sábado, 29 de fevereiro de 2020

Para Lara nos seus 15 anos


                                                                                     Pontevedra, junho 2018.

                                                                                            Querida Lara

Daqui há alguns dias já é teu aniversário de novo e por incrível que pareça já tens 15 anos. Parece que foi ontem que eu vi aquele bebê de olhinhos bem abertos no colo da pediatra minutos depois de nascida. Há dias tenho tentado te escrever algo como um presente, pois os presentes materiais sempre se perdem no tempo. Dessa vez eu queria te deixar um presente imaterial, algo que tu pudesses aproveitar para tua vida que, desde sempre, desejo que seja longa, plena e feliz.

Quero te falar sobre as mulheres e seu papel nesse mundo que vem mudando continuamente. Elas têm conquistando espaços de trabalho e de oportunidades bem diferentes das que nossas bisavós e trisavós poderiam imaginar.

Ao longo da história antiga, moderna e contemporânea viveram milhares de mulheres que ousaram quebrar regras e obtiveram protagonismo em muitas áreas do conhecimento, isso é certo, mas há menos de 100 anos atrás, falando de nosso país, o máximo que a maioria das mulheres poderia desejar para sua vida era um marido, uma casa e muitos filhos para criar. Nada mais. Nem estudo, nem viagens, nem livros, nem conhecimento, nem tecnologia, nem ciência. A vida das mulheres era restrita à casa e, no máximo, às profissões ditas femininas sendo costureiras, cozinheiras, lavadeiras ou cuidadoras.

Não quero dizer que essas atividades sejam desimportantes, pois todas as profissões têm o seu valor. Quero dizer que são atividades que não demandam anos de estudo e pouco ou quase nada se valoriza, embora sejam trabalhos imprescindíveis. Houve um tempo também que o fato de uma mulher não estar casada era algo muito mal visto e bastante ridicularizado pela sociedade. Era um sinal de que nenhum homem a havia escolhido e o rótulo de solteirona ou ainda o mais pejorativo termo encalhada era para a vida toda, como se isso a tornasse uma pessoa indigna, sem valor ou uma aberração da natureza. 

E mais, isso muitas vezes a tornava empregada de alguém da própria família, pois se não teve a sua própria, então que cuidasse da família dos outros. Aqui posso usar até o termo “escrava” ao invés de empregada, porque a atividade não tinha nenhum tipo de remuneração, já que o trabalho doméstico até há pouquíssimo tempo nem era reconhecido e segue ainda enfrentando batalhas com os governos. Enfim, a sina das mulheres foi dura até pouco tempo e ainda é em algumas situações dentro de nosso país e em outras partes do mundo.

Queria te comentar aqui também sobre ritos de passagem que são costumes ou celebrações que marcam mudanças de status de uma pessoa dentro de seu círculo social, família ou comunidade. No caso das meninas e de meninos, completar 15 anos, segue sendo como um rito de passagem da vida infantil para a vida adulta, significando que é o momento de deixar a infância para trás. O que não necessariamente acontece automaticamente, pois o ser humano não é um relógio exato. Cada pessoa tem o seu tempo. Não obstante e felizmente hoje a adolescência— que vai mais ou menos dos 11 aos 17 anos— é reconhecida e serve como uma transição entre a infância e a idade adulta, pois em séculos passados não havia o reconhecimento desse processo de mudança e as pessoas se viam obrigadas a passar bruscamente de crianças a adultos. Existem vários livros e artigos que falam sobre a história da infância e da adolescência no decorrer do tempo, lugares e nas diferentes culturas. 

Havia um costume e ainda há em alguns lugares do Brasil, entre as classes de maior poder aquisitivo, que as meninas entre 14, 15 anos eram apresentadas à sociedade num grande baile de gala chamado Baile de Debutantes —debutar significa estrear ou iniciar algo. As meninas usavam vestidos longos, brancos e com enfeites brilhantes, os demais iam em trajes elegantes e caros numa festa ostensiva, tu já deves ter ouvido falar disso. A família gastava, e muitas ainda gastam, pequenas fortunas para ver sua filha desfilar para seus amigos e parentes num espetáculo que a mim me soa hoje como um culto demasiado às aparências, à beleza fútil, coisas que estamos acostumados a conviver e encarar como normalidade, mas que só evidenciam uma sociedade repleta de desejos materiais vazios. 

Eu mesma fui a alguns desses bailes quando era jovem, mas minha família não tinha condições para que eu ou alguma de minhas irmãs fôssemos debutantes. Ainda bem, pois desde aquela época não conseguia me ver sendo uma daquelas meninas ali expostas ao crivo e aos olhares daquela sociedade que— agora percebo— só valorizava o dinheiro, as aparências, os bens materiais, o gosto por ostentações, falsidades e hipocrisias. 

Essa sociedade ainda não mudou de todo, deves perceber isso. As indignidades, as mesmas hipocrisias e iniquidades seguem existindo e muitos ainda preferem só ver sentido na vida através de frivolidades, na competição desenfreada e numa vida de aparências. Imagina que no tempo antigo, os tais bailes serviam também para que as famílias pudessem escolher pretendentes para suas filhas, porque era comum essa influência da família na escolha dos maridos e esposas, principalmente no meio das famílias ricas para que as fortunas se somassem e se multiplicassem, já que o casamento era, e felizmente não é mais uma instituição indissolúvel.

Mal comparando e exagerando seria como um mercado de seres humanos expondo sua mercadoria, meninas bonitas e bem vestidas para que no futuro, fossem arrematadas, escolhidas como num leilão e seguissem para o seu destino comum, ou seja, o casamento e a maternidade.

Para minha bisavó esse destino começou muito cedo. Contam que ela se casou ou foi obrigada a casar-se com 14 anos com meu bisavô que beirava os 30 e teve com ele uns dez filhos. Imagina se hoje alguém vai querer ter tantos filhos, tanta gente para alimentar e tanto trabalho a fazer! Mas as mulheres não tinham escolha.

Felizmente, a ciência, os movimentos sociais e um grande movimento chamado Contracultura na década de 60 tiveram papel fundamental na liberação da mulher. Nessa época, foram descobertos e popularizados os métodos anticoncepcionais e a sexualidade feminina foi, aos poucos desestigmatizada, ou seja, passou a não ser mais condenada ou reprimida. A igualdade entre os gêneros feminino e masculino começou a ser muito questionada e o feminismo se afirmou como um movimento que até hoje em dia passa por avanços, ora por retrocessos. 

A luta por igualdade de gênero ainda persiste, pois é difícil quebrar esse círculo de extremo poder e supremacia que durante séculos o homem teve sobre a mulher. Fique atenta, ainda que veladamente, ainda há muita discriminação entre homens e mulheres e isso ainda precisa ser combatido. 

Outro ponto além das questões homem/mulher são os conceitos mais progressistas de gênero sob os quais há muito preconceito e intolerância. Sociedade, famílias e governos de uma maneira geral ainda não se deram conta que não têm o direito de controlar  mentes, corpos e afetos. Enfim, o que quero te dizer é que embora, às vezes nos pareça difícil, o mundo avançou se compararmos com o tempo de tuas avós, tua mãe e todas as mulheres de tua família. Muitas ou quase todas estudaram, têm seu trabalho, são mulheres independentes, foram criadas com mais autonomia e liberdade de escolha.

E nesse sentido te desejo que tenhas teu espírito completamente livre para fazer as tuas
escolhas pessoais e profissionais. Vais escolher e desfazer escolhas muitas vezes na vida e para isso não precisas te aprisionar. As lindas princesas dos contos de fadas eram prisioneiras de um destino comum. Não queira ser princesa. Que sejas uma jovem forte e segura, que não se deixa rotular, que saiba se defender de assédios morais e machistas, que veja a diferença entre os hipócritas e os justos, entre os bajuladores e a amizade sincera e que defendas sempre a igualdade, a justiça, a democracia e as boas causas. Te desejo que escolhas uma profissão, ou mais de uma e que teu trabalho não seja penoso, que te envolva, te faça crescer e te realize.

A vida tem muitos significados importantes a serem percebidos e tudo está dentro da
História, da Geografia, da Biologia, da Sociologia, no Meio Ambiente, nas Ciências da Saúde, na Tecnologia, na Química, na Psicologia, na Literatura, nas Artes, na Música e até na Matemática que não gostas muito. Portanto, o estudo, que promove o conhecimento precisa ser valorizado. Enfim, o nosso futuro como humanidade depende que interpretemos esses significados para podermos entender a nossa própria vida, perdermos os medos e escolhermos nosso caminho com liberdade.

Não te preocupa se o rumo que darás para tua vida seja, por vezes, diferente dos demais ou do que as pessoas esperam que tu siga. Quem te ama, continuará te amando e sempre vai torcer para a tua felicidade, mesmo que errando muito pelo caminho. 

Sim, vais cometer erros como todos nós cometemos. Vais te equivocar, vais te deixar levar por impulsos ou mesmo pensando mil vezes, podes cometer erros que na maioria das vezes podem ser contornáveis. Os erros não contornáveis podem se diluir no tempo, mas também podem deixar sequelas, principalmente os erros ou abusos que possamos cometer com nosso corpo. Há que ficar atento a eles e aqui me refiro ao consumo de álcool, drogas, tabaco e hiperalimentação.

Não tome tempo e energia no que não te faz crescer como pessoa, como a inveja, o ciúme, a desesperança e a ansiedade. Cerca-te de pessoas sensíveis, inteligentes, respeitosas e empáticas.

Aqui eu aproveito para pedir que contribuas para que o nosso planeta seja auto-sustentável com pequenos gestos diários de economia de energia, água e uma correta destinação do lixo. Não compre coisas por impulso, pense antes se tu realmente precisa dessas coisas e não acumule demais. Doe o que tu não precisa. Quando puderes faça uma poupança e não esbanje recursos naturais e econômicos.

Cuida de teu corpo consumindo alimentos variados, frutas, verduras, alimentos crus e não
exagere nos produtos industrializados ou muito manipulados. Pratica alguma atividade física que te dê prazer. Não seja escrava de modismos ou de modos de agir, vista-se da maneira e com as cores em que estarás mais cômoda e dentro de tua própria criatividade. 

Queres simplicidade? Pois seja simples e básica e não aceita imposições para usar muita maquiagem, salto alto, etc. Tua beleza é única e não precisa de artifícios. Aja segundo tua personalidade e teu coração. Seja leve, não carregue pesos desnecessários dentro da alma.  

Pratica sempre a solidariedade e reconheça outros povos, culturas e nações como teus irmãos.
Descubra o poder e a riqueza dos livros e aprenda outros idiomas.

Tenta expressar tuas emoções através da arte, através de conversas com teus pais e amigos, conta tuas experiências, não fique com dúvidas, não alimenta medos sem sentido e não te culpa de nada.

Entenda teus pais e te faça entender por eles através de muita conversa, boa convivência, perguntas e questionamentos. Não tenhas vergonha de expor tuas emoções e tuas dúvidas a eles. Sempre peça ajuda primeiro a eles.

Saiba que tua vinda foi muito esperada e desejada, por isso tenha gratidão pelas circunstâncias que te fazem feliz.

Me perdoa por tantos conselhos e advertências, pois sei que és uma pessoa inteligente, mas esse é um defeito de pais e avós.
E quero encerrar te pedindo que me perdoe também por ter optado viver geograficamente tão longe de ti e de teu pai, esperando que o futuro te dê todas as explicações que hoje ainda não foram suficientes. 

Aqui, do outro lado do oceano, te esperarei sempre se um dia venhas me visitar ou se quiseres viver um tempo por aqui. Há um imenso mundo a conhecer e coisas para aprender.
Mas se não vieres, não tem importância, eu irei matar as saudades como faço todos os anos.

Aproveita a companhia de teus pais, avós, bisos, dindos, amigos e toda a família na tua festa e come um pedaço de bolo por mim!
Te amo, feliz aniversário com um forte abraço!
Tua vó
Eliane        


                                                 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O menino presente

Todos os bebês nascidos na Finlândia recebem essa caixa-berço ao nascer recheada com produtos até o primeiro ano de vida

No princípio eram dois jovens cheios de sonhos e amores. Em dezessete anos já haviam chegado cinco e então somavam sete. Depois de vinte e poucos anos veio o menino L, logo mais outro menino  L, depois uma menina I e mais dois meninos V e D que nasceram bem perto um do outro, quase gêmeos. Passou uma década e logo no começo de outra veio mais a menina M. E durante essa década, a última menina se manteve como caçula, a ultimogênita e parecia um fim de safra. E todos já sentiam-se multiplicados e comemoravam à larga muitas datas festivas.

Mais outra década passava e os primeiros meninos já estavam crescidos, quando no começo do segundo milênio chegava uma menina de segunda geração que chamaram de L.
E realmente, o começo do segundo milênio foi pródigo. Em sua primeira década, além da menina L citada anteriormente, vieram as meninas M e B da primeira geração e na segunda década veio a menina E, o menino L e mais a menina J. Os três últimos já eram de segunda geração. Sim, soa um pouco confuso. Parece um texto de uma realidade distópica, algo retirado de uma gênese bíblica ou um manual de genética, mas nessa árvore genealógica sem lógica todos saberão quem é quem.

Agora, passados sessenta anos, de sete, ou melhor, partindo do casal original, a família atinge a cifra de dezenove membros diretos, sem contar os companheiros(as), maridos(esposas), namorados(as) que chegaram por afinidade e não menos importância, porque afinal, também fazem parte dessa gênese.

E o tempo reserva muita surpresa. O primeiro par vendo sua prole crescer tanto, lhes agradava  comemorar os natais desde o tempo que os seus cinco eram crianças. O Natal, a despeito de ser uma celebração religiosa da cristandade, tornou-se nesse grupo um evento obrigatório. O ato de estar juntos nesse dia significa para eles selar ou ratificar muito mais que um sentimento religioso, familiar ou de consanguinidade. É uma comunhão de afetos. Ouso dizer que existe dentro de cada um deles um sentido ainda maior que as noções de paz, conciliação e harmonia que nos princípios religiosos atribuídos a essa festividade. É uma celebração de partilha, de amparo e de gratidão.

Uma montanha de presentes, brinquedos, música, dança, choro, brigas de crianças, afazeres, preparativos, gritaria, risadas, bagunça, desarrumação, algazarras, muita conversa, comida e bebida fazem parte dessa festa ao longo das três últimas décadas, a qual vem abrigando cada vez um número maior de participantes à parte da família original, também outros grupos de outros laços familiares também imprescindíveis.

Então, o final da segunda década do segundo milênio reservou uma surpresa mais bonita que as que já vinham tendo ao longo dos anos com os nascimentos de crianças tão esperadas. Como um símbolo de "boa nova", como um presente coletivo,  no dia 25 de dezembro de 2019 nasceu mais um menino que só faltou vir envolto para presente. E aqui, é impossível abster-se de dizer seu nome  -  Pedro, o Vigésimo

É ...Parece nome de rei, mas cabe ressaltar que como, absolutamente todos são contra monarquias e sistemas antidemocráticos de convivência, Pedro chega único e livre na sua essência de ser humano e outro mais genuíno semelhante frente a todos que o recebem e que, como sempre tratarão de lhe reservar amor incondicional. Pedro verá um mundo que muitos, naturalmente já não estarão mais aqui para ver e poderá fazer que seus pequenos olhinhos de hoje sejam os olhos de todos mirando um futuro que certamente será muito distinto. 

Que Pedro viva num mundo de seres humanos que se fortaleçam na diversidade dentro da percepção de sua igualdade, num mundo que não obrigue ninguém a seguir manuais, normas ou receitas ultrapassadas de comportamento, num mundo que esteja reconciliado e conciliado com a natureza, num mundo que se ordene pela fraternidade, solidariedade e justiça por mais utópicas que soem essas palavras nos dias de hoje. Outros meninos e meninas virão, é certo. A vida seguirá seu curso com a esperança universal de que tempos melhores também virão e que todos voltem sempre a desfrutar juntos.

Ao par original toda a gratidão do mundo, 
Aos mais velhos da prole, perdão pelos dias serem como são... 
E um pedido :


"E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim
E quando largarem a mágoa
E quando lavarem a alma
E quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim
Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim"

Aos Nossos Filhos, Ivan Lins e Victor Martins







terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Dois mil quilômetros e onze dias


Quando se planeja uma viagem nem tudo sai exatamente igual ao planejado, porque é normal que  possam ocorrer alguns contratempos, atrasos, desencantos, condições climáticas extremas, cansaço, indisposição, etc. No entanto, relato aqui como podem ser divertidos e movimentados onze dias planejados em poucas semanas com pouquíssimas intercorrências e nenhum incidente. O roteiro previsto era fazer um percurso de carro saindo de Combarro, Comunidade de Galícia na Espanha e chegar à Comunidade Andaluza no sul do país distante quase mil quilômetros. Não era a primeira vez que eu visitava a Andaluzia, portanto já tinha alguma informação e algumas impressões sobre os lugares, mas cada viagem é única e nos reserva sempre novidades. Era agosto, auge do verão europeu e fazia dias ensolarados e muito quentes, clima típico daquela região para aquela época do ano. Éramos três viajantes, meu marido, uma prima e eu e tínhamos combinado não estar na estrada muitas horas por dia, para isso traçamos um roteiro que atravessava Portugal de norte a sul antes de entrar na região da Andaluzia, descansando cada noite em um lugar diferente. As cidades distavam mais ou menos três a quatro horas de viagem e completamos um círculo fazendo um total de mais ou menos dois mil quilômetros entre ida e volta. Tínhamos todos os hotéis e apartamentos reservados antecipadamente e não houve praticamente nenhum problema de chegada ou saída a não ser alguns pequenos desagrados com as acomodações. 
Salamanca

Primeiro Dia, 12 de agosto:
Saindo de Combarro pela manhã iniciamos o roteiro português chegando à Braga para um pequeno passeio e almoço. Visitamos o Monte do Bom Jesus, o simpaticíssimo e secular centro histórico da cidade que foi parte da civilização romana e é patrimônio histórico da humanidade. Em outra oportunidade visitando Braga tive tempo de conhecer o museu da Igreja da Sé onde se encontra a cruz da primeira missa rezada no Brasil quando do "descobrimento".
Após o almoço fomos direto para Aveiro onde era nossa primeira parada para dormir. A Veneza Portuguesa estava lá sempre linda e movimentada. Tivemos um delicioso café no Gato Preto, cafeteria central e famosa pelos pastéis de nata portugueses. Andamos e fizemos algumas fotos ao longo do canal que transpassa a cidade contemplando os moliceiros, embarcação típica que percorre o canal para passeio dos turistas. Tivemos uma ótima recepção e bate-papo com nosso simpático anfitrião e mais à tardinha fomos à Praia da Costa Nova, aquela das casinhas listradas. Soprava um vento até bem frio ali, mas a vista deslumbra sempre.

Aveiro

Segundo Dia, 13 de agosto:
Saímos pela manhã de Aveiro rumo à Coimbra para um passeio e parada para o almoço. Lá estava o Arco da Almedina, a Universidade milenar, o Rio Môndego, o centro histórico movimentado e quente. Coimbra é definitivamente um museu a céu aberto, um ambiente onde a cultura está no ar, pois abriga uma das universidades mais antigas da Europa, onde estudaram e professaram vários notáveis de muitas áreas do conhecimento. Apesar da beleza das antigas edificações o que sempre me chama mais a atenção em Coimbra é o pavimento milenar das ruas e das antigas escadarias que unem as partes alta e baixa da cidade. Fico imaginando quantos milhões de pessoas andaram por ali desde séculos, o que faziam, o que pensavam, o que sonhavam. 
Depois do almoço o destino era Santarém que tem uma característica que já percebi em muitas cidades portuguesas. Ali o tempo parece não fazer nenhuma diferença. A vida parece fluir com uma tal tranquilidade e silencio como se as pessoas estivessem sempre em uma siesta, naquela hora de dormência, letargia, sem ruídos e muita calmaria. O Jardim das Portas do Sol é um bonito parque amuralhado no alto da cidade. De lá tem-se uma bela vista do Rio Tejo que passa ao lado da cidade. Pernoitamos em Santarém num amplo apartamento onde fomos recebidos com a amabilidade que é a característica dos portugueses.
Coimbra

Terceiro Dia, 14 de agosto :
Saímos cedo de Santarém sempre em direção ao sul e chegamos a Albufeira. Região do Alentejo português, Albufeira é uma praia linda e larga de areia fina e muito branca com casarios construídos numa encosta. Ruas estreitas, janelas amarelas, paredes brancas e muitos resorts constituem a paisagem de Albufeira. Fazia um sol forte e a praia estava cheia. Tivemos um almoço típico português num pequeno e simpático restaurante recomendado por amigos. De Albufeira tocamos para Faroonde era o seguinte pernoite. Faro está localizado no extremo sul de Portugal ao lado de um grande estuário, onde pedaços de mar adentram o continente, formando rias um tanto semelhantes às Rias Baixas galegas. À tardinha, o passeio marítimo que contorna o centro histórico estava movimentado. Pela proximidade do aeroporto, a cada cinco minutos aviões chegavam e passavam rente ao passeio público no seu processo de aterrissagem. Era uma visão impressionante.

Albufeira

Quarto dia, 15 de agosto :
Saímos de Faro logo cedo, depois de uma noite quente e sem ar condicionado. O apartamento era pequeno e os quartos localizavam-se no andar de cima com o acesso dificultado por uma escada estreita e íngreme. Foi nosso primeiro desconforto com uma acomodação que deixava a desejar no quesito acessibilidade. Passamos a fronteira novamente para o lado espanhol e chegamos à Sevilha pela hora do almoço e já estava horrivelmente quente. Tínhamos uma reserva num apartamento à beira do Rio Guadalquivir, bairro de Triana, onde o centro da cidade fica a apenas alguns poucos minutos a pé. O primeiro ato ao chegar ao apartamento depois do almoço foi ligar o ar-condicionado ao máximo, pois o mormaço da rua era insuportável. Essa hora já fazia perto dos 40 graus e até às seis da tarde não nos animamos a sair à rua. O apartamento em Sevilha foi uma das nossas melhores escolhas e descansamos ali confortavelmente instalados até o calor amainar. Andamos à tardinha pelo centro da cidade onde mesmo com o sol mais baixo a sensação térmica ainda era sufocante. Tive vontade de comprar um leque daqueles das dançarinas de flamenco. As carrocinhas típicas sevilhanas passavam cheias de turistas e me deu muita pena dos cavalos. O calor prejudicou muito nossa passada por Sevilha, repetindo o fato de minha primeira visita à cidade anos atrás. Sem dúvida, é um lugar para visitar em outras estações do ano. 
Praia da Costa Nova, Aveiro

Santarém
 Quinto dia, 16 de agosto :
Após passarmos a noite em Sevilha saímos cedo em direção à Cádiz. Foi uma rápida visita pelo centro antigo e uma pausa para o almoço. Vimos uma cidade grande e muito antiga, com um porto imenso e bastante importante, edificações impressionantes e turistas de várias partes do mundo. As ruas centrais, só para pedestres, são sinalizadas com placas antigas de pedra, coladas às esquinas, como um mosaico de desenhos coloridos e escritos feito à mão. Algumas pareciam obras de arte. Almoçamos num restaurante com as mesas na rua, assim como a maioria dos restaurantes dali. Não lembro o que pedi, mas aproveito para comentar que na Espanha a maioria dos restaurantes oferece o menu del dia, ou seja, estão listados em cartaz fora do estabelecimento as opções de primeiro prato e segundo prato. Geralmente há uma média de três opções de primeiro e segundo, mas dependendo do local pode haver até quatro ou cinco. No preço do almoço está incluído uma bebida, o café e em alguns até a sobremesa e o preço pode variar entre 12 a 15 euros em média por pessoa nos lugares mais econômicos. Porém esse formato só funciona para o horário de almoço que começa a partir de 13:30 da tarde e se estende até às 16 horas (os espanhóis são famosos por terem esse costume de almoçar à meia tarde) e exceto finais de semana, quando o serviço é todo a la carte.
Saímos de Cádiz depois do almoço rumo à Tarifa nossa próxima parada. Era uma sexta-feira e estaríamos em Tarifa todo o fim de semana. No caminho, tivemos a oportunidade de passar por um típico "pueblo blanco" andaluz chamado Vejer de la Frontera. A pequena cidade está encravada numa colina e as edificações são literalmente todas brancas. A visão impressiona a cada curva da subida da encosta.
Em Tarifa tínhamos uma reserva numa casa distante uns 5 km do centro da cidade perto de uma praia de surfistas. Era uma típica casa de praia rodeada por outras quatro ou cinco mais ou menos parecidas com um pátio interno comum, protegidas por muro alto e portão. A casa tinha cômodos pequenos e um pouco apertados. A cozinha deixava muito a desejar, pois era muito antiga e o fogão a gás não funcionava bem. Felizmente as camas eram confortáveis, havia ar condicionado e uma agradável varanda externa para compensar. O acesso desde a estrada principal até o portão de entrada foi a pior impressão que tivemos. Não havia um caminho demarcado e tivemos que ligar para o anfitrião para nos guiar e recolher a chave que estava num daqueles cadeados inteligentes manejados por código e pregado ao muro. O terreno era de chão arenoso e vegetação rasteira, sem sinalização e com muitos buracos. Nos surpreendeu muito que um lugar cheio de casas de veraneio ao redor se encontrasse assim, sem uma infraestrutura mínima. Notava-se que havia muita gente no lugar pelo número de carros e motorhomes que amanheciam estacionadas por todo o terreno.
Depois de instalados fomos visitar a cidade. Tarifa é um porto marítimo também importante do sul da Espanha e uma pequena cidade praiana bastante turística. A pequena cidade é conhecida mundialmente pelo kitesurf, esporte praticado ali por surfistas do mundo inteiro. Tínhamos um bilhete de barco saindo do Porto de Tarifa para o domingo. O barco nos levaria para um passeio de 8 horas à cidade de Tanger no Marrocos atravessando o Estreito de Gibraltar até o continente Africano. Mas esse passeio à Tanger contarei numa postagem em separado, porque salvo alguma pequena decepção, a mim foi o ponto mais alto da viagem.
Cádiz

Vejer de la Frontera

Sexto dia, 17 de agosto:
Era sábado e saímos de manhã para explorar os arredores e fomos a Algeciras para um encontro com amigos e almoço. No caminho a Algeciras paramos no Mirador del Estrecho de onde se pode ter uma linda vista do Estreito de Gibraltar e do Continente Africano. Na volta do almoço passamos na Praia de Getares por sugestão dos amigos e depois retornamos a Tarifa. A tarde ali estava movimentada, ouvíamos as pessoas falarem em vários idiomas e havia muito movimento nas pequenas ruas estreitas, nos restaurantes, lojas de souvenirs e nos cafés. O porto marítimo é bem estruturado, como um aeroporto em miniatura. Saem barcos de passageiros para vários destinos e a maioria são ferries que transportam além das pessoas também carros particulares e ônibus de turismo. Há controle de imigração feito pela polícia espanhola. Os ferries são bastante utilizados pela população marroquina que mora na Espanha. Chegam de carro à Tarifa, tomam o barco e seguem viagem pelo Marrocos ou para outro país africano.

Faro
Albufeira

Sétimo dia, 18 de agosto:
Era domingo e dia de nosso passeio a Tanger que contarei em texto separado.

Oitavo dia, 19 de agosto:
Já era segunda-feira e saímos cedo em direção a Marbella, na província de Málaga para almoço e passeio. Eu já conhecia Marbella, mas ela encanta sempre. Suas ruazinhas do centro histórico se caracterizam pelos vasinhos de flores coloridas pregados pelos muros e paredes brancas. A praia localizada na costa do Mar Mediterrâneo é uma visão impressionante de mar verde e calmo. Numerosas espreguiçadeiras e guarda-sóis de madeira e palha estão enfileirados milimetricamente na areia. Não há ruído, nem música, nem agitação de gente como nas praias brasileiras. Até o mar é silencioso. A visão é bonita, mas um tanto melancólica. Depois do almoço era hora de seguir para Torremolinos onde chegamos ao entardecer depois de optarmos por um caminho de trânsito bastante pesado pela orla marítima. Em Torremolinos fomos recepcionados por nosso anfitrião, um rapaz simpático de origem belga que nos apresentou um apartamento bastante confortável, mas um tanto longe da praia e do movimento dos veranistas. Fizemos um longo percurso a pé ao longo do passeio marítimo até chegar a Benalmádena,uma praia onde costumam frequentar muitos suíços, alemães e ingleses e pudemos observar um agitado porto marítimo com uma arquitetura bastante peculiar.
Marbella

Marbella
Nono dia, 20 de agosto:
Saímos cedo de Torremolinos deixando a Comunidade de Andaluzia e começando a fazer o caminho de volta. Mérida, nosso próximo destino era a escolhida para ser nossa passagem pela Comunidade de Extremadura. Pela hora do almoço ainda estávamos na estrada e tivemos a sorte de encontrar um restaurante na pequena Almendralejo, província de Badajoz distante uns trinta quilômetros de nosso destino. Ali comemos comida caseira e econômica em La Taverna de Rafael reconhecido com selo de qualidade pelo sítio de viagens Tripadvisor, como observamos depois. Mérida também estava bastante sufocada pelo calor que fazia. Nos hospedamos num hostal pequeno e confortável. Depois fomos dar uma volta pela cidade onde se localiza o emblemático Anfiteatro e Teatro Romano, patrimônios da humanidade e mais um sem fim de arcos, muralhas e ruínas romanas ao longo do trajeto pelo centro histórico. O centro de Mérida me pareceu um lugar de gente alegre e festiva.
Mérida

Décimo dia, 21 de agosto:
Deixamos Mérida e seguimos para Salamanca, terceira cidade mais populosa da Comunidade de Castilla y Léon. A cidade é famosa por abrigar uma das universidades em atividade mais antigas do mundo, fundada em 1218 pelo rei Alfonso IX. Em Salamanca também fazia calor e as ruas, como sempre repletas de turistas. A cidade antiga é um conjunto de edifícios históricos declarados Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Em Salamanca nos hospedamos num hotel bastante confortável e perto do centro. No almoço provei arroz negro con calamares y gambas (arroz cozido com a tinta de lula, lulas e uma espécie de camarão grande) que comi como se fosse o último almoço da vida. O prato é delicioso de qualquer maneira, para famintos ou não, com o único inconveniente que o arroz é al dente demais, bem mais que nas paellas que tenho experimentado e esse detalhe não sei se faz parte da receita ou da maneira de fazer daquele restaurante em especial.
Cádiz
Salamanca

Igreja da Vera Cruz de Carballiño

Arroz Negro Foto: Google
Décimo-primeiro dia, 22 de agosto:
Saímos de Salamanca pela manhã, pois já era hora do retorno à Galícia. Fizemos uma pausa em Puebla de Sanábria, lugar muito agradável para descanso de viajantes vindos do Sul ou da capital Madrid, pois se encontra no meio do caminho entre as comunidades. Antes de chegar à casa, almoçamos em Carballiño, província de Ourense onde comemos ótima comida caseira.

Fotos: Arquivo pessoal Juan Carlos Pérez



Insônia