sábado, 30 de março de 2019

Quem com impeachment fere, com impeachment será ferido


A fala mais contundente, cruel e desumana naquela inesquecível sessão da Câmara dos Deputados do dia 17 de abril de 2016, quando se votava o impeachment da Presidenta Dilma Roussef foi do atual Presidente da República. Aos gritos, ele pronunciava e dedicava seu voto a um coronel torturador da ditadura que, segundo ele era o terror da Presidenta. Ele fez questão de proferir tal torpe minidiscurso, quando poderia ter se limitado a dizer somente sim. E a cena correu o mundo para vergonha de muitos e deleite de outros tantos.

Foi nesse exato momento que a democracia e a boa política começaram a morrer dando lugar à suspeição, à descrença e à exasperação contra todos os temas contraditórios ou divergentes na sociedade e contra ações e políticas públicas civilizadas e civilizantes implementadas nos últimos anos, seja qual fosse a cor partidária que as tenha implementado.

Não é estranho que o mesmo desprezível discursante tenha sido eleito presidente dois anos e alguns meses mais tarde e tenha instalado no país o ódio como o maior vitorioso e a desinformação como seu suporte. Quem venceu, literalmente as eleições no Brasil em 2018 foi o ódio à política e aos políticos. Infelizmente, uma população desinformada, ignorante e alienada deixou-se tocar pela cólera ao sistema político como um todo, sem imaginar que a importante ação de votar e escolher seus representantes se voltaria contra ela em curtíssimo espaço de tempo.

Agora os ventos parecem mostrar a precisão do antigo dito bíblico que diz que todas as más ações feitas pelo homem se voltarão contra o próprio homem:
Quem com ferro fere, com ferro será ferido, que na verdade diz em Mateus 26:52, todos os que lançarem mão da espada, pela espada morrerão...

Então, fazendo a analogia, quem com impeachment fere, com impeachment poderá ser ferido.
Numa democracia é altamente traumatizante e trás impactos bastante negativos quando se derruba um representante popular eleito legitimamente, principalmente com motivação desprovida de sentido legal e  sem provas de crime de responsabilidade. Agora o outro polo social pode estar prestes a sofrer na própria pele tudo que desejou, planejou, disseminou e engendrou contra os adversários em 2016, quando apoiou a destituição de uma pessoa honesta e democrata. 

O impeachment que se avizinha, mais cedo ou mais tarde, talvez seja um mal natural pela comprovada incompetência e delírios do chefe do executivo que, diga-se de passagem, já cometeu mais crimes de responsabilidade em três meses de mandato do que sua antecessora foi acusada. Além disso, pode ser um mal necessário para que o outro lado experimente do mesmo remédio amargo neutralizando, quem sabe, a polarização já tão exacerbada pelas cada vez mais insanas e irresponsáveis declarações do presidente eleito em cujo caráter faltam sabedoria e sensibilidade para governar um país tão diverso de 200 milhões de habitantes.

Haverá, entretanto uma abismal diferença entre os dois casos de impeachment. No primeiro, houve uma defesa articulada, inteligente, fundamentada e aguerrida do mandato. No segundo caso, um covarde, incompetente e insano certamente fugirá do enfrentamento e assim uma vez na vida poderá mostrar um pouco de dignidade, não restando-lhe saída melhor e mais descomplicada a não ser a renúncia. O futuro sem ele é incerto e não isento de bastante confusão também. A Constituição Federal deve ser respeitada e seguida. Os embates ideológicos, as lutas e desafios hão de continuar, contudo o impedimento desse presidente e o consequente afastamento de seus familiares e gurus de governo podem ser a retomada de uma luta mais democrática e construtiva. 

terça-feira, 19 de março de 2019

Meu pai feminista



Artículo dedicado al Día de los dos Padres y dia de San José en España
 19 de marzo.

Em 1926 Getúlio Vargas foi eleito deputado federal e a partir daí  foi consolidando seu avanço político até ser eleito presidente do Brasil por processo indireto em 1934 e tornar-se um ditador em 1937, quando iniciou-se o período histórico do Brasil denominado Estado Novo. Ainda nesse ano Washington Luís foi eleito pelo voto direto à Presidência da República com pouco mais de 688 mil votos e com a larguíssima margem de 99% dos votos, embora com o comparecimento de apenas 2% da população. Em setembro deste mesmo ano foi promulgada a reforma da Constituição de 1891, houve um golpe de Estado em Portugal, o partido fascista italiano torna-se partido-estado e as células do nazi-fascismo e do anti-semitismo já vão se formando na Alemanha de Hitler. Nesse mesmo ano de 1926 nasceram o comediante Jerry Lewis, a Rainha da Inglaterra Elisabeth II, a atriz Marilyn Monroe, o filósofo Michel Foucault, o escritor Carlos Heitor Cony, o grande líder cubano Fidel Castro e muitas outras figuras importantes na história mundial. As Olimpíadas estavam em sua 8ª edição e ainda não havia a premiação dos Oscar pela indústria do cinema. Chuá, Chuá, música antológica brasileira de Pedro de Sá Pereira e Ari Pavão, gravada por muitos artistas e em várias versões, mais recentemente por Xitãozinho e Xororó encabeçava a lista dos sucessos do ano juntamente com "Ave Maria" de Bach/Gounod  interpretada por Vicente Celestino, o carioca da voz Orgulho do Brasil.¹ 

Foi nesse cenário político e cultural que nasceu meu pai em agosto de 1926, oitavo filho de uma família de doze irmãos. Viveu a infância e parte da juventude numa pequena propriedade rural da família no interior do Rio Grande do Sul. Cursou só o ensino primário e ajudava a família trabalhando com os pais e irmãos. Ao cumprir os 18 anos partiu para Porto Alegre para alistar-se ao exército e,  felizmente a Segunda Guerra Mundial já havia acabado, porque se os tivesse cumprido dois ou três anos antes talvez teria  sido levado a juntar-se à Força Expedicionária Brasileira. Naquela época, engajar-se no exército era uma das poucas oportunidades para os jovens que pretendiam sair de seus povoados no interior e tentar uma vida na cidade grande. Muitos dos meus tios, seus irmãos, seguiram a carreira militar.

Ainda bem jovem, depois de servir ao exército andou um pouco pelo Brasil, Rio de Janeiro, mais especificamente e lá fez alguns trabalhos. Minha mãe mantêm até hoje as cartas que recebia dele, enquanto ainda eram noivos e ele estava longe. Mais tarde, voltando ao Rio Grande do Sul, casou-se em 1956 e foi trabalhando como motorista de táxi, motorista particular, representante comercial, comerciante e viajante que começou os primeiros tempos de sua vida profissional e de casado.

Ele tem até hoje uma letra bonita, com as maiúsculas muito desenhadas própria de quem era exigido fazer caligrafia, um exercício para ter uma escrita bonita e legível, tema obrigatório e que era dado muita ênfase nas escolas da época. Meu pai também sempre teve grande habilidade para os cálculos que fazia mentalmente, sem erros, nos longos anos em que trabalhou com comércio próprio onde aliava seu espírito empreendedor com a sensatez para os negócios.  Teve primeiro um bar-armazém, tipo as mercearias de hoje, depois, por longos anos uma loja de produtos para agricultura e medicamentos veterinários e por último, antes de se aposentar, auxiliava minha mãe que estava a frente de um pequeno bazar de artigos de decoração e presentes. Lembro de auxiliá-lo no balanço anual com os produtos agropecuários e veterinários, quando ainda não tínhamos as calculadoras digitais e as caixas registradoras não eram obrigatórias. Lembro apenas de uma pequena máquina de somar, mas creio que ele usava só para confirmar a soma mental que fazia das muitas linhas com os valores dos produtos discriminados. Posteriormente, tudo era entregue bem caprichado ao contador em folhas de papel-almaço.

Não conheci outro homem mais ligado à família do que ele. Jamais saía sem minha mãe e os filhos. Nunca fazia programas sozinho ou com amigos fora de casa, o que não indica genericamente um valor ou um defeito, mas um espírito que escolheu livremente pela dedicação à família. Nas horas livres usava seu tempo no cuidado da casa, jardim, gramado, consertava coisas, pintava e tinha habilidade com estofaria.  Nunca o vi subir o tom de voz em brigas, reclamações ou expressar preconceito ou discriminação a nada, nem a ninguém. Responsabilidade, respeito, honestidade, delicadeza, atenção e um trabalhador incansável sempre foram seus pontos fortes.

Foi o primeiro homem feminista que conheci, mas foi depois de muitos anos que percebi essa qualidade no caráter dele. Os muitos conceitos de feminismo falam em promover a afirmação, investir de poder e liberar as mulheres dos padrões patriarcais, mas meu pai, além disso ele antevia a igualdade de gêneros.  Lembro que ele levantava de noite e me dava xarope para tosse ou AAS infantil diluído na água numa colherinha. Em muitas fases da nossa vida, minha mãe mantinha uma empregada, mas lembro dele cozinhar, levar a família para passear nos fins-de-semana, nos comprava livros, roupas e nos tomava os pontos da escola. Lembro que um dia queria escrever para minha avó, antes de entrar para a escola, mas apenas conhecia as letras e ele me ditou o texto. 

Durante as décadas de 60, 70 na minha infância e adolescência o mundo passava por uma série de transformações, o avanço do feminismo, o movimento hippie, a contracultura, o descontentamento popular com guerras, conflitos e governos, o movimento negro, os embates raciais e sociológicos e as palavras dele eram sempre de respeito ao ser humano, à condição feminina de minha mãe, suas filhas, mãe e irmãs, embora politicamente não fosse engajado, como a maioria do povo não era. Quando irrompeu a ditadura militar e o golpe de Estado em 1964 ele já estava casado, com duas filhas e outra prestes a nascer. Deste ano, pouco tenho lembranças, somente de alguns fatos pontuais como andar em um carro grande e verde que ele tinha para trabalhar de taxista, brincar em frente a um sobrado branco das ruas do bairro em que morávamos, de assistir desenho animado numa televisão novinha em folha na casa de uma tia, de ganhar um anel de pedra vermelha e visitar no hospital minha mãe que acabava de ter sua terceira filha, um bebê gordinho com uma carinha muito vermelha num dia de calor naquele março de 1964.

Enquanto meu pai esteve estabelecido com comércio, minha mãe foi sempre a sua parceira, pois trabalhavam e planejavam juntos. Jamais o vi atuar para impor sua vontade ou passar por cima das liberdades dela ou minimizar a inteligência e o valor que minha mãe agregava ao seu trabalho.

Só depois de adulta constatei também que meu pai sempre foi um feminista mesmo sem saber, mesmo não militante, pois eu não percebia que havia a supremacia do homem nas famílias e na sociedade. Quando passei a conviver com colegas de escola e frequentar outras casas fora da família, percebi o quanto a figura do homem era tida como autoridade máxima, com as mulheres em sua grande maioria, realizando exclusivamente serviços domésticos, assumindo a criação dos filhos e com o homem no centro do poder. Nossa casa era cheia de mulheres, com um único irmão bem mais novo e eu não fazia diferença entre a autoridade de minha mãe e a de meu pai e nunca percebi atitudes machistas da parte dele. Meus pais sempre  compartilharam a nossa educação, as tarefas, o trabalho e as decisões. Minha mãe nunca foi uma mulher submissa, ao contrário, às vezes era até criticada por alguns membros da família por manter uma relação mais igualitária com o marido. 

Ele nunca submetia a família à ordens extremamente autoritárias ou sem fundamento e exercia sua autoridade de pai na medida do exemplo e da sensatez, embora naquela época em que éramos crianças não houvesse diálogo, as relações familiares eram mais formais e a pedagogia era tarefa para a escola.  Mesmo assim nunca batia nos filhos, ainda que fosse uma época que surras e castigos à crianças eram vistos com muita normalidade e faziam parte da educação. Aos filhos foi um incentivador inesgotável da necessidade do estudo e de seguir uma profissão, dando-lhes liberdade para trilhar seus caminhos e escolhas, embora nem tudo fosse de seu acordo. Como nunca é. Hoje, depois dos filhos adultos é um avô e bisavô ainda mais apaixonado. 

Creio que o feminismo em um homem só nasce de um temperamento justo, decente, ético, inteligente e generoso. Um homem precisa dessas qualidades para ser feminista. Meu pai é um feminista não só porque esteve ao lado de minha mãe nas tarefas domésticas, na criação dos filhos e nas decisões da família, mas porque reúne todas as qualidades de um homem íntegro que evoluiu com o tempo, com as mudanças sociais, científicas, políticas, de pensamento e de convivência humanas. Definitivamente é um exemplo a ser seguido pelos netos e bisnetos que já estão sendo ou serão um pouco dele no futuro, estendendo seus feitos, prolongando seu caráter e sua memória.


F E L I Z   D I A   D O S   P A I S, P A I.💖


 https://www.youtube.com/watch?v=Z6jLwDFZALw

1.https://asmusicasmaistocadas.wordpress.com/2013/09/28/musicas-cancoes-mais-populares-no-brasil-em-1926/


Propriedade da Família de meus avós onde meu pai nasceu- Fotos: Sérgio Silva


quinta-feira, 14 de março de 2019

Tragédia Anunciada



Eu sabia que daqueles gestos de arma na mão em crianças, jovens e adultos incentivadas pelo presidente enquanto candidato não sairia coisa boa. Aqueles gestos eram demasiado surreais, absurdos e insensatos para quem não se conecta com violência, não cultua ódios e não se identifica com  morte e destruição. Com armas não se brinca, armas são feitas para matar, ferir e intimidar. Não há outra função para elas e por isso só devem estar nas mãos de quem tem o dever de promover segurança e estar capacitado para a função. Armar os cidadãos é política pública de truculentos, insanos e de incompetentes que preferem eliminar ou aprisionar pessoas, ao invés de enfrentar os problemas em sua profundidade. São estes que dormem com uma arma do lado por medo de um inimigo que vive dentro deles mesmos, a sua própria loucura e sua visão enviesada do mundo. São os instaladores da barbárie.
O massacre na escola em Suzano não é o primeiro caso no Brasil, mas é o primeiro episódio pós-gestos campanha eleitoral de um governo que condescende, estimula e baseia seu pensamento na apologia do ódio e da violência. O alvo dessa gente insana e truculenta é a destruição... da educação, do pensamento plural, da cultura da paz, etc...
O lema deles é odiar, aniquilar, destruir e com isso instilar o medo nas pessoas.
Como muitas tragédias brasileiras, Suzano já era anunciada. Quase ninguém percebeu, quase ninguém falou dos gestos. O que os pais daquelas  crianças de 3, 4 , 6 anos às quais o presidente tirou foto gesticulando estarão pensando agora? Vão definitivamente mandá-las armadas para a escola ou ou o quê? Estarão refletindo sobre o ocorrido?
Se eu pudesse mandava escrever nos céus do Brasil um imenso S.O.S.(Save Our Souls)
Pode ser que algum extra-terrestre veja e mande ajuda humanitária de verdade ou nos mostre um mundo melhor que esse.
A essas alturas, deixo aqui uma importante reflexão sobre uma frase que ouvi de um amigo numa conversa sobre ambientalismo : "Quem corre mais risco de extinção, transformação ou destruição é o homem e não o meio-ambiente." 

Insônia