Pular para o conteúdo principal

Sobre a mulher pintada de azul

 


Mini-conto de um mini-sonho
Ali não era mais meu lugar. Estava uma mulher que se apresentou com o rosto e pescoço pintados de azul. Era um rosto enorme, as bochechas proeminentes eram de um tom mais azul que o resto do rosto. Não tinha a graciosidade de uma smurfete, tampouco a delicadeza e a leveza das humanoides de Avatar. Tinha o rosto além de azul, rude e duro. Olhos verdes, hostis. Estava visivelmente aborrecida com minha presença. Tinha os punhos fechados, prontos para desferir-me algum golpe e expulsar-me dali. Não tive medo. Tive um desengano, porque ali estava toda a minha vida de posse da mulher azul. Por que eu fui parar ali, realmente não sei. Talvez por seguir rastros do passado e reconhecer outros rostos e objetos na casa, muito familiares, meus familiares, mas a mulher azul havia aprisionado a todos. A inveja é azul.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Caderno, escritos do amanhecer

Queria escrever no teu caderno. Naquele que resgatei, antes de ser largado no lixo. Fiz isso talvez, digo talvez, por uma súbita intuição de desfecho. Queria ler e juntar teus pensamentos com os meus, misturando as letras e os manuscritos. Queria poder juntar nossas inspirações, talvez criar um romance, um conto, uma narrativa breve que seja, mesmo que tenhamos estilos diferentes e tua criatividade vá muito além da linguagem e do meu amadorismo. Queria misturar nossos traços, rascunhos,  já quase ilegíveis, formados numa infância onde se fazia caligrafia— isso já faz tanto tempo!—até produzir um texto ao menos coerente e coeso como mandam as leis da escrita. Ou não, pois ainda busco a licença poética dos artistas, que têm liberdade com as palavras, ao contrário das palavras ditas que podem ser a nossa desgraça. Eu precisava do caderno, não para descobrir teus segredos, mas para ter o privilégio de escrever de meu punho, junto ao teu, naquelas folhas amarradas em espiral com uma cap...

Diversidade Incômoda

Tempos atrás escrevi um texto com o título Sobre Malandros e Indolentes que falava sobre um comentário racista, desumano e perverso de um político brasileiro sobre negros e indígenas. Lá citei o exemplo de vida de minha trisavó, cuja história, mesmo sabendo quase nada, usei para repudiar veementemente a fala do político. Segundo relatos que eu ouvia da família, ela era uma mestiça filha de um negro com uma indígena ou vice-versa. No texto eu dizia que provavelmente ela tinha sido escrava da família onde passou a viver, não se sabe em que circunstâncias, na fazenda de um criador de gado no interior do Rio Grande do Sul com quem, depois dele enviuvar, passou a conviver como sua mulher.  Joanna Apolinário , minha trisavó por parte de mãe nasceu em junho de 1867 em Corrientes na Argentina. Em leituras posteriores descobri que a abolição da escravatura na Argentina foi promulgada em 1813, mas de fato só passou a vigorar em 1853, o que pode ser descartada a hipótese de ela ter nascido e...

Tanger em 8 horas طنجه

Era agosto de 2019 e tínhamos iniciado uma viagem desde a Galícia até a Andaluzia , comunidades autônomas da Espanha, passando por várias cidades portuguesas e espanholas. Fazia parte do roteiro uma visita à cidade de Tanger no Marrocos, atravessando o Estreito de Gibraltar no Mar Mediterrâneo desde o Porto de Tarifa . Tínhamos reservado os bilhetes com antecedência no sítio denominado GetYourguide e a reserva incluía a travessia de ida e volta de barco, translado em ônibus dentro da cidade e passeio a pé com guia local e almoço. O porto marítimo de Tarifa parece um mini aeroporto com amplas salas para espera, embarque e desembarque de passageiros, controle de metais e de imigração feitos pela Polícia Nacional Espanhola. Embarcamos às 10 horas de um domingo num confortável e enorme barco de passageiros que a empresa turística chama de balsa , porque transporta pessoas e veículos. A balsa era super confortável com assentos estofados dispostos em dois largos deques envidraçados c...