quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Me conta algo bom




Me conta alguma história, algo bom...— J. me pediu por escrito recostado no sofá da sala, num dia de costumeira letargia provocada pela sua condição de saúde, ainda assim com relativo conforto físico. Enquanto sua comida—um líquido amarelo e espesso— saía de uma garrafinha de plástico adaptada a um cabideiro da casa e fluía por um tubo que ia direto ao seu estômago, sentei bem perto dele. Com um tom de voz um pouco mais alto e compassado para que ele me ouvisse bem, eu comecei.

Contei a história de um casal cujo encontro era tido como totalmente impossível. Porém, à medida que foram se conhecendo, a princípio por um aplicativo de idiomas depois por mensagens instantâneas e correios eletrônicos descobriram que eram como poucos para se entender e que valeria a pena um projeto de acercamento. O segredo desse entendimento era dizer tudo e transparecer. Nada a esconder, dourar, disfarçar ou dissimular fosse o que fosse: o clima chuvoso da terra dele, o inverno rigoroso europeu, o dinheiro escasso, a barreira dos idiomas, os preconceitos a respeito de costumes e cultura mútuos e receios normais de quem nunca havia saído de seu continente. Inclusive um temor fantasioso e hilário se o ar seria respirável nos seus respectivos hemisférios, tudo isso foi considerado e relatado um para o outro.

Haviam nascido com uma diferença de apenas três meses e cresceram separados pelo Oceano Atlântico, mais de oito mil quilômetros, vivenciando fatos pessoais e coletivos mais ou menos semelhantes, crescendo sob ditaduras e em famílias amorosas de classe trabalhadora. Estudos, casamentos, filhos, trabalhos e desejos de acumulação de pequenos patrimônios foram eventos comuns de suas vidas, nada extraordinário para aquela geração de baby boomers, nascidos no final da década de 1950.

Um dia, depois de muitos planos, ideias, esquemas e conjecturas—inclusive após uma incrível e objetiva análise de risco que um deles realizou utilizando seus conhecimentos técnicos— esse encontro fez-se possível. Aí começou a maior aventura romântica de suas vidas. Eles nunca tinham vivido semelhante atmosfera de romance até então, um verdadeiro idílio, mesmo os dois já tendo passado dos cinquenta anos.

Os sonhos e anseios de toda uma vida permaneciam latentes nos lugares mais recônditos de suas almas, uns por impossibilidades variadas, outros por impositivos alheios, muitos por simples renúncia. Ao serem revelados, descobriram uns tantos em comum e o compromisso recíproco de serem resgatados passou a ser um projeto de vida único. Havia um mundo a ser criado um para o outro cheio de oportunidades, uma felicidade factível pronta para ser perseguida. Era a última chance que tinham para aprender, ao fim e ao cabo, o que significa amar e ser amado. Quando se aprende a amar, o mundo passa a ser seu, já dizia Legião Urbana.

E contei a J. todos os lugares por onde passaram aqueles dois aventureiros desde os aeroportos em que aterrissaram ou decolaram, os lugares que mostraram um ao outro e os que desbravaram juntos. Eles alcançaram bons pedaços de mundo, foram muitos quilômetros percorridos a pé, de carro, barco, trem, ônibus e avião com as músicas dos anos 70 e 80 em sua maioria soando nos ouvidos de ambos como dois adolescentes.

À menção de cada lugar ou cada situação J. sorria, um sorriso que tinha ficado difícil de esboçar pelo seu permanente estado de abatimento e pela musculatura da face —não sei se mais afetada pela enfermidade ou pela radiação. Ele também não podia falar, pois o tratamento tinha atingido suas cordas vocais. Porém, ele sorria com o coração a cada detalhe narrado da história— aquele café na Plaza Mayor de Salamanca, a longa espera na fila debaixo de sol para subir na Torre Eiffel e a corrida para conseguir alcançar um barco que saía para Greenwich Park pelo Rio Tâmisa, ouvindo o barqueiro gritar alto: Hurry up! The boat is leaving! —Depressa, o barco está partindo!

Houve uma vez que eles caçoaram de um grupo de turistas asiáticos com a boca coberta por máscaras higiênicas, andando disciplinadamente enfileirados, comandados por um guia, subindo uma ladeira estreita de uma ruazinha de Toledo—de máscara, mesmo quando uma pandemia ainda era inimaginável para o mundo. Quão sábio é aquele povo! Concluímos naquela hora em que estávamos vivendo o confinamento imposto pela emergência sanitária.

Relatei as visitas deles ao Brasil nos finais de ano, sempre enriquecedoras para ele—o estrangeiro— tanto no aprendizado da língua, quanto dos costumes, derrubando vários estereótipos brasileiros que ainda perduram pelo mundo, mesmo com o advento da internet e do fenômeno da globalização. 

E houve o dia do auge do encantamento quando os dois visitaram Veneza e cruzaram os canais num vaporeto—principal meio de transporte da cidade. Concordaram que os passeios nas tradicionais gôndolas tinham preços exorbitantes. Mesmo assim, não se incomodaram de pagar cinco euros por um simples café pertinho da Praça São Marcos, comer com a mão pedaços de pizza na hora do almoço ou arriscar derrubar o sorvete, enquanto eles se espremiam com os demais turistas para atravessar a Ponte di Rialto.

Contei-lhe também dos muitos sábados ensolarados e despreocupados que eles iam à feira livre em Vilanova de Cerveira, um pequeno município de Portugal na fronteira com a Espanha. Ali ela remexia em pilhas de casacos ou suéteres de frio pela bagatela de dez euros a peça, enquanto ele esperava pacientemente. Depois compravam verduras e frutas orgânicas, para finalmente terminar o passeio tomando café com pastel de nata na pastelaria Velha Rosa.

Os encontros divertidos com os amigos brasileiros, os cafés com os amigos de infância de J. no pequeno povoado espanhol em que viviam e se encontravam aos finais de semana também tiveram que ser mencionados. Veio também a lembrança da pizza Olívia do Bar Farol— com rúcula, tomate cherry, queijo de cabra e nozes, a preferida dela. A dele era sempre acompanhada por uma generosa porção de batatas fritas, mistura um pouco rara para os padrões brasileiros.

Contei também sobre as longas caminhadas pela praia de Sanxenxo e dos incontáveis pores de sol na Lanzada, maior praia de mar aberto da região. Relatei também as vezes em que eles davam de comer às gaivotas que insistiam em aparecer depois dos almoços de verão na sacada do apartamento. E sobre a vista das luzes da cidade de Marin refletidas no mar, enfeitando as noites e o horizonte de seu pequeno povoado. Antes de fechar as persianas do quarto era a última imagem antes de dormir, o mais belo e simples cenário.

Foi quando finalizei a história contando de um beijo durante o trajeto no teleférico da cidade do Porto registrado em uma foto que está bem guardada que ele, enquanto tentava sorrir, deixou escorrer uma lágrima. Pedi que ele relevasse aquele detalhe que pareceu lhe trouxera muita emoção e certo desassossego. Afinal ele havia pedido uma boa história. E a história que eu tinha para contar era essa, real, encantadora e inesquecível. 

O mundo nos esperou até que J. não pode mais ficar nele. Ele foi embora deixando ao mesmo tempo uma vastidão de memórias e um imenso vazio de histórias interrompidas ou quiçá adiadas.


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Sonhos interrompidos

Foto: Arquivo Pessoal, Praia das Catedrais, Espanha

Eu nunca tinha tido curiosidade de visitar as Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul. Por muita insistência de J. passamos um final de semana em São Miguel das Missões no verão brasileiro de 2020, quando a pandemia já se avizinhava na longínqua Wuhan na China. Ele tinha toda a razão de querer conhecer, constatei depois de assistirmos a representação da história da Missão que é exibida ao ar livre todas as noites em frente às ruínas. É emocionante e o lugar é muito bonito. Ficamos surpreendidos.

Outra vez, creio que na segunda que ele veio ao Brasil, me propôs uma viagem de carro desde Santa Maria até Foz do Iguaçu para visitar as cataratas. Mostrei-lhe o trajeto inteiro no Google Maps, disse-lhe que desconhecia totalmente a região e as condições das rodovias e ele nunca mais falou em viajar por terra até ali, embora a vontade de conhecer persistiu. Foi quando ele teve a percepção do gigantismo e das proporções continentais do Brasil.

J. só conhecia São Paulo e Rio de algumas vezes em que precisou trocar de aeroporto nas suas inúmeras chegadas e partidas do Brasil, mas tínhamos planos de visitar da mesma forma que ele tinha curiosidade por conhecer Salvador onde há uma comunidade imensa de galegos que emigraram da Espanha para ali décadas atrás.

Ele ficou encantado por Florianópolis e pelo litoral de Santa Catarina, principalmente por suas praias de águas quentes que usufruía como se fosse criança. Entrava na água e não queria mais sair. Acho que seria um dos únicos lugares que poderia adaptar-se, por se acaso um dia viéssemos morar no Brasil como planejávamos.

Fomos uma única vez a Londres, Paris e à região de Vêneto na Itália onde nos hospedamos em Pádua e Veneza; viajamos muitas vezes à Lisboa e região e muitas mais à Madrid e às comunidades espanholas, Astúrias, Andaluzia e Castilla y León. Posso dizer que percorremos juntos meia Espanha e meio Portugal, além de esquadrinhar todas as províncias galegas desde Pontevedra, Coruña, Lugo e Ourense. Num longínquo final de tarde em Finisterra, choramos junto com dezenas de turistas vendo o pôr-do-sol e ouvindo o tema de A Missão —Gabriel' s Oboé de Enio Morricone—que alguém colocou para tocar no celular.

Num verão eu sugeri ir para as Ilhas Baleares, Palma de Mallorca, mas estava demasiado caro e acabamos indo para Nazaré em Portugal, ou seria Ofir, Espinho ou Póvoa de Varzim? Já me confundo com muitos verões e primaveras que saíamos de passeio. Demais de lindo qualquer uma delas, porém as praias portuguesas são de água muito fria—quase tão frias como as da Galícia— com imensas faixas de areia, mar aberto e muito vento principalmente à noite.

Nessa estadia em Nazaré, um dia quase pegamos um barco desde Peniche— distrito de Leiria— até as Ilhas Berlengas. Felizmente(ufa!) já tinha saído o último daquele dia. Tinha ouvido dizer que o trajeto até as Ilhas pode ser perigoso e terrificante por causa das ondas altas na região, mas um ex-marinheiro como ele não se intimidava com esse tipo de aviso. Acho que ele sabia bem como era e eu teria ido, mesmo apavorada. Parece que a paisagem do destino compensa o enjoo marítimo e o trajeto assustador.

Assim como eu queria mostrar a ele como era bonito passear por Buenos Aires e Montevideo que eu já conhecia, ele queria me mostrar o quanto era divertido viajar em um navio de cruzeiro pelo Mar Mediterrâneo. Pensar em passar dias e noites no meio do mar, confesso me inquietava um pouco e adiava esse passeio, mas havia me comprometido a fazermos depois que passasse a pandemia, quando tudo prometia voltar à normalidade. Naquele tempo, independente da pandemia, uma esperança imensurável nos acompanhava cada dia. 

Tínhamos uma listinha de lugares para visitar onde constava, sem ordem de prioridade, Havana, Biarritz, Nova York, Amsterdam, Saint Michel na Normandia, Nápoles e Dublin. A prioridade era a capacidade econômica, obviamente, aproveitando ofertas ou pacotes de viagens de baixa temporada. Nunca fomos mochileiros, não gostávamos de pousadas com banheiros compartilhados, por exemplo, tampouco éramos hóspedes cinco estrelas. Buscávamos sempre por voos e alojamentos confortáveis, porém mais baratos. E antes da pandemia isso era totalmente possível. 

Por fim, veio o câncer, "o imperador de todos os males", essa epidemia silenciosa, renunciante, traiçoeira e devastadora. Esse crescimento maligno microscópico e  macroscópico de células anormais e disformes apoderou-se de todos os nossos sonhos, interrompeu nossa caminhada, rompeu nossos corações e nossas esperanças e acabou consumindo com a vida de J. 

Esse gigante invisível, insidioso, que se escamoteia por detrás de tratamentos infrutíferos e malogrados goza do poder de ser ainda maior que esse mundo todo que tanto percorremos e ainda nos faltou percorrer. O destino tem duas caras, por vezes é aprazível, clemente e bondoso e outras impiedoso, cruel e atroz. Assim é a vida, porém em sua memória estou tentando ainda ter fé como dizia Gonzaguinha em Sementes do Amanhã. A voz do menino J. ecoa no meu ouvido cada vez que me deprimo e penso em desistir.



Insônia