terça-feira, 29 de agosto de 2017

Por que estamos assim ?


Morro da Favela , Tarsila do Amaral ,1924

O Brasil passa por uma grave crise política, social e econômica sem precedentes.
Estamos todos no meio desse turbilhão de informações e acontecimentos, assistindo ideologica e/ou manipuladamente polarizados. Muitos nos perguntamos como e porquê as coisas chegaram a esse ponto e na maioria das vezes, sem conhecimento profundo de causas e efeitos passamos a tecer evasivas e generalizações tornando-nos meros espectadores de acontecimentos e formas de agir que, algumas vezes sem querer, ajudamos a reproduzir.
Além ou antes de culpar o nosso sistema político, os políticos, as elites, os meios de comunicação certamente envolvidos na "elaboração" da crise, seria interessante refletir sobre as atitudes e o modo de vida habituais do povo brasileiro em relação à sua comunidade, à suas escolhas políticas e seus comportamentos.Tais comportamentos na vida profissional e pessoal, além de estarem inseridos na cultura histórica do povo, podem dar uma resposta e me parece influir direta ou indiretamente para que esse modelo de desmonte, de retrocessos e conservadorismos encontrasse solo fértil para se desenvolver e  atingir em cheio nossa tão jovem democracia. 
Assim , talvez possamos responder à seguinte pergunta : 
Afinal , por que estamos assim?

Faço uma lista de alguns pontos em relação às nossas atitudes na vida pública e nas relações pessoais que muitas vezes até nem percebemos, porque estamos circunscritos a  muitos contextos ao longo da vida e vemos como normal certas anormalidades e distorções.Em primeiro lugar, como é o nosso comportamento e nosso nível de consciência social na vida em comunidade? E aqui não quero generalizar e sim refletir sobre os comportamentos de uma maioria da população, por isso uso a terceira pessoa e me incluo em várias dessas situações :

a)Antes de votar raramente comprovamos se nossos candidatos idôneos e minimamente comprometidos com as causas sociais e coletivas ao invés de suas causas e projetos próprios.
b)Votamos em celebridades com muita visibilidade na mídia, apresentadores de TV, jornalistas, pastores de igrejas, atores, cantores, radialistas, jogadores de futebol, famosos e ricos em geral, personalidades aberrantes e histriônicas mas com pouco ou nenhum comprometimento e preparo.
c)Votamos em branco ou nulo com a finalidade de  protestar e nosso protesto beneficia sempre os piores. As vagas aos cargos não se extinguem com nossa atitude e tendem a ser preenchidas com os mais votados nas eleições majoritárias (presidente e governadores), mesmo que com percentuais abaixo dos votos brancos e nulos. Nas eleições para o legislativo(vereadores, deputados e senadores)valem os quocientes eleitorais no sistema vigente proporcional que, quando elege uma celebridade com muitos votos, elege junto candidatos pouco votados e sem expressão.
d)Nunca fiscalizamos a atuação do deputado ou vereador que ajudamos a eleger, muitas vezes sequer lembramos o seu nome, tampouco acompanhamos suas atividades, embora hoje existam diversas maneiras de fazê-lo.
e)Nunca cobramos do governo a aplicação de seu plano pré-eleitoral ou que honrem com  suas promessas informais de campanha.
f)Nunca participamos de audiências públicas e orçamentos participativos para debater assuntos e eleger as prioridades da nossa comunidade.
g)Não fazemos reclamações formais e fundamentadas à prefeitura quando algo não vai bem em nossa rua ou bairro.
h)Não frequentamos praças, parques e locais públicos de nossa cidade com medo da violência, assim não percebemos o descaso com a preservação, a falta de limpeza e manutenção por parte do poder público. A ocupação dos espaços públicos poderia contribuir para o sentido inverso.
i)Nos informamos somente através de oligopólios de comunicação e não procuramos  informação através de outros meios, sites, livros, livros de história, blogs, canais de televisão e rádios alternativas.
j) Permitimos, aceitamos ou não percebemos que os oligopólios de comunicação, que são concessões públicas de propriedade privada, manipulem e/ou omitam informações de acordo com o seus interesses.
k)Fazemos generalizações ao tecer opiniões e não buscamos meios informativos de qualidade para formar nossa própria opinião, discernir fatos de boatos e aprimorar nosso sentido de perceber incoerências.
l)Quando fazemos parte de um governo ou cargo eletivo, não abrimos espaços de comunicação para a participação efetiva da sociedade, respeitando o voto recebido.

Por fim, não exercemos plenamente a cidadania, não somos responsáveis como cidadãos, desmerecemos e muitas vezes criminalizamos ou ridicularizamos os ativistas, os manifestantes, os partidos de esquerda, os líderes de comunidades e bairros, os movimentos sociais de trabalho, terra e moradia.

Em relação à vida pessoal, podemos observar que reproduzimos muitos comportamentos que vem se perpetuando. Podemos  refletir o que isso pode influir nas relações sociais, na forma como nos organizamos politicamente e nas atitudes nossas de cada dia que proporcionam e autorizam  pequenas e grandes corrupções : 

a)Raramente nos colocamos  no lugar de outras pessoas que não sejam de nossa família ou amigos próximos e não exercitamos a empatia, o ato de tentar  se colocar no lugar de outros e ao menos, tentar perceber as circunstâncias alheias.
b)Somos indiferentes à miséria, à pobreza e às desigualdades sociais. Em contrapartida, enaltecemos grupos ou pessoas cujo patrimônio milionário lhes dá projeção e cultuamos o poder do dinheiro. 
c)No trânsito, não nos colocamos no lugar do pedestre e do outro usuário. O tamanho e o preço do nosso veículo nos dá a percepção de que temos prioridade no uso das vias públicas e os outros não existem ou estão ali só para nos atrapalhar.
d)Não temos um olhar crítico ao andar pela cidade e não percebemos quando há a falta do Estado em questões de manutenção e infraestrutura. Quando percebemos um buraco na rua ou calçada, quando não há calçada ou calçamento, um móvel quebrado, uma lâmpada apagada, uma praça vandalizada ou a sujeira generalizada nos limitamos a culpar um governo distante, inatingível cujas omissões são imutáveis.
e)Não percebemos o BEM PÚBLICO como efetivamente NOSSO, então banalizamos quando há falta de manutenção, quando não funciona bem e ainda aplaudimos  quando  gestores liberais os colocam à venda ou entregam para a manutenção pela iniciativa privada.
f)Não pesquisamos preços e compramos por impulso coisas que não precisamos e que muitas vezes nos endividam.
g)Compramos somente em grandes redes, o que propicia a concentração de renda; não priorizamos o mercadinho do bairro que pode ter produtos mais locais e frescos, a feira do fim-de-semana que comercializa alimentos de produtores locais. 
h)Compramos alimentos muito processados e industrializados das mesmas grandes redes, comida pronta e carne congelada que, embora possam ser mais baratos, fazem mal à saúde.
i)Nos deixamos influenciar pela publicidade massiva e compramos marcas e não produtos.
E também movidos pela publicidade, utilizamos exageradamente o cartão crédito e cheques especiais até para compras de pequenos valores estimulando a rentabilidade do capital em detrimento da produção.
j)Não conhecemos a importância da economia solidária, do consumo sustentável, o cuidado com o meio-ambiente e a destinação do lixo.
k)Praticamos velada ou declaradamente a intolerância religiosa,  o ódio aos estrangeiros, ao feminismo, a  homofobia,  o preconceito racial, a violência de gênero e o machismo seja por atos ou omissões.
l)Não percebemos ou aceitamos o machismo, o preconceito racial  e a homofobia encobertos por brincadeiras e piadas.
m)Desdenhamos ou somos contrários às políticas públicas de inclusão social, cotas , moradia, redistribuição de renda e projetos de renda mínima de cidadania disseminando a falácia da meritocracia.
n)Pagamos caro por vigilância privada em nossas casas e condomínios e não cobramos do Estado a efetiva segurança pública.
o)Acreditamos que a construção de mais presídios seja a solução para a violência urbana e aceitamos o fechamento ou sucateamento de escolas e universidades.
p)Negamos acontecimentos e modelos históricos relevantes da humanidade como o holocausto judeu, a escravidão humana, as ditaduras, o fascismo e o imperialismo.
q)Somos a favor do porte de armas indiscriminado, da pena de morte e dos massacres praticados pela polícia em zonas de conflito de terras, bens naturais  ou de tráfico de drogas. 
r)Julgamos, condenamos ou destruímos  reputações  pela régua moral das generalizações.
s)Fechamos os olhos para as injustiças sociais e acreditamos que os direitos universais da pessoa humana foram feitos somente para brancos, ricos e para nós mesmos.
t)Estamos muito preocupados em agradar ou causar inveja em nossos vizinhos e amigos ostentando bens materiais, impondo, assim, nocivas relações de hipocrisia.
u)Tratamos com arrogância e superioridade pessoas sob nossa supervisão no trabalho ou nos prestando serviços ou nos atendendo no comércio.
v)Estamos muito preocupados com a aparência, a beleza e a ostentação e isso nos toma muito tempo e dinheiro.
x)Gritamos contra a corrupção dos políticos e banalizamos a nossa corrupção diária furando filas, pedindo atestados médicos falsos, enganando pessoas com falsas promoções comerciais, estimulando o crédito, aceitando juros abusivos, entregando serviços de má qualidade, vendendo ou comprando votos, praticando pequenos furtos em lojas e supermercados, desrespeitando regras básicas de convivência como a lei do silêncio e as regras de trânsito.

Muitas vezes as circunstâncias da vida diária podem nos alienar dos problemas coletivos por conta de trabalhos muito estressantes ou absorventes, problemas familiares, doenças, mudanças radicais, troca de emprego, de casa, de cidade. Nos alienamos compulsoriamente como forma de não conseguirmos encarar satisfatoriamente os desafios e problemas, mas definitivamente não podemos nos individualizar tanto, pois corremos o risco de deixar que os outros resolvam tudo por nós.

Definitivamente não exercemos a cidadania plena e a participação popular, por isso os políticos exercem seus podres poderes, como diz Caetano Veloso, calcados nessa falsa e vazia representatividade e a falta de uma vigilância permanente os transforma em uma casta superior e não em um servidor público à serviço da coletividade.
Por último, professamos a mais diversas religiões, conhecemos seus dogmas, praticamos a fé em Deus, evocamos os mandamentos, vamos aos cultos, rezamos, praticamos caridade, doamos aos pobres, mas esquecemos de significados simples e vemos como pieguices o amor, a igualdade,  a fraternidade e a solidariedade entre os povos.
   Por fim, nos indignamos todos os dias, mas somos testemunhas inertes de algo muito      distante que somos incapazes de transformar.


                                            








segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Sobre a nossa brasileira negação sul- americana por Vitor Hugo Primola





Meninos peruanos: Google Images


Sobre a relação dos brasileiros e seus vizinhos sul-americanos, um comentário lúcido de um amigo em conversas facebookianas:

"Não é inacreditável isso? Mas será mesmo que isso se dá naturalmente? Você fala na "falta de visão" da irmandade entre os povos. Concordo. Mas você também sabe que o brasileiro, na prática, recebe de braços abertos e consegue conviver em plena harmonia com qualquer povo, de qualquer etnia, religião, etc. Mais do que a maioria dos povos de outros países conseguem. 

Talvez não tenhamos o discurso, mas na prática nos irmanamos com uma fluidez impressionante. Na minha modesta opinião vejo a nós brasileiros quase que como crianças, sabia? E isso não é um lenga-lenga folclórico, não. Estamos sendo "mantidos" assim ao longo dos séculos. Nunca tivemos guerra civil, só "revoltas". A maior parte das conquistas civis nos foram "concedidas" e não conquistadas com sangue e morte. Analfabetos em política que somos em nossa maioria esmagadora, você mesmo se ressente muito disso, tenho visto, temos sido "treinados" a confundir cidadania com direitos do consumidor. 

Insistem que nos contentemos em nos vermos reduzidos a um grande mercado consumidor. Aprendemos Inglês e até mesmo Francês nas escolas, línguas que são faladas por pouquíssimos povos do nosso continente. Espanhol é "opcional", relegado a uma categoria "inferior". Somos constante e intensamente bombardeados com tudo que diga respeito a Estados Unidos e Europa, ao passo que nos deparamos com uma tal escassez de "sinais" da mera existência da América do Sul que, se não fosse por aquilo que o mapa-múndi teimosamente indica, a maioria juraria de pé junto que não estamos aqui. 

Falando isso tudo aqui com você, acabo de concluir, agora mesmo, que existe, sim, uma forte barreira impedindo que haja essa integração. E não é nada, nada natural. É uma censura, sim. E forte. Ela se oculta naquilo que você mesma disse sobre estarmos de costas para a América Latina, porém mais ainda para a América do Sul. Essa censura, além da barreira linguística, que nunca é transposta, vem tendo sua vigência revalidada de tempos em tempos valendo-se de fatos históricos há muito tempo ocorridos do tamanho do território brasileiro, do orgulho que é constantemente infundido no brasileiro a respeito da posição de supremacia do Brasil, na rivalidade fomentada pela mídia com coisas de futebol, na invisibilidade dos países sul-americanos na mídia brasileira e muitas outras coisinhas. 

Porém, consigo identificar uma "coisona" que pode ser que seja o que faz com que vejamos nossos vizinhos como inimigos. Por estarmos sempre com os olhos voltados para os Estados Unidos e Europa (os ricos), e "de costas" para a América do Sul (os pobres), estamos sempre no meio do caminho. Aquela posição desconfortável, geralmente ocupada pela classe média que está sempre querendo ficar rica e sempre com medo de ficar pobre. É sempre ela a primeira a perder e é sempre a que perde mais. Acho que essa censura existe justamente para que não nos contagiemos com o bolivarianismo, com a dignidade, com a altivez, com a simplicidade e com a valentia de nossos vizinhos. 

Somos um povo mantido infantilizado, isolado e não podemos brincar na rua com os filhos dos vizinhos, mantido assim há muito tempo entre recompensas e castigos. Ultimamente, vimos sofrendo forte assédio moral e temos sido molestados "sexualmente" no nosso âmago. E também fomos estuprados. Como brasileiro é como eu me sinto. Mas acho que isso me explica um pouco do porquê de não haver panelas batendo nas ruas. A mamãe não deixou a gente sair na rua hoje. A gente só sai quando ela deixa ou quando ela pede. Valeu por acender meu estopim falador, Eliane Brum.



Insônia