quarta-feira, 20 de maio de 2020

Os dançarinos da morte

A dança da morte, gênero artístico de alegoria do final da Idade Média
Fonte ; Google imagens

Especialistas em saúde mental recomendam sempre enfrentar as crises com bom humor, otimismo e serenidade. Na medida do possível, é certo, mas antes disso deveríamos saber reconhecer a gravidade dessas crises quando envolvem a humanidade ou grande parte da população de um país ou do mundo como as guerras, as epidemias, as catástrofes climáticas, ambientais e depressões econômicas. 

Também estão nesse rol as crises geradas por governos autoritários e antidemocráticos, ameaças de morte por estados de exceção, prisões arbitrárias, práticas de torturas  institucionais ou não. Segundo minhas convicções é evidente que não se deve tratar esses problemas com humorismos e comicidades muito menos com indiferença, pois não são assuntos hilariantes, merecem atenção, prudência e principalmente empatia por tratar-se da vida de seres humanos.

Mas o que para mim é uma evidência, para outros parece não o ser.  Hoje a busca desenfreada por visibilidade através de rede social e o interesse econômico em agradar e preservar clientelas desvela todo tipo de manifestação grotesca assegurada pela liberdade de opinião até para assuntos de natureza científica como a forma da Terra e a morbidade de um vírus.

E assim tem sido o comportamento de muitos homens e mulheres compulsivamente atraídos por negacionismos ilógicos, rejeitando a ciência, esquivando-se do conhecimento acumulado, afrontando os estudiosos, os cautelosos e os racionais e o que é pior, desdenhando da morte e da dor alheia.

Vejo muita indiferença e até zombaria diante da grave crise humanitária que o mundo  atravessa com a pandemia da Covid-19. Também percebo que há um conjunto de assuntos históricos delicados pelos quais o Brasil e os brasileiros não tem conhecimento e tampouco um sentimento coincidente. Uso como exemplo o povo alemão que carrega em sua memória e com força de lei a ojeriza pelo nazismo. Já os brasileiros, além de desconhecerem sua história, o pouco que sabem, deram-se a negar e emitir opiniões vexatórias sobre seus temas mais pungentes como a escravidão, a ditadura e a tortura. Muitos, até bem próximos de nós, têm se empenhado em negar ou minimizar os efeitos dessas feridas que ainda trazem na sociedade a marca do preconceito, da desigualdade e da dor.

Com respeito ao tema da morte,  as tradições cristã, judaica, muçulmana e espírita tratam o falecimento e a dor dos que ficam de maneira reverente e contida e eu jamais conseguiria dançar num funeral mesmo que eu estivesse em Gana na África onde a performance da dança do caixão parece natural. Em Gana, eles reverenciam dançando, na India eles vestem roupas brancas nos funerais, algumas tribos indígenas brasileiras comiam a carne do inimigo que era capturado e cada cultura tem sua maneira de  expressar-se. 

Mas o que tem acontecido por aqui não é expressão de cultura ou de um preceito religioso. Portas do inferno foram abertas para uma turba de lunáticos sem cérebro e sem coração que ao suavizar a violência não percebem que são os atores de uma violência maior. Por que  desvirtuam o sentido da morte? Por que minimizam a tortura? Por que negam a escravidão? 
É inédito ver tanto desdém com a morte e com o sofrimento, justamente nesse momento quando estão morrendo mil pessoas por dia de uma só enfermidade.

Vi gente bem próxima que se divertiu assistindo pessoas chicoteando outras, agora na segunda década do século XXI. Eu vi gente que banalizou,  quando um jovem foi preso e espancado dentro de um supermercado. Eu vi gente transformando vítimas em criminosos, quando uma criança foi surrada até a morte, porque pedia comida às portas de um famoso restaurante. Eu vi gente menosprezar o choro de uma jovem mãe que perdeu a filha de 15 anos para o coronavírus. Eu vi um agente público desdenhar da morte de colegas e adotar o descaso e a desmemória como política pública. Eu vi gente clamando pelo fim do Supremo Tribunal Federal, das normas constitucionais e do Direito e assim vamos seguindo, metidos nessa barbárie medieval desde que...

Desde quando mesmo?

Não, o brasileiro nunca foi a unanimidade do povo acolhedor e amistoso. Nos fizeram acreditar nessa falácia. A pandemia do coronavírus já  matou quase 20 mil pessoas pelos números de hoje. São quase 100 Boates Kiss,  quase 100 acidentes de Brumadinho, quase 10 Titanics , quase a capacidade de 60 aviões e a população de uma cidade inteira de porte médio como Santa Maria estão contagiados em todo o Brasil pelos números oficiais. 

Por que não há uma comoção em massa? Não há, porque o governo brasileiro—representado hoje pelo mais torpe representante da raça humana— é o principal disseminador de gracejos sem graça contra a pandemia e o mais inepto para tratar do problema. Já está famoso negativamente no mundo inteiro. 

A dor dos outros está banalizada, intangível, objeto de deboche leviano, inconsequente, consequente e lamentável de pessoas públicas e cidadãos comuns que certamente serão lembradas, quando muito, como a escória de um terrível tempo que há de passar. 

Aos nossos conhecidos que avolumam esse discurso, não resta mais do que lamentar, desejar que reflitam e que sobrevivam. Como disse Zélia Duncan à secretaria de cultura Regina Duarte : "Se tem vida e tem morte, nós queremos é viver!"






segunda-feira, 4 de maio de 2020

Tempos de Confinamento

    

Moro há cinco anos num pequeno povoado costeiro do oeste da Espanha, perto da fronteira com Portugal. Absorvi o hábito dos espanhóis de aproveitar o tempo livre e estar pelas ruas, praças, parques, praias e cafés da cidade, nesse país que é um dos mais procurados destinos turísticos do mundo. Vivendo aqui é possível também fazer pequenas viagens se dispomos de finais de semana prolongados, atravessando as fronteiras entre os países europeus por terra ou ar.  A União Europeia facilita essa mobilidade, porque além de ter a mesma moeda, as fronteiras estão abertas e tem uma extensão territorial semelhante a de todo território brasileiro. Só a Espanha tem a superfície semelhante ao Estado de Minas Gerais e daqui de casa bastam alguns quilômetros de estrada para visitar inúmeras cidades que existem desde a era medieval, sítios arqueológicos e antigos pequenos povoados tanto espanhóis quanto portugueses.

Em princípios de março a primavera já começa a dar seus primeiros sinais. Os dias já são mais cálidos, ensolarados e começa o horário de verão que prolonga a claridade do dia.  Sempre espero a primavera com ansiedade, porque o inverno aqui é gelado, chuvoso e cinzento. Acima de quinze graus de temperatura já começo a me sentir melhor e aos vinte as praias já se enchem de gente, ao menos para estirar-se na areia, pois banhar-se é quase impossível. A água é muito fria em qualquer época do ano, como se tivesse pedras de gelo. Meus amigos brasileiros daqui sabem bem o que estou falando.

De repente, os dias desse março se tornaram estranhos e já não lembro mais quando foi a última vez que saí de casa, onde fui ou o que fui fazer. A epidemia de Covid-19 parecia muito distante, pois começou há dois meses na China milhares de quilômetros daqui. Depois acercou-se da Europa, chegou na Itália e quase imediatamente à Madrid e Barcelona distantes algumas centenas de quilômetros. Em questão de poucas semanas a epidemia se espalhava por todas as Comunidades Autônomas— assim denominam-se aqui as unidades territoriais—em maior ou menor incidência. Nesse momento a Espanha já é o segundo país do mundo com maior número de contagiados. Não bastou a Organização Mundial da Saúde anunciar que estava estabelecida uma pandemia para que nos déssemos conta do que estava por vir e das incertezas e preocupações que tomariam de súbito a rotina de toda uma população.

Na verdade, não sei em que momento assimilei que teríamos longos trinta, quarenta ou cinquenta dias de liberdade limitada ou uma quase imobilidade a que estaríamos submetidos pelo Decreto de Estado de Alarme emitido pelo governo iniciado no dia 15 de março desse ano de 2020 que já está sendo inesquecível. O decreto estabelece o isolamento social, a proibição de aglomerações, o fechamento de todo o comércio de atividades não essenciais, assim como escolas, universidades, igrejas, pontos turísticos e serviços públicos.  A população foi orientada a permanecer em casa como forma de deter a propagação do coronavírus, proteger os mais suscetíveis e evitar colapsos no sistema de saúde. Todos que não respeitem as regras estão sujeitos a sanções, multas e até prisão. Não há precedente no mundo democrático da era moderna esse modelo de plano que foi posto em marcha pelos países para deter essa calamidade mundial, tampouco um plano tão audacioso e corajoso como esse implementado aqui na Espanha.

Quase nada é permitido fazer fora de casa, a não ser sair para comprar comida ou remédios. Somente os supermercados, farmácias, serviços de saúde e estabelecimentos que comercializam itens básicos têm licença para funcionar. Saem para trabalhar somente os trabalhadores desses serviços essenciais. Não está permitido que mais de uma pessoa da família vá às compras e os estabelecimentos limitaram a permanência de pessoas dentro de suas dependências organizando filas no lado de fora com metro e meio de distância entre as pessoas. Os supermercados disponibilizam luvas para recolher os produtos e preferem o pagamento com cartão bancário. Os caixas e todos os departamentos que têm atendentes estão isolados com vidros de proteção como nos bancos. Aos restaurantes está permitido abrir as portas e funcionar desde que a comida seja para levar ou fazer as entregas em domicílio. Os parques foram fechados. Estão proibidas as viagens não justificadas. Os policiais controlam o tráfego de veículos e os motoristas devem portar uma autorização para trafegar. Muitos já foram multados e outros mais rebeldes foram presos.

Não preciso sair para trabalhar e a vida agora se resume em comer, dormir, cozinhar, limpar, tomar banho, ler muito mais e estar nas redes sociais em contato com a família e amigos. O ato de lavar as mãos várias vezes ao dia e a preocupação em desinfetar superfícies tornou-se quase uma obsessão. Agora, como nunca, passo horas em frente da televisão para estar em dia com os informes do governo sobre a pandemia ou assistindo séries dos serviços de streaming. Me inquieta meu estado físico pela drástica situação de imobilidade. Temo que meus músculos se travem em demasia, sem dispor da academia e das caminhadas que sempre fazia pelas praias e parques que tenho o privilégio de ter por perto. Já andei pesquisando vídeo-aulas de ginástica em casa, mas confesso não me animaram muito.

Mas mais que isso, me preocupa profundamente a situação de minha família que está no Brasil e de todo povo brasileiro a essas alturas já com a epidemia instalada, mas que o governo ainda não tomou medidas mais efetivas, sistemáticas e coordenadas que mais cedo ou mais tarde deverão ser tomadas quer as pessoas queiram ou não. É uma emergência sanitária, humanitária e global.

Caminho entre os cômodos do apartamento fazendo tarefas e de vez em quando saio para olhar o dia da sacada. Tenho a sorte que sem sair de casa eu posso ver o mar. Quando faz sol a vista é impressionante. Olhando a rua lá embaixo, não vejo uma viva alma, o estacionamento está vazio e já não estão mais as dezenas de ônibus cheios de turistas que chegavam todos os dias. Escuto aqui e ali algum som de crianças brincando dentro dos apartamentos, restos de conversas dos vizinhos do lado, de algum barco que chega no porto, dos aparatos pesqueiros descarregando mexilhões recém colhidos ou de algum raro veículo que passa.

As praias estão interditadas e sem a presença humana só o mar, o vento, os pássaros, as conchas e as marés seguem fazendo desenhos na areia e deixando seus rastros. Ver o por-do-sol ficou para os privilegiados que moram voltados para o oeste. Outros sequer podem ver quando ele nasce. As gaivotas, animais típicos dessa região, costumavam passar voando sempre às dezenas por aqui. Agora andam raras e silenciosas. Talvez estejam um tanto perplexas e com saudade dos seres humanos de quem gostavam de roubar restos de bolo das mesas das cafeterias ou as câmeras dos turistas mais distraídos. 

Um pouco de sorte tem os animais de estimação, as pessoas autistas e seus cuidadores, os poucos que têm autorização para sair à rua, mesmo que de forma e tempo restritos. As ruas parecem lugares fantasmas como nos filmes de ficção onde os humanos são dizimados ou abduzidos para outro planeta. Só falta a poeira dos dias ficar acumulada em grandes bolas girando com o vento como nos filmes de faroeste, mas isso não vai acontecer, porque a limpeza urbana funciona normalmente graças aos bravos trabalhadores dos serviços essenciais.

A televisão mostra cenários bizarros de cidades esvaziadas. Parece uma guerra sem destruição, sem tanques, sem bombas, sem escombros e sem estrondos. Os soldados dessa guerra são os profissionais de saúde, os cientistas, os jornalistas, os policiais, os funcionários públicos, os atendentes e muitos outros que têm que sair, arriscar-se e cumprir, quem sabe, uma das mais difíceis tarefas de suas vidas. Muitos já pereceram lutando.

A humanidade sumiu das ruas e está encerrada entre quatro paredes. As notícias contam que as pessoas tentam se adaptar do jeito que podem, porque ficar em casa se tornou questão de estar saudável e/ou não contaminar os demais. Muitos estão sozinhos, enquanto outros estão com toda a família, com os pais idosos, irmãos, companheiros(as) e filhos pequenos. Muitos sei que estão passando mal confinados em pequenos espaços. Outros estão trabalhando em casa, de maneira telemática e a despeito de ter que trabalhar e entreter as crianças ao mesmo tempo, a maioria das pessoas parece estimulada, resignada e engajada em tocar adiante esse esforço mundial e imperioso.

Quase todas as tardes em muitos pontos do país, as pessoas saem às janelas de seus apartamentos e combinam minutos de homenagem para quem está trabalhando. Então ali aplaudem os profissionais essenciais. Eu também agradeceria aos trabalhadores do campo que não tiveram mudanças tão radicais em suas rotinas e seguem trabalhando para nos alimentar.

De um dia para outro fomos apartados para uma realidade paralela, o isolamento e distanciamento social que além de evitar a propagação desse vírus, tudo indica também servirá para que a natureza tenha uma trégua, um descanso, um respiro da depredação humana. Observadores do clima já identificaram uma brutal queda das emissões de gás carbônico que aliada à diminuição do gasto energético provocado pelo baixo consumo, podem dar conta de sanear um pouco nosso planeta nesse período.  Com o propósito de salvar vidas talvez a natureza possa ser salva também. O futuro dirá.

Finalmente, a despeito de todo o ódio, calúnias, atrocidades, perversidades, negacionismos e a sintonia de muitos seres humanos com o obscurantismo, tenho notado que as boas respostas, o empenho, o esforço, a dedicação e a esperança estão vindo da valorização do ser, do altruísmo, da solidariedade e do pensamento coletivo. Muitos estão começando a perceber que haverá uma vida antes e outra depois da pandemia. Parece que está aí uma grande oportunidade de regeneração não só da natureza.
Seguiremos e resistiremos.

Insônia