quinta-feira, 9 de abril de 2020

A pandemia e o paquiderme



O mundo vive uma calamidade, a pandemia da Covid-19 provocada por um coronavírus que infectou um ser humano pela primeira vez em dezembro de 2019 na província de Wuhan na China. Existem algumas hipóteses que o comércio de animais silvestres vivos e mortos nesse país esteja relacionado com a infecção pelo microrganismo em um ser humano, mas não há nada conclusivo ainda.

Desde o primeiro contágio já foram contaminadas quase um milhão e meio de pessoas e quase cem mil já morreram no mundo inteiro. É a primeira grande pandemia do século XXI de um vírus relativamente desconhecido e ainda não houve tempo hábil para que os cientistas  desenvolvessem uma vacina para prevenir a doença, como temos para a grande maioria das doenças infecciosas, nem um tratamento eficaz que evite a morte de todas pessoas contaminadas, embora a letalidade da doença não seja alta e centenas de pessoas já se recuperaram.

A Espanha é o segundo país mais afetado no mundo com a cifra de 150 mil casos no momento e o governo sob a orientação da Organização Mundial da Saúde e seus técnicos, decretou “Estado de Alarma” desde o dia 15 de março impondo o isolamento social horizontal. O decreto colocou toda a população em confinamento como forma de evitar a propagação do vírus, proteger as pessoas mais vulneráveis, os idosos e portadores de doenças crônicas, assim evitando o colapso da Unidades de Terapia Intensiva para onde vão os casos mais graves, porque a doença afeta o sistema respiratório. O decreto do governo espanhol é audacioso e corajoso. É um verdadeiro “lockdown”, termo em inglês que significa que as pessoas não têm autorização para sair de suas casas ou de um determinado espaço por causa de uma situação de emergência.

As autoridades sanitárias do país passam boletins diários pela televisão para manter a população informada e todos os ministérios estão envolvidos nesse esforço, articulados e coordenados para promover a solução dos problemas gerados pelo isolamento e gerir a epidemia propriamente dita.

A Espanha, com um dos melhores sistema públicos de saúde da Europa, relutou no começo da epidemia, como fez a Itália, em determinar o isolamento social temendo o impacto na economia. Mas de maneira firme, corajosa, com inteligência e norteada pela ciência vem manejando a crise e logo poderá ver o sucesso das medidas se tornarem uma realidade, quando diminuir a curva de contágios e a epidemia finalmente estiver controlada.

O medicamento hidroxicloroquina jamais foi citado pelas comunidades científicas da Espanha, da China, da França ou da Itália como uma terapia que tivesse apresentado resultados absolutamente favoráveis em algum paciente em seus territórios. Se houve experimentos ou não, eles têm a responsabilidade e a ética de manter em sigilo seu uso.  Se acaso o uso do medicamento tivesse tido sucesso, eles teriam a mesma ética e responsabilidade de informar à comunidade científica internacional.

O Brasil, nesse momento passa pela fase em que se encontrava a Espanha em fevereiro, quando os casos ainda não tinham explodido em progressão geométrica e a população não tinha consciência do que viria, embora já com medidas de confinamento em andamento.
Agora, infelizmente, está seguindo um rumo perigoso. Embora muitos Estados e cidades decretaram estados de emergência, os meios de comunicação estejam orientando relativamente bem as pessoas para permanecer em casa e cumprir as normas de prevenção, muitas pessoas não estão conscientes da gravidade do problema. Pelos estudos de especialistas, a explosão de casos no Brasil virá nos meses de maio e junho e atingirá em cheio as camadas mais pobres da população pela precariedade de moradia, das condições alimentares e de saúde.

Para piorar a situação, o Brasil tem um governo central incoerente, inepto, desarticulado, desarmônico, alheio à realidade, não respeita as necessidades do povo, desdenha das leis de proteção social, ocupa-se de questões eleitorais e ideológicas e não tem um plano de medidas sistemáticas e fundamentadas para enfrentar essa grave crise da humanidade.

Para piorar ainda mais o drama brasileiro, está um paquiderme dentro da sala da presidência da República que toda vez que se move quebra uma regra constitucional e desonra a Nação com pronunciamentos vexaminosos. Além de apresentar sérios problemas cognitivos e de sanidade mental, o paquiderme está sob a orientação de pessoas de caráter duvidoso e de zero conhecimento científico. Esses baseiam-se em estudos não conclusivos, mentiras e pseudoteorias desenvolvidas por fanáticos que frequentam os nichos mais obscuros da internet. Além disso, o paquiderme esforça-se em críticas e maledicências contra quem está tentando tomar atitudes corretas. 

Nessa direção equivocada, o monstro do Planalto invade competências alheias, contraria as instituições públicas e humilha profissionais de saúde, recomendando o uso de um medicamento que não tem comprovação científica nem para curar nem para prevenir a Covid-19. Essa é uma atitude totalmente irresponsável que pode prejudicar pessoas com outras enfermidades que necessitam do medicamento e que fazem seu uso correto. Os preços podem aumentar pelo aumento da demanda incentivada pela propaganda enganosa ou provocar uma desenfreada procura no mercado negro. Isso tudo é muito perigoso para o conjunto da população e com consequências que podem ser hoje inimagináveis e imensuráveis.

Sendo testemunha do que está acontecendo na Espanha e diante desse caos que avisto no panorama brasileiro, peço encarecidamente aos sensatos, prudentes e equilibrados que se ajudem para melhorar e fortalecer o isolamento social.  Mantenham sob proteção e vigilância os idosos e as crianças. Quem pode, permaneça em casa e só saia para as compras essenciais protegendo-se com luvas e/ou máscaras. Tentem passar essa fase de um jeito mais criativo e otimista possível. Não é fácil e para alguns será muito difícil, mas vale a pena, vale a vida. 
Sem mais, peço desculpas aos elefantes.








terça-feira, 24 de março de 2020

Um tributo à Ignaz Semmelweis

           
" É muito provável que você , eu e muitos mais tenhamos uma dívida impagável com um médico húngaro de século 19, Ignaz Philipp Semmelweis (1818-1865) que na tenra idade de 29 anos fez um descobrimento que salvou milhões de vidas, enquanto devastou sua vida pessoal. Nascido em 1818 em Budapeste, estudou Medicina na Universidade de Viena, doutorando-se  em 1844 na especialidade de Obstetrícia e em cuidados médicos no pré-natal,  parto e puerpério. Dois anos depois entrou como médico assistente na primeira clínica obstétrica no Hospital Geral de Viena. O que encontrou ali lhe horrorizou. 

Naquele tempo a maioria das mulheres davam à luz em casa com uma alta taxa de mortalidade. A metade dos falecimentos se deviam à chamada febre puerperal, que hoje sabemos que é produzida por uma infecção generalizada chamada septicemia. O mais terrível era que as mulheres que davam à luz nos hospitais e as crianças que nasciam ali tinham uma incidência de febre puerperal maior que as que davam à luz em suas casas. A doença era atribuída ao isolamento nos hospitais, má ventilação e também ao começo da lactância.

O britânico Oliver Holmes já havia notado que a doença era transmissível e um provável veículo eram os médicos e parteiras, mas não havia comprovações experimentais. Semmelweis observou em sua clínica que a mortalidade era de 13,1 % das mulheres e recém-nascidos, uma cifra aterradora.  Nos hospitais europeus em geral a cifra chegava de 25 a 30 %, enquanto que na segunda clínica obstétrica de um mesmo hospital a mortalidade era de 2,3 %. Analisou ambas as clínicas e observou que a principal diferença entre elas era que uma delas  se dedicava a preparar estudantes de Medicina e a outra preparava parteiras. Os estudantes de Medicina, como até hoje, realizavam dissecções de cadáveres como parte fundamental de sua formação, coisa que não faziam as parteiras.

Em 1847, Jacob Koletska professor de Medicina Forense e amigo de Semmelweis cortou-se um dedo acidentalmente com um bisturi durante uma autópsia. O estudo do corpo de Kolestska revelou sintomas idênticos aos das mulheres que morriam de febre puerperal. Semmelweis concluiu que deveria haver algo, uma substância, um agente desconhecido presente nos cadáveres que era levado pelos estudantes da sala de dissecções para a sala da maternidade onde causava a febre puerperal. Era a hipótese do envenenamento cadavérico.

Em maio de 1847, Semmelweis propôs que os médicos e estudantes lavassem as mãos com uma solução de hipoclorito e cloreto de cálcio entre as dissecções e a atenção às parturientes. Os estudantes e funcionários da clínica protestaram, mas ele insistiu e em um só mês a mortalidade diminuiu de 12,24% a 2,38%. Em 1848 a mortalidade em ambas as clínicas era igual a 1,3 %  e nos anos seguintes se mantiveram sem grandes diferenças. 

Era a demonstração contundente de que sua hipótese era sólida e seu colega Ferdinand Von Hebra escreveu dois artigos que explicavam as causas da febre puerperal e a profilaxia proposta para diminuir sua incidência. Para Semmelweis representou a terrível conclusão que com suas mãos sujas havia levado à morte muitas pessoas que somente desejava servir. Essa ideia o perseguiria até a morte e animaria sua luta pela profilaxia.

Os médicos que viam os dados contundentes de Semmelweis procederam a rechaçá-lo. A medicina pré-científica de então sustentava a crença de que a enfermidade era um desequilíbrio entre os quatro supostos humores do corpo humano : sangue, flema, bilis negra e bilis amarela. Essa crença de milênios não tinha nenhuma evidência científica em seu favor, mas se aceitava sem titubeios e diante disso  os colegas de Semmelweis se aferraram a esse rechaço e não aceitavam que uma enfermidade pudesse  transmitir-se pelas mãos humanas e não pelos maus ares, por miasmas e outras origens misteriosas.

De fato, a Medicina pré-científica da época e como muitas formas de pseudomedicina da atualidade afirmava que não havia causas comuns iguais e que cada enfermidade era única, produto de um desequilíbrio integral do organismo. Os médicos tratavam, então a febre puerperal não só como uma doença única e sim como um conjunto de várias doenças. 

O êxito do húngaro e sua participação pelos direitos civis nos distúrbios de 1848 levou Semmelweis ao enfrentamento com o diretor da clínica que sabotou seu possíveis avanços. Resolveu aí voltar à Hungria e passou por diversos postos de trabalho. Em 1851 combateu com êxito uma epidemia de febre puerperal fazendo cair a mortalidade até 0,5 %.
Em 1861, finalmente publicou seu livro sobre a Etiologia e Profilaxia da Febre Puerperal, mas novamente seus dados e provas obtiveram resistência. O enfrentamento com os colegas e totalmente convencido que era fácil salvar muitas vidas, Semmelweis começou a dar mostras de transtornos mentais e em 1865 foi internado em um asilo para doentes mentais tão pré-científico quanto era a clínica onde começou a trabalhar. 

Se sua enfermidade era grave ou se foi internado por pressões de quem rechaçava seus estudos é assunto de debate. Morreu no asilo somente doze semanas após sua internação, depois de adquirir uma septicemia por um corte num dedo, dizem alguns historiadores. Outros contam que morreu da mesma septicemia, depois de haver sido violentamente espancado pelos guardas do manicômio, procedimento comum e tradicional para tranquilizar os loucos naquela época."

Tradução livre de :

Só em 1883, Louis Pasteur iniciaria os fundamentos da microbiologia, a comprovação da existência dos microorganismos e a comunidade científica passou a considerar Semmelweis como o pai dos métodos de desinfecção e salvador das gestantes. Alguns livros dão conta que ao desenvolver o transtorno psicológico, Semmelweis andava pelas ruas gritando : -"Lavem as mãos, lavem as mãos!" 

Essa é uma das milhares de histórias de vida em que o obscurantismo vence a razão pela loucura. É um exemplo de quanto e como o obscurantismo é incapaz de louvar as mentes mais brilhantes por inveja e vaidade. O obscuro e medíocre aposta sempre no ultraje e enxovalhamento dos que buscam e têm talento para iluminar. Ainda hoje, século XXI, parte da humanidade ainda segue nessa mesma sintonia.





sábado, 29 de fevereiro de 2020

Tanger em 8 horas طنجه

Era agosto de 2019 e tínhamos iniciado uma viagem desde a Galícia até a Andaluzia, comunidades autônomas da Espanha, passando por várias cidades portuguesas e espanholas. Fazia parte do roteiro uma visita à cidade de Tanger no Marrocos, atravessando o Estreito de Gibraltar no Mar Mediterrâneo desde o Porto de Tarifa. Tínhamos reservado os bilhetes com antecedência no sítio denominado GetYourguide e a reserva incluía a travessia de ida e volta de barco, translado em ônibus dentro da cidade e passeio a pé com guia local e almoço.

O porto marítimo de Tarifa parece um mini aeroporto com amplas salas para espera, embarque e desembarque de passageiros, controle de metais e de imigração feitos pela Polícia Nacional Espanhola. Embarcamos às 10 horas de um domingo num confortável e enorme barco de passageiros que a empresa turística chama de balsa, porque transporta pessoas e veículos.
A balsa era super confortável com assentos estofados dispostos em dois largos deques envidraçados com  todo o serviço de bordo desde bares, lojas de souvenirs, sanitários e salas de entretenimento. Era um dia de sol pleno e a visão do mar durante a travessia pelo Estreito era impressionante. O trajeto tem cerca de 30 quilômetros e o tempo de viagem foi de mais ou menos uma hora.

Depois de desembarcar no Porto de Tanger e passar pelos controles de imigração e verificação de passaportes fomos recebidos pelo guia local. Ele nos agrupou, subimos num ônibus e fomos conhecer primeiro uma parte alta da cidade onde se localizam alguns órgãos de governo, parques, residências oficiais e alguns bairros mais nobres da cidade. As vias são muito bem arranjadas e nota-se o forte sentimento nacionalista, pois uma das avenidas portava de longe em longe e dos dois lados da via as bandeiras vermelhas com a estrela verde do Marrocos, hoje uma monarquia constitucional.

A primeira parada foi nas Cuevas de Hércules, um conjunto de cavernas e grutas antigas que, segundo a cultura popular estaria ligada ao mito do deus grego.
A gruta tem uma abertura para o mar que, segundo a lenda, barcos fenícios que aportavam ao continente africano criaram esta abertura com a forma do continente africano. A abertura na gruta nada mais é que um produto da erosão produzida pelos ventos, pelo mar e também por uma antiga atividade humana de extração de pedras das paredes para a construção de moinhos. Hoje não está mais permitido tocar, tampouco extrair nada do lugar que se transformou em famoso ponto turístico da cidade. O nome Cuevas de Hércules vem de outra lenda que conta que o mito grego pernoitou nestas grutas antes de terminar seus doze trabalhos.

Durante o passeio de ônibus fizemos também uma parada numa praia onde se podia admirar os dromedários que descansavam na areia e por dois euros era possível dar um pequeno passeio montado num desses animais, mas devidamente puxados por seus tratadores.
Depois do passeio de ônibus fomos deixados no centro histórico da cidade para continuar o trajeto a pé pelo meio da Medina,  como é chamado o bairro antigo das cidades muçulmanas, sempre com a companhia e as orientações em espanhol do guia local.

A Tanger antiga tem uma emaranhada arquitetura. É um verdadeiro labirinto de ruazinhas estreitas e não muito limpas em terreno inclinado com muitas das ruas formadas por degraus. As edificações são geralmente de dois ou mais pavimentos pintados de branco ou azul claro. Os fios de eletricidade se enredam entre os pequenos prédios. Ao longo do trajeto encontra-se todo tipo de comércio, mas o que vi mais foram barbearias, fruteiras e pequenos cafés de mau aspecto. Suas paredes e pisos parecem estar recobertos de uma sujeira antiga.

Há muitos vendedores ambulantes oferecendo souvenirs, roupas, quadros, echarpes, relógios e artigos eletrônicos. Eles são bastante assediadores com os turistas, insistem na venda, colocam seus produtos quase no rosto dos clientes, não desistem fácil, mas não são desrespeitosos.

Na hora do almoço fomos para um restaurante típico no primeiro andar de um pequeno prédio. Éramos um grupo de mais ou menos trinta pessoas e fomos dispostos em mesinhas baixas retangulares para seis lugares com os assentos em forma de bancos compridos e almofadados. O salão tinha as paredes pintadas com desenhos coloridos típicos da cultura marroquina e havia uma pequena orquestra tocando ao vivo. 

No cardápio não podia faltar o delicioso cous-cous marroquino, um cozido de cordeiro com verduras e a farinha de milho especial que faz parte da receita. Havia espetos de frango, servido assim mesmo, um espeto de metal para cada pessoa com pedaços de frango assado. A sobremesa era um pequeno biscoito doce, as bebidas, água ou refrigerante e no final um chazinho quente de folhas parecidas com melissa ou hortelã. Tudo com um sabor diferente do que jamais tinha experimentado.
Após o almoço seguimos com a visita e o guia nos levou para conhecer um bazar de artesanato local onde havia coleções coloridas de tecidos, tapetes, lenços e vestidos típicos. Também visitamos um herbolário, onde assistimos uma pequena palestra com o responsável-técnico mostrando as propriedades do óleo de argan, planta típica da região. Ali havia uma infinidade de potes de cremes, xampus, sabonetes, óleos, etc... e todos aproveitaram para umas comprinhas. Obviamente essas paradas fazem parte de um pacote acordado pelos agenciadores de turismo com o comércio local.

Depois de comprar alguns cremes, óleos milagrosos e muitos lenços multicoloridos paramos para ver um encantador de serpentes, aquele típico senhor de barbas brancas e turbante para o qual os turistas também deixaram algumas moedinhas em uma cesta que era recolhida por uma menina.

Ao final do passeio à pé fomos deixados em meio de uma pequena praça cheia de gente para um tempo livre. Perto dali aproveitamos para tomar um café, mas a cafeteria não tinha bom aspecto e se não me falha a memória o café foi servido num copo. 

Ali também havia muito assédio de ambulantes e crianças oferecendo produtos. O lugar era movimentado, com aspecto sujo e descuidado, embora houvesse hotéis em volta e turistas chegavam em carros de luxo. Essa foi a pequena mostra que tive da desigualdade social no Marrocos. Depois de muitas fotos e explicações do guia, retornamos ao porto para tomar o barco de volta à Tarifa. Foram oito horas que passaram como se fossem oito minutos.
Um dia gostaria de voltar a Tanger.




Insônia