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Os relhos atávicos

 
Foto: Guilherme Santos/Sul 21

Relho ou rebenque, substantivo masculino que significa chicote. É uma fita de couro cru usada para chicotear, açoitar. O Dicionário Caldas Aulete Online completa a descrição da palavra dizendo que é usada para chicotear animais. Os gaúchos, por sua tradição de trabalho no campo conhecem muito bem a palavra e o objeto. Durante muito tempo ao longo da história eles usaram o cavalo e as carroças para locomoção e o chicote era de uso corriqueiro, fazendo parte da indumentária dos senhores das fazendas, de seus capatazes e dos homens abastados.

O instrumento carrega a função de punir pela violência e não só contra os animais. A palavra é forte e o objeto foi muito usado também para açoitar negros escravos, negros livres, mulheres por serem consideradas propriedades dos maridos e/ou do mundo masculino em geral e como princípio pedagógico em crianças e adolescentes. Hoje, no tocante aos animais os especialistas dizem que o chicote é usado só para dar os comandos aos cavalos, não mais para punição ou coação e as carroças puxadas por animais quase que já não existem. 

No entanto, esse objeto segue sendo um ícone da ancestralidade gaúcha. A violência e o valor de "boas chibatadas" seguem sendo exaltadas para dominar, reprimir, oprimir e moldar tudo o que esteja fora dos limites da tradição, de uma suposta ordem ou do conservadorismo.
Na concepção dos reacionários, crianças desobedientes, homossexuais, meninas adolescentes rebeldes, artistas, perturbadores dos "bons costumes", pessoas que cometem pequenos furtos, ativistas de direitos humanos, militantes políticos merecem experimentar castigos como corretivo e efeito disciplinante. Baseiam-se na máxima do tempo de suas bisavós e avós quando tudo funcionava assim e, segundo eles todos cresceram saudáveis. Realmente, os corpos sempre podem recuperar-se, muitas pessoas que foram torturadas em algum momento da vida recuperam sua saúde física, mas os espíritos submetidos à violência são dilacerados, esmagados e nunca mais se recuperam.

O relho mesmo não sendo mais objeto de uso comum, continua fazendo parte da mentalidade de muitos  gaúchos. Ele infunde a simbologia da truculência, da perversidade e da barbárie do passado como solução rasteira, medíocre e ineficaz para os problemas do presente. Sem falar que, ao valorizar tal instrumento, desconhecem e violam claramente o artigo V da Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana (1948) : "Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante". Ninguém.

Em 2018, a caravana de um partido político brasileiro quando passava pela cidade de Bagé, fronteira oeste do Rio Grande do Sul, teve seus militantes atacados com relhos e com o apoio do prefeito da cidade numa demonstração da mais tosca e abrutalhada atitude contra adversários políticos. Um grupo de "justiceiros" queria mostrar o seu grau de indignação contra a corrupção e a criminalidade dentro da política, que segundo eles, estaria sendo representada por aquele "grupo de criminosos" que chegava à cidade. Hoje, o mesmo prefeito está sendo afastado do cargo junto a outros servidores denunciados por crimes licitatórios, de responsabilidade, de desvio de verbas públicas e por organização criminosa. 

E agora, caberia uma sessão de relhaços em praça pública no prefeito de Bagé e de seus assessores? Claro que não, pois a turma justiceira está intoxicada de parcialidade como diz Juca Kfouri. A moralidade é seletiva e o relho é a solução dos boçais para moldar e punir os inimigos adquiridos pelo ódio dos dias. Hoje, com tanta exposição de tudo e todos, não reagir com veemência ou apoiar atos de violência me parece uma falta de maturidade emocional e intelectual.

A violência e o autoritarismo dizimaram corpos, ideias e talentos.  E ainda hoje, como um atavismo, como um passadismo de época, como imemoráveis que teimam serem rememorados, assistimos pessoas muito próximas - pode ser aquele senhorzinho simpático da esquina, um tio religioso, uma velha amiga do colégio ou um parente distante -  deleitando-se não só com esses espetáculos de brutalidade e selvageria, mas também com ataques verbais a pessoas, povos e instituições pronunciados por presidentes desequilibrados em discursos vexatórios na ONU.

Quando vamos aprender que somos seres humanos em permanente evolução, que a civilidade harmoniza e que a violência e a barbárie devem ser literalmente banidas dos discursos, das ações e do pensamento?







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