmãos e irmãs todos já crescidos, jovens cada um com sua vida e seu trabalho naquela época áurea e ao mesmo tempo complicada e perigosa da década de sessenta.

Eu gostava de ir naquela casa. As pessoas eram amáveis e me encantava um dos quartos das moças onde havia uma mescla de perfumes, além do cheiro forte de cigarros que a maioria da família fumava e que se espalhava pela casa toda. O mobiliário do quarto era de madeira escura e do guarda-roupa mal fechado se podia ver que era abarrotado de roupas bonitas, cintos e lenços.  Em cima da cômoda havia uma infinidade de pulseiras, maquiagens, colares e brincos, tudo multicolorido. Mas o que mais me chamava a atenção era uma caixinha de música daquelas que quando aberta, uma boneca bailarina rodava. Puxando pela memória vejo uma caixinha de madeira escura, forrada por dentro de um tecido vermelho e decorada com motivos japoneses. É comum que as crianças tenham um atrativo pelos banheiros de casas alheias e o daquela casa lembro muito do perfume, da limpeza, dos azulejos brancos com uma faixa verde escura, o piso antigo, a pia e a banheira grandes. Fechando os olhos, sou capaz de lembrar até hoje do cheiro daquele cômodo ensolarado. A porta da cozinha se abria para uma longa escadaria que descia até um quintal cheio de árvores, assim como para chegar à porta da sala, vindo da rua, era preciso descer vários lances de escada. Todas as dimensões que comento são de uma perspectiva infantil e que obviamente não podem servir como parâmetro da realidade. É bem possível que tudo esteja superdimensionado em minha memória.  

Sou capaz de lembrar também de uma festa de São João naquela casa alegre. A sala era muito grande(?) com um piso brilhante de tábuas de cor clara e havia pouco mobiliário. Estava decorada com aquelas bandeirinhas de papel de seda e balões do mesmo papel que pendiam de cordões pregados nas paredes. Havia muita gente que dançava no meio da sala e gente sentada ao redor apreciando os que dançavam. E havia doces de abóbora, de amendoim, rapadura daquelas enroladas na palha de milho e vinho quente.  Os convidados eram gente da vizinhança, parentes e amigos que foram viver ali naquele bairro da capital e se aglutinaram naquela rua vindos do interior. Em um certo momento da festa todos saíram à rua para ver uma enorme fogueira que se acendia naquela remota noite de junho.

Minha madrinha e suas irmãs tinham muitos livros e revistas e todas eram ávidas leitoras de romances, best-sellers, sagas e contos. Lembro de escutá-las contar dos filmes que viam no cinema, dos artistas que gostavam e das músicas que ouviam. É muito claro em minha memória associar essa casa às músicas do movimento musical da época, a Jovem Guarda, das músicas de Simon & Garfunkel (The Boxer, The Sounds of Silence), de Bob Dylan (Blowing the wind), The Mamas and the Papas (California Dreamin' ), os Beatles (Help) e algumas trilhas de filmes da época como Mrs. Robinson composta especialmente para o famoso The Graduate (A primeira noite de um homem) estrelado por Dustin Hoffmann e Anne Bancroft. Foi também nessa casa que lembro da vizinhança se reunir para assistir um dos jogos de futebol da semifinal da Copa do Mundo de 1970. Brasil e Inglaterra 1x0.

Nos meus aniversários minha madrinha me levava presentes e o que mais tenho vivo na memória foi o que ganhei no aniversário de sete anos. Veio embalado numa caixa muito grande e era um quarto de bonecas em madeira pintada de rosa, o guarda-roupa de duas portas, a cama, a cômoda e uma cadeira.  Eu não tinha uma boneca que se adaptasse àquele tamanho de quarto, porque ainda não existiam as Susies, Moranguinhos e Fofoletes do tempo de minha irmã mais nova ou as Barbies e Monsters da minha neta. Minha única boneca era do tamanho de um bebê recém-nascido e meu "urso de pelúcia" era um coelho de tecido preto, de olho vermelho - que eu adorava -  também era grande demais para a caminha de brinquedo. De qualquer modo, fiquei encantada com o presente e brinquei muito com ele.

Sempre admirei essa mulher pela elegância no andar, no vestir e as roupas da moda que usava, mas mais do que isso, ela transmitia um ar inteligente, sensato e cordial. Embora não tenha tido carreira universitária, creio que fez algum curso técnico, tinha um bom emprego público onde trabalhou até a aposentadoria. 
Quando fiz a primeira comunhão - vejam que quanto aos sacramentos da Madre Igreja fui cumpridora - creio que foi ela quem me deu um rosário de cristal. Não tenho certeza, porque minha avó também estava lá e o presente pode ter vindo dela também. A única certeza que tenho é que logo perdi o tal rosário tempos depois. Era bonito. Vieram outros presentes certamente, um anel de pedra vermelha ou tecidos para confeccionar vestidos. Naquela época não era comum comprar roupas prontas e felizmente minha mãe costurava para nós.

Um tempo depois, pelos meus doze anos, minha família mudou de cidade.  Como as comunicações e os transportes eram difíceis, não se tinha o hábito de viajar, o telefone não era de uso popular, então os encontros passaram a rarear. Quando aprovei no concurso para acesso à Universidade lembro que recebi um telegrama onde ela me felicitava. A partir daí os encontros já eram bastante esporádicos.

Tempos atrás o trato com  crianças não contemplava muitas manifestações de carinho, beijos, abraços, tampouco muito diálogo. Das crianças era cobrada obediência e respeito aos mais velhos - mesmo que muitas vezes não houvesse a recíproca do respeito - mas lembro daquela moça sempre me tratar com delicadeza e simpatia, por vezes, como sua igual, não como filha, que seria a atribuição da madrinha, uma segunda mãe, mas como uma amiga.

Não sei por que ela nunca se casou numa época que mulheres solteiras eram ridicularizadas e rotuladas como incompletas e outros adjetivos mais cruéis. Seguramente candidatos não faltaram e ela não ter escolhido ninguém se comprova uma sabedoria e coragem ímpares para uma pessoa de sua geração, cujas mulheres tinham uma vida bastante controlada pela família e pela sociedade. O fato dela ter preferido uma vida "single" e a companhia de si mesma, já que tinha autonomia econômica, certamente a distingue das demais mulheres de sua época. 

Quando eu fiz 50 anos ela me levou uns brincos muito bonitos num encontro na casa dos meus pais. Anos antes coincidentemente, estávamos morando na mesma cidade e aí, sim retomamos um pouco mais de convívio. Foram alguns anos de encontros divertidos, ambas adultas. Aí eu é que lhe levava presentes de aniversário ou ela me mandava flores no meu, trocávamos livros, telefonemas, íamos a festinhas familiares ou encontros dominicais. Foi um tempo que deixou saudade.

Mas o tempo e a impermanência das coisas, das pessoas, das situações e dos acontecimentos impedem que se possa conhecer mais profundamente ou manter contato frequente e duradouro com todas as pessoas que dedicamos carinho e respeito e àquelas que nos dedicam o mesmo. O que resta é a lembrança daquela pessoa estar presente e próxima naqueles dias especiais. Fica só um desconsolo por esses dias não terem sido mais intensos e mais numerosos.

Que os deuses te acolham e te protejam, minha madrinha.





Insônia