quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Venturas em Nova Iorque


Meu marido J. tinha 17 anos em 1974, quando começou a navegar em barcos pesqueiros espanhóis como ajudante de cozinha. Pela sua juventude, iniciou no mais baixo grau da hierarquia de um barco, el marmitón. Sua função era lavar e secar pratos, talheres, panelas, recolher a louça das refeições, descascar e cortar alimentos para o cozimento e limpar toda a cozinha e o refeitório. Fazia turnos das sete da manhã às quarto da tarde e depois das seis às dez da noite ajudando o cozinheiro-chefe na atividade de fornecer as três refeições diárias para uma tripulação de uns 30 homens. Havia uma máquina lava-louças e uma descascadora de batatas, mas de tão antigas danificavam a todo momento e o jovem marinheiro calculava que lavava mais ou menos umas 250 peças de louça a cada dia.

Assim começou sua aventura num grande pesqueiro industrial chamado Arosa Noveno, onde um amigo de seu irmão era o capitão. Seu primeiro destino foi para os pesqueiros da costa africana na pesca de merluza, depois a empresa obteve licença para a pesca de lulas—calamares— na costa americana na altura de Nova Iorque para a mesma viagem que duraria alguns meses.

À medida que seu corpo, mesmo jovem, sentia a dureza daquele trabalho, ele viu-se aos poucos fascinado pela atividade desenvolvida pelos marinheiros e pela paisagem de alto-mar do Oceano Atlântico, coisa que desfrutava muito nas horas vagas. Estava acostumado a embarcar com seu pai somente para os labores de pesca artesanal na costa espanhola em pequenos barcos desde os 13 anos. Quando soube que chegariam próximo da grande metrópole americana, sentiu um enlevo, um valor pessoal em poder desfrutar ao menos da vista da cidade desde o barco. 

Porém, durante o trajeto, já perto da zona de pesca americana, a embarcação foi tocada por uma forte tempestade de vento e as ondas atingiram até cinco metros de altura, rompendo os vidros da ponte de comando e, mais gravemente, lançando dois marinheiros ao mar que nunca foram encontrados malgrado os esforços de toda a tripulação. Com o acidente, o capitão ordenou que o barco rumasse para o porto de Nova Iorque para reparar as avarias, onde atracaria por tempo indeterminado. Enquanto não atracavam, a pesca de calamares continuava abundante. Inclusive lagostas gigantes também eram capturadas nos aparelhos, espécimes que J. nunca havia visto tão grandes—suas patas dianteiras tinham a medida de sua mão. No entanto tinham que devolver ao mar, pois só os barcos americanos tinham licença para a captura e os espanhóis, na verdade, ainda não davam muito valor a este grande crustáceo.

Com a notícia da atracagem no porto nova-iorquino, o jovem J. alegrou-se pois poderia desembarcar e visitar seus tios e primos que viviam nos Estados Unidos—no bairro do Bronx— havia já uns quatro anos. Tinha o endereço e telefone anotados numa cadernetinha que levava na sua mochila de viagem. Nem bem chegados ao ancoradouro já se vislumbrava a impressionante ponte Verrazano-Narrows, uma das maiores do país e a Estátua da Liberdade, o grande símbolo americano. O barco atracou em frente à Ilha de Manhattan, no bairro do Brooklin, na época um bairro muito pobre e sujo, como se vê nos filmes, com fogueiras, colchões e lixo espalhados pelas ruas. Desde o cais do porto também se avistava as Torres Gêmeas. Depois que a embarcação foi inspecionada pelos agentes de imigração, a tripulação estava livre para desembarcar. 

A busca pela família gerou um fato insólito e divertido para J. Era pelas 11 da manhã do dia seguinte à chegada, quando ele baixou à terra em busca de um telefone público ao longo do cais do porto. Logo encontrou um e discou os números que tinha apontado na caderneta. O telefone não dava aquele sinal padrão de chamada e provocava somente um ruído estranho. Comprovou se discava os números certos e nada aconteceu. Desistiu naquele momento, pois não podia afastar-se por muito tempo dos afazeres daquela hora.

Pelas cinco da tarde desceu aos cais novamente e deparou-se com um carro conversível azul com a capota abaixada bem perto da cabine telefônica. Um casal dentro do carro observava os barcos no porto. A mulher ocupava o volante, usava uma echarpe colorida, os cabelos castanhos voavam no vento, usava óculos escuros e fumava. Parecia uma imagem dos anos 20, pensou J. Ao aproximar-se do elegante veículo reconheceu uma conversação em espanhol com sotaque latino entre o casal, o que o encorajou a dirigir-se ao homem para pedir alguma informação já que não entendia nada de inglês. Um pouco envergonhado explicou que queria comunicar-se com seus tios e travou-se o seguinte diálogo:

—Boa tarde, notei que vocês falam a minha língua, poderiam ajudar-me? 
—Sim, claro.—disse o homem.
Tenho este número de telefone de minha família aqui de Nova Iorque, mas não consigo completar a chamada, não sei se falta algum número ou algum código local. Eles moram no Bronx. — O homem olhou para a anotação dizendo que parecia estar tudo correto e completou:
— Acompanho você até a cabine telefônica e lhe ajudo. Vi quando desceu daquele barco. De onde você é?—perguntou saltando do carro e foram andando.
—Sou espanhol.
—Espanhol de onde?
—Sou galego, de Galícia.
O homem insistiu: 
—E de que parte de Galícia?
—Sou de Pontevedra. —respondeu, já meio enfadado do homem querer saber tantos pormenores.
—E de que lugar de Pontevedra?
—Eu sou de um pueblo pequeno. Não é muito conhecido.
—Mas qual é o nome?—perguntou, ainda insistindo no mesmo tema.
—Sou de Combarro. —respondeu J.  já bastante desconfiado e contra a vontade.
Afinal, o homem virou-se para seu interlocutor com um grande sorriso e completou:
—Eu logo vi que seu sotaque era muito familiar. Pois eu sou de Bueu.

J. nunca poderia imaginar que dentre os 15 milhões de habitantes daquela cidade naquela época, a primeira pessoa que encontraria naquele enorme porto fosse alguém de seu país e ainda mais de um povoado tão perto do seu. Pura sorte. Assim ele pode contatar com sua família e seu primo veio de imediato encontrá-lo. Por fim, J. desfrutou muito daquela breve estada na cidade com agradáveis passeios e conversações familiares graças ao conterrâneo e aos centavos de dólar que faltavam para completar a ligação.



terça-feira, 27 de setembro de 2022

A Moeda Lusa

 



Luiza saiu cedo naquela manhã para a feira livre de Barcelos, distrito de Braga. O percurso era de pouco mais de 100 quilômetros desde sua cidade galega de Vigo até a região norte de Portugal, limítrofe com a Espanha. Gostava de passear por aquelas pequenas cidades portuguesas. Conhecia muito bem o trajeto, pois havia feito com o marido inúmeras vezes e agora solitária, dirigindo o mesmo Hyundai azul, o passeio ajudava a abrandar a falta que sentia dele.

Uma vez na feira, foi repassando cada tenda, misturando-se à pequena multidão que sempre se acercava àquele lugar tão antigo, quanto encantador. Era início de primavera e já havia muitos turistas, as falas se misturavam em diversos idiomas e sotaques, porém a comunicação era perfeita. Podia-se encontrar de tudo naquele enorme bazar que cobria uma grande alameda central chamada Campo da República. Havia roupas, sapatos, utilidades domésticas, artigos de cama, mesa e banho, artesanato— os icônicos galos portugueses de cerâmica de todos os tamanhos— produtos coloniais, mudas de plantas, hortaliças, frutas e uma parte muito atrativa com objetos e livros antigos. Tinha bons produtos, outros nem tanto como toda feira popular. Pelas inúmeras vezes que tinha estado ali ela até já conhecia de vista algum feirante com quem conversava. Uma senhora da barraca de frutas certa vez comentou, depois de perceber que Luiza falava o português do Brasil:

—Os brasileiros são nossos irmãos. — Disse a senhora. Foi quando Luiza comprovou a amabilidade do povo português, lamentando o desconhecimento e a falta de reciprocidade dos brasileiros. Muitos estudaram pouquíssimo a vasta e rica história em comum entre os dois países, o que os limitava ao trivial costume de difundir as piadas sem graça de português, que estava habituada a ouvir quando ainda morava no Brasil.

Naquele dia, a mesma vendedora reconheceu a freguesa, apesar da máscara, mais pelo sotaque e indagou:

—Me desculpe perguntar, mas que aconteceu com seu marido? Tenho visto a senhora sozinha por aqui nos últimos tempos.

—Faleceu já faz quase um ano.

—Ah, sinto muito! Covid?

—Não, câncer. Obrigada. Vou levar essas peras e um cacho de bananas das Canárias, por favor. — Luiza deu um jeito de pagar para ir-se logo dali, evitando mais perguntas sobre um assunto que ainda doía muito, apesar da amabilidade da senhora. Alcançou-lhe uma nota de 10 euros e ela devolveu-lhe o troco em moedas.

Depois ela esteve algum tempo entretida com as antiguidades. Naquele dia havia um espaço maior dedicado àqueles produtos e muitas peças interessantes estavam dispostas em estantes de madeira tipo caixotes ou mesmo em cima de lonas no chão. Depois de dar voltas, encantou-se por um par de xícaras de chá de uma fina porcelana de cor rosa antigo com detalhes de bordas douradas. O vendedor disse que era porcelana chinesa, mas ela duvidou. O preço pedido não era para tanto. Pensou em ficar com o par, estava íntegro e bem conservado, mas acabou desistindo. Já tinha acumulado um tanto de objetos antigos naquelas suas andanças por Portugal e o objetivo daquele dia era mais pelas frutas e verduras— mais baratas que na Espanha— necessitava de mais um abrigo impermeável e obviamente para desfrutar do dia de passeio.

Naturalmente ela sempre acabava levando mais coisas do que previa e esquecendo de outras. Ao estar de volta em casa, desembrulhou as compras e percebeu que não tinha trazido nada para jantar, nem tinha previsto nada para o café da manhã do dia seguinte. Tinha tido um almoço farto quase às duas da tarde no mesmo restaurante que ia com o marido, no A Muralha na cidade vizinha de Ponte de Lima, onde se comia um bacalhau à brasa de morrer. Também no trajeto de volta tomou o tradicional café com pastel de nata na cafeteria de Valença do Minho—outra parada obrigatória.

Pegou seu porta-níqueis e desceu rapidamente à padaria da esquina antes que fechasse. Pediu duas baguetes de pão artesanal, algumas gramas de presunto serrano e alcançou três moedas para a atendente que, depois de conferir o pagamento, voltou-se para Luiza:

—Senhora, uma dessas não tem valor. É uma moeda portuguesa antiga. Veja! —disse, entregando a moeda de volta.

—Como? Nem reparei, pensei que era de um euro. Na verdade, estive hoje mesmo na feira de Barcelos, acho que foi ali que me deram. Ah, seus portugueses, tão queridos e pela primeira vez me passando a perna no troco! —Pensou ela. A moeda não tinha valor nem em Portugal, porque já fazia duas décadas que tinha sido adotado o euro em toda a União Europeia. Foi repassando mentalmente as compras pelas quais tinha pagado em dinheiro e recebido o troco em moedas: as frutas, os legumes, a muda de alfazema, os estacionamentos e o café de Valença. Seria difícil descobrir a procedência do objeto.

Enquanto fazia a última refeição do dia, ela ficou observando a moeda lusa. Era de 100 escudos portugueses cunhada em 1990, cujo valor—verificou depois—seria de mais ou menos uns 50 centavos de euro. Largou no aparador da entrada dentro de um pequeno prato de vidro colorido que tinha trazido de Murano, numa visita à Veneza. Serviria para lembrá-la de estar mais atenta na próxima ida à feira.

Estava cansada do dia cheio, tinha saído cedo. Depois de jantar, tomou uma ducha, falou uns minutos com a filha pelo aplicativo de mensagens, deitou-se, leu um pouco e logo adormeceu. Depois de um tempo impreciso, ela foi despertada por um som débil de uma música tocando. Pensou ter deixado a televisão da sala programada para transmitir algo e se levantou meio trôpega para desligar. Passando pelo aparador, sem acender as luzes, reparou que a moeda de escudo irradiava um brilho estranho, reluzia como ouro, iluminando o ambiente. Impressionada, pegou a moeda com a mão espalmada, sentindo que o brilho lhe provocava uma certa tontura e um pequeno desconforto no fundo do olho, pensou que seria por estar dormindo e ter levantado muito rápido.

Logo depois ouviu como uns toques de teclado de computador e a música suave continuava na sala. Um tanto amedrontada, mesmo assim dirigiu-se para ali devagar, ainda com certa vertigem. Para seu espanto e perplexidade viu seu marido no lugar que ocupava sempre, sentado no sofá diante do laptop que mantinha numa mesinha baixa. Estava concentrado na tela do computador, mas em seguida virou-se e sorriu-lhe, enquanto ela se aproximava atônita. Por segundos teve dificuldade para falar, a voz ficou trancada na garganta. Depois, disse lentamente, como que medindo as palavras:

—Pablo??... Estás... bem?? Como... chegaste até aqui? —perguntou Luiza entre espantada e incrédula indo devagar em direção a ele.

—Como cheguei? Eu moro aqui, lembra? Perdi o sono tendo umas ideias para aperfeiçoar o conteúdo do curso. Estou aqui finalizando o projeto. Desculpa se te acordei. Já estava indo para a cama. — disse ele, extremamente concentrado, quase nem reparou no estado em que sua mulher se dirigia a ele.

Luiza se sentou devagar ao lado do marido, abraçou-lhe e depois passou a mão por seu cabelo, pelo rosto saudável e aparentemente mais jovem. Sentiu o calor do corpo dele, a textura muscular firme dos ombros e braços sob o suéter azul e o mesmo perfume da loção após barba. A última lembrança que tinha dele era com o aspecto extremamente frágil, cansado, esquálido, afônico, com poucos fios de cabelo e um curativo na mandíbula. E triste, muito triste.

—Ei, que te passa? —perguntou ele, agora sim, estranhando o gesto da esposa.

— Nada...Só que...Está passando uma reprise de Cuéntame como pasó a essa hora? — ela perguntou, notando que passava na televisão a famosa série espanhola da TVE1.

—Não, acho que é um capítulo inédito! Me disseste que estavas cansada e que o verias amanhã pela tarde no aplicativo. Estavas aí pintando tuas mandalas, não lembras? Só deixei a TV ligada, nem estava prestando atenção.

 A atmosfera da sala estava iluminada só com as luzes da televisão, da tela do computador e pelo luar que entrava pelo vidro da sacada, o que fazia reluzir ainda mais a moeda de escudo que ela mantinha forte na mão direita.

—Inédito?? Mas que dia é hoje?

—Quinta-feira, amor! Estás bem? Te noto estranha!

—Quinta-feira...—Ela pensou que fazia sentido, tanto a feira de Barcelos quanto a série de TV aconteciam nesse dia da semana. — Mas, por favor me diga em que mês e que ano estamos...

—Por Deus, Luiza, que pergunta é essa? Quase meia-noite, então ainda é dia nove de abril de 2015. E? Estás sonhando? Tenho uma mulher sonâmbula e não sabia? —disse ele olhando o relógio de pulso, rindo e imperturbado.

—2015!! — Ela exclamou, enquanto olhava para o calendário na barra inferior do laptop e viu um de seus cadernos de mandalas jogado na mesinha de centro junto com a caixa de canetas. Folheou rapidamente o caderno, pois costumava colocar a data quando finalizava o trabalho. A última mandala confirmava, era dia 9 de abril de 2015.

—Queres me dizer o que te passa? Estás me assustando...— Pablo, então percebeu o nervosismo dela.

—E de que curso estás falando? —ela retomou as perguntas.

—O curso que tenho que ministrar em Madrid na semana que vem, não lembras? Já está tudo acertado. Vais comigo e poderemos aproveitar a cidade juntos depois do trabalho, terei as tardes livres.

—O curso em Madrid? Aquele do hotel da estação do metrô Campo de Las Naciones, perto do parque Juan Carlos I?

—A secretária já me mandou o comprovante da reserva, mas ainda nem tive tempo de me deter no nome do hotel, tampouco do endereço. Só sei que tomando o metrô são somente duas ou três trocas de linha até o centro. Já tenho as passagens de trem também. Te encaminhei por e-mail a cópia da reserva? Não lembro. —Indagou, intrigado.

—Não, não me enviaste nada por e-mail... estou um pouco confusa, só sei que já estivemos lá. —Arriscou explicar-se. — Tens certeza de que estás bem? Não sentes nenhuma dor? Noto que ganhaste peso e pareces mais jovem e mais bonito.

—Luiza, vem aqui...— E Pablo abraçou a mulher. — De que dor estás falando? Não vou à médico há anos e estou perfeitamente! Ok, depois dos cinquenta não faria mal um check-up, posso estar mais gordinho também e obrigada pelo bonito. Mas por que tantas perguntas? Estavas aqui até umas horas atrás e não me falaste nada disso. Tiveste um pesadelo?

—Acho que estou sonhando sim, mas é um sonho maravilhoso...Vem, vamos para a cama. Está tarde e precisas relaxar. Teu curso será um sucesso, não duvides de tuas capacidades—disse ela com a moeda agora firme em uma das mãos e puxando o marido com a outra.

—Obrigada pela confiança, mas sabes que sempre me ponho um pouco ansioso e preocupado nessas situações.

Já na cama, Luiza deitada sobre o peito do marido, menos atordoada e ainda sem largar a moeda disse:

—Eu não estava só te animando quanto ao curso. Eu sei que sairá tudo bem e teremos ótimos momentos por lá. Inclusive teu case de sucesso será compartilhado e divulgado para vários setores da administração pública. —Ela arriscou mais uma vez a dar pistas do que sabia na tentativa de descobrir o real estado psicológico do marido.

—Que exagerada! Vou só relatar uma boa experiência com bons métodos.

—Não estou exagerando e não te preocupa, vai sair tudo bem, confia em mim.

—Obrigada, mas te noto estranha mesmo assim. Quer me contar?

—Eu estou bem. Só quero aproveitar tua companhia, teu calor, tua proximidade, ouvir tua voz, te beijar, te abraçar, fazer amor e tudo que temos direito.

—Pois aqui me tens, mas me deixas preocupado com essa conversa. Ah!...Me disseste que estava tudo bem com os exames de rotina que fizeste semana passada! És mais cuidadosa com isso do que eu. Era verdade, está mesmo tudo bem? Perguntou, lembrando do fato.

—Sim, não tem nada que ver comigo. Estou bem de saúde.

—Pois eu também...

—E se eu te pedisse que fosses a um dentista ou um médico de garganta. Irias? —indagou Luiza, pensando que talvez pudesse mudar o rumo dos acontecimentos ou ao menos retardar o inevitável.

—Não faz nem seis meses que visitei o dentista, e ver a garganta para quê? Não sinto nada... Não coloca caraminholas na cabeça.

—Tudo bem... por agora, me abraça e me deixa dormir bem perto de ti. Quero que saibas que te amo para sempre e que aconteça o que acontecer estarei contigo.

—Eu sei disso! E te digo o mesmo! —disse Pablo, ainda desconfiado.

—Agora me beija, antes que amanheça...—pediu ela.

Então naquela noite, Luiza deixou-se levar pelo inusitado, pela fantasia, pelo sonho, pela alucinação, pelo que quer que fosse que estava acontecendo. Desistiu de questionar a razão, a materialidade, a tangibilidade das coisas, dando valor somente aos seus significados. Deixou-se levar pela magia que atribuía à moeda lusa, que continuou brilhando mesmo depois de largada na mesa de cabeceira perto do celular. Não quis mais usar palavras, nem dar, nem pedir explicações. Negou-se a entender e a tentar mudar os fatos. O momento era para celebrar aquele encontro com o passado, reviver sentimentos e reforçar o amor que sentia pelo marido, apartado da vida tão cedo. Ele não precisava saber de mais nada, além do quanto era amado.

Na manhã seguinte, acordou sozinha. Virou-se para procurar a moeda e ela não estava mais. Buscou por todos os lados, pelo chão do quarto, no meio dos lençóis e nada. Correu até o aparador, vasculhou a sala e nem rastro da moeda. Com a claridade do dia tudo ficava mais real, escondendo a noite anterior numa bolha de ilusão, ao mesmo tempo que tinha tudo nítido na memória. Ela era uma pessoa sensata, não bebia, não usava drogas e sabia que não estava perdendo a razão. Tentou raciocinar, mas o que tinha vivido não se enquadrava na racionalidade. O marido estava morto havia meses. Se contasse para alguém o sucedido, diriam que tudo não passara de um sonho. Ela cogitou a possibilidade, pois pensava nele dia após dia. Era justamente a ausência dele que acompanhava toda a sua rotina, porém o que tinha acontecido na noite anterior, mesmo inverossímil, tinha sido real. Jamais poderia contar a alguém.

 Sem sombra de dúvidas, ela tinha reencontrado com seu marido Pablo numa noite de sete anos atrás, num momento extremamente feliz de suas vidas— ali teve a mais pura percepção de felicidade— sem doença, sem hospitais, sem tratamentos desumanos, sem médicos emitindo falsas esperanças, sem a mais remota ideia de uma separação.

Como não encontrou a moeda, agarrou-se à esperança de que Pablo tivesse entendido o sinal e que voltasse outra noite através do escudo português, que lhes servisse de chave para uma nova porta do passado e os dois pudessem entrar e continuar viajando como sempre fizeram. Assim poderiam ser felizes além da vida e sempre antes de amanhecer.


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Insônia