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Meus Macondos Ibéricos

Castillo de Sotomayor, Pontevedra Foto: Juan Carlos Pérez

Gabriel Garcia Márquez em seu romance Cem Anos de Solidão ambienta sua bela obra na fictícia Macondo, simbolizando a história da Colômbia, de seu povo e parte do continente sul americano. Joaquin Sabina, cantor e compositor espanhol, autor da famosa canção Peces de Ciudad, diz num de seus versos: "En Macondo comprendí que al lugar donde has sido feliz no deberías tratar de volver". Talvez Joaquin tenha se inspirado nos versos de outro poeta espanhol, Félix Grande que escreveu um poema intitulado Donde fuiste feliz alguna vez. Faço aqui uma tradução absolutamente livre de algumas estrofes:

Onde foste feliz alguma vez
Não deverias voltar jamais: o tempo
Terá feito seus destroços, levantado
seu muro limitante
Contra o que a ilusão se chocará estupefata.
O tempo terá esculpido
Paciente, teu fracasso
Enquanto faltavas, enquanto andavas
Ingenuamente pelo mundo
Conservando como lembrança
O que era destruição subterrânea, ruína
Não deverias voltar jamais a nada, a ninguém
Pois toda história interrompida
Só sobrevive
Para vingar-se na ilusão, cravar-lhe 
Sua lança desesperada
Morrer assassinando.

O poeta recomenda não voltar, mas ao final dos versos ele conclui que inevitavelmente voltaríamos, porque a nostalgia fica como uma cicatriz que nunca desaparecerá e estaremos ali como os cães errantes dando voltas nos túmulos de seus donos. O tema é nefasto, mas faz parte da existência. Quando as desgraças nos alcançam fora do lugar onde nascemos ou passamos a maior parte da vida, temos ímpetos de fugir—e aí entendemos o mais absoluto significado de lar. Queremos conforto, esconderijo, consolo ou apenas um pequeno pedido de socorro como na canção SOS do Abba—Whatever happened to our love?... It used to be so nice, it used to be so good. O tempo, assim como constrói, muda e avança, também destroça e penaliza. Voltar aos lugares que um dia fomos felizes se faz de todo penoso, melancólico e impraticável. Os lugares perdem o brilho, a beleza e a transcendência. E toda a felicidade vivida um dia ali haverá de desintegrar-se como neve ao sol, dando prevalência aos finais e à melancólicas lembranças.  Seguramente contrario o poeta e concordo com o cantor. Quando voltar para casa, tudo se quedará atrás, não haverá retornos, porque será insuportável até conviver com as infinitas memórias de uma vida que não voltará. A única forma de cura será o tempo que, espero, não seja escasso, para que meus Macondos ibéricos possam ser convertidos numa rica biografia com dupla nacionalidade e uma nova percepção de mundo.

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