Contos, crônicas, viagens, sentimentos, escrita criativa para inventar e curar a vida.
sábado, 29 de agosto de 2020
Me chamo Ler, Leer, Lire, Leggere, Read
O baixo Brasil das bruxas soltas
O arquétipo da bruxa está presente nos contos infanto-juvenis como a imagem da maldade, da inveja, da antiestética, da ambição. Expressam-se como seres dotados de alguma sabedoria, mas que o senso comum deixa claro que é uma sabedoria invariavelmente usada para o mal. Um dos exemplos que quebram esse paradigma da malignidade das bruxas é o filme Malévola, produzido pelos estúdios Walt Disney.
Pois nós, brasileiros advertidos ou inadvertidos estamos assistindo um período mais do que sinistro e ruim da nossa história. Está instalada uma verdadeira convenção de bruxos e bruxas saídos do mais funesto túnel do retrocesso e do obscurantismo social e político jamais visto desde o século XX.
Há uma mistura inaceitável de religião com política num Estado laico legitimado pela Constituição Federal, o que já mostra o fosso que o país se encontra, tentando se assemelhar às teocracias medievais. A hipocrisia religiosa está manifesta, quando doidos e mal-intencionados vão para frente de um hospital vociferar contra o aborto legal de uma criança, criminalizando o sexo feminino e a infância e ignorando o crime hediondo do indivíduo do sexo masculino.
O parlamento brasileiro está cheio de figuras bizarras e ignorantes de seu verdadeiro papel. Muitos se lançam na carreira política usando a enganação, a religião e a boa-fé dos eleitores. Ali já tentaram emplacar leis absurdas quanto aos costumes, se imiscuindo na sexualidade das pessoas, já tentaram censurar livros, obras de arte e fazer revisionismos em conteúdos escolares. A hipocrisia é escancarada, quando alguns desses parlamentares muito religiosos são acusados de ardilosos crimes contra a vida, e buscam a imunidade de seus cargos para escapar da prisão como temos acompanhado nos noticiários dos últimos dias.
Alguns juízes e procuradores de justiça se elevam a uma casta de ungidos e soberanos, enquanto tomam atitudes notoriamente punitivistas contra supostos inimigos da pátria, numa inquisição moderna que arrancaria palmas da Santa Inquisição. Ao mesmo tempo que se protegem de investigações e punições de suas próprias arbitrariedades, assim se tornam pródigos em combater a corrupção sendo corruptos.
Tempos atrás parte da classe médica promoveu uma campanha de ódio e xenofobia contra seus colegas cubanos, quando estes chegavam ao Brasil para ocupar postos de trabalho que vinham sendo rejeitados pelos mesmos profissionais brasileiros. Atitudes como essa, além de incivilizadas, mostravam o quanto esses médicos estavam alheios às necessidades da população, principalmente das zonas periféricas das cidades e dos sertões do país. Tempos depois, ainda mais estupidificados, desprezando a própria ciência que os formou e as diretrizes internacionais, se submetem, calados e aplaudem o governante leigo que propagandeia medicamentos sem comprovação científica. Irresponsavelmente, tanto os médicos como os governantes estimulam a automedicação no momento mais sensível da pandemia por coronavírus.
Governantes tentam calar seus oponentes e desrespeitar a liberdade de expressão criando supostas listas de pessoas monitoradas pela inteligência e segurança nacional num claro procedimento digno de ditaduras. Ao mesmo tempo insultam jornalistas, porque não têm respostas para perguntas embaraçosas e pertinentes.
A população pobre e negra das periferias é morta pelo Estado como nos tempos da escravidão, quando estas vidas só importavam para arrancar-lhes o trabalho forçado e a dignidade.
A percepção da pandemia por parte da população segue a visão negacionista do governo, responsável pela inexistência de políticas públicas para a efetiva conscientização do problema e o país segue em número crescente de mortes e afetados, num ponto que já se banaliza a doença e a vida segue como se nada...
Por último e não menos grave é que parte da população e de alguns aproveitadores têm muita dificuldade de entender a diferença entre liberdade de expressão e produção de mentiras. Por isso as redes sociais seguem lotadas de fake news manipulando crédulos, aumentado a desinformação e corroendo a democracia.
Isso é só uma parte do Brasil das sombras. Os absurdos são muitos. Até quando os enfeitiçados pelo ódio seguirão seu projeto de escuridão?
Nós, homens e mulheres descendentes das bruxas genuínas seguiremos aqui sua luta.
* * *
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Consumo responsável e novas atitudes
Quando saímos à rua e mesmo em frente ao computador encontramos facilmente todo tipo de comida, roupa, telefones celulares, computadores, sapatos, eletrodomésticos, carros, móveis etc. A publicidade nos assalta de maneira subliminar ou diretamente de muitas maneiras e acabamos comprando de tudo e muitas vezes por puro impulso. Me pergunto quanto necessitamos realmente de tudo o que compramos? Levamos em conta o volume de coisas que vão acabar sendo um dia descartadas num meio-ambiente já tão colapsado? Levamos em conta os benefícios ou malefícios que estamos causando à nossa saúde? Levamos em conta nossa capacidade financeira ou abusamos das compras no cartão de crédito? Que sentido, efetivamente temos dado à vida? A qualidade de vida está realmente associada ao nível de consumo?
Podemos exercitar um olhar crítico quando entramos num supermercado para comprar comida e fazer a seguinte pergunta: Onde está a “comida de verdade”? O que temos aqui que não seja muito processado, embalado, rotulado ou cheio de corantes, aromatizantes e edulcorantes?
Vemos grandes quantidade de alimentos processados empilhados nas prateleiras. Vemos também alimentos naturais, mas sendo vendidos picados, fracionados, embalados, congelados ou conservados segundo consta, com a finalidade de auxiliar pessoas com pouco tempo para cozinhar. Porém, nas pequenas fruteiras do bairro e mesmo na sessão de hortifrutigranjeiros do supermercado podem ser encontrados os mesmos alimentos com a vantagem de estarem frescos, recém-chegados dos produtores. Ao optarmos por esses últimos adquirimos produtos de temporada e muito provavelmente de pequenos produtores locais, impulsionando a economia de nossa região, com a vantagem de contribuirmos com a sustentabilidade ambiental evitando o acúmulo de papel, plástico e outros tipos de embalagens que levamos para casa todos os dias.
Certo é que vivendo numa economia de mercado, a indústria se permite produzir e vender qualquer coisa desde que atenda aos requisitos, regulamentos e a vigilância dos órgãos governamentais, mas se compramos comida mais “verdadeira” sem muito processo industrial e refinos como grãos, sementes, frutos secos, especiarias frescas, frutas, verduras, legumes, pescados, aves e carnes frescas gastamos menos e levaremos para casa comida mais saudável e barata. O único inconveniente é que precisamos ir mais vezes às compras, mas o resultado compensa.
O costume de consumir comida rápida e usar aplicativos de tele-entrega são realmente bastante tentadores pela variedade e pela facilidade. Bastam alguns cliques no celular e logo estão na nossa mesa. Mas é conveniente não abusar, pois geralmente esse tipo de alimento é farto em gorduras e condimentos podendo desencadear problemas circulatórios e cardíacos, além de obesidade se consumidos em excesso.
Quando compramos roupa, sapatos e acessórios podemos fazer pergunta semelhante— que tipo e quantas peças necessito para esta temporada? Nossos armários, cheios de roupa da moda e tendências que mudam a cada estação seguramente já não suportam tanto volume mesmo que tenhamos por hábito inventariar periodicamente, fazer doações ou vender para brechós o que também é uma boa prática. Além disso devemos levar em conta informações sobre quais redes de lojas são coniventes com a exploração de mão de obra e precariedade laboral em regiões mais pobres do planeta. A indústria da moda já foi alvo de muitas denúncias.
Enfim, creio que nosso padrão de consumo muitas vezes não está baseado numa necessidade absoluta e sim numa compulsão por marcas, embalagens, frascos, cores, estilos, imagens que nos invadem quando andamos num centro comercial, assistindo televisão ou pela publicidade da internet. Nossa necessidade de consumo está muito voltada para satisfazer uma sociedade de aparências que valoriza em demasia os bens materiais e nossa capacidade de ostentar e acumular coisas, reciclando e reaproveitando pouco.
Aqui não quero fazer apologia à sovinice ou à austeridade. Não precisamos deixar de comprar nosso café daquela marca suíça de toda a vida, os biscoitos das crianças, aquele sorvete delicioso, ter aquele celular bonito cheio de aplicativos, aquele perfume maravilhoso ou abrir mão da tecnologia e do conforto. Sei que é possível desfrutar da vida sem excessos, sem ostentações vazias, gastando menos e poupando mais.
Preciso deixar claro aqui também que reflito segundo a perspectiva do comportamento de classe média. As realidades sociais e econômicas no Brasil
são extremamente diversas e desiguais, não posso cometer a injustiça e a
desfaçatez de generalizar e incluir numa mesma situação pessoas que mal têm
para seu sustento e pedir a mesma racionalidade.
Os tempos andam estranhos, a pandemia tem gerado muita incerteza, perdas de vidas e desemprego. A insegurança econômica e sanitária tem tomado conta das nossas vidas. Os recursos naturais e materiais estão cada vez mais limitados. Já é tempo da sociedade e governantes começarem a preocupar-se mais além de produzir e consumir, também com minimizar a extrema desigualdade social que este modelo de capitalismo não resolveu e tampouco empenha-se em dar uma solução. Afinal que tipo de sociedade queremos? Sustentabilidade, igualdade, inclusão, responsabilidade e consciência social me parecem bons termos para começar.
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
Antes de odiar alguém, pensa em quem te disse para odiá-lo.
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| Imagem de Alex Yomare por Pixabay |
Tradução livre do vídeo de Marina Lobo em Spanish Revolution
Se há que reconhecer algo em nossos políticos hoje em dia é o bem que fazem uso do ódio. Mas por que triunfa este tipo de discurso? Existem dois elementos que influem hoje em dia, a perda de influência de velhos caciques políticos e o auge do populismo.
Numa sociedade quase que em permanente crise, onde a maioria dos contratos de trabalho são temporais, as pessoas mudam de emprego a toda hora e as fake news correm soltas, há um sentimento que nos ronda constantemente, a incerteza.
Quando não podes sequer planejar umas férias com teus amigos,
porque não sabes o que será de ti no emprego ou porque terás que poupar teu salário, porque o local em que trabalhas, afinal fechará no final do verão,
facilita-se aos mal-intencionados. E detrás de todo bom mal-intencionado
está...Steve Bannon.
A ele devemos, por exemplo que um senhor como Donald Trump tenha
chegado à Casa Branca. Ademais ele também assessorou em alguns momentos figuras
como Bolsonaro e claro, a nosso querido Santi —Santiago Abascal, presidente
de VOX, partido de extrema direita espanhol.
A chave está em colocar a culpa de todos os nossos males a
alguém que não esteja entre os mais poderosos, claro, e que não tenha
influência suficiente para desafiá-los, ou seja, as minorias.
São capazes de fazer com que acredites que se teu chefe não vai pagar tuas férias é por culpa dos imigrantes que colhem morangos por 1
euro a hora ou se não consegues encontrar uma namorada é por causa do coletiva
LGBTI.
Maquiavel afirmava que tanto o ódio como o terror são dois
instrumentos a serviço da política.
Assim, desvia-se o ódio aos outros. E é aqui onde está o cerne da questão.. Tradicionalmente dividiam-se os votantes em quatro tipos:
- Habitantes da cidade x do campo
- Religiosos x Laicos
- Empresários x empregados
- Centralizadores políticos x defensores dos periféricos
Logo veio a divisão entre esquerda e direita e em nossos
tempos entram em jogo mais fatores como o feminismo, os direitos LGBTI, a
ecologia e está cada vez mais complicado analisar onde estão os eleitores e
convencer-lhes que votem em X partido. Para isso existe o populismo. Populismo
se define como uma aversão às elites econômicas e intelectuais, constante denúncia à corrupção política e intenso apelo popular. Apesar da extrema
direita com seus pomposos sobrenomes, usar esses mesmos discursos, o
mais perto que chegaram de um trabalhador em sua vida foi no dia em que fizeram
uma reforma na casa.
Se trata de agrupar pessoas com realidades e reivindicações
diversas para gerar ódio contra o que
eles chamam O Sistema. Quando é precisamente o mesmo sistema que sufoca a população e que eles mesmos defendem como o poder dos ricos que evadem divisas e sonegam impostos.
Para eles é fácil substituir a palavra sistema por outras como buenismo, Lobby LGTBI ou a mentira do câmbio climático. Pelo que se vê,
pouco lhes falta para defender o terraplanismo.
Por exemplo, no Reino Unido os defensores do Brexit
manejaram como argumento principal para sair da União Europeia, o controle da
imigração, assegurando a falsa ideia tão disseminada de que eram os imigrantes que lhes
tiravam os empregos.
Aqui Vox tem utilizado em várias ocasiões aos menores
imigrantes que chegam desacompanhados como arma em potencial, criminalizando meninos e
meninas, uma minoria especialmente vulnerável.
Ato xenófobo
de Vox a um centro de menores estrangeiros: “Os espanhóis têm direito a
caminhar com tranquilidade sem ser atacado por uma manada de “Menas”.( menores
estrangeiros, não acompanhados)
Provavelmente muitos já ouviram falar que 69% das agressões
sexuais cometidas em Manada, agressões sexuais cometidas na Festa de San
Fermín em Pamplona, eram cometidas por estrangeiros. Esse dado, certamente é
falso, mas tem um claro objetivo, desviar a atenção do debate feminista
originado pelas violações de La Manada que não eram
precisamente menas e sim violadores espanhóis e por certo, alguns membros de Vox.
As pessoas creem nesses dados, porque precisam de respostas, porque são questões bastante emocionais e viscerais e a extrema direita trata de que seja uma batalha do penúltimo contra o último:
"Tu, trabalhador estás desempregado, mas ao menos tens
documentos, não és como uma porcaria de um estrangeiro que vem aqui tentar roubar
teu trabalho." É o discurso usado.
A esse sem documento, esse Mena, esse subsahariano lhes
aplicam pejorativos diversos que os desumanizam facilitando o sentimento de
ódio.
Uma das últimas polêmicas foi o uso da bandeira do Orgulho
Gay no escudo da Guarda Civil. Levam anos fazendo isso, até nos governos do
Partido Popular, mas parece que isso não os incomodava até então. Agora sim, incomoda.
O próprio Steve Banon
afirmava em uma entrevista: “Transformamos os republicanos num partido de
trabalhadores”. Assegura, junto a Trump, um dos homens mais ricos e poderosos
do mundo, já antes de ser presidente, defender os trabalhadores. No entanto, há
dois anos o presidente aprovou um projeto de lei de 1,5 bilhões de dólares para
reduzir os impostos das empresas e dos ricos entre os que figuram ele mesmo e
seu gabinete.
Aqui Vox rechaçou aprovar impostos e aumentar as bolsas de
estudo, votou contra a proibição de dispensas por doença e tem sido um dos
maiores opositores do Projeto de Renda Básica Universal, enquanto milhares de
seus votantes acabam sendo beneficiários de todos esses auxílios.
Espanhóis contra imigrantes, heteros contra o lobby gay,
cidadãos de bem contra progressistas.
Se usa o ódio para enfrentar-se entre si os de baixo, enquanto os de cima riem e brindam a nossa saúde.
Antes de odiar alguém, pensa em quem te disse para odiá-lo.
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
Exercício da Fotografia
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| Foto: Arquivo Pessoal |
Já estava morando na Espanha há um ano, quando
conheci Ribadeo na Província de Lugo, à noroeste da Península, limite entre
Galícia e Astúrias. A cidade é famosa por estar nas proximidades da Praia das Catedrais no Mar Cantábrico, uma paisagem incomum feita de altos arcos de rochas e formações de cavernas em uma praia que só se pode entrar com a maré baixa e depois de pedir autorização à prefeitura, pois a entrada está controlada. Meu companheiro tinha sido designado àquela cidade para
ministrar um curso aos colegas da Vigilância Aduaneira e estaríamos ali por todo o dia seguinte.
Chegamos na cidade quando escurecia e já fazia um pouco de frio de outono. O hotel era um prédio simpático de dois pavimentos e o estranho nome de O Cabazo. Os galegos têm o costume de nominar os lugares com um artigo definido na frente: A Corunha, A Estrada, O Grove, A Lanzada, O Xesteiro, etc. Os quartos ficavam no andar de cima separados por um largo corredor e a escadaria era larga e imponente como nos teatros. Jantamos ali por perto do hotel e não saímos mais naquela noite.
Quando eu acordei no dia seguinte, procurei saber como estava o tempo, pois queria aproveitar para explorar a cidade. Levantei
e busquei a abertura da janela por trás do cortinado grosso que cobria toda
uma parede do quarto. Deslizei a cortina e o que encontrei não foi uma persiana
ou uma janela comum. Havia uma porta de vidro que se abria de par em par para
uma pequena sacada. O parapeito parecia uma obra de arte, de ferro fundido negro
com desenhos retorcidos imitando as sacadas de prédios históricos, embora fosse
um prédio de engenharia contemporânea.
O dia era uma mescla de frio e umidade,
pairava uma névoa branca e chovia fininho o que já limitava meus planos de sair de passeio. A vista da janela-porta dava para uma parte interna do
prédio e havia um pátio com canteiros de plantas e caminhos estreitos de terra
misturada com um pedregulho miúdo, daqueles que fazem um barulhinho ao pisar.
Havia dois ou três bancos compridos do mesmo ferro do parapeito da sacada e
creio, com os desenhos parecidos.
Mas a surpresa mais bonita foi a imagem
colorida que tinha diante mim, embora o dia estivesse cinza e branco. A copa
das árvores e pedaços de chão estava cobertos com os mais diversos tons que iam
do rosa, vinho, ocre e marrom das folhas que se acumulavam e se transformavam
naquela visão típica do outono do hemisfério norte.
Tirei uma única foto daquele momento naquela manhã, ainda meio sonolenta e guardei na minha memória a visão colorida em contraste com o dia cinzento daquele canto de mundo A foto acabou esquecida nos arquivos de um telefone celular avariado ou em alguma página antiga da rede social.
Um dia, descobrindo como reaver postagens anteriores, resgatei a foto daquela manhã em Ribadeo e comprovei que a mente é prodigiosa para a criação. A visão do dia cinzento contrastando com o colorido da paisagem do pátio interno do hotel era mesmo real, mas os outros detalhes eram só fruto de minha imaginação, por ter idealizado a lembrança daquele momento.
O pátio era em realidade um estacionamento pavimentado com as linhas brancas delimitando o lugar dos carros, postes de iluminação, pequenos arbustos ao fundo como uma cerca viva e não havia caminhos com pedregulhos, nem bancos de ferro, só uns poucos canteiros de plantas, sem a profusão de cores outonais como já havia visto em outros lugares. Os bonitos detalhes daquela vista da janela que mantinha como reais eram apenas detalhes plasmados de outras memórias de outros lugares. Minhas recordações foram super dimensionadas justamente pela beleza que o lugar já carregava.
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| Arquivo pessoal : Tuny Brum |
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sexta-feira, 14 de agosto de 2020
Anarquia sanitária e o embuste como política
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| Imagem : Pixabay |
Como farmacêutica de formação e atuando muitos anos em Saúde Pública e mais tarde na Gestão da Assistência Farmacêutica do Sistema Único, relutei em falar sobre isso. No entanto, precisava exteriorizar uma indignação, aliás, minha velha conhecida, quanto à forma como governos federais, gestores estaduais e municipais, parte da sociedade e também da imprensa em sua maioria leigos, tratam os medicamentos como produtos quaisquer, que poderiam, numa visão puramente mercadológica, estar à disposição nas prateleiras dos supermercados, em lojas de departamentos, vendidos pela internet, em feiras de rua ou nas mãos de vendedores ambulantes.
É quase um mantra profissional informar que um medicamento jamais é desprovido de risco. Antes de ser usada para curar, toda substância é uma droga e dependendo da dose ou da forma de apresentação pode provocar desde pequenos desconfortos ao organismo, como graves prejuízos à saúde e também levar à morte. Uma planta, um alimento, uma bebida quando irresponsavelmente consumidos também não são isentos de riscos. Todo medicamento antes de ser lançado do mercado passa por inúmeros testes químicos e clínicos, demanda dedicação e tempo de muitos profissionais e muito dinheiro para as pesquisas. Ou seja, não é algo que acontece da noite para o dia e tem uma carga imensa de conhecimento científico acumulado. Conhecimento esse que tem sido sistematicamente desprezado por conta de charlatanices que vêm sendo disseminadas, aproveitando-se do momento em que a população está mais carente de saúde, de respostas e de soluções para a grande crise mundial da pandemia do coronavírus.
Desde dezembro de 2019, quando apareceu o primeiro caso na China, pesquisadores e profissionais de saúde enfrentam duplo desafio, tentam salvar vidas dentro dos hospitais e ao mesmo tempo correm contra o tempo nos centros de pesquisa, testando substâncias que possam ser efetivas para curar ou prevenir a Covid-19. Até agora falou-se em muitos tratamentos, mas nada ainda foi declarado pela OMS como protocolo efetivo para o manejo clínico dos pacientes mais graves. Imagino quantas pessoas morreram e seguirão morrendo nesse grande experimento científico mundial, fazendo de 2020 um ano que jamais será esquecido.
Lembro de antigas lutas por parte do Conselho Federal de Farmácia para proibir a venda de medicamentos em supermercados na década de 90, das campanhas de promoção pelo uso racional dos medicamentos dos anos 2000, da proibição de propaganda de medicamentos pela televisão, da exigência de receita médica para a compra de antibióticos, pelo cumprimento da lei 5991/73 que exige a presença de profissional farmacêutico em todo período de funcionamento das farmácias. Era uma busca pela excelência, adesão à normas internacionais, pelo respeito ao público, pela promoção e proteção da saúde do cidadão tão evidenciadas na Constituição Federal.
Hidroxicloroquina, ivermectina e dexametasona são medicamentos bastante conhecidos pelas equipes de saúde, têm mecanismos de ação e indicações bem definidos e fazem parte das listas dos medicamentos essenciais do Sistema Único de Saúde. Todo cidadão pode ter acesso a eles gratuitamente mediante prescrição e supervisão médica e farmacêutica. Como todos os medicamentos de consumo nacional, são regulados pela Agência Nacional de Saúde e fiscalizados desde sua importação, fabricação, comercialização e distribuição pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária e seus órgãos estaduais.
Agora, no momento mais crítico e de mais vulnerabilidade sanitária, estando a população exposta ao contágio de um vírus pouco conhecido, surgem desserviços, distorções e aberrações as mais variadas vindo dos mais variados órgãos e pessoas públicos, privados e associações da sociedade civil. Não obstante, para piorar a catástrofe que vive o mundo e o nosso país, atos e cenas aberrantes invadiram o cotidiano brasileiro, quando o chefe da Nação achou por bem ignorar a gravidade da pandemia, rechaçar o sentido do isolamento social e fazer publicidade falsa, acintosa e premeditada de hidroxicloroquina como tratamento para Covid-19. O mais incrível é que parece que há um pacto nacional para que, no desespero de encontrar soluções, mesmo que forjadas, para a crise econômica que veio atrelada à crise sanitária, governos estaduais, municipais, órgãos e corporações alinhadas com o governo federal empenham-se nesse cúmplice desvario inconsequente e irresponsável.
Onde estão os órgãos de defesa do consumidor e da saúde pública?
Onde estão os órgãos de fiscalização do exercício profissional que não apontam o delito de exercício ilegal da profissão, quando pessoas não médicas como o presidente da república, jornalistas e prefeitos promovem o uso indiscriminado de hidroxicloroquina, associações com dexametasona, ivermectina em doses cavalares e outras bizarrices medicinais em aparições públicas, vinculando fortemente sua imagem com a de um medicamento inócuo para evitar as mortes e não livre de riscos à saúde.
Onde estão os Conselhos de Farmácia e Medicina, ao que parece submissos aos abusos governamentais e não emitem pareceres honestos baseados na ciência?
Onde estão os órgãos de fiscalização de publicidade e propaganda, quando planos de saúde enviam para seus médicos conveniados kits para coronavírus sugerindo prescrições como se fossem brindes de final de ano.
Onde estão os fiscais da Vigilância Sanitária, quando aparecem fotos nas redes sociais de ambulantes vendendo na rua e no transporte público caixas de hidroxicloroquina, como se fosse algodão doce? Fato esse tão grave que carece de veracidade.
Onde está o Ministério da Saúde que não promove uma só campanha de informação baseada nas orientações da OMS, esconde as estatísticas e ainda tira aproveito da boa-fé da população que acode às farmácias buscando o remédio do presidente?
Onde estão Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas que não enxergam no mínimo, improbidade administrativa por parte do governo federal e até do Exército Brasileiro que, segundo a imprensa gastou os tubos para fabricar medicamentos inúteis e que agora precisam urgentemente despejar os estoques para desonerar-se da irresponsabilidade e da sua gigantesca incompetência administrativa?
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domingo, 9 de agosto de 2020
Puxando memórias II - Decadence avec elegance
Depois do susto com um ônibus desgovernado entrar pátio adentro de nossa casa em Porto Alegre, deixando alguns danos materiais e certamente, insegurança e medo, mudamos definitivamente de casa, de cidade e de vida. Não sou capaz de avaliar o abalo emocional provocado em meus pais pelo acidente, pois era uma criança, mas sem sombra de dúvida foi o fator de maior peso nesta decisão.
Naquela época não havia possibilidade de reclamar com os órgãos de defesa do cidadão, porque não havia órgãos de defesa do cidadão, porque também não havia cidadania, tampouco democracia. A busca pelo direito à segurança para as ruas de um bairro evidentemente era inviável, se não fosse, seria caro. Não havia como demandar a empresa de transportes pela imperícia e irresponsabilidade do motorista ou pela negligência do mecânico que não supervisionou os freios do veículo. Não havia maneira de mobilizar a vizinhança para solicitar a colocação de um simples semáforo no cruzamento e evitar futuros acidentes. Nossa casa era de esquina.
Naquele 1969, vigorava o AI-5 e o povo, além de estar amordaçado pelo autoritarismo do regime, não tinha consciência que o Estado para o qual pagava impostos, também lhe devia proteção. Parece que um seguro pagou as despesas com os danos na casa. O motorista envolvido no acidente, passou depois a abrir-nos a porta dianteira do ônibus e não cobrava a passagem. Deve ter pesado na consciência o fato de que, por pouco, não matou duas crianças, mas feriu gravemente uma moça que estava na calçada.
Na metade de 1970 nos mudamos para o interior do Estado onde segui com o curso ginasial. A escola tinha bons professores, instalações dignas e uma certa qualidade de ensino, embora os métodos fossem os mesmos—absorver conteúdos, assimilar regras, sem exercitar visão crítica, nem aprender a pensar. Tudo pedia ordem, moral e civismo como eram os valores educacionais da época. Eu continuei sendo a mesma aluna aplicada e fui tomando contato com outros temas e idiomas estrangeiros— inglês e francês— como já havia na outra escola.
Embora a escola tenha me influenciado positivamente, o mais marcante nessa cidade tinha relação com os costumes. Era um lugar pequeno, talvez não mais do que dez mil habitantes naquela época. Alguns sobrenomes tinham importância e dinheiro, ou só importância porque em alguns casos o dinheiro era só aparente. Era um lugar onde definitivamente as aparências davam o tom das relações. Meu sobrenome era conhecido e talvez tivesse certa importância, mesmo sem dinheiro nenhum. Levada por familiares— eram muitos—fiz algumas amizades e tive um curso ginasial também com boas notas e nunca repeti de ano.
Era o começo da adolescência e tudo se complicou, sobretudo nas relações como é comum nessa fase. Para ganhar aceitação no grupo, aos 13 anos aprendi a fumar nas redondezas da escola, de onde era permitido sair do pátio na hora do recreio. Havia um bar ali perto que vendia cigarros por unidades. Quão fácil era viciar jovens e crianças curiosos na adição ao tabaco naquela época! Só na década de 90, com o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente a venda de cigarros e bebidas a menores ficou proibida. Eu não lembro de ter dinheiro para isso, alguém comprava e fumávamos um único cigarro entre 3 ou 4 meninas. Depois de umas tragadas sem jeito, voltava meio enjoada para a sala de aula e certamente cheirando mal, mas os professores nunca reclamaram e não me viciei imediatamente só com aquelas aventuras daquelas tardes. Passei a fumar alguns anos depois, a partir dos 20, já na Universidade de maneira moderada e deixei definitivamente esse vício horrível aos 32.
Nesta pequena cidade, morávamos numa rua que não tinha pavimentação, era de terra batida, fazia barro quando chovia e aquilo me parecia esquisito. Eu tinha medo de galinhas, vacas e de cavalos que passaram a ser animais comuns no meu entorno. As pessoas tinham um sotaque diferente e eu falava um portoalegrês cheio de dis e tis, motivo de gracejos por parte de alguns colegas. A aparência física e as roupas contavam muitíssimo e as pessoas eram acostumadas a reparar muito a vestimenta umas das outras.
O provincianismo é uma característica de lugares do interior. Os romances brasileiros clássicos do século XIX e XX são pródigos em detalhar a sociedade com características conservadoras, religiosas, mentes estreitas e repressivas. Havia um certo modo de vida decadente no sentido dos valores e das posses, mas sem nunca perder a elegância, lembrando a música de Lobão, principalmente nas povoações de origem portuguesa. Ali não era diferente, embora dentro de minha casa e na família em geral, a religião e a repressão não estavam supervalorizadas e meus pais tinham cabeças um pouco mais abertas. Foi por isso que passei a sentir que minha vida, de uma maneira geral, tinha retrocedido depois de deixar o lugar onde cresci.
Havia dois clubes na cidade e aos domingos faziam serões dançantes à tardinha, onde entrávamos em grupo, dávamos uma volta e logo perdíamos o interesse, pois era um lugar onde se encontravam somente jovens mais velhos que nós. Os eventos noturnos ainda não eram permitidos a menores de 15 anos, ou melhor, as meninas que ainda não tinham tido seu baile de debutantes ainda não frequentavam a noite. Esses bailes costumavam acontecer uma vez ao ano e tinham forte adesão, quase que como uma obrigação das famílias. Menos da minha que não tinha condições financeiras e tampouco muito entusiasmo por essas veleidades.
Eu gostava de encontrar com as amigas na praça central, andando de um lado para outro ou sentadas em algum banco com nosso melhor sapato ou roupa. Naquela época começavam a aparecer as calças jeans e ganhei uma Lee importada da Argentina quando tinha 14 anos. Com minha mãe sendo costureira, lembro que ganhávamos roupas novas de vez em quando e ela gostava de copiar modelos e as novidades das revistas. Depois ela passou a vender cosméticos de uma empresa conhecida mundialmente de venda porta em porta. Tínhamos sempre em casa muito batom, sombra, cremes, esmaltes, perfumes etc. Durante um tempo eu usava rímel todos os dias para ir à escola, produto que na idade adulta jamais usei.
No convívio com os colegas, nunca fui pretensiosa, era bastante tímida e não queria me sentir melhor do que ninguém. Porém, eu notava que tinha uma bagagem cultural maior e que algumas vezes procurava esconder para me equiparar e não passar por sabidinha demais. Já bastava meu sotaque atrapalhar um pouco. Estudando em grupo, muitas vezes eu fingia não saber dos temas e não me manifestava muito em sala de aula. Era melhor manter-me no nível da média, pois não gostava de ficar em evidência. Claro que nas provas individuais eu dava toda a minha habilidade e sempre tirava boas notas.
Sempre considerei que se eu tivesse permanecido na capital teria tido mais e melhores oportunidades. As escolas, as universidades, os cinemas, os teatros, os museus, as bibliotecas, inclusive o aeroporto, tudo estaria ali há poucos quilômetros ou metros de distância—embora o aeroporto ainda não estivesse entre as minhas pretensões. O restante me agradava e muitas vezes me via entrando naqueles prédios antigos das UFRGS quando passava em frente, assim como lamentava não ter estudado no Instituto de Educação, mesmo tendo garantido uma vaga. Claro, isso não vale para todos, pois sei que milhares de pessoas vivem perto de tudo isso e não usufruem pelos mais variados motivos, uns não têm interesse, outros não têm condições e outros simplesmente ignoram esse privilégio. Eu garanto que tiraria o melhor proveito para minha formação pessoal e profissional.
Felizmente a passagem por essa cidade foi curta e logo nos mudamos dali quando comecei o Ensino Médio e partimos para outra realidade. Antes de completar 16 anos e terminada a escola ginasial já estávamos de mudança para outra cidade onde cursaria o Ensino Médio chamado naquela época Curso Científico. Era noutra região não muito distante, mas com características bem distintas, de imigração italiana, ou seja, outros costumes, outras experiências, outras amizades e outras histórias.
sábado, 8 de agosto de 2020
Diversidade Incômoda
Tempos atrás escrevi um texto com o título Sobre Malandros e Indolentes que falava sobre um comentário racista, desumano e perverso de um político brasileiro sobre negros e indígenas. Lá citei o exemplo de vida de minha trisavó, cuja história, mesmo sabendo quase nada, usei para repudiar veementemente a fala do político. Segundo relatos que eu ouvia da família, ela era uma mestiça filha de um negro com uma indígena ou vice-versa. No texto eu dizia que provavelmente ela tinha sido escrava da família onde passou a viver, não se sabe em que circunstâncias, na fazenda de um criador de gado no interior do Rio Grande do Sul com quem, depois dele enviuvar, passou a conviver como sua mulher.
Joanna Apolinário, minha trisavó por parte de mãe nasceu em junho de 1867 em Corrientes na Argentina. Em leituras posteriores descobri que a abolição da escravatura na Argentina foi promulgada em 1813, mas de fato só passou a vigorar em 1853, o que pode ser descartada a hipótese de ela ter nascido escravizada, mas fica a dúvida ainda quanto a sua mestiçagem. Pessoas da minha família, frequentemente citavam o termo bugra para referir-se a ela, então, pode ser uma evidência que ela tenha essa herança indígena de um dos genitores. Se nos fixarmos em suas feições, realmente pode-se confirmar a informação.
- A primeira esposa chamava Célia Galvão da Costa sem mais informações.
- A segunda esposa chamava Maria do Carmo Ferreira de Castro, nasceu em Rio Pardo em 1839, teve 15 filhos e faleceu aos 42 anos, um dia depois do nascimento de seu último filho em 1882. Seu primeiro filho nasceu em 1860 e chamava Francisco. Ao longo de 22 anos teve seus 15 filhos, inclusive o último nascido em 1882 também chamava Francisco.
- A terceira esposa, Joanna Apolinário nasceu em junho de 1867 em Corrientes, Argentina e faleceu 1947 aos 80 anos em Formigueiro-RS. Era 32 anos mais jovem que seu marido.
2. Manuel Veríssimo tinha 7 filhos da primeira família que eram mais velhos do que Joanna. Francisco, o primogênito era 7 anos mais velho que ela. Antonio Augusto Simões Pires, sétimo filho de Veríssimo nasceu no mesmo ano de Joanna. Esta teve 13 filhos com Veríssimo, entre eles está minha bisavó Catarina nascida em 1888. O primeiro filho de Joanna chamava Lázaro e nasceu em 1884, quando ela estava com apenas 17 anos incompletos.
3. A filiação de Joanna também é controversa. Há um registro de que foram Gabriel Gomes Neto e Perpetua Neto segundo o website myheritage, sem outras informações. Já o Geneanet cita Manuel José e Maria Apolinário. O Ancestors Family Search cita Manoel José Apolinario e Maximiana Apolinario.6 Não há como afirmar a veracidade desses nomes, são dados que estão abertos na rede de computadores e quem trabalha com genealogia pode conseguir informações mais detalhadas mediante pagamento de arquivos. Só deixo aqui as fontes para quem quiser comprovar e seguir com as pesquisas.
4. Pesquisando sobre afrodescendentes na Argentina encontrei uma reportagem de 2017 do periódico El Pais intitulada "Onde estão os negros na Argentina", cita a festa de San Baltasar, o rei mago negro, única festa criada e conservada por afrodescendentes no país, casualmente na província de Corrientes. Essa fala de um entrevistado resume muito o sentimento de negação que me refiro acima :
"Corrientes embranqueceu e se você pergunta por quê, acha que todo mundo se orgulha quando descende de alemães e franceses, mas ninguém quer dizer que vem dos escravos negros, porque isso não dá status. É por isso que a negritude é muito escondida”, diz um entrevistado."
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