quarta-feira, 17 de outubro de 2018

"Os Olhos dos Pobres" de Charles Baudelaire

        




  Uma analogia às atitudes de nossos amigos que optaram pelo fascismo
                                                                                     

"Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será mais fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar. 
Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou. 
De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança. 
Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade. 
Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda. 
Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?" 

Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!"


Como é difícil nos entendermos, queridos amigos, quando o pensamento se tornou estéril e vazio, enquanto os argumentos gritam de um lado, mas não alcançam os ouvidos de outro!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Filhos do solo gentil de mãos dadas com a barbárie

Eleição, opção, escolha, voto, sufrágio são palavras e atos dos mais dignos usadas numa democracia, pois teoricamente são responsáveis por mudar o destino, aperfeiçoar, criar condições de bem-estar e organização de uma comunidade, de um Estado, de um país. Democracia representativa significa a forma de poder que o povo exerce escolhendo periodicamente seus representantes para legitimar governos através da escolha de chefes de governo, presidentes, governadores e parlamentos. Não é ainda uma forma perfeita de organização social, de soberania e de representação popular, mas é a que está vigente no mundo civilizado depois de séculos de guerras, revoluções, quedas de regimes, tratados, declarações e convulsões sociais.
Exercer a cidadania é escolher pelo voto qual candidato, qual partido político ou qual regime político representa o mais perto de nossos anseios de arranjo e conformação social. Então, o respeito à dignidade desse ato se faz necessário, porque todos são chamados a opinar, mesmo que uns não queiram ou que prefiram viver em suas bolhas existenciais. A não ser que você viva na floresta, coletando ou plantando seu alimento, bebendo água da fonte ou da chuva, provavelmente você não necessita organizar-se com ninguém e ninguém vai opinar quanto ao seu modo de vida. Mas quando você vive em sociedade seja numa grande ou pequena cidade do interior européia, americana, asiática, mesmo numa tribo indígena, africana ou esquimó você estará sujeito à regras. E essas regras, no mundo ocidental, você é chamado a construir, a votar, a promulgar através de seus representantes os quais você escolheu livre e secretamente- o voto livre e secreto também foi uma escolha sua aprovada numa Constituição.
É espantoso, portanto que uma atividade tão digna e importante na vida das pessoas tenha sido tão vil e irresponsavelmente denegrida e desonrada nesse momento tão decisivo para o país.
Me refiro ao grotesco vídeo que circulou pela internet no dia das eleições presidenciais mostrando uma pessoa digitando o número de seu candidato - não sem espanto, a escolha fascista  - na urna eletrônica com o cano de uma arma. Eu ainda torço para que isso não tenha realmente acontecido numa sessão eleitoral e que foi só o delírio de um psicopata, buscando likes e seguidores entre seus pares, destes muitos que existem por aí que criam bizarrices e  enchem o sub-mundo da internet.
Mas o vídeo está aí e foi visualizado e compartilhado milhares de vezes para o espanto de uns e divertimento de outros. Espero que esta selvageria tenha sido devidamente denunciada e que os responsáveis sejam devidamente punidos. Se não, os simpatizantes da violência e do ódio contra a política e as instituições terão cada vez mais  salvo-condutos para praticar todo tipo de barbaridades e crimes amparados pela inércia da justiça e pela impunidade.
Nas duas situações, na autenticidade ou não do vídeo tento fundamentar a atitude da pessoa ou do grupo responsável pela postagem e tentar entender no que se baseiam atitudes dessa natureza no inconsciente dessas pessoas.
Nos últimos tempos, o assunto política e políticos ganharam uma posição de grande rejeição, indignação, escárnio e cólera por grande parte da população, quando viram os meios de comunicação sistematicamente jogarem  enxurradas de denúncias de corrupção e abertura de inquéritos policiais contra uma infinidade de políticos de todos os partidos. E ocorreu um fenômeno, cuja mídia e sistema judiciário também são responsáveis. O simples fato de alguém ser  denunciado já caía na percepção dos cidadãos como fatos verdadeiros, consumados, líquidos e certos. Ou seja, o "onde há fumaça, há fogo" prevaleceu e sabemos que essa máxima nem sempre é verdadeira. Os processos judiciais, geralmente morosos não acompanham as notícias que são instantâneas, então até que um processo judicial se conclua muitas reputações já foram enxovalhadas pela imprensa e a população digere o fato sem contestar. Tempos depois, quando sai uma decisão judicial inocentando alguém, isso já nem é notícia. Torna-se mais relevante o linchamento público, as acusações, as condenações sem provas e as punições ao "arrepio da lei". A despeito disso, é extremamente compreensível um nível de revolta contra todos os crimes cometidos por corruptores e corruptos que foram comprovadamente praticados e têm sido denunciados e provados por operações policiais até o momento. É incompreensível, no entanto, por que toda essa revolta é canalizada para gerar apoio a uma candidatura bizarra, fascista e que, perigosa e sistematicamente afronta a Constituição, se associa à violência e prega a necessidade do armamento do cidadão para sua "paz e segurança". As armas sairão de dentro das urnas e pergunto para quem, afinal serão apontadas? Quem são os alvos desses "cidadãos de bem" bem armados? Quem será condenado à execução sumária? Infelizmente, essa pergunta já está sendo pouco a pouco  respondida nas ruas e nos discursos de ódio na internet. Bom entendedor, entenderá.
O que faz uma parte da sociedade acreditar que a violência, a truculência e atitudes anti-democráticas sejam a solução para os problemas estruturais de uma Nação e que só um Chefe de Estado com características autoritárias, ditatoriais e de discurso tosco e agressivo sejam a solução para um país tão complexo como o Brasil. Desde 2014, estamos vivenciando uma crise ética e política que agora culmina, espantosa e perigosamente para uma crise civilizatória.

 Já dizia Berthold Brecht : "Que tempos são esses em que é necessário defender o óbvio?"

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

#Ele Não



Para quem perdeu o trem da história nesse 29 de setembro de 2018, porque "preferiu ficar sozinho bordando de ouro o seu umbigo engelhado", afirmo, com Thiago de Mello:
 "Para repartir com todos"
"Vamos achar o diamante
para repartir com todos.
Mesmo com quem não quis vir
ajudar, pobre de sonho.
Com quem preferiu ficar
sozinho bordando de ouro
o seu umbigo engelhado.
Mesmo com quem se fez cego
ou se encolheu na vergonha
de aparecer procurando.
Com quem foi indiferente
e zombou das nossas mãos
infatigadas na busca.
Mas também com quem tem medo
do diamante e seu poder,
e até com quem desconfia
que ele exista mesmo.
E existe:
o diamante se constrói
quando o procuramos juntos
no meio da nossa vida
e cresce, límpido, cresce,
na intenção de repartir
o que chamamos de amor.
Fascismo, Nunca Mais!

domingo, 16 de setembro de 2018

Passeio a Ponferrada, Astorga e León - Agosto 2018

Las Médulas
Foi uma antiga exploração romana de ouro a céu aberto e é hoje uma paisagem grandiosa e espetacular de formações avermelhadas e de bosques de castanheiros e carvalhos no local que anteriormente foi ocupado pelo Monte Medilianum. Foi a maior mina a céu aberto do Império Romano e hoje um testemunho histórico da exploração dos recursos naturais
O sítio de As Médulas fica na província de León, Espanha próximo da pequena aldeia com o mesmo nome. É Patrimônio histórico da humanidade.





















Catedral de Astorga
Astorga está localizada na província de León e sua catedral começou a edificar-se em 1471. É dedicada à Santa Maria.



 Palácio de Gaudi
Palácio Episcopal de Astorga é um edifício projetado pelo arquiteto espanhol Antonio Gaudí, ao estilo do modernismo catalão. Está situado na cidade de Astorga a uma distância relativamente curta de León. A construção foi executada entre 1889 e 1913.





Calle Ancha, León (Rua Grande)
Rua mais emblemática do centro histórico de León, cidade localizada na província de mesmo nome. Foi fundada no século I a partir de um acampamento de soldados romanos que protegiam o transporte de ouro de As Médulas até o Império. Foi edificada às margens do Rio Bernesga.

Catedral de León
Monumento histórico mais importante da cidade, construída em estilo gótico entre 1205 e 1301.O interior impressiona pela beleza dos vitrais.
Puebla de Sanabria
Puebla de Sanábria é um município espanhol localizado na província de Zamora e pertence à rede de aldeias mais bonitas e antigas do país.

 Castelo dos Templários, Ponferrada

Consta que o povoamento de Ponferrada  começou a partir da construção de uma ponte de ferro( Pons Ferrata) ordenada pelo bispo de Astorga entre os anos 1082 e 1096, depois foi construída uma igreja à São Pedro e para devoção dos peregrinos de Santiago de Compostela. Em 1178 a construção foi doada à Ordem dos Templários , daí o nome Castelo dos Templários.
"Em nossos dias, do recinto amuralhado medieval, muito alterado na época moderna, só permanece a Torre do Relógio, antigo portão de entrada dos peregrinos na cidade".(Wikipédia)


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Os nossos museus de irrelevâncias


 O Museu do Prado em Madrid foi inaugurado em 19 de novembro de 1819 é um dos mais emblemáticos museus de arte da Espanha. A maioria dos turistas que chegam a Madrid já têm agendada uma visita a esse importante ponto turístico que alberga em sua maioria trabalhos em pintura e escultura e cujo acervo está vinculado estreitamente com a cultura espanhola. Lá estão por exemplo, as obras-primas  "As meninas" de Diego Velásquez, "Os Fusilamentos" de Goya, "A anunciação" de Fra Angelico, obras que eu costumava admirar somente em gravuras nas minhas enciclopédias do colégio e um dia, tive a felicidade de contemplar esses quadros "vivos". Eu digo "vivos" porque quando se observam obras de arte desse calibre, parece que tomam vida pela beleza, pelas cores, pelo conteúdo, pela antiguidade e pela história que contêm. O museu tem sua gestão a cargo da Secretaria de Estado de Cultura, portanto de administração estatal e é frequentado por uma média de 250.000 pessoas ao mês. Em vias de completar 200 anos, por lá já passaram milhares de pessoas do mundo inteiro e seguramente muitos brasileiros.
O Museu Nacional do Rio de Janeiro foi fundado em 06 de junho de 1818 por D.João VI, tinha acabado de completar 200 anos, era um prédio tão majestoso quanto o Prado e abrigava 20 milhões de peças de valor incalculável e era o maior acervo da América Latina. Os dois museus são(eram) grandiosos em sua estrutura e no valor que abrigam (abrigavam). Digo era, porque todos sabem que o fogo tomou conta do Museu Nacional no último domingo, dia 02 de setembro e com ele foram perdidos milhares de registros históricos e o trabalho de muitos artistas e pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Infelizmente, constatei que o número de visitantes no Rio de Janeiro ficava bastante aquém do Museu de Madrid já que por ali passavam escassas 5 a 10 mil pessoas por mês. O Brasil tem uma população 5 vezes maior que da Espanha. É certo que os visitantes do Prado são de toda a União Européia que tem 500 milhões de habitantes e também do mundo inteiro, mas a América do Sul tem 400 milhões, portanto a média de visitação do Rio de Janeiro poderia ter números bem maiores face a importância que o Museu detinha dentro da América Latina.
Eu não conhecia o Museu Nacional e acredito que para muitos cariocas o lugar fez parte de sua vida, mas também penso que muitos deles nunca tenham pisado ali. O que pode ser uma falha imensa no sistema educacional, porque seria atividade obrigatória de todas as escolas municipais e estaduais do Estado do Rio de Janeiro oportunizar que todas as crianças, ao menos uma vez na vida, tenham visitado o tão emblemático Museu ou fosse por ali de passeio com a família. Fora disso, havemos de convir que a vida cotidiana nos afasta muito de lugares como esses pelas mais variadas razões.
A respeito das responsabilidades cidadãs é muito próprio da incultura quando um povo subestima e/ou desvaloriza esses lugares e que pelo próprio descaso da população acabam não sendo contemplados com as subvenções necessárias para sua manutenção e aprimoramento. É próprio de sociedades sem cidadania não zelar pelo patrimônio público. O mesmo tratamento é dado no Brasil  às vias públicas, às praças, aos monumentos, aos prédios antigos, ao patrimônio histórico, ao mobiliário público, até mesmo o transporte público é tratado assim. Uma vez eu li que o Brasil era campeão mundial em depredação de telefones públicos, aqueles de cabines que são tão famosos em Londres e lá permanecem intocados há décadas. Os museus, então, são praticamente invisíveis à boa parte da sociedade brasileira.
E a que vem esse desinteresse, aversão ou descaso ? Não sou especialista em comportamentos humanos e caracteres sociológicos, mas percebo variantes e, sem generalizar ou simplificar os problemas, creio que a resposta está baseada na deficiente estrutura da educação formal, na formação escolar básica e universitária focadas somente em produzir trabalhadores e não cidadãos.
Depois, creio que há um segundo componente que é a desigualdade social. Uma pessoa pobre das periferias ou uma pessoa que sequer tem um teto e vive nas ruas não se sente dono dos espaços públicos, porque está excluída da vida da cidade. O Rio de Janeiro tem favelas, bairros e comunidades onde não há a menor presença do Estado, cujas  organizações que lidam com o tráfico de drogas é que comandam essas áreas. Então, cidadania é um bem que lhes é negado sistematicamente. 
Outra questão que me parece importante citar é que no Brasil, exceto no Carnaval é absolutamente impossível encontrar ricos e pobres dividindo o mesmo local público compartilhando atividades culturais ou de ócio. A não ser que esses pobres sejam os garçons, atendentes de lojas, cabeleireiros, manicures, etc. Enquanto os ricos estão em atividades de ócio, os pobres serão os serventes de seu ócio. Alguém pode sugerir que há exagero nesse comentário, que o mundo gira assim, que se não fossem os ricos não existiria trabalho para os pobres, etc... A questão brasileira é que os ricos e os médios temem ser roubados, assassinados ou sequestrados quando há a presença de pobres, pois para os ricos, os pobres são criaturas potencialmente ladrões e bandidos. Lembram das reclamações quando a classe média baixa começou a frequentar os aeroportos?  Coisa que até há algum tempo atrás era local destinado somente aos de "cima".Viajar de avião era um evento que exigia até roupa especial não é, Dona Danusa Leão ? 
Mesmo os ricos brasileiros não perdem para os pobres no quesito cultura. Já tenho lido  que era comum no Brasil do século XIX até meados do século XX, as famílias endinheiradas comprarem livros somente para enfeitar as bibliotecas, porque numa casa "elegante" era obrigatório ter uma biblioteca. E isso era o máximo de erudição que abarcavam.Ou seja, era de bom tom só aparentar cultura e o refinamento era medido não pela sensibilidade literária, mas pelo número de livros que sequer um dia iriam ler. Isso mostra o comportamento de aparências a que estamos submetidos desde há muito tempo e claro, a incultura sendo uma característica bastante comum entre ricos e pobres.
O Museu Nacional do Rio de Janeiro era de todos nós e todos levaremos essa culpa atroz por termos permitido tamanha tragédia.
E assim seguimos acumulando museus de desimportâncias, irrelevâncias e descasos que nunca se inflamam e parece que só se fortalecem.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Sobre malandros e indolentes


Minha trisavó materna chamava-se Joanna e nasceu em 1867 em Corrientes na Argentina, filha de um negro com uma indígena ou vice-versa. Creio que minha família não tem informações mais precisas sobre seus ancestrais, tampouco sei como ela passou a viver na região centro do Rio Grande do Sul numa fazenda de gado de uma família numerosa, cuja mãe faleceu cedo deixando muitas crianças para cuidar.

Joanna, provavelmente era escrava da casa quase a ponto de obter a liberdade pela Lei da Abolição da Escravatura de 1888 quando teria 21 anos, já que a Lei do Ventre Livre não a libertou, pois já havia nascido há 3 anos quando a lei foi promulgada. 

O que se sabe é que ela virou a companheira do senhor viúvo, branco de 33 anos quando tinha apenas 14 anos de idade e com ele teve 12 filhos—algum familiar me corrija se eu estiver errada— incluindo minha bisavó. Juntando a prole da primeira esposa com a que viria a ter Joanna ao longo dos anos, já que era quase uma menina quando se juntou com meu trisavô, ela deve ter cuidado de mais ou menos umas 24 crianças e adolescentes.

Tenho lido e ouvido muitos absurdos nos últimos tempos depois que o Brasil tem vivenciado essa crise ética e política, mas essa semana o absurdo dos absurdos veio de um dos candidatos a vice-presidente da República, recém escolhido para a chapa do candidato Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão, um general reformado do exército brasileiro, veja só...

O tal general citou em um discurso que o Brasil tem o povo que tem(?) porque é formado por negros e indígenas, que estudos comprovam que são malandros e indolentes respectivamente por natureza. Até onde li o tal general não citou a fonte nem o autor do estudo em questão e me veio à mente as teses de um certo senhor alemão que, na sua insanidade queria aprimorar a sua raça branca.

Logo passei a refletir sobre minha trisavó e de todo trabalho árduo que certamente teve durante toda sua vida naquelas condições e naquela época. Me pergunto que espaço teria essa pobre mulher para ser indolente ou malandra mesmo que quisesse? Mesmo se ao final do dia estivesse esgotada fisicamente, teria ela direito de ser indolente? Simplesmente poderia ela decidir que um dia não queria fazer nada e tirasse um dia livre para fazer o que bem entendesse como qualquer ser humano? Sobreviveria naquela época uma mulher indolente e malandra?

Veja que indolente e malandro podem ter o mesmo significado, preguiçoso, vadio, vagabundo. Há ainda outro sentido de malandro, o de espertalhão e safado. Seguramente minha indolente e malandra avó não deixou suas crianças, seus filhos ou os filhos de seu marido sem cuidado permitindo prevalecer suas características atávicas que, segundo o general, estavam impregnadas nos seus genes por ser filha de um negro com uma índia. Seus filhos e enteados, ao menos a maioria, cresceram muito bem, obrigada, e ela faleceu velhinha junto aos seus familiares em 1947.

Lembrando a história sobre a escravidão humana no Brasil e no mundo afirmo que os adjetivos malandro e indolente cabem bem mais ao homem branco que escravizava—aqui o verbo pode estar no presente— e vive às custas do trabalho escravo. E também dos que dizimaram—aqui também o verbo pode estar no presente— os índios para  tomar-lhes as terras onde viviam em paz há sabe-se lá quantos milênios. 

Os negros plantavam, colhiam, faziam a comida, costuravam, limpavam, lavavam, cuidavam e amamentavam as crianças e vestiam seus donos. Sim, os ricos senhores de escravos e aristocratas sequer se vestiam sozinhos naquela época. Quando, então os negros podiam ser malandros? Quando tentassem fugir daquelas condições, certamente eram resgatados e punidos severamente com castigos e torturas das mais variadas e cruéis. 

Afinal, quem são os indolentes e malandros? São os mesmos que ainda depois de abolida a escravidão continuaram a segregar, pisotear e discriminar negros e indígenas como uma raça inferior, que até hoje são massacrados, empobrecidos, refugiados, excluídos, encarcerados, assassinados e invisíveis em geral.

A Ciência já comprovou que, ao contrário do que se pensava no século 19, a miscigenação só aprimora e fortalece a raça humana. Porém um parte de brasileiros tacanhos e incultos mantém o pé em teses ultrapassadas, comprovando cada vez mais a sua intolerância, sua ignorância quando fazem oposição ao conhecimento e quando desrespeitam a diversidade e a pessoa humana.

Essa gente quer governar o Brasil, um país onde 52% da população é negra e mestiça,  onde o racismo é crime hediondo ou equiparável. Esse senhor além de cometer um crime, afrontou e injuriou toda uma raça que faz parte de uma mesma espécie chamada Homo...sapiens ?
Bem, no Brasil creio que os Neandertais eram mais evoluídos que a turma que apoia o tal general.

Não espero justiça, ao menos não agora, porque o sistema judiciário brasileiro, de direito a Constituição Federal não lhe permite, mas de fato pensa da mesma maneira.
Aqui só resgato a memória de minha trisa, uma mulher negra-índia que já foi várias vezes homenageada festivamente com muito orgulho e grandes encontros organizados pelos seus descendentes. Fica em paz, Joanna.




segunda-feira, 25 de junho de 2018

Lanceiros Negros

Relembrando a noite de 14 de junho de 2017, quando fazia muito frio e era véspera de feriado em Porto Alegre:

Um grupo de famílias, homens, mulheres, crianças, bebês e idosos foram desalojados  desumanamente de um prédio antigo do governo gaúcho—meu, seu, nosso— há 8 anos abandonado no centro da cidade. Isso tudo com todo aparato policial como se para lidar com terrorismo ou numa guerra, com bombas de gás, balas de borracha, cassetetes  e, de quebra, com a truculência e o escárnio da polícia militar conforme relatos dos moradores.

A ocupação Lanceiros Negros faz parte do Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas de Porto Alegre, MLB que luta  pelo direito à moradia e há dois anos, segundo consta, ocupavam o local.

Prenderam pessoas, inclusive um parlamentar que fazia parte da comissão de direitos humanos da Assembleia Legislativa e ali se encontrava para mediar e ajudar a negociar  uma solução pacífica para a situação. 

Nessas horas, nesses assuntos e com essas pessoas não existe imunidade parlamentar. Lidar com direitos humanos nesses tempos de desgraças instituídas é sinônimo de ser bandido, esquerdista— o termo virou impropério— e pária da sociedade, assim como os pobres que lutam por um direito básico que é a moradia são considerados vagabundos.

O prédio continua até hoje—dois anos depois— abandonado depois da desocupação e o dilema  tanta casa sem gente e tanta gente sem casa continua.

Parabéns ao Desgoverno Sartori e seu Secretário de Insegurança Schirmer e a todos os seus apoiadores por mais essa ação lamentável que destapa cada vez mais o autoritarismo, o estado de exceção e a barbárie que se instalou no Brasil.

Parabéns também aos juízes que do alto de seus privilégios e auxílios-moradia de 5 mil reais, desavergonhadamente autorizaram a ação como manda a lei em nome da propriedade.

Todos vocês que criminalizam a pobreza e os movimentos sociais aproveitem o feriado para, depois de passar por cima de pessoas, passem por cima das flores dos tapetes de Corpus Christi e comprem umas indulgências.

Sempre estão à venda...

Hoje, algumas famílias da Lanceiros Negros moram em outras ocupações, há quem viva em imóveis divididos com familiares, de favor, e quem não encontrou alternativa, precisou voltar para a situação de rua.(Correio do Povo, 16/06/2018)




                                         Tapete de Corpus Christi , Ponteareas -Galicia Julho 2016

Insônia