sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

É só um número



É só mais um ano que acaba e outro que começa. Dia 1º de janeiro será um dia normal. A grande diferença é a ressaca pela mistura de cerveja e espumante e o remorso pelos exageros na comida. De novidade, só uma agenda ou um calendário diferente trazido de brinde de um supermercado. Salvo os que estarão de viagem em janeiro ou fevereiro, estes manterão o entusiasmo e a ansiedade no topo e no final voltarem para suas rotinas dias depois cansados de tanta atividade de lazer e pouco descanso. Será só mais um dia depois do outro, com a diferença que há festejos e rituais variados conforme o continente, o país e a região. Alguns tampouco têm a mesma contagem de tempo do ocidente. Segundo o fuso horário, as ilhas de Kiribati e Samoa inauguram o Ano Novo e ele vem vindo do Leste para o Oeste, fazendo o mesmo trajeto fantasioso do Papai Noel, mudando a folhinha de país em país. Coisas boas e coisas ruins vão acontecer em 2024. Crianças vão nascer e pessoas vão morrer. As guerras, as doenças, os problemas socioeconômicos e a ameaça climática vão continuar. O tempo trás mudanças coletivas, mas na maioria das vezes pontuais ou imperceptíveis. Exceto uma pandemia como aconteceu em 2020. A rotina acaba tomando conta e as estações virão e irão embora como sempre. Podemos comer lentilha, colocar folhas de louro na carteira, usar determinada cor de roupa que, salvo nos tocar a mega sena, não nos tornaremos milionários. Nós do hemisfério sul temos mais sorte, porque é verão, então há mais ambiente para festa. Vamos para as ruas, para os bares ou para a beira da praia assistir a shows de música e espetáculos de fogos. No hemisfério norte faz um frio de morte, as cerimônias são restritas dentro das casas e a confraternização é mais contida. A única vez que passei lá, todos estavam reunidos ao redor da mesa comendo as doze uvas—uma para cada mês do ano— enquanto acompanhávamos pela TV o relógio da Porta do Sol em Madrid dar as doze badaladas da virada. Tradição que segundo consta, traz prosperidade.

Perdoem o desencanto, mas é certo que dia 2 tudo volta ao normal. Mas ainda podem sonhar com o carnaval. O importante é esperar que o 24 venha ao menos com saúde, se os deuses quiserem.

 


quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Sinais Fechados




Certo dia ouvi dizer que não há necessidade de encontrar com as pessoas, porque já estamos informados de tudo pelas redes sociais. No momento até concordei, mas depois me pus a pensar. E os abraços? E as conversas? E o "quanto tempo", "eu vou bem", "eu vou indo"? como na música "Sinal Fechado" de Chico Buarque.

No entanto, a rede social é o topo do iceberg na vida de todos. O que acontece na realidade não está ali(aqui). Dores, tristezas, dificuldades, doenças, fracassos, enfim a vida real está invisível assim como se mantém invisíveis milhares de pessoas que apenas seguem perfis e vice-versa e não compartilham nada. A invisibilidade é outro ponto que venho tratar aqui. 

Curiosamente, acho que há uma conexão entre os invisíveis que, por falta de tempo, de vontade ou por falta de manejo com a tecnologia etc. sejam os mesmos que se esquivam dos encontros.  Eles se distraem com a exposição alheia, mas nunca se expõem. Saber se fulano parece bem já é suficiente. Se ele está ativo nas redes sociais parece estar vivo, ainda que só pareça.  

Outro comportamento interessante é em relação às ligações telefônicas. No passado, podíamos fazer ligações livremente sem pedir licença, mas hoje já ouvi pessoas dizerem que não atendem telefone. Agora parece ser mais correto pedir permissão por mensagem de texto. Impossível prever quando virá a resposta. São mudanças comportamentais que se estabeleceram. Eu, particularmente não sou capaz de manter familiares no modo silencioso e nunca desligo o celular. Talvez por ter vivido um tempo fora do país, isso me deu um sentido de estar sempre alerta. E a recíproca não é verdadeira, pois quem fica não sente a mesma falta dos que vão embora. O que vai para longe precisa da conexão para continuar pertencendo.

De qualquer maneira, eu respeito a maneira de ser de cada um. Só observo e escrevo, e obter visibilidade no ato de escrever através da rede social é uma ferramenta que gosto de usar, mesmo que para provocar debates, causar incômodos e receber críticas.

Não nego que rede social é um lugar recheado de positividade tóxica, felicidade obrigatória e de aparências feitas com filtros e IA para ganhar likes, encantar amigos, seguidores, consumidores, etc. E esses ambientes nem fariam sentido se não houvesse gente disposta a se expor, mostrar sua vida, suas habilidades, etc.  Não espero que os invisíveis nos deem o privilégio de vê-los no mundo virtual, creio que nunca nos brindarão com algum conteúdo. Mas sei que seguirão ali, afinal a curiosidade é bem maior que o bem-querer, se me permitem a constatação.

 


sábado, 23 de dezembro de 2023

O paradoxo das meninas

              

As duas irmãs de Renoir- Global Gallery
  Laura tinha um sonho recorrente desde a infância. Sonhava que sua mãe corria assustada com ela no colo em meio a uma mata escura, depois elas subiam as escadas e embarcavam num imenso avião. No sonho, ela tinha a sensação de que viajavam para longe e abandonavam uma vida.

Cresceu sem o pai. Só sabia que ele vivia na Espanha. A menina percebia que o assunto desagradava a mãe que refletia no rosto um misto de pesar e pânico sempre que perguntava por ele. Tinha uma vaga memória de um homem jovem, bonito, de olhos azuis que brincava com ela e levava para passear. Depois de crescida, ela começou a insistir com a mãe para saber os detalhes de sua origem, cujo fato mais relevante que sabia era que elas tinham emigrado daquele país, quando tinha pouco mais de três anos.

A mãe, depois de muita insistência de Laura, já adolescente, contou uma história:

—Quando tu tinhas uns dois anos teu pai sofreu um acidente no barco pesqueiro em que trabalhava. Era marinheiro. Ele ficou em coma vários meses e perdeu a memória. Depois do acidente não reconhecia mais a nós duas, tampouco a vida que levávamos juntos. A amnésia e as sequelas o deixaram muito transtornado e ele passou a viajar cada vez para mais longe e por mais tempo. Quando ele voltou de uma dessas viagens, pediu o divórcio e nos afastamos. Pouco depois, eu soube que ele estava casado com outra mulher. Vivíamos na mesma cidade. Um dia eu me distraí passeando contigo e essa mulher te roubou de mim de dentro de uma loja.

—Me roubou? Como sabes que foi ela? —perguntou a filha desconfiada. 

—Ela queria ter filhos com teu pai e não conseguia. Então ela resolveu te tirar de mim. Mas ela já tinha me tirado teu pai, eu não poderia permitir que levasse a ti também. Então, fiz o mesmo. Um dia estavas numa pracinha em companhia de uma tia que te cuidava e eu te levei dali. Em resumo, embarcamos para cá para o Panamá em seguida e nunca mais tive notícias deles. 

—O resumo de um resumo. Imagino que deve haver muito mais conteúdo nessa história e não queres me contar. Depois de um divórcio, a justiça determina que os filhos recebam uma pensão, visitas etc. Um vínculo há que ser mantido, não? Em meus documentos nem sequer consta o nome dele! 

—Eu não queria nada dele e precisávamos fugir. 

—Tudo isso é muito vago e sem sentido. Fugir de que? 

—Não podíamos continuar vivendo lá. Tive medo. —disse-lhe a mãe hesitante. 

— Deves ter uma foto ao menos. Eu queria lembrar dele. 

—Um homem lindo, eu o amei muito. — Buscou entre uns guardados a foto do casamento onde aparecia um casal de noivos jovens e sorridentes em frente a uma igreja e mostrou à filha. 

—Eu lembro dele! Sim, este é o meu pai! E havia uma mulher morena, bonita e sorridente que cuidava de mim. Devo ter passado bom tempo com eles, do contrário não lembraria. 

—Mas jamais te deixarei ir procurar por eles, nos causaram muito sofrimento. 

—Não podes me impedir. E quem me garante que eu seja tua filha e a mulher de meu pai não seja minha verdadeira mãe? — implicou a menina. 

—Não diga sandices! Depois de tudo que arrisquei e abandonei ainda me acusas? Pois vá. Não me encontrarás mais aqui quando voltares. 

—Tu sempre dramatizando e me chantageando. Fizeste isso a vida inteira sempre que eu falava de meu pai. 

—Eu precisava te proteger. —disse a mãe, relutante. 

—Proteger a mim ou a ti? Eu já tenho quase 18 anos, quero ir à Espanha e procurar por ele. Ninguém vai me impedir. Poderias ir comigo, nunca mais viste tua família, tua terra. De que tens medo? Se sou tua filha legítima é muito fácil comprovar. Basta um exame de DNA. 

—Exame de DNA? Estás louca? Tu duvidas de mim? 

—Até que me contes a verdade, continuarei duvidando. Tuas histórias foram mudando conforme a minha idade e não me convencem. Além do mais posso me proteger sozinha. Vamos, conte de uma vez por todas a verdadeira razão de termos fugido para cá. Se fui sequestrada pela mulher de meu pai, porque não acionaste a polícia, simplesmente resolveste me tomar de volta? Eu sempre tive a sensação de que vivíamos em fuga e escondidas. 

—Eu estava desatinada e furiosa com aquela mulher, ela tinha me tomado teu pai e te queria também. Fiz o que devia ser feito e não tens o direito de me julgar. Se fores para a Espanha, já sabes, me mato. 

—Tuas ameaças não me assustam, vou descobrir a verdade, está decidido.                                                                                                                                                                                                                                                                    ✽✽✽✽

Virginia tinha um sonho recorrente na infância. Sonhava que uma mulher desconhecida corria com ela nos braços no meio de uma mata escura. Depois se via ao pé da escada de um enorme avião e a mulher ainda com ela no colo, aos gritos, impedia que seu pai a retirasse dos braços dela. Não sabia se seu pai a salvava da mulher do sonho, pois a última imagem que tinha era sempre da mulher gritando, seu pai lhe estendendo os braços e ela lhe dando os bracinhos chorando.

Ela cresceu assim com a imagem de um pai herói, seu salvador das garras de uma bruxa ou de uma ladra de crianças. Porém, a mulher não parecia uma bruxa, não era má, nem feia, nem tinha rugas no rosto. Virginia não tinha medo da mulher, somente da visão de seus olhos arregalados, de seus gritos desesperados e do quão forte se sentia apertada entre seus braços.

Por vezes, ainda criança, quando tinha desavenças com a mãe, fantasiava que a mulher do sonho podia ser sua verdadeira mãe e que aquela com quem vivia podia ser uma ladra. Tinha um certo ciúme dela com o pai, pois os dois viviam aos beijos e abraços. Ela amava aquele pai bonito e carinhoso que antes de ser seu pai era o marido da sua mãe.

Adorava quando saíam só os dois a passear e isso passou a acontecer mais depois que sua irmã nasceu. Ele era cuidadoso, gentil, nunca levantava a voz, comprava sorvete, limpava seu rosto, levava na praia, faziam castelos na areia, corria com ela nas costas, dava banho e o jantar. Virginia só não gostava quando ele tentava ensinar-lhe a nadar. A água era sempre muito fria, ela tinha medo de mergulhar, então ele acabou desistindo. Sua irmã, sim, tornou-se excelente nadadora graças a ele.

Sua mãe era professora de línguas, uma mulher bonita, inteligente, sorridente e carinhosa quando estava tranquila e despreocupada. Quando se apresentavam problemas e temores, frequentemente mais temores que problemas, ela se punha um tanto colérica e desatinada. Tinha uma certa mania por limpeza e organização, estrita com horários e regras. Depois que teve duas crianças, nascidas muito perto uma da outra, mesmo com a ajuda da cunhada e do marido, parece que cultivava uma ansiedade que se lhe aflorava a pele. Ela tinha temores infiltrados, temores de perdas, temores de ausências.

Depois dos 10 anos, mais ou menos, Virginia nunca mais teve o mesmo sonho, acabou esquecendo e nunca contou a ninguém. Certo dia, depois de completar 18, ela estava com a irmã e a tia na casa do avô, pai de seu pai, sentadas ao redor da mesa da cozinha olhando umas fotografias antigas. Elas queriam conhecer a avó que há muitos anos tinha falecido. Entre os guardados havia a foto de um casamento. A tia tentou esconder das meninas, porém Virginia percebeu, o que aguçou sua curiosidade.

—Esta foto é do primeiro casamento do seu pai, mas não deixem sua mãe saber que eu mostrei a vocês. —pediu a tia, rendendo-se. 

—Nós sabemos que ele foi casado com outra mulher quando era mais jovem. Qual o problema de ver a foto? —indagou Virginia.

—A ex-mulher dele provocou muito sofrimento aos pais de vocês e o assunto virou um tabu na nossa família. Nem sei como seu avô não destruiu isso e ainda está aqui perdida. 

A tia alcançou afinal a foto às meninas e ali elas puderam ver seu pai, bem mais jovem, lindo, num terno escuro e gravata prateada, uma noiva igualmente linda, com vestido longo branco, suas duas tias e seu avô, vestidos elegantemente. Todos posavam sorridentes em frente à Catedral de Santa Maria de Vigo. Virginia ficou vários minutos observando a foto, intrigada, tentando entender os sentimentos que lhe provocaram a imagem daqueles rostos em sua maioria tão familiares. Porém, ela se deteve no rosto da noiva e isso fez com que num dado instante ela relembrasse o sonho da infância e contou de imediato à tia e à irmã. 

—Mas essa é a mulher do meu sonho. Eu sonhava com essa mulher quando era criança! —disse Virginia alarmada. 

—Que sonho, Gina? —perguntou a tia. 

—Seguidamente eu tinha um sonho sempre igual, nunca contei para ninguém, ou talvez para alguma colega de escola. Depois de adolescente nunca mais aconteceu e eu já tinha até esquecido. 

E Virginia contou o teor de seu sonho infantil e ficou ainda mais convencida que aquela noiva da foto era a mesma mulher. A tia foi ficando cada vez mais atordoada à medida que a sobrinha ia falando. Era impressionante como alguns aspectos do sonho e da vida real se encaixavam. 

—De onde ela é? Onde vive agora? —quis saber Virginia.

—E para que queres saber? —perguntou a tia, preocupada por ter trazido aquele assunto à baila. 

—Só por curiosidade, tia! 

—Ela era daqui mesmo de Vigo, mas essa mulher já morreu. — E contou o sucedido de muitos anos antes.

Virginia havia sido sequestrada pela ex-mulher de seu pai, quando tinha quase quatro anos, numa pracinha da vizinhança durante um momento de distração da tia que era sua babá. A mulher planejou friamente uma vingança contra o ex-marido e a esposa. Ela nunca aceitou o fim de seu casamento, que havia acontecido em circunstâncias totalmente manipuladas por ela. Foi um caso clássico de um triângulo amoroso cheio de mentiras, correspondência interceptada e desencontros. O fato de ter sido descoberta em suas manipulações, ter sido abandonada e não ter conseguido construir a família que tanto sonhava com o homem que amava, transformou-a numa pessoa totalmente ardilosa e transtornada.

A polícia investigou e descobriu em poucas horas que o plano da mulher era embarcar com a menina Virginia num voo da Espanha para o Panamá com um passaporte falso em nome de Laura, filiação e sobrenome somente em nome da sequestradora. O pai de Virginia auxiliou nas buscas, enquanto a mãe se desesperava em casa abraçada o tempo todo na filha menor, ainda um bebê. O relato do sonho era o mesmo da vida real que a tia acabou contando às meninas. E Virginia foi resgatada pelos braços do pai, enquanto a mulher gritava:

— Olha, é a nossa filha! Aquela mulher me roubou. Vem, vamos juntos embora daqui. —Ela gritava em desatino.

As meninas ficaram boquiabertas com a revelação da tia e as três com a similaridade que o fato tinha com o sonho relatado.

—Então, se ela não tivesse sido presa, teria me levado para o Panamá e mudaria todo o curso de minha história! —concluiu Virginia.

—Sim, mas ela estava muito transtornada, deixou muitos vestígios do crime que estava cometendo e felizmente tudo se resolveu em pouco mais de 24 horas, porém o choque pós-traumático foi intenso, principalmente para tua mãe.

A mulher foi julgada e condenada, cumpriu alguns anos da pena, mas por conta do diagnóstico de um transtorno psiquiátrico obteve liberdade condicional. Contudo, suicidou-se logo depois de sair da prisão. Era um ser que não aceitava a felicidade alheia, cultivava uma obsessão irracional por possuir pessoas e um espírito vingativo. Uma dor que não suportou carregar. A sua maneira, ela também amava o pai de Virginia. A mãe de Virginia, depois que soube da morte da mulher, serenou e nunca mais temeu perder ninguém. 

  

                                                                                                                                                                                                                                       

                                                                                    

                                     

                                                                              


2023

  

Parque da Redenção, Porto Alegre, arquivo pessoal


Uma frase

 "Se você expressar o que habita em você, isso irá salvá-lo.   Mas se você não expressar o que habita em você, isso irá destruí-lo".  (Jesus- Evangelho de São João)

Um sonho

“Que todas as crenças religiosas sejam respeitadas, e até mesmo a não crença religiosa. Que possamos comungar na crença da humanidade, da diversidade, do bem comum. Que seja declarada justa toda forma de amor. Que nenhuma mulher seja alvo do machismo estrutural. Que a juventude negra não seja alvo do extermínio. Que Marias Eduardas não sejam assassinadas dentro da escola. Que Marquinhos da Maré não sejam assassinados indo para a escola. Que Marielles possam chegar em segurança nas suas próprias casas. Que todo agricultor tenha uma terra para plantar, que todo sem-teto tenha uma casa para morar. Que os indígenas sejam respeitados nas suas crenças. Que as fronteiras acabem e as armas caiam no chão. Que a felicidade venha sobre nós, respeitando toda dor e consolando toda lágrima, porque felicidade de verdade só é possível sob a bênção da comunhão. Amém, axé, e o que de mais universal existe: amor”.   (Oração da Felicidade- Pastor Henrique Vieira)




sábado, 16 de dezembro de 2023

Distopia verde-amarela


Foto: Sérgio Lima/AFP


Crônica classificada, destacada e publicada pelo Prêmio Off Flip 2023


Dois de novembro de 2022, dia de sol pleno. Moro perto de um quartel. Saio para a caminhada matinal e noto inúmeros veículos estacionados na minha rua que não costuma ser muito movimentada. Vejo muitas pessoas vestidas de verde e amarelo ou enroladas em bandeiras do Brasil indo em direção ao prédio do Exército. Homens, mulheres e até crianças cheias de acessórios nas cores do país, um cenário meio carnavalesco, porém sem a alegria do samba. Pelo contrário, as expressões eram fechadas, cenhos franzidos. 

Quando chego à esquina e me deparo com o inusitado, me pergunto em voz alta:  

—Mas o que é isso? — um senhor sentado na entrada de seu prédio me ouve e faz um alerta: "A senhora não passe por ali, é perigoso!”

Então entendi que o perigo era pós-eleitoral. Os vencidos tinham fechado a rua em frente ao quartel e pediam intervenção militar. Ou seria federal? Não havia muita coerência no uso dos termos. Estavam inconformados com o resultado das urnas proclamadas fazia três dias. Daí o perigo da violência política. Parei uns minutos observando de longe. O Hino Nacional tocava incessantemente bem como as pérolas Eu te amo meu Brasil e a Canção do Exército, músicas lembradas só como bregas, não fossem de tempos obscuros. O mesmo repertório saía a todo volume dos veículos que chegavam, a maioria modelos caros. Vi pessoas ajoelhadas no chão rezando de olhos baixos e terços na mão, uns levantavam os braços em gestos de clamor. Outros mais delirantes se punham num marcha-soldado solitário. Vi idosas de sapatilhas customizadas perfiladas em frente à guarita em sinal de veneração como que implorando atenção dos militares. Em alguns momentos comemoravam algo aos gritos. Soube depois que chegava muita notícia falsa e deturpada de um universo paralelo e delinquente. Escutei partes de conversas. Eles confiavam na iminência de algo que reverteria seu desagrado, depois que o outro lado ousou ganhar as eleições. Exército nos salve! SOS Forças Armadas! — lia-se nos cartazes. Cenas patéticas, vergonhosas e lamúrias sem eco. O monstro da desinformação, do parco raciocínio, da manipulação, da fé acrítica e da ignorância política cooptaram pessoas para um delírio coletivo. Dentro do quartel, silêncio absoluto. A vida segue o fluxo da institucionalidade e da democracia—ainda que aos trancos—apesar da vergonha e do flerte com o crime praticado por incautos e infames. O fato seguirá, sem dúvida, para as páginas tragicômicas e bizarras da História.


A chave 24





Foto: Unplash


Imaginemos ter todas as chaves para poder abrir todas as portas que gostaríamos no ano que se aproxima. Mas antes disso é necessário fechar algumas que insistem em continuar abertas. A porta dos Desenganos seria renomeada para porta do Esquecimento. Dores, perdas, agonias e culpas ficariam ali encerradas e a chave jogada fora, mesmo conscientes que nunca esqueceremos absolutamente todo o conteúdo.

Não é difícil imaginar quais chaves gostaríamos de ter nas mãos para abrir as portas de 2024. Objetivos tangíveis como trabalho, dinheiro, viagens e bens intangíveis como saúde, conhecimento, amor, amizades, seriam os mais desejados. Estas palavras desgastadas, usadas em todas as mensagens de final de ano, afinal  são o que mais necessitamos para ser feliz e encontrar um sentido para a vida. Talvez encontrar o sentido já seja a própria felicidade.

Encontrar o amor, este bem tão antigo quanto o mundo, também é um dos mais necessários. O problema é que tem uma chave muito escondida.  Sempre há muitas dúvidas do que há por detrás desta porta. E a pior delas, é que o lugar esteja vazio. O tempo passou, o sentido do amor vem sendo revisto e o aprendizado talvez seja tardio. As ilusões se extraviaram pelo caminho e a solidão está de portas escancaradas aos apaixonados de mão única e aos solitários submetidos à força.

Felizmente existe uma chave no inconsciente. Para alguns é pequena, para outros é maior. É fácil de encontrar, está embutida no ser humano. É como um componente de fábrica. É uma força propulsora para seguir vivo. Por mais que suponhamos conduzir nossos rumos, os acontecimentos e mudanças são totalmente incontroláveis. Nada é permanente, tampouco a infelicidade e o universo, às vezes, tem vontade própria. O nome é autoexplicativo e a chave é a Esperança. Não pode haver nada ruim por detrás desta porta. Esperança é feita de fé, ilusão e sonho.  Não custa abrir e dar uma espiadinha. 

Feliz 2024! 🎉🎄🎅



Insônia