domingo, 25 de julho de 2021

Escada para o céu

 

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Conta a lenda bíblica que Jacó —irmão gêmeo de Esaú— sonhou com uma escada pela qual baixariam anjos continuamente para trazer alento e prosperidade ao povo da Terra. Milênios depois, um casal dançava ao som de Stairway to Heaven e, durante a música eles foram atraídos pela escada sonhada por Jacó, conduzidos por um anjo que não sabiam bem como se chamava, se Destino ou Acaso.

Depois de breves minutos subiram até o topo da escada e tiveram a visão do que chamam paraíso. Era um lugar perfumado, tépido, claro e calmo onde só se escutava ao longe a música de Led Zeppelin. Foi quando eles se reconheceram de outras épocas de glória ou de outros carnavais mundanos. Eram os mesmos que tinham se perdido na juventude, os mesmos olhos, as mesmas linhas de expressão dos rostos quase esquecidos, o mesmo cheiro da pele, as mesmas mãos que um dia tinham se enlaçado.

No final da música desceram de volta à Terra, mas saíram fugidos, tentando despistar o anjo que não sabiam o nome. Eles não queriam que desta vez algo mais os separasse. Correram até alcançar um lugar supostamente seguro, livre de seres deste tipo.  Anjos não são confiáveis. Um dia eles guiam os incautos para a felicidade, noutro se transformam em diferentes seres que levam todos ao fim de tudo.

Ainda ofegantes pela corrida, encontraram um refúgio isolado, pensando despistar o anjo. Depois decidiram viver cada momento como se fosse o último, pois sabiam que o tempo poderia ser implacável. Em seu esconderijo, criaram um mundo próprio, onde o amor florescia como flor rara. Cada dia era uma aventura, um renascimento. Eles descobriram que, de certa forma, a experiência na escada os tinha transformado trazendo uma nova compreensão do significado do amor e da vida.

No entanto, o passado não pode ser completamente abandonado. A sombra do anjo suspeito pairava sobre eles como uma presença sutil e inescapável. Enquanto tentavam viver suas vidas em paz, sabiam que cedo ou tarde teriam que enfrentar as consequências de desafiar o destino.

Um dia, quando menos esperavam, outro anjo os encontrou. Não era um mensageiro da ruína, mas sim um ser apiedado que observava aquele amor que transcendia o tempo e o espaço. Ele revelou que, ao desafiarem as regras, haviam conquistado uma bênção rara, uma segunda chance de viver uma vida juntos. Assim, eles continuaram sua jornada, navegando pelas complexidades do amor, sabendo que a vida é uma dança entre dualidades: céu e inferno, doce e amargo, vida e morte.

 


quarta-feira, 21 de julho de 2021

Victoria

 


Victoria tinha um sonho recorrente desde a infância. Sonhava que uma mulher desconhecida corria com ela nos braços no meio de uma mata escura. Depois ela se via ao pé da escada de um enorme avião e a mulher ainda com ela no colo, aos gritos, impedia que seu pai a retirasse dos braços dela. Não sabia se seu pai a salvava da mulher do sonho, pois a última imagem que tinha era sempre da mulher gritando, seu pai lhe estendendo os braços e ela lhe dando os bracinhos chorando.

 Cresceu assim com essa imagem de um pai-herói que, possivelmente a tinha salvo das garras de uma bruxa ou de uma ladra de crianças. Porém, a mulher não parecia uma bruxa, não era velha, nem feia e a tratava com carinho. Ela não tinha medo da mulher, somente dos seus gritos desesperados, enquanto seu pai tentava resgatá-la dos braços dela.

Por vezes, Victoria fantasiava que a mulher do sonho podia ser sua verdadeira mãe e que sua mãe Lúcia a que havia lhe roubado. Tinha um certo ciúme da mãe com seu pai, pois os dois viviam aos beijos e abraços. Ela amava aquele pai bonito e carinhoso que antes de ser seu pai era o marido da sua mãe. Quando ele chegava em casa do trabalho, sua mãe o recebia sempre com um beijo na boca, e até os cinco anos permitiam que ela imitasse a mãe. Depois, mais crescida, ela mesma não se permitiu mais.

Adorava quando saía só com o pai a passear e isso passou a acontecer mais, depois que sua irmã nasceu com uma diferença de pouco mais de dois anos. Ele era cuidadoso, gentil, nunca levantava a voz, comprava sorvete, limpava seu rosto e nariz, levava na praia e depois lhe dava banho para tirar toda a areia. Victoria só não gostava quando ele tentava ensinar-lhe a nadar. A água era sempre muito fria e tinha medo dos mergulhos, então ele desistiu. Sua irmã Clara, sim, tornou-se uma nadadora brilhante graças a ele.

Sua mãe era professora de línguas, era uma mulher inteligente, sorridente e carinhosa quando estava tranquila e despreocupada. Quando se lhe apresentavam problemas e temores, frequentemente mais temores que problemas, ela se punha um tanto colérica e desatinada. Tinha uma certa mania por limpeza e organização, estrita com horários e regras. Depois que teve duas crianças, nascidas muito perto uma da outra, mesmo com a ajuda das cunhadas e do marido, parece que cultivava uma ansiedade que se lhe aflorava a pele. Ela tinha temores infiltrados, temores de perdas, temores de ausências.

Depois dos doze anos, mais ou menos, Victoria nunca mais teve o mesmo sonho, acabou esquecendo e nunca contou a ninguém. Até que um dia, depois de completar dezoito, ela estava com a irmã na casa do avô olhando umas fotografias antigas e sua tia Carmela tentou esconder uma foto do casamento anterior do pai. Victoria percebeu a tentativa da tia e pediu para ver a foto. Ali estavam seu pai, lindo, num terno escuro e gravata prateada, uma noiva igualmente linda com vestido longo branco, suas tias Cristina e Carmela e seu avô, vestidos elegantemente, todos sorridentes em frente à Catedral de Santa Maria de Vigo.

A tia contou que era uma foto do primeiro casamento do pai delas, fato que seus próprios pais já haviam relatado há tempos. Victoria nesse mesmo instante relembrou o sonho da infância e contou à tia e à irmã. Aquela noiva parecia a mulher do sonho. Carmela foi ficando cada vez mais atordoada à medida que Victoria ia contando. Era impressionante como alguns aspectos do sonho e da vida real se encaixavam.

Victoria havia sido sequestrada pela ex-mulher de seu pai, quando tinha pouco mais de três anos e o pai junto com a polícia a tinham resgatado quando elas estavam prestes a embarcar num voo da Espanha para a Venezuela, tendo Victoria um passaporte falso em nome de Maria Laura Álvarez.

A mulher foi presa, julgada e condenada, mas por conta do diagnóstico de um transtorno psiquiátrico obteve liberdade condicional, porém suicidou-se antes de sair da prisão. Ela também amava o pai de Victoria. Sua mãe depois de saber da morte da mulher, nunca mais temeu perder ninguém.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Oceanos e Destinos



Javier é um marinheiro espanhol, aficionado pelo mar. Lúcia é uma universitária brasileira que estuda idiomas. Ambos são muito jovens. Eles se conhecem em Porto Alegre numa situação totalmente inusitada durante a passagem de Javier pela cidade que, à princípio seria de apenas algumas horas. O indecifrável destino propicia que eles se encontrem, se apaixonem e tenham uma aventura romântica na América do Sul no inverno de 1980. Porém, o mesmo destino tece suas tramas. Acidentes, farsas, atentados, manipulações e ciúmes criam um enredo de amor e ódio, vida e morte, dor e alegria. É uma história que atravessa os tempos, onde os personagens são pessoas comuns com seus sonhos e conflitos e o destino, o senhor absoluto. Ou será tudo obra do acaso? Essa é a sinopse de uma pequena novela que estou escrevendo, com o título provisório de Oceanos e Destinos, que pretendo me auto publicar em Amazon, mas ainda sem data. Eu duvidava que pudesse escrever algo do gênero ficcional, mas lendo e escutando especialistas, descobri que todos podemos escrever, é só começar.

Insônia