sábado, 15 de julho de 2023

Casas e caminhos

                                                  

Foto: Arquivo Pessoal

Já parei de contar em quantas casas morei, passam de 20 e em vários lugares. Lembro de quase todas. As que vivi com meus pais foram inúmeras. Mudei de colégio várias vezes, os primeiros tempos sempre eram difíceis, mas acabava me adaptando. Cresci numa metrópole e fiz o caminho inverso de meus pais, quando fomos para o interior no começo da adolescência. Convivi com costumes e culturas os mais diversos e percebia as peculiaridades de cada região. Muitas não me agradavam. Minha trajetória de vida é feita a pedaços de lugares e sempre me senti deslocada de onde vivia, talvez até hoje, fuera de lugar.

Tenho três casas especiais. A primeira é a da infância, meu maior arraigo, minha principal referência e que já detalhei num texto antigo no blog. Morei até os 12 anos naquela esquina no meio do bairro Bela Vista, Porto Alegre. A casa não existe mais há décadas, virou um prédio de apartamentos.

A segunda é a minha primeira casa própria, projetada detalhe a detalhe com meu primeiro amor. O dia da mudança foi um dos mais felizes que tenho lembrança, um sábado de dezembro de 1997. Eu ainda não tinha completado 40 anos. Havia quintal, árvores, plantamos flores e gramado, adotamos uma mascote, peixes de aquário e havia churrascos de domingo. Foram quase 20 anos. Quando alguém tem disposição e condição para projetar sua casa em algum lugar é porque pensa adiante. Pensar longe para manter uma felicidade perto. Porém, somos incapazes de prever as rupturas que a vida nos reserva e não nos resta alternativa senão seguir adiante.

A terceira foi um apartamento à beira mar num dos lugares mais incríveis do mundo e pelo curto período de 7 anos. Ali a felicidade se mesclou com a dor e a perda. Já relatei aqui sobre esse lugar diversas vezes e não quero mais revolver feridas. Um dia retornei às duas últimas a buscar pertences e foi difícil recolher aqueles pedaços de vida.

Registro a memória dessas moradas onde ficaram rastros, digitais, ecos de sorrisos, esperas, choros e alegrias. Tudo ficará para sempre ali aderido. E o amor que ficou em cada uma e por cada um não cabe nas tantas caixas e bagagens que fui carregando de um lado para outro nessa errante vida.

Um comentário:

  1. Deixas transparecer uma saudade melancólica...mas junto, ares de uma felicidade intensa enquanto durou...

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