Pular para o conteúdo principal

A casa esvaziada

Foto: Arquivo Pessoal

O lar estava desfeito, restava um apartamento, transformado num imóvel de aluguel, que passou a ser ocupado por estranhos, viajantes de passagem, inquilinos temporários e assim seguiria.

Uma vez dentro, é possível sentir a vida que havia pulsado ali, a felicidade genuína, o convívio amoroso e o triste desfecho inesperado.  As paredes, portas, persianas, vidraças e todo o mobiliário eram como familiares, conversavam, traduzindo sentimentos, escondendo segredos. O conjunto de sofás da sala e a enorme cama do quarto haviam sido escolhidos com esmero pelo casal que se fora. Um pela morte, outro pela dor. Duas personalidades e culturas tão diferentes, ao mesmo tempo tão semelhantes tinham expressas suas predileções naquele ambiente e desfrutavam daquele encontro afoitos como que a recuperar tempos perdidos.

Na sacada estavam coladas as lembranças dos almoços de domingo no verão—pimientos fritos, merluza com batatas ao forno, depois uma camomila ou café e sobremesa. A vista da  vidraça da sala seguia a mesma, o mar calmo e azul, as gaivotas arrulhando e voando baixo, as dezenas de barcos atracados ou chegando da faina diária.  Os turistas ainda vinham em grupos barulhentos e alegres, encantados com a paisagem. A vida permanecia e seguia alheia às desgraças individuais. Poucos vizinhos se apiedaram daquele apartamento vazio, a maioria nem percebeu.

Roupas, bolsas, aparelhos eletrônicos, souvenirs de viagens, utensílios, objetos garimpados em feiras livres, toalhas, lençóis, cobertas, objetos pessoais antes lado a lado no banheiro já não estavam. Gavetas tinham sido esvaziadas. Tudo havia sido arrancado dali despersonalizando aquele ambiente antes tão íntimo. O apreço por pequenas tralhas e objetos só pode ser entendido por seus detentores. São bens sem preço em nenhuma moeda. 

Uma casa também morre quando um dos moradores falece e o outro perde o rumo. Mãos estranhas, ainda que respeitosas, vasculham armários e gavetas a retirar toda a presença anterior, porém os segredos e os sentimentos nunca poderão ser arrancados. Impressões digitais e pegadas estarão ali por tempo indeterminado pelos corredores, pelas paredes, pelos móveis, juntando-se à poeira dos dias e à passagem das horas, mesmo que o relógio da parede já tenha parado.  Aquele lar desapareceu, mas a breve e intensa história de dois amantes da vida e do mundo, viverá para sempre.

                                                      ✱✱✱✱✱✱



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Caderno, escritos do amanhecer

Queria escrever no teu caderno. Naquele que resgatei, antes de ser largado no lixo. Fiz isso talvez, digo talvez, por uma súbita intuição de desfecho. Queria ler e juntar teus pensamentos com os meus, misturando as letras e os manuscritos. Queria poder juntar nossas inspirações, talvez criar um romance, um conto, uma narrativa breve que seja, mesmo que tenhamos estilos diferentes e tua criatividade vá muito além da linguagem e do meu amadorismo. Queria misturar nossos traços, rascunhos,  já quase ilegíveis, formados numa infância onde se fazia caligrafia— isso já faz tanto tempo!—até produzir um texto ao menos coerente e coeso como mandam as leis da escrita. Ou não, pois ainda busco a licença poética dos artistas, que têm liberdade com as palavras, ao contrário das palavras ditas que podem ser a nossa desgraça. Eu precisava do caderno, não para descobrir teus segredos, mas para ter o privilégio de escrever de meu punho, junto ao teu, naquelas folhas amarradas em espiral com uma cap...

Tanger em 8 horas طنجه

Era agosto de 2019 e tínhamos iniciado uma viagem desde a Galícia até a Andaluzia , comunidades autônomas da Espanha, passando por várias cidades portuguesas e espanholas. Fazia parte do roteiro uma visita à cidade de Tanger no Marrocos, atravessando o Estreito de Gibraltar no Mar Mediterrâneo desde o Porto de Tarifa . Tínhamos reservado os bilhetes com antecedência no sítio denominado GetYourguide e a reserva incluía a travessia de ida e volta de barco, translado em ônibus dentro da cidade e passeio a pé com guia local e almoço. O porto marítimo de Tarifa parece um mini aeroporto com amplas salas para espera, embarque e desembarque de passageiros, controle de metais e de imigração feitos pela Polícia Nacional Espanhola. Embarcamos às 10 horas de um domingo num confortável e enorme barco de passageiros que a empresa turística chama de balsa , porque transporta pessoas e veículos. A balsa era super confortável com assentos estofados dispostos em dois largos deques envidraçados c...

O Morro do Caracol

Foto: Rua Cabral, Barão de Ubá ao fundo e o Mato da Vitória à esquerda Arquivo Pessoal O povoamento de uma pequeníssima área do bairro Bela Vista em Porto Alegre, mais especificamente nas ruas Barão de Ubá que vai desde a rua Passo da Pátria até a Carlos Trein Filho e a rua Cabral, que começa na Ramiro Barcelos e termina na Barão de Ubá, está historicamente relacionado com a vinda de algumas famílias oriundas do município de Formigueiro, região central do Estado do Rio Grande do Sul.  O início dessa migração, provavelmente, ocorreu no final da década de 40, início dos anos 50, quando o bairro ainda não havia sido desmembrado de Petrópolis e aquele pequeno território era chamado popularmente Morro do Caracol. Talvez tenha sido alcunhado por esses mesmos migrantes ao depararem-se com aquele tipo de terreno. Quem vai saber! O conceito em Wikipedia de que o bairro Bela Vista é uma zona nobre da cidade, expressão usada para lugares onde vivem pessoas de alto poder aquisitivo, pode ser ...