domingo, 27 de agosto de 2023

Saudades Indizíveis

 

Foto: Arquivo Pessoal

Somos feitos de saudades, algumas são indolores, outras cravam feridas. Tenho doces saudades do meu bairro, da casa e das brincadeiras da infância. Tenho saudade de uma boneca, de um coelho de pelúcia, de comer cocada ainda quente—uma vizinha fazia para vender— da escola primária, dos cadernos adornados com florezinhas de decalque, de ver desenho animado numa televisão de tubo, de meus pais jovens e ativos e das minhas avós. Estas saudades aquecem e confortam a alma.

Porém, há saudades dolorosas. Elas diferem umas das outras devido à relação entre espaço e tempo. A infância dura pouco, menos de doze anos, e está tão distante da idade madura que, exceto quando há grandes traumas ou rupturas, tudo fica lá atrás naquela atmosfera quase que de sonho e fantasia.

 As saudades mais intensas estão relacionadas a dores de perdas. E estas doem muito mais na idade madura, porque mesmo que muitas derivam de circunstâncias ou acontecimentos alheios às nossas ações, outras são provocadas por nós mesmos. Irrefletidamente nos afastamos de pessoas especiais, sem perceber seu valor. Irrefletidamente agimos por impulso, desviando de caminhos ou abandonando situações que pareciam permanentes. Irrefletidamente. De novo a relação espaço e tempo interfere, é por isso que a saudade vem com uma força abismal na maturidade. A saudade do pai que já se foi e de um amor que já morreu no sentido literal da palavra, de corpos que já não estão mais, são sentimentos que podem arrefecer com o passar do tempo. O luto vai amenizando, mas a saudade da presença física sobreviverá à nossa própria morte.

 A saudade de um amor perdido também é muito forte e nos faz revisar a vida inteira. Os arrependimentos e as decisões obstinadas se misturam no coração, mas na parte onde mora a razão elas são como água e óleo, incapazes de conviver, não são autoexplicativas e uma nunca justifica a outra. 

Saudade é um sentimento cheio de energia, valor e vigor, porque nos define como seres humanos e nos invoca o tempo. Por isso, deveríamos ser mais cuidadosos no presente, pois algumas saudades doloridas podem ser evitadas. Sejamos atentos aos que nos rodeiam, pois um dia já não estarão mais por perto. Sejamos pacientes ou ao menos complacentes com as singularidades dos outros, cada um é o que é, desde que isso não machuque nosso corpo ou nosso coração. 

Mesmo assim, é impossível evitar qualquer tipo de saudade, ao menos que se evite voltar a lugares onde um dia fomos felizes, como disse um poeta. Ali estarão mescladas saudade e nostalgia. Nestes lugares é onde residem as maiores e mais dolorosas recordações, paradoxalmente, no mesmo lugar onde um dia morou a felicidade. Ali ainda sobrevivem as lembranças de dias despreocupados perdidos no tempo, de entardeceres lendo no quintal com os pés descalços na grama, de almoços familiares de domingo misturando comida com risadas. Ali está vívida a lembrança de uma querida vira-latas esperando por um biscoito no café da manhã ao lado da mesa da cozinha. Ainda soa o tom de chamada de carinhosos telefonemas recebidos num aparelho analógico no meio do expediente. Ali sobrevivem os abraços das noites de inverno, os beijos de chegada e a certeza de que alguém nos esperava em casa. Indizíveis saudades de amores sem retorno.

                                                     

                                                  Texto enviado para Oniros Editora parte da coletânea 

                                                                       "Lembranças de uma saudade"    

 

sábado, 5 de agosto de 2023

Joana

Foto: Arquivo Pessoal


João/Joana, um dos nomes mais populares do mundo. Vem do hebraico, é derivado de Yohanan na versão masculina e foi o mais famoso apóstolo de Cristo: João, Juan, Xoán, John, Jean, Giovanni. No feminino Joana, Juana, Jeanne, Giovana e a versão em grego Ioanna. Acredito que todas as Joanas de minha família são um tributo à primeira Joana, minha trisavó, nascida pelos idos de 1867. Joana, a pequena patinadora da foto, nasceu em 2015 e não é a mais jovem Joana da família. Tenho conhecimento de uma outra que nasceu há pouco mais de um ano lá nas lonjuras da Nova Zelândia.

Nossa Joana, patinadora, capoeirista— e tantas coisas que ela ainda vai querer ser— trás nos genes a mais linda diversidade humana. Seu chão de nascimento é o Rio Grande do Sul, é uma gaúcha, como a maioria da sua família, mas seus ascendentes remontam de inúmeros lugares e povos ao redor do mundo: Argentina (Corrientes), Norte da Itália, Alemanha (região da Pomerania), Portugal (Arquipélago dos Açores, Ilha da Madeira), Países Baixos (Maastricht), Bélgica, de pessoas arrebatadas das costas da África—infelizmente não conhecemos sua etnia— e logicamente de genes autóctones indígenas da América do Sul.

Desde o nascimento da Trisa Joana e da pequena patinadora já se vão 148 anos. Quanto passado, quanta vida, quantas transformações! Foram milhares de deslocamentos de seres humanos pelo mundo em busca de sobrevivência, fugindo de guerras, da fome ou simplesmente arrancados de sua terra para servir a outros seres humanos. Muita história entrelaça a vida dessa menina e sua pentavó(?) há 7 gerações.

A Joana do século XXI gosta da música Sonho de Ícaro (Byafra, 1984). A internet tem suas maravilhas. Embora na lenda grega, Ícaro não tenha sido muito feliz no seu intento, porque suas asas feitas de cera derreteram ao chegar perto do sol, ele tinha esse sonho audaz  do poema, o sonho da liberdade e da livre escolha. 

Idealizo a Joana-menina como representante desse hino, é um Ícaro que dessa vez os deuses mandaram carregada de esperanças. Suas asas não são mais ilusórias, não vão derreter. Elas passaram a existir nas mulheres ao longo das décadas passadas. Já haviam apontado pequeninas em sua avó, um pouco maiores em sua mãe. Foram surgindo como pequenos brotos, geração a geração e vão se agigantar cada vez mais e um dia sim, talvez poder encontrar o Sol, o alto coração, ideal do mito grego, um lugar mais que perfeito para viver com gente mais que perfeita para conviver. 

Se tudo isso nunca existir, se somos fadados a eternos Ícaros que despencam das alturas, ao menos é o que eu desejo para ela. Voa, Joana! Ousa como Amelia Earhart, a primeira mulher a voar sozinha sobre o Oceano Atlântico. Leva tua inteligência e sensibilidade atávicas, vindas da nossa grande avó e de todas as outras, de todos os ramos, a transformar essa Terra. Já és a representação de um mundo aperfeiçoado e podes dar tua contribuição para alcançar um mundo mais-que-perfeito. Sim, mesmo que as desgraças humanas estejam longe de acabar, e alguns ainda ousem cortar as asas de outros pela competição, pela cobiça, pelo poder ou pelo simples desejo de possuir pessoas. Certamente és um orgulho para essa multidão de avôs e avós que vieram antes de nós!


Insônia