sábado, 29 de agosto de 2020

Me chamo Ler, Leer, Lire, Leggere, Read




Leitora voraz desde que aprendi a juntar letras e sílabas, apenas venho alternando gêneros,  descobrindo autores e mudando a forma de ler. Minha infância foi marcada por duas grandes obras, além dos livros de textos escolares. A primeira foi a Enciclopédia Delta Júnior, lançada em 1967 pela mesma editora responsável pela publicação em português do Delta Larousse e a segunda foi o Mundo da Criança também da Editora Delta.

Meu pai comprou a Delta Júnior pensando em termos em casa uma fonte de consulta para trabalhos escolares. A enciclopédia está bem guardada, tem doze volumes em capa vermelha, os verbetes se distribuem pelos volumes em ordem alfabética. As ilustrações são todas feitas com desenhos coloridos, não há fotos e guardo na memória muitos tópicos consultados quando era criança.

Conheci "O Mundo da Criança" quando íamos de férias para a casa dos primos e era a minha distração. Era um conjunto de doze a quinze volumes, livros grandes, pesados e de capa marrom. Lembro bem de ler aí A Rainha da Neve e A menina dos fósforos de Hans Christian Andersen. 

Além das enciclopédias eu gostava muito dos quadrinhos de Walt Disney que também foram meus companheiros da infância e de toda uma geração. Às vezes, ganhava pequenos livros de histórias com desenhos e dobraduras internas que se podia ler e brincar ao longo das páginas. Já eram os pioneiros da interação com o leitor, os "pop-up books" de hoje e que agora acredito, só encantam os bebês.

No final do ensino primário e durante o ensino médio li uma infinidade de clássicos da Literatura Brasileira, uns por obrigação escolar, outros por puro prazer. Com o estímulo de uma ótima professora de Literatura, percorri os períodos literários desde o Quinhentismo até o Pós-Modernismo, mas meus prediletos eram, sem dúvida, os do período Romântico e Realista tanto os autores parnasianos como os naturalistas.

Na casa de uma tia eu também tinha acesso a uma pequena biblioteca onde li a coletânea completa e encadernada de José de Alencar e algumas obras de Pearl Buck, escritora sino-americana cujos títulos A Boa Terra prêmio Pulizter de ficção e Os Filhos de Wang-Lung recordo hoje com saudade.

Na adolescência me apaixonei e filosofei com o libanês Khalil Gibran e seus O Profeta e Areia e Espuma, entre outros. Nessa época li muitas obras de Érico Veríssimo e me encantei com Clarissa, Vasco e os personagens de O Tempo e o Vento. Lembro que nessa fase intercalava os livros com revistas de fotonovelas, muito populares entre as jovens da minha idade e um passatempo mais barato.

Depois de adulta e podendo comprar meus próprios livros, li uma variedade de clássicos ingleses, lembrando aqui as irmãs Brontë com Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes, Jane Austen e um pouco de Agatha Christie. São dessa época minhas leituras dos americanos George Orwell, Ernest Hemingway, Jack Kerouac e Arthur Muller e os latino-americanos Eduardo Galeano e Gabriel Garcia Márquez. Também li sagas famosas como As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley e mais recentemente Outlander ou "A Viajante do Tempo" de Diana Gabaldon.

Consumi um bom tempo lendo livros que tratavam de Saúde Pública e Promoção de Saúde. Em minha vida laboral tive bastante interesse pelos referenciais teóricos e autores da Reforma Sanitária do final da década de 80 e pelo arcabouço legal do Sistema Único de Saúde Brasileiro. Hoje, depois de tantas construções, desconstruções, teorias, políticas e leis que não saíram do papel ou que foram mal conduzidas, evito voltar a esse tipo de leitura, apenas guardando na memória dezenas de experiências exitosas que pude vivenciar e que espero estejam ainda contribuindo no presente.

Como vivia longe das grandes livrarias frequentava bibliotecas públicas e tomava livros emprestados, mas em meados da década de 80 descobri e me associei ao Círculo do Livro uma editora brasileira fundada em 1973, parceria entre o Grupo Abril e a editora alemã Bertelsmann. Tudo se manejava pelos Correios. A editora mandava o catálogo dos livros num encarte mensal com as ofertas, os lançamentos e todo o conteúdo disponível. O cliente escolhia, fazia a encomenda e esperava a entrega em casa. Os livros tinham todos um formato capa dura de ótima qualidade e a empresa tinha uma enorme variedade de títulos e autores.

Aqui não posso deixar de citar meu grande livro da juventude comprado no Círculo, Os Rebeldes de James Michener, autor americano onde parte da história é ambientada em Torremolinos na Espanha, cidade que tive o prazer e a emoção de conhecer muitos anos mais tarde. Meu exemplar de "Os Rebeldes" doei para uma biblioteca pública anos antes de sair do Brasil, mas comprei outro igual num sebo online tempos depois, porque não consegui desapegar. O Círculo do Livro acabou encerrando suas atividades no ano 2000.

A década de 90 foi a fase áurea do gênero autoajuda e dos romances espíritas de Alan Kardec que lideravam minhas aquisições. Mesmo assim também permanecia atenta aos best-sellers nacionais e estrangeiros que embora não lesse de imediato, guardava como dicas de próximas leituras. Alguns certamente acabavam sendo bastante frustrantes, pois raramente coincidia meu gosto pessoal com a lista dos mais vendidos nas livrarias.

Entre outros gêneros também já li muito sobre História do Brasil nas obras de Laurentino Gomes, Eduardo Bueno e tantos outros. Gosto de História Antiga e Contemporânea, romances históricos e ficcionais, livros que viraram filmes, como os premiados A Casa dos Espíritos de Isabel Allende, O Nome da Rosa de Umberto Eco, o grande Jorge Amado com Dona Flor e seus dois maridos e Gabriela, Cravo e Canela e A menina que roubava livros de Marcus Zusak, lançado em 2005. Este último foi um dos melhores livros que li nesta época, guardo-o com carinho, esperando que um dia minha neta também leia.

Como Paulo Coelho é conhecidíssimo fora do Brasil e porque descreveu sua peregrinação pelo Caminho de Santiago em o Diário de um Mago fui reler alguma coisa dele, mas confesso que só consigo selecionar e rememorar O Alquimista que, merecidamente é o livro brasileiro mais vendido de todos os tempos.

Também tenho interesse por memórias e biografias e destaco aqui as de Alberto Santos Dumont, Amelia Earhart e Dona Leopoldina, a Imperatriz do Brasil figuras que conhecendo sua história passei a admirar.

Tenho também especial apreço por histórias ambientadas na Idade Média como Os Pilares da Terra de Ken Follet , dos períodos iluministas do qual destaco A Religiosa de Denis Diderot e os que antecedem ou que permeiam a Revolução Francesa. Inclusive é muito interessante a biografia de Maria Antonieta.

Também na década de 80, período pós- ditadura militar no Brasil, entrei em contato com muitas obras que denunciavam as torturas, o regime e a história recente do país como o projeto Brasil: Nunca Mais realizado pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), O que é isso, companheiro! do decepcionante Fernando Gabeira e um documentário jornalístico do Caso Riocentro escrito por Belisa Ribeiro.

Houve um tempo que li alguns títulos também em inglês num formato adaptado para meu nível intermediário, como Dr. Jivago de Boris Pasternak e Alexander, the Great de Philip Freeman só para exemplificar. Atualmente tenho tido contato com um pouco da literatura espanhola, pois consigo ler perfeitamente em espanhol. Meu primeiro livro neste idioma foi  La luz entre los oceanos de M.L. Stedman, embora seja um autor australiano e depois El tiempo entre costuras best-seller de Maria Dueñas, obra traduzida para mais de 20 idiomas.  

Há uns quatro anos, mudei radicalmente minha forma de ler. Como gosto de tecnologia, resolvi experimentar o livro eletrônico e resultou que me adaptei rápida e perfeitamente ao seu formato. Muitas pessoas dizem que não renunciam ao livro de papel, mas digo que é interessante experimentar. É um aparato pequeno, não pesa nada, não ocupa espaço, não consome papel, tem uma luz muito confortável diferente de computador ou tablet e acesso à internet para baixar os títulos, geralmente mais baratos que os livros físicos e com bastante conteúdo gratuito. 

Para não esquecer minhas primeiras leituras em livro eletrônico registro aqui o levíssimo El amor huele a café de Nieves Garcia Bautista, a leitura angustiante e estarrecedora de Vozes de Chernobyl de Svetlana Aleksievitch e o assombroso e revoltante El tren de los Huerfanos de Christina Baker. Estão na fila para releitura, entre tantos, Mulheres que correm com os lobos, porque preciso reforçar um feminismo que tenho ainda pouco explorado e ando em busca de uma versão digital em português ou espanhol de Os Mandarins de Simone de Beauvoir.

Tenho já uma biblioteca digital de mais de 200 títulos que está sempre comigo, na mesinha de cabeceira, na bolsa ou na mala quando viajo. Nesse dispositivo venho descobrindo e redescobrindo a literatura do mundo e agregando cada dia mais memória de histórias que me ajudam a entender a vida. 

Assim tenho acumulado meus livros em duas casas, em estantes, em caixas organizadoras, emprestados a outras mãos, na nuvem eletrônica e outros tantos, inesquecíveis seguirão guardados no coração.




                                               
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O baixo Brasil das bruxas soltas


Não gosto de ouvir o termo bruxa dirigido às mulheres, nem para designar a aparência, tampouco para atacar seu caráter. É um termo misógino e antifeminista usado desde tempos imemoriais para calar, reprimir e aviltar seres pensantes e que destemidamente buscavam a igualdade entre os gêneros. Muitos milhões de vidas pereceram brutalmente assassinadas ou encarceradas pelo crime de não se submeterem, de buscar respeito e relevância mais além da finalidade reprodutora, sexual e de sujeição às necessidades do gênero masculino. 

O arquétipo da bruxa está presente nos contos infanto-juvenis como a imagem da maldade, da inveja, da antiestética, da ambição. Expressam-se como seres dotados de alguma sabedoria, mas que o senso comum deixa claro que é uma sabedoria invariavelmente usada para o mal. Um dos exemplos que quebram esse paradigma da malignidade das bruxas é o filme Malévola, produzido pelos estúdios Walt Disney.

Na Língua Portuguesa, a expressão a bruxa está solta é uma forma de dizer que algo não vai bem, que acontecimentos estranhos estão surgindo muito repetidamente, que há uma maré de azar ou que estamos vivendo um período sinistro e muito ruim.

Pois nós, brasileiros advertidos ou inadvertidos estamos assistindo um período mais do que sinistro e ruim da nossa história. Está instalada uma verdadeira convenção de bruxos e bruxas saídos do mais funesto túnel do retrocesso e do obscurantismo social e político jamais visto desde o século XX.

Há uma mistura inaceitável de religião com política num Estado laico legitimado pela Constituição Federal, o que já mostra o fosso que o país se encontra, tentando se assemelhar às teocracias medievais. A hipocrisia religiosa está manifesta, quando doidos e mal-intencionados vão para frente de um hospital vociferar contra o aborto legal de uma criança, criminalizando o sexo feminino e a infância e ignorando o crime hediondo do indivíduo do sexo masculino.

O parlamento brasileiro está cheio de figuras bizarras e ignorantes de seu verdadeiro papel. Muitos se lançam na carreira política usando a enganação, a religião e a boa-fé dos eleitores. Ali já tentaram emplacar leis absurdas quanto aos costumes, se imiscuindo na sexualidade das pessoas, já tentaram censurar livros, obras de arte e fazer revisionismos em conteúdos escolares. A hipocrisia é escancarada, quando alguns desses parlamentares muito religiosos são acusados de ardilosos crimes contra a vida, e buscam a imunidade de seus cargos para escapar da prisão como temos acompanhado nos noticiários dos últimos dias.

Alguns juízes e procuradores de justiça se elevam a uma casta de ungidos e soberanos, enquanto tomam atitudes notoriamente punitivistas contra supostos inimigos da pátria, numa inquisição moderna que arrancaria palmas da Santa Inquisição. Ao mesmo tempo que se protegem de investigações e punições de suas próprias arbitrariedades, assim se tornam pródigos em combater a corrupção sendo corruptos.

Tempos atrás parte da classe médica promoveu uma campanha de ódio e xenofobia contra seus colegas cubanos, quando estes chegavam ao Brasil para ocupar postos de trabalho que vinham sendo rejeitados pelos mesmos profissionais brasileiros. Atitudes como essa, além de incivilizadas, mostravam o quanto esses médicos estavam alheios às necessidades da população, principalmente das zonas periféricas das cidades e dos sertões do país. Tempos depois, ainda mais estupidificados, desprezando a própria ciência que os formou e as diretrizes internacionais, se submetem, calados e aplaudem o governante leigo que propagandeia medicamentos sem comprovação científica. Irresponsavelmente, tanto os médicos como os governantes estimulam a automedicação no momento mais sensível da pandemia por coronavírus.

Governantes tentam calar seus oponentes e desrespeitar a liberdade de expressão criando supostas listas de pessoas monitoradas pela inteligência e segurança nacional num claro procedimento digno de ditaduras. Ao mesmo tempo insultam jornalistas, porque não têm respostas para perguntas embaraçosas e pertinentes. 

A população pobre e negra das periferias é morta pelo Estado como nos tempos da escravidão, quando estas vidas só importavam para arrancar-lhes o trabalho forçado e a dignidade.

A percepção da pandemia por parte da população segue a visão negacionista do governo, responsável pela inexistência de políticas públicas para a efetiva conscientização do problema e o país segue em número crescente de mortes e afetados, num ponto que já se banaliza a doença e a vida segue como se nada...

Por último e não menos grave é que parte da população e de alguns aproveitadores têm muita dificuldade de entender a diferença entre liberdade de expressão e produção de mentiras. Por isso as redes sociais seguem lotadas de fake news manipulando crédulos, aumentado a desinformação e corroendo a democracia.

Isso é só uma parte do Brasil das sombras. Os absurdos são muitos. Até quando os enfeitiçados pelo ódio  seguirão seu projeto de escuridão?

Nós, homens e mulheres descendentes das bruxas genuínas seguiremos aqui sua luta.


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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Consumo responsável e novas atitudes

 

Quando saímos à rua e mesmo em frente ao computador encontramos facilmente todo tipo de comida, roupa, telefones celulares, computadores, sapatos, eletrodomésticos, carros, móveis etc. A publicidade nos assalta de maneira subliminar ou diretamente de muitas maneiras e acabamos comprando de tudo e muitas vezes por puro impulso. Me pergunto quanto necessitamos realmente de tudo o que compramos? Levamos em conta o volume de coisas que vão acabar sendo um dia descartadas num meio-ambiente já tão colapsado? Levamos em conta os benefícios ou malefícios que estamos causando à nossa saúde? Levamos em conta nossa capacidade financeira ou abusamos das compras no cartão de crédito? Que sentido, efetivamente temos dado à vida? A qualidade de vida está realmente associada ao nível de consumo? 

Podemos exercitar um olhar crítico quando entramos num supermercado para comprar comida e fazer a seguinte pergunta: Onde está a “comida de verdade”? O que temos aqui que não seja muito processado, embalado, rotulado ou cheio de corantes, aromatizantes e edulcorantes? 

Vemos grandes quantidade de alimentos processados empilhados nas prateleiras. Vemos também alimentos naturais, mas sendo vendidos picados, fracionados, embalados, congelados ou conservados segundo consta, com a finalidade de auxiliar pessoas com pouco tempo para cozinhar. Porém, nas pequenas fruteiras do bairro e mesmo na sessão de hortifrutigranjeiros do supermercado podem ser encontrados os mesmos alimentos com a vantagem de estarem frescos, recém-chegados dos produtores. Ao optarmos por esses últimos adquirimos produtos de temporada e muito provavelmente de pequenos produtores locais, impulsionando a economia de nossa região, com a vantagem de contribuirmos com a sustentabilidade ambiental evitando o acúmulo de papel, plástico e outros tipos de embalagens que levamos para casa todos os dias. 

Felizmente já há uma preocupação com o tema dos alimentos ultraprocessados.  Existem aplicativos gratuitos como o Desrotulando ou MyRealFood que  fazem a análise dos códigos de barra dos produtos pela aproximação da câmera do celular e auxiliam na hora da compra. Já é um avanço, mas aos aplicativos custa estar atualizados, pois surgem produtos novos a toda hora. 

Certo é que vivendo numa economia de mercado, a indústria se permite produzir e vender qualquer coisa desde que atenda aos requisitos, regulamentos e a vigilância dos órgãos governamentais, mas se compramos comida mais “verdadeira” sem muito processo industrial e refinos como grãos, sementes, frutos secos, especiarias frescas, frutas, verduras, legumes, pescados, aves e carnes frescas gastamos menos e levaremos para casa comida mais saudável e barata. O único inconveniente é que precisamos ir mais vezes às compras, mas o resultado compensa.

O costume de consumir comida rápida e usar aplicativos de tele-entrega são realmente bastante tentadores pela variedade e pela facilidade. Bastam alguns cliques no celular e logo estão na nossa mesa. Mas é conveniente não abusar, pois geralmente esse tipo de alimento é farto em gorduras e condimentos podendo desencadear problemas circulatórios e cardíacos, além de obesidade se consumidos em excesso. 

Quando compramos roupa, sapatos e acessórios podemos fazer pergunta semelhante— que tipo e quantas peças necessito para esta temporada? Nossos armários, cheios de roupa da moda e tendências que mudam a cada estação seguramente já não suportam tanto volume mesmo que tenhamos por hábito inventariar periodicamente, fazer doações ou vender para brechós o que também é uma boa prática. Além disso devemos levar em conta informações sobre quais redes de lojas são coniventes com a exploração de mão de obra e precariedade laboral em regiões mais pobres do planeta. A indústria da moda já foi alvo de muitas denúncias. 

As liquidações de temporada ou promoções tipo Black Friday, estratégias usadas pelo comércio, precisam ser usadas com critério e racionalidade pelo consumidor. Serão efetivas se temos foco em nossas reais necessidades. Do contrário, sempre compraremos coisas inservíveis somente pela justificativa dos preços estarem rebaixados. Isso só se justifica para o mercado financeiro que busca sempre benefícios exorbitantes que na maioria das vezes, nem sequer utilizam para incrementar os salários de seus funcionários. 

Enfim, creio que nosso padrão de consumo muitas vezes não está baseado numa necessidade absoluta e sim numa compulsão por marcas, embalagens, frascos, cores, estilos, imagens que nos invadem quando andamos num centro comercial, assistindo televisão ou pela publicidade da internet. Nossa necessidade de consumo está muito voltada para satisfazer uma sociedade de aparências que valoriza em demasia os bens materiais e nossa capacidade de ostentar e acumular coisas, reciclando e reaproveitando pouco.

Aqui não quero fazer apologia à sovinice ou à austeridade. Não precisamos deixar de comprar nosso café daquela marca suíça de toda a vida, os biscoitos das crianças, aquele sorvete delicioso, ter aquele celular bonito cheio de aplicativos, aquele perfume maravilhoso ou abrir mão da tecnologia e do conforto. Sei que é possível desfrutar da vida sem excessos, sem ostentações vazias, gastando menos e poupando mais. 

Preciso deixar claro aqui também que reflito segundo a perspectiva do comportamento de classe média. As realidades sociais e econômicas no Brasil são extremamente diversas e desiguais, não posso cometer a injustiça e a desfaçatez de generalizar e incluir numa mesma situação pessoas que mal têm para seu sustento e pedir a mesma racionalidade.

Os tempos andam estranhos, a pandemia tem gerado muita incerteza, perdas de vidas e desemprego. A insegurança econômica e sanitária tem tomado conta das nossas vidas. Os recursos naturais e materiais estão cada vez mais limitados. Já é tempo da sociedade e governantes começarem a preocupar-se mais além de produzir e consumir, também com minimizar a extrema desigualdade social que este modelo de capitalismo não resolveu e tampouco empenha-se em dar uma solução. Afinal que tipo de sociedade queremos? Sustentabilidade, igualdade, inclusão, responsabilidade e consciência social me parecem bons termos para começar.

 

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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Antes de odiar alguém, pensa em quem te disse para odiá-lo.

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Imagem de Alex Yomare por Pixabay
                                                                 

     Tradução livre do vídeo de Marina Lobo em Spanish Revolution

Se há que reconhecer algo em nossos políticos hoje em dia é o bem que fazem uso do ódio. Mas por que triunfa este tipo de discurso? Existem dois elementos que influem hoje em dia,  a perda de influência de velhos caciques políticos e o auge do populismo. 

Numa sociedade quase que em permanente crise, onde a maioria dos contratos de trabalho são temporais, as pessoas mudam de emprego a toda hora e as fake news correm soltas, há um sentimento que nos ronda constantemente, a incerteza.

Quando não podes sequer planejar umas férias com teus amigos, porque não sabes o que será de ti no emprego ou porque terás que poupar teu salário, porque o local em que trabalhas, afinal fechará no final do verão, facilita-se aos mal-intencionados. E detrás de todo bom mal-intencionado está...Steve Bannon.

A ele devemos, por exemplo que um senhor como Donald Trump tenha chegado à Casa Branca. Ademais ele também assessorou em alguns momentos figuras como Bolsonaro e claro, a nosso querido Santi —Santiago Abascal, presidente de VOX, partido de extrema direita espanhol.

A chave está em colocar a culpa de todos os nossos males a alguém que não esteja entre os mais poderosos, claro, e que não tenha influência suficiente para desafiá-los, ou seja, as minorias.

São capazes de fazer com que acredites que se teu chefe não vai pagar tuas férias é por culpa dos imigrantes que colhem morangos por 1 euro a hora ou se não consegues encontrar uma namorada é por causa do coletiva LGBTI.

Maquiavel afirmava que tanto o ódio como o terror são dois instrumentos a serviço da política.

Assim, desvia-se o ódio aos outros.  E é aqui onde está o cerne da questão.. Tradicionalmente  dividiam-se os votantes em quatro tipos:

  • Habitantes da cidade x do campo
  • Religiosos x Laicos
  • Empresários x empregados
  • Centralizadores políticos x defensores dos periféricos

Logo veio a divisão entre esquerda e direita e em nossos tempos entram em jogo mais fatores como o feminismo, os direitos LGBTI, a ecologia e está cada vez mais complicado analisar onde estão os eleitores e convencer-lhes que votem em X partido. Para isso existe o populismo. Populismo se define como uma aversão às elites econômicas e intelectuais, constante denúncia à corrupção política e intenso apelo popular. Apesar da extrema direita com seus pomposos sobrenomes, usar esses mesmos discursos, o mais perto que chegaram de um trabalhador em sua vida foi no dia em que fizeram uma reforma na casa.

Se trata de agrupar pessoas com realidades e reivindicações diversas para gerar ódio contra o que eles chamam O Sistema. Quando é precisamente o mesmo sistema que sufoca a população e que eles mesmos defendem como o poder dos ricos que evadem divisas e sonegam impostos.

Para eles é fácil substituir a palavra sistema por outras como buenismo, Lobby LGTBI ou a mentira do câmbio climático. Pelo que se vê, pouco lhes falta para defender o terraplanismo.

Por exemplo, no Reino Unido os defensores do Brexit manejaram como argumento principal para sair da União Europeia, o controle da imigração, assegurando a falsa ideia tão disseminada de que eram os imigrantes que lhes tiravam os empregos.

Aqui Vox tem utilizado em várias ocasiões aos menores imigrantes que chegam desacompanhados como arma em potencial, criminalizando meninos e meninas, uma minoria especialmente vulnerável.

Ato xenófobo de Vox a um centro de menores estrangeiros: “Os espanhóis têm direito a caminhar com tranquilidade sem ser atacado por uma manada de “Menas”.( menores estrangeiros, não acompanhados)

Provavelmente muitos já ouviram falar que 69% das agressões sexuais cometidas em Manada, agressões sexuais cometidas na Festa de San Fermín em Pamplona, eram cometidas por estrangeiros. Esse dado, certamente é falso, mas tem um claro objetivo, desviar a atenção do debate feminista originado pelas violações de La Manada que não eram precisamente menas e sim violadores espanhóis e por certo, alguns membros de Vox.

As pessoas creem nesses dados, porque precisam de respostas, porque são questões bastante emocionais e viscerais e a extrema direita trata de que seja uma batalha do penúltimo contra o último:

"Tu, trabalhador estás desempregado, mas ao menos tens documentos, não és como uma porcaria de um estrangeiro que vem aqui tentar roubar teu trabalho." É o discurso usado.

A esse sem documento, esse Mena, esse subsahariano lhes aplicam pejorativos diversos que os desumanizam facilitando o sentimento de ódio.

Uma das últimas polêmicas foi o uso da bandeira do Orgulho Gay no escudo da Guarda Civil. Levam anos fazendo isso, até nos governos do Partido Popular, mas parece que isso não os incomodava até então. Agora sim, incomoda.

O próprio Steve Banon afirmava em uma entrevista: “Transformamos os republicanos num partido de trabalhadores”. Assegura, junto a Trump, um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, já antes de ser presidente, defender os trabalhadores. No entanto, há dois anos o presidente aprovou um projeto de lei de 1,5 bilhões de dólares para reduzir os impostos das empresas e dos ricos entre os que figuram ele mesmo e seu gabinete.

Aqui Vox rechaçou aprovar impostos e aumentar as bolsas de estudo, votou contra a proibição de dispensas por doença e tem sido um dos maiores opositores do Projeto de Renda Básica Universal, enquanto milhares de seus votantes acabam sendo beneficiários de todos esses auxílios.

Espanhóis contra imigrantes, heteros contra o lobby gay, cidadãos de bem contra progressistas.

Se usa o ódio para enfrentar-se entre si os de baixo, enquanto os de cima riem e brindam a nossa saúde.

Antes de odiar alguém, pensa em quem te disse para odiá-lo.

                                                                                        

 https://www.facebook.com/SpanishRevolution/videos/1381875815535976

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Exercício da Fotografia

 

Foto: Arquivo Pessoal

Já estava morando na Espanha há um ano, quando conheci Ribadeo na Província de Lugo, à noroeste da Península, limite entre Galícia e Astúrias. A cidade é famosa por estar nas proximidades da Praia das Catedrais no Mar Cantábrico, uma paisagem incomum feita de altos arcos de rochas e formações de cavernas em uma praia que só se pode entrar com a maré baixa e depois de pedir autorização à prefeitura, pois a entrada está controlada. Meu companheiro tinha sido designado àquela cidade para ministrar um curso aos colegas da Vigilância Aduaneira e estaríamos ali por todo o dia seguinte.

Chegamos na cidade quando escurecia e já fazia um pouco de frio de outono. O hotel era um prédio simpático de dois pavimentos e o estranho nome de O Cabazo. Os galegos têm o costume de nominar os lugares com um artigo definido na frente: A Corunha, A Estrada, O Grove, A Lanzada, O Xesteiro, etc. Os quartos ficavam no andar de cima separados por um largo corredor e a escadaria era larga e imponente como nos teatros. Jantamos ali por perto do hotel e não saímos mais naquela noite. 

Quando eu acordei no dia seguinte, procurei saber como estava o tempo, pois queria aproveitar para explorar a cidade. Levantei e busquei a abertura da janela por trás do cortinado grosso que cobria toda uma parede do quarto. Deslizei a cortina e o que encontrei não foi uma persiana ou uma janela comum. Havia uma porta de vidro que se abria de par em par para uma pequena sacada. O parapeito parecia uma obra de arte, de ferro fundido negro com desenhos retorcidos imitando as sacadas de prédios históricos, embora fosse um prédio de engenharia contemporânea.

O dia era uma mescla de frio e umidade, pairava uma névoa branca e chovia fininho o que já limitava meus planos de sair de passeio. A vista da janela-porta dava para uma parte interna do prédio e havia um pátio com canteiros de plantas e caminhos estreitos de terra misturada com um pedregulho miúdo, daqueles que fazem um barulhinho ao pisar. Havia dois ou três bancos compridos do mesmo ferro do parapeito da sacada e creio, com os desenhos parecidos.

Mas a surpresa mais bonita foi a imagem colorida que tinha diante mim, embora o dia estivesse cinza e branco. A copa das árvores e pedaços de chão estava cobertos com os mais diversos tons que iam do rosa, vinho, ocre e marrom das folhas que se acumulavam e se transformavam naquela visão típica do outono do hemisfério norte.

Tirei uma única foto daquele momento naquela manhã, ainda meio sonolenta e guardei na minha memória a visão colorida em contraste com o dia cinzento daquele canto de mundo A foto acabou esquecida nos arquivos de um telefone celular avariado ou em alguma página antiga da rede social.

Um dia, descobrindo como reaver postagens anteriores, resgatei a foto daquela manhã em Ribadeo e comprovei que a mente é prodigiosa para a criação. A visão do dia cinzento contrastando com o colorido da paisagem do pátio interno do hotel era mesmo real, mas os outros detalhes eram só fruto de minha imaginação, por ter idealizado a lembrança daquele momento.

O pátio era em realidade um estacionamento pavimentado com as linhas brancas delimitando o lugar dos carros, postes de iluminação, pequenos arbustos ao fundo como uma cerca viva e não havia caminhos com pedregulhos, nem bancos de ferro, só uns poucos canteiros de plantas, sem a profusão de cores outonais como já havia visto em outros lugares.  Os bonitos detalhes daquela vista da janela que mantinha como reais eram apenas detalhes plasmados de outras memórias de outros lugares. Minhas recordações foram super dimensionadas  justamente pela beleza que o lugar já carregava.

 

Arquivo pessoal : Tuny Brum

                                                                  * * *                                     

                                                             

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Anarquia sanitária e o embuste como política

Imagem : Pixabay

Como farmacêutica de formação e atuando muitos anos em Saúde Pública e mais tarde na Gestão da Assistência Farmacêutica do Sistema Único, relutei em falar sobre isso. No entanto, precisava exteriorizar uma indignação, aliás, minha velha conhecida, quanto à forma como governos federais, gestores estaduais e municipais, parte da sociedade e também da imprensa em sua maioria leigos, tratam os medicamentos como produtos quaisquer, que poderiam, numa visão puramente mercadológica, estar à disposição nas prateleiras dos supermercados, em lojas de departamentos, vendidos pela internet, em feiras de rua ou nas mãos de vendedores ambulantes.

É quase um mantra profissional informar que um medicamento jamais é desprovido de risco. Antes de ser usada para curar, toda substância é uma droga e dependendo da dose ou da forma de apresentação pode provocar desde pequenos desconfortos ao organismo, como graves prejuízos à saúde e também levar à morte. Uma planta, um alimento, uma bebida quando irresponsavelmente consumidos também não são isentos de riscos. Todo medicamento antes de ser lançado do mercado passa por inúmeros testes químicos e clínicos, demanda dedicação e tempo de muitos profissionais e muito dinheiro para as pesquisas. Ou seja, não é algo que acontece da noite para o dia e tem uma carga imensa de conhecimento científico acumulado. Conhecimento esse que tem sido sistematicamente desprezado por conta de charlatanices que vêm sendo disseminadas, aproveitando-se do momento em que a população está mais carente de saúde, de respostas e de soluções  para a grande crise mundial da pandemia  do coronavírus.

Desde dezembro de 2019, quando apareceu o primeiro caso na China, pesquisadores e profissionais de saúde enfrentam duplo desafio, tentam salvar vidas dentro dos hospitais e ao mesmo tempo correm contra o tempo nos centros de pesquisa, testando substâncias que possam ser efetivas para curar ou prevenir a Covid-19. Até agora falou-se em muitos tratamentos, mas nada ainda foi declarado pela OMS como protocolo efetivo para o manejo clínico dos pacientes mais graves. Imagino quantas pessoas morreram e seguirão morrendo nesse grande experimento científico mundial,  fazendo de 2020 um ano que jamais será esquecido.

Lembro de antigas lutas por parte do Conselho Federal de Farmácia para proibir a venda de medicamentos em supermercados na década de 90, das campanhas de promoção pelo uso racional dos medicamentos dos anos 2000, da proibição de propaganda de medicamentos pela televisão, da exigência de receita médica para a compra de antibióticos, pelo cumprimento da lei 5991/73 que exige a presença de profissional farmacêutico em todo período de funcionamento das farmácias. Era uma busca pela excelência, adesão à normas internacionais, pelo respeito ao público, pela promoção e proteção da saúde do cidadão tão evidenciadas na Constituição Federal.

Hidroxicloroquina, ivermectina e dexametasona são medicamentos bastante conhecidos pelas equipes de saúde, têm mecanismos de ação e indicações bem definidos e fazem parte das listas dos medicamentos essenciais do Sistema Único de Saúde. Todo cidadão pode ter acesso a eles gratuitamente mediante prescrição e supervisão médica e farmacêutica. Como todos os medicamentos de consumo nacional, são regulados pela Agência Nacional de Saúde e fiscalizados desde sua importação, fabricação, comercialização e distribuição pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária e seus órgãos estaduais.

Agora, no momento mais crítico e de mais vulnerabilidade sanitária, estando a população exposta ao contágio de um vírus pouco conhecido, surgem desserviços, distorções e aberrações as mais variadas vindo dos mais variados órgãos e pessoas públicos, privados e associações da sociedade civil. Não obstante, para piorar a catástrofe que vive o mundo e o nosso país, atos e cenas aberrantes invadiram o cotidiano brasileiro, quando o chefe da Nação achou por bem ignorar a gravidade da pandemia, rechaçar o sentido do isolamento social e fazer publicidade falsa, acintosa e premeditada de hidroxicloroquina como tratamento para Covid-19. O mais incrível é que parece que há um pacto nacional para que, no desespero de encontrar soluções, mesmo que forjadas, para a crise econômica que veio atrelada à crise sanitária, governos estaduais, municipais, órgãos e corporações alinhadas com o governo federal empenham-se nesse cúmplice desvario inconsequente e irresponsável.

Onde estão os órgãos de defesa do consumidor e da saúde pública?

Onde estão os órgãos de fiscalização do exercício profissional que não apontam o delito de exercício ilegal da profissão, quando pessoas não médicas como o presidente da república, jornalistas e prefeitos promovem o uso indiscriminado de hidroxicloroquina, associações com dexametasona, ivermectina em doses cavalares e outras bizarrices medicinais em aparições públicas, vinculando fortemente sua imagem com a de um medicamento inócuo para evitar as mortes e não livre de riscos à saúde.

Onde estão os Conselhos de Farmácia e Medicina, ao que parece submissos aos abusos governamentais e não emitem pareceres honestos baseados na ciência?

Onde estão os órgãos de fiscalização de publicidade e propaganda, quando planos de saúde enviam para seus  médicos conveniados  kits para coronavírus sugerindo prescrições como se fossem brindes de final de ano.

Onde estão os fiscais da Vigilância Sanitária, quando aparecem fotos nas redes sociais de ambulantes vendendo na rua e no transporte público caixas de hidroxicloroquina, como se fosse algodão doce? Fato esse tão grave que carece de veracidade.

Onde está o Ministério da Saúde que não promove uma só campanha de informação baseada nas orientações da OMS, esconde as estatísticas e ainda tira aproveito da boa-fé da população que acode às farmácias buscando o remédio do presidente?

Onde estão Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas que não enxergam no mínimo, improbidade administrativa por parte do governo federal e até do Exército Brasileiro que, segundo a imprensa gastou os tubos para fabricar medicamentos inúteis e que agora precisam urgentemente despejar os estoques para desonerar-se da irresponsabilidade e da sua gigantesca incompetência administrativa?


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domingo, 9 de agosto de 2020

Puxando memórias II - Decadence avec elegance





Depois do susto com um ônibus desgovernado entrar pátio adentro de nossa casa em Porto Alegre, deixando alguns danos materiais e certamente, insegurança e medo, mudamos definitivamente de casa, de cidade e de vida. Não sou capaz de avaliar o abalo emocional provocado em meus pais pelo acidente, pois era uma criança, mas sem sombra de dúvida foi o fator de maior peso nesta decisão.


Naquela época não havia possibilidade de reclamar com os órgãos de defesa do cidadão, porque não havia órgãos de defesa do cidadão, porque também não havia cidadania, tampouco democracia. A busca pelo direito à segurança para as ruas de um bairro evidentemente era inviável, se não fosse, seria caro. Não havia como demandar a empresa de transportes pela imperícia e irresponsabilidade do motorista ou pela negligência do mecânico que não supervisionou os freios do veículo. Não havia maneira de mobilizar a vizinhança para solicitar a colocação de um simples semáforo no cruzamento e evitar futuros acidentes. Nossa casa era de esquina.


Naquele 1969, vigorava o AI-5 e o povo, além de estar amordaçado pelo autoritarismo do regime, não tinha consciência que o Estado para o qual pagava impostos, também lhe devia proteção. Parece que um seguro pagou as despesas com os danos na casa. O motorista envolvido no acidente, passou depois a abrir-nos a porta dianteira do ônibus e não cobrava a passagem. Deve ter pesado na consciência o fato de que, por pouco, não matou duas crianças, mas feriu gravemente uma moça que estava na calçada.


Na metade de 1970 nos mudamos para o interior do Estado onde segui com o curso ginasial. A escola tinha bons professores, instalações dignas e uma certa qualidade de ensino, embora os métodos fossem os mesmos—absorver conteúdos, assimilar regras, sem exercitar visão crítica, nem aprender a pensar. Tudo pedia ordem, moral e civismo como eram os valores educacionais da época. Eu continuei sendo a mesma aluna aplicada e fui tomando contato com outros temas e idiomas estrangeiros— inglês e francês— como já havia na outra escola. 


Embora a escola tenha me influenciado positivamente, o mais marcante nessa cidade tinha relação com os costumes. Era um lugar pequeno, talvez não mais do que dez mil habitantes naquela época. Alguns sobrenomes tinham importância e dinheiro, ou só importância porque em alguns casos o dinheiro era só aparente. Era um lugar onde definitivamente as aparências davam o tom das relações. Meu sobrenome era conhecido e talvez tivesse certa importância, mesmo sem dinheiro nenhum. Levada por familiares— eram muitos—fiz algumas amizades e tive um curso ginasial também com boas notas e nunca repeti de ano.


Era o começo da adolescência e tudo se complicou, sobretudo nas relações como é comum nessa fase. Para ganhar aceitação no grupo, aos 13 anos aprendi a fumar nas redondezas da escola, de onde era permitido sair do pátio na hora do recreio.  Havia um bar ali perto que vendia cigarros por unidades. Quão fácil era viciar jovens e crianças curiosos na adição ao tabaco naquela época! Só na década de 90, com o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente a venda de cigarros e bebidas a menores ficou proibida. Eu não lembro de ter dinheiro para isso, alguém comprava e fumávamos um único cigarro entre 3 ou 4 meninas. Depois de umas tragadas sem jeito, voltava meio enjoada para a sala de aula e certamente cheirando mal, mas os professores nunca reclamaram e não me viciei imediatamente só com aquelas aventuras daquelas tardes. Passei a fumar alguns anos depois, a partir dos 20, já na Universidade de maneira moderada e deixei definitivamente esse vício horrível aos 32.


Nesta pequena cidade, morávamos numa rua que não tinha pavimentação, era de terra batida, fazia barro quando chovia e aquilo me parecia esquisito. Eu tinha medo de galinhas, vacas e de cavalos que passaram a ser animais comuns no meu entorno. As pessoas tinham um sotaque diferente e eu falava um portoalegrês cheio de dis e tis, motivo de gracejos por parte de alguns colegas. A aparência física e as roupas contavam muitíssimo e as pessoas eram acostumadas a reparar muito a vestimenta umas das outras. 


O provincianismo é uma característica de lugares do interior. Os romances brasileiros clássicos do século XIX e XX são pródigos em detalhar a sociedade com características conservadoras, religiosas, mentes estreitas e repressivas. Havia um certo modo de vida decadente no sentido dos valores e das posses, mas sem nunca perder a elegância, lembrando a música de Lobão, principalmente nas povoações de origem portuguesa. Ali não era diferente, embora dentro de minha casa e na família em geral, a religião e a repressão não estavam supervalorizadas e meus pais tinham cabeças um pouco mais abertas. Foi por isso que passei a sentir que minha vida, de uma maneira geral, tinha retrocedido depois de deixar o lugar onde cresci.


Havia dois clubes na cidade e aos domingos faziam serões dançantes à tardinha, onde entrávamos em grupo, dávamos uma volta e logo perdíamos o interesse, pois era um lugar onde se encontravam somente jovens mais velhos que nós. Os eventos noturnos ainda não eram permitidos a menores de 15 anos, ou melhor, as meninas que ainda não tinham tido seu baile de debutantes ainda não frequentavam a noite. Esses bailes costumavam acontecer uma vez ao ano e tinham forte adesão, quase que como uma obrigação das famílias. Menos da minha que não tinha condições financeiras e tampouco muito entusiasmo por essas veleidades. 


Eu gostava de encontrar com as amigas na praça central, andando de um lado para outro ou sentadas em algum banco com nosso melhor sapato ou roupa. Naquela época começavam a aparecer as calças jeans e ganhei uma Lee importada da Argentina quando tinha 14 anos. Com minha mãe sendo costureira, lembro que ganhávamos roupas novas de vez em quando e ela gostava de copiar modelos e as novidades das revistas. Depois ela passou a vender cosméticos de uma empresa conhecida mundialmente de venda porta em porta. Tínhamos sempre em casa muito batom, sombra, cremes, esmaltes, perfumes etc. Durante um tempo eu usava rímel todos os dias para ir à escola, produto que na idade adulta jamais usei. 


No convívio com os colegas, nunca fui pretensiosa, era bastante tímida e não queria me sentir melhor do que ninguém. Porém, eu notava que tinha uma bagagem cultural maior e que algumas vezes procurava esconder para me equiparar e não passar por sabidinha demais. Já bastava meu sotaque atrapalhar um pouco. Estudando em grupo, muitas vezes eu fingia não saber dos temas e não me manifestava muito em sala de aula. Era melhor manter-me no nível da média, pois não gostava de ficar em evidência. Claro que nas provas individuais eu dava toda a minha habilidade e sempre tirava boas notas.


Sempre considerei que se eu tivesse permanecido na capital teria tido mais e melhores oportunidades. As escolas, as universidades, os cinemas, os teatros, os museus, as bibliotecas, inclusive o aeroporto, tudo estaria ali há poucos quilômetros ou metros de distância—embora  o aeroporto ainda não estivesse entre as minhas pretensões. O restante me agradava e muitas vezes me via entrando naqueles prédios antigos das UFRGS quando passava em frente, assim como lamentava não ter estudado no Instituto de Educação, mesmo tendo garantido uma vaga. Claro, isso não vale para todos, pois sei que milhares de pessoas vivem perto de tudo isso e não usufruem pelos mais variados motivos, uns não têm interesse, outros não têm condições e outros simplesmente ignoram esse privilégio. Eu garanto que tiraria o melhor proveito para minha formação pessoal e profissional.


Felizmente a passagem por essa cidade foi curta e logo nos mudamos dali quando comecei o Ensino Médio e partimos para outra realidade. Antes de completar 16 anos e terminada a escola ginasial já estávamos de mudança para outra cidade onde cursaria o Ensino Médio chamado naquela época Curso Científico. Era noutra região não muito distante, mas com características bem distintas, de imigração italiana, ou seja, outros costumes, outras experiências, outras amizades e outras histórias.


sábado, 8 de agosto de 2020

Diversidade Incômoda


Tempos atrás escrevi um texto com o título Sobre Malandros e Indolentes que falava sobre um comentário racista, desumano e perverso de um político brasileiro sobre negros e indígenas. Lá citei o exemplo de vida de minha trisavó, cuja história, mesmo sabendo quase nada, usei para repudiar veementemente a fala do político. Segundo relatos que eu ouvia da família, ela era uma mestiça filha de um negro com uma indígena ou vice-versa. No texto eu dizia que provavelmente ela tinha sido escrava da família onde passou a viver, não se sabe em que circunstâncias, na fazenda de um criador de gado no interior do Rio Grande do Sul com quem, depois dele enviuvar, passou a conviver como sua mulher. 

Joanna Apolinário, minha trisavó por parte de mãe nasceu em junho de 1867 em Corrientes na Argentina. Em leituras posteriores descobri que a abolição da escravatura na Argentina foi promulgada em 1813, mas de fato só passou a vigorar em 1853, o que pode ser descartada a hipótese de ela ter nascido escravizada, mas fica a dúvida ainda quanto a sua mestiçagem. Pessoas da minha família, frequentemente citavam o termo bugra para referir-se a ela, então, pode ser uma evidência que ela tenha essa herança indígena de um dos genitores. Se nos fixarmos em suas feições, realmente pode-se confirmar a informação. 

Quanto ao segundo genitor de Joanna, fica a controvérsia se seria uma pessoa negra ou branca e se fosse branca ela, obviamente não seria escravizada e contraria a tese do meu texto anterior. Há quem diga que o pai era um espanhol. Podemos fazer um exercício de probabilidades. Se ela nasceu na Argentina, seu pai poderia ser um descendente de espanhóis, branco e hispano-hablante que saiu de Corrientes com sua mulher, uma indígena, à procura de trabalho, viajando 700 km até chegar à região central do Rio Grande do Sul. Sim, é possível. O contrário é menos provável, mas não impossível. Um indígena sai de Corrientes, viaja 700 km com sua mulher branca para encontrar trabalho numa fazenda no Rio Grande do Sul. Outra hipótese, um negro argentino livre e sua mulher indígena fogem da segregação racial provocada pelo governo local de Corrientes  e chegam numa fazenda gaúcha em busca de trabalho. Ainda, um indígena argentino com sua mulher negra e livres fazem o mesmo. Há também a possibilidade de toda a família ou parte dela ter sido, vamos dizer, cooptada ou ter tido permissão de agregar-se à fazenda em troca de trabalho. Todos sabemos que isso não era nada incomum. A data do deslocamento e a chegada dessa família ao sul do Brasil são fatos desconhecidos. O primeiro acontecimento na biografia de Joanna já no Rio Grande do Sul é o registro de nascimento de seu primeiro filho em 1884, antes disso tudo é uma incógnita. 

O que me chama atenção é que a tese do pai ou de uma mãe branca parece a mais palatável para alguns membros da família. Alguns sutilmente rechaçam a ideia de que a menina Joanna chegou como filha de escravizados na fazenda gaúcha e tentam "branquear" a tez da querida ancestral cujo único retrato é uma pintura que está na parede da antiga casa da família, um lugar lindo, de valor histórico incalculável e digno de preservação. Um dia, contemplando o quadro, constatei que o pintor pode ter se excedido nas tonalidades claras na pintura do rosto de Joanna— na época do retrato uma senhora já madura— talvez para obter a aprovação do seu mecenas, concluí. E isso é só uma reflexão. Ao mesmo tempo, me pergunto qual seria a motivação da família de Joanna ter saído da Argentina e em que condições fez uma viagem tão longa até chegar ao centro do Rio Grande do Sul. São respostas difíceis de obter já que nem tudo foi contado às gerações posteriores talvez, justamente, para não desprestigiar a história da família ou pelo simples fato de que histórias de mulheres comuns tanto brancas, negras, pardas ou indígenas sempre foram irrelevantes, pois já eram seres invisíveis por natureza.

A mim, realmente não importa a cor da pele e a condição social de minha trisavó, o que quero me referir é que devemos levar em conta o contexto histórico, absorver nossa ancestralidade e aceitar que todos nós brasileiros somos parte de uma diversidade genética ímpar no mundo. Aqui estavam os indígenas, depois vieram os colonizadores brancos que tentaram escravizar os nativos. Não conseguindo, arrancaram à força milhões de africanos de sua terra e povoaram e desenvolveram o país utilizando trabalho escravo. O Brasil-Colônia tinha uma população em sua maioria composta por negros escravizados que trabalhavam para uma minoria branca e no século 19 e período imperial, época de nossa trisavó, isso ainda era a realidade. Então é importante afirmar e termos orgulho dessa mescla que somos e que é inútil insistir numa branquitude que não existe. Assista um vídeo emocionante no final desse texto: "DNA, quem você realmente é?" que é a síntese da mensagem que gostaria de passar aqui.

Aproveito para contar algumas pequenas curiosidades que encontrei numa breve pesquisa :

1. Manuel Veríssimo Simões Pires  nascido em outubro de 1835 em São Sepé  e falecido aos 72 anos em julho de 1907, teve 3 esposas e 28 filhos:
  • A primeira esposa chamava Célia Galvão da Costa  sem mais informações.
  •  A segunda esposa chamava Maria do Carmo Ferreira de Castronasceu em Rio Pardo em 1839, teve 15 filhos e faleceu aos 42 anos, um dia depois do nascimento de seu último filho em 1882. Seu primeiro filho nasceu em 1860 e chamava Francisco. Ao longo de 22 anos teve seus 15 filhos, inclusive o último nascido em 1882 também chamava Francisco.
  •  A terceira esposa, Joanna Apolinário nasceu em junho de 1867 em Corrientes, Argentina e faleceu 1947 aos 80 anos em Formigueiro-RS. Era 32 anos mais jovem que seu marido.

2. Manuel Veríssimo tinha 7 filhos da primeira família que eram mais  velhos do que Joanna. Francisco, o primogênito era 7 anos mais velho que ela. Antonio Augusto Simões Pires, sétimo filho de Veríssimo nasceu no mesmo ano de Joanna. Esta teve 13 filhos com Veríssimo, entre eles está minha bisavó Catarina nascida em 1888. O primeiro filho de Joanna chamava Lázaro e nasceu em 1884, quando ela estava com apenas 17 anos incompletos.

3. A filiação de Joanna também é controversa. Há um registro de que foram Gabriel Gomes Neto e Perpetua Neto segundo o website myheritage, sem outras informações. Já o Geneanet cita Manuel José e Maria Apolinário. O Ancestors Family Search cita Manoel José Apolinario e Maximiana Apolinario.6  Não há como afirmar a veracidade desses nomes, são dados que estão abertos na rede de computadores e quem trabalha com genealogia pode conseguir informações mais detalhadas mediante pagamento de arquivos. Só deixo aqui as fontes para quem quiser comprovar e seguir com as pesquisas. 

4. Pesquisando sobre afrodescendentes na Argentina encontrei uma reportagem de 2017 do periódico El Pais intitulada "Onde estão os negros na Argentina", cita a festa de San Baltasar, o rei mago negro, única festa criada e conservada por afrodescendentes no país, casualmente na província de Corrientes. Essa fala de um entrevistado resume muito o sentimento de negação  que me refiro acima : 

"Corrientes embranqueceu e se você pergunta por quê, acha que todo mundo se orgulha quando descende de alemães e franceses, mas ninguém quer dizer que vem dos escravos negros, porque isso não dá status. É por isso que a negritude é muito escondida”, diz um entrevistado." 




















Insônia