quarta-feira, 2 de maio de 2018

4 dias em Veneza




Não era a primeira vez que eu visitava uma cidade milenar, com muitas igrejas, velhos monumentos, fachadas artísticas, arquitetura impressionante, calçadas de pedras, muros e paredes desfeitos, portões enferrujados, fechaduras enormes, escadarias gastas pelo tempo, cheiro de livros, umidade e poeira antiga. Não era a primeira vez, mas Veneza com tudo isso e muito mais deixa qualquer visitante deslumbrado. É um lugar insólito, único, incomum e é certo quando dizem que não há lugar que se compare no mundo.

Segundo a história, a cidade foi formada por refugiados de cidades romanas do continente e que fugiam das invasões germânicas à península itálica  por volta do século II, ano 160 ou antes, porque essa data é controvertida.

Veneza é formada por um arquipélago de pequenas ilhas e dunas de areia a noroeste do mar Adriático formando a Laguna de Veneza na região de Vêneto na Itália.
A ilha principal é formada por uma infinidade de canais e pontes, cujo único meio de transporte é feito por barcos ou a pé. A cidade tem seis bairros, os chamados sestieri que são Cannaregio, Castello, Dorsoduro, San Marco, San Polo e Santa Cruce.

Várias empresas realizam o transporte público pelos canais entre as ilhas do arquipélago e para o continente. Vaporetos, táxis-barco, barcos e lanchas particulares circulam pelos canais e pelas ilhas com preços os mais variados. Dizem que é o transporte público mais caro do mundo. O preço mais popular é de 7,50 euros que dá direito a 75 minutos de passeio pelos canais. Passes de dia inteiro podem ser comprados por 20 euros. As tradicionais gôndolas têm capacidade para no máximo 4 ou 6 pessoas e fazem passeios somente pelos canais com um preço exorbitante de 100 euros. São pequenos barcos pintados de preto com alegorias douradas, assentos forrados de veludo vermelho, o barqueiro veste sua tradicional camiseta listrada, exatamente como nos filmes.

No século XX foi construída uma única ponte que liga o continente à Ilha de Veneza por onde passam os trens e ônibus até a Estação Santa Lucia. Carros não são permitidos e se alguém precisa vir do continente deve deixar num estacionamento ao lado da estação de trem, mas que presumo deve custar outra fortuna. Tudo é feito de barco desde a entrega de mercadorias, recolhimento de lixo, policiamento e o serviço de saúde das ambulâncias-barco. Tem uma linha de Vaporetto que faz trajetos regulares até  Marco Polo, o Aeroporto da cidade localizado no continente.

O Cemitério é toda a pequena ilha de San Michele que vista desde Veneza é um complexo amuralhado com há muita vegetação que deve formar um grande jardim. Murano, Burano e Torcello são tres ilhotas também importantes do arquipélago onde se pode apreciar as tradicionais fábricas de objetos de vidro, um tesouro da região e sua arquitetura peculiar.

Veneza vive do turismo e as estatísticas dão conta que é um dos destinos mais procurados no mundo por sua localização, pela arte e arquitetura recebendo uma média de 50 mil visitantes ao dia. Em contrapartida, há cada vez menos habitantes nativos na cidade que estão deixando a ilha em busca de tranquilidade no continente, fugindo do turismo de massa ou aproveitando seus imóveis para fazer negócio. Por esse motivo pode sair bem mais em conta encontrar alojamento no continente, em Veneza Mestre ou nas cidades próximas da região como Pádua, Verona, Vicenza ou Treviso todas ligadas por ótima malha ferroviária e lugares também dignos de passeio.

A Piazza San Marcos é a maior e mais emblemática praça da cidade onde se localiza a Catedral, o Palácio Ducal e o Campanário. É um mar de gente do mundo inteiro fotografando, andando em grupos, famílias, casais, artistas, pintores ou fotógrafos solitários. Alguém já escreveu que lá só se ouve o barulho dos pombos e das vozes humanas, mas eu também escutei música celestial vinda da catedral durante o dia e uma orquestra tocando músicas populares durante a noite.

Antes de viajar à Veneza, certifique-se que esteja em forma para longas caminhadas, estude as rotas para seu alojamento, leve curativos tipo band-aid ou peça por cerotti nas farmácias. Vista calçado e roupa cômoda, principalmente no verão que faz muito calor. Baixe os mapas da cidade para que funcionem off-line, pois o GPS é imprescindível para andar pelos labirintos, ruas estreitas e algumas sem saída.

Se puder evitar, evite visitas nos meses de junho a agosto, pois em abril já fazia calor de 25 graus e havia mosquitos, tanto que nas janelas de algumas casas observei que haviam telas protetoras.

A comida é o verdadeiro paraíso para quem curte pizza de todos os sabores, spaghetti à carbonara, lasanha à bolonhesa, calzones, pasta al pesto, paninis e penne 4 formaggio. Pizza aos pedaços, relativamente baratas são vendidas a cada esquina para sair comendo sem perder tempo, mas cuidado que ao sentar numa praça e pedir um simples café pode custar 5 euros. O sorvete também é uma especialidade italiana e existe uma infinidade de gelaterias com os mais variados e estranhos sabores.

Se um dia quiserem escolher para um evento em prol da paz mundial ou um lugar que represente a unidade entre os povos eu escolheria Veneza, pois ali convivem— ainda que de passagem— diariamente e harmonicamente todos os países, línguas, povos e religiões do mundo.


"A cidade mudou pouquíssimo nos últimos séculos e hoje não se pode mudar nada em sua aparência. É um museu a céu aberto, cuja única ameaça parece ser o avanço das águas."













sexta-feira, 23 de março de 2018

Não verás país nenhum

Painel Guerra e Paz, Cândido Portinari

Era uma vez um país imenso e rico que já tinha sido colônia, reino, monarquia, ditadura e que há poucos trinta anos tinha conquistado um "estranho" sistema político chamado democracia. Na mesma época foi promulgada uma bela carta de leis chamada Constituição onde dizia, entre muitas coisas, que os cidadãos elegeriam periodicamente seus representantes por meio de eleições livres. 

Em 2014 já era hora de novas eleições para escolher um novo presidente e o povo estava bastante dividido entre dois candidatos, que por acaso eram um Homem e uma Mulher e até o final do pleito não se sabia quem seria o vencedor, pois a disputa estava bastante acirrada. E os ânimos também.

O resultado final foi que 51% dos eleitores votaram na candidata Mulher e 49% no candidato Homem, mas é claro que o gênero aqui não importa ou ao menos não importava até então. A candidata Mulher estava concorrendo à reeleição e todos já a conheciam. O candidato Homem era um estreante na aspiração ao cargo, mas não na política. Quinze Povos (Estados) elegeram a Mulher e onze, mais a capital do país escolheram o Homem.

Ocorreu que o candidato Homem 49% e seus companheiros, inconformadíssimos, não aceitaram esse resultado e num primeiro momento pediram que os votos fossem recontados. Ao confirmar-se o resultado, os meios de comunicação, os grandes donos de empresas e as elites políticas do país que apoiavam o candidato Homem 49% continuaram muito insatisfeitos. Começaram então, uma grande campanha de ódio e difamação contra a mulher 51% e seus pares, acabando por respingar até em seus eleitores e simpatizantes, os seus próprios votantes.

A campanha difamatória contra a candidata vencedora foi tanta e alcançou níveis tão importantes que o grupo formado de 580 pessoas, maioria homens, chamado Congresso Nacional que também havia sido eleito para fazer as leis, achou por bem derrubar aquela Mulher 51% depois de quase dois anos no governo. A guerra estava deflagrada, pois os companheiros do candidato Homem 49% tomaram o poder e iniciaram um processo de desmontes de regras e retirada de direitos que tinham sido conquistados anteriormente através da Constituição. 

Esses desmontes visavam unicamente beneficiar os grandes empresários e os donos do dinheiro. As perdas e retrocessos eram enormes e atingiriam 90% da população. Instaurou-se assim uma grave crise política, social e econômica como poucas vezes tinha acontecido no país. As instituições ficaram desacreditadas e a instabilidade gerou grave insegurança jurídica e social. 

Esse plano difamatório foi muito aplaudido e apoiado pela Minoria 49%  que se apropriou das cores da bandeira do país, tomando as ruas a vociferar que só eles eram os legítimos "cidadãos de bem" e que os outros 51% deveriam "tomar vergonha na cara", pois passaram a ser  vistos como bandidos e mereciam ser banidos, execrados, submetidos ou escravizados. 

Nada ficou provado das ilicitudes que acusavam a Mulher 51%, inclusive, ela ainda pôde se candidatar livremente a outros cargos públicos e o tempo comprovou ser ela uma pessoa honesta. Ao contrário do candidato Homem 49%, foi descoberto ser autor de vários crimes com provas, cavou sua tumba política por conta de sua falta de caráter, inconformismo, truculência e irresponsabilidade. Mais cedo ou mais tarde ele deverá responder à justiça, assim como muitos dos articuladores do que se chamou Golpe.

E a guerra continuou, as pessoas cada vez mais se desentendendo e tomando partido com base em simplificações*, generalizações e manipulações. Muitos expunham a sua boçalidade e incultura  culpando a "estranha" democracia e pediam a volta da ditadura. Mal sabiam eles que foi justamente quando os 51% Maioria viram seus votos serem invalidados pela Minoria, nem chamo de perdedores, que aí foi onde tudo começou. A Constituição previa que as eleições seriam periódicas. Por que não  aceitar as regras?

Essa irresponsabilidade da Minoria 49% deu margem a que se destapassem as mais torpes formas de pensamento e de falta de caráter de uma parcela da população. Apareceu uma escória humana protegida pelo escudo das redes sociais que passaram a abusar sistematicamente da liberdade de expressão. Esses grupos criminosos foram capazes dos mais absurdos atos e manifestações contra os direitos humanos, contra a educação, contra o estado de direito e contra as liberdades individuais.

Alguns mais inocentes dos 49% agora, perplexos clamam aos céus pela paz entre os 51 e os 49, imploram para que boas energias e vibrações iluminem os 51 e os 49. Enfim, agora apelam para a interseção dos deuses. Outros estão silenciosos, talvez envergonhados do equívoco que cometeram e das injustiças que ajudaram a empreender quando aplaudiram tanta insanidade. O voto é livre, mas desrespeitar a vontade da maioria é pisar, anular e desmerecer a democracia e a justiça.

Esse ano o pais terá eleições novamente. O tempo passa depressa. Quanta energia desperdiçada com tantas brigas, tantas desavenças familiares, tanto xingamento, tantas amizades desfeitas, tantas decepções, tanto sofrimento, tantas mortes, tantos espancamentos, tanto desemprego. Quanto poderia ter sido evitado, quantas sequelas deixadas!
Espera-se que quem não está de acordo com as regras, que proponha novas e que se discuta,mas chega de golpes!
90% está cansado!
*Com esse texto não se pretendeu a simplificação e sim uma síntese livre de uma história para ser contada aos netos.Talvez eles nos darão as respostas.
*O título é uma alusão ao livro de Ignácio de Loyola Brandão, 1981.

Março de 2018
                                                              



quinta-feira, 1 de março de 2018

Cuidado com os trogloditas








Os trogloditas foram seres humanos pré-históricos que viviam em cavernas ou grutas desde o alvorecer da vida na Terra e que durante milhares de anos, segundo os estudos, foram aumentando o tamanho de seu cérebro e evoluindo para o que denominamos hoje Homo sapiens (gênero Homo, espécie sapiens) segundo a classificação biológica dos seres vivos.
Em um sentido figurado podemos designar troglodita como um adjetivo de dois gêneros que ​denota​ pessoas rudes, grosseiras, hostis, violentas e que agem com agressividade.
Me refiro aqui aos trogloditas modernos como seres cuja falta de educação, leitura e ​a incultura​ como seu ponto mais forte, os tornou esses tipos rudes, toscos e grosseiros que estão vociferando em caixa alta pelas redes sociais, entre nossos colegas de trabalho, amigos, dentro da nossa família, em grupos de whatsApp e o mais grave, fazem parte da classe política, do sistema judiciário e do jornalismo brasileiros.
Dentro da política incluo alguns espécimes chamados pastores da igreja evangélica que, ao entrar para a política, desconhecem o artigo 5 º, inciso VI da Constituição Federal que define a laicidade do Estado determinando que todas as religiões são aceitas, mas que a religião não pode interferir nos assuntos do Estado. Esses andam, pois com suas bíblias debaixo do braço a atacar pessoas e/ou arrancar seus parcos recursos pregando que estão do lado da Verdade, o que na verdade, isso é somente a opinião deles e de suas doutrinas e dogmas.
Trogloditas modernos são seres que se dizem religiosos, mas que abominam outros seres humanos pelo fato de serem mulheres, homossexuais, transexuais, negros, pessoas sem teto​, ​desempregados, subempregados​ ou estrangeiros. São seres que fazem apologias ao machismo, à violência de gênero, que apoiam o fascismo, a tortura, o armamento da população, a educação não democrática e ditatorial. Entre seus mais loucos delírios pedem intervenção militar no Estado sem nunca terem lido a Constituição Federal ou estudado História do Brasil e do Mundo.
São seres que, embora muitos tenham completado curso superior, negam o conhecimento e os avanços científicos, desconhecem a história da humanidade e agarram-se a um submundo de ignorância, brutalidades, idiotia, truculências e arrogâncias vivendo de atitudes estúpidas e muitas vezes cruéis. 
​Seres que se dizem cidadãos de bem, mas que assassinam ou abusam de suas companheiras, que apoiam o extermínio de jovens negros e pobres das periferias, que dão como solução aos problemas do tráfico de drogas o massacre em série das periferias,  que culpabilizam a pobreza por sua condição, criticam programas de distribuição de renda e referem-se às comunidades indígenas como animais (que se pesam em arrobas, antiga medida de peso de gado).
Eles são seres que se dizem anticorrupção, mas que não percebem a sua corrupção de cada dia, quando infringem ou criticam as leis e as normas de boa convivência e civilidade; quando se deixam manipular por meios televisivos e jornalísticos claramente afinados com oligarquias, com os bancos e com o poder do dinheiro, apoiando justamente os mais corruptos reproduzindo assim mais corrupção e injustiça.
Enfim, trogloditas modernos nasceram e/ou cresceram na consolidação da democracia, dos processos constituintes e dos direitos individuais, mas incrivelmente apoiam um sem fim de inconstitucionalidades e atrasos civilizatórios. E esse fenômeno não dá para nominar de outra forma mais delicada. Definitivamente é uma burrice monumental.
Dedico essas linhas a todas as pessoas que conseguem visualizar esses espécimes  a sua volta, aos que talvez se reconheçam e possam refletir e a todos os democratas, progressistas, anti-conservadores, socialistas, religiosos, estudiosos, humanistas genuínos e não só de fachada.
Os trogloditas antigos evoluíram com o conhecimento, mas trogloditas modernos insistem em negar esse conhecimento, repelem a noção da evolução do homem como ser social e solidário  e preferem continuar vivendo na escuridão de suas cavernas ou nas trevas da Idade Média.
Platão e os sábios iluministas devem andar nauseados de tanto revirar-se em suas tumbas.
Lembrem-se disso em outubro próximo. O Brasil agradece.





terça-feira, 29 de agosto de 2017

Por que estamos assim ?


Morro da Favela , Tarsila do Amaral ,1924

O Brasil passa por uma grave crise política, social e econômica sem precedentes.
Estamos todos no meio desse turbilhão de informações e acontecimentos, assistindo ideologica e/ou manipuladamente polarizados. Muitos nos perguntamos como e porquê as coisas chegaram a esse ponto e na maioria das vezes, sem conhecimento profundo de causas e efeitos passamos a tecer evasivas e generalizações tornando-nos meros espectadores de acontecimentos e formas de agir que, algumas vezes sem querer, ajudamos a reproduzir.
Além ou antes de culpar o nosso sistema político, os políticos, as elites, os meios de comunicação certamente envolvidos na "elaboração" da crise, seria interessante refletir sobre as atitudes e o modo de vida habituais do povo brasileiro em relação à sua comunidade, à suas escolhas políticas e seus comportamentos.Tais comportamentos na vida profissional e pessoal, além de estarem inseridos na cultura histórica do povo, podem dar uma resposta e me parece influir direta ou indiretamente para que esse modelo de desmonte, de retrocessos e conservadorismos encontrasse solo fértil para se desenvolver e  atingir em cheio nossa tão jovem democracia. 
Assim , talvez possamos responder à seguinte pergunta : 
Afinal , por que estamos assim?

Faço uma lista de alguns pontos em relação às nossas atitudes na vida pública e nas relações pessoais que muitas vezes até nem percebemos, porque estamos circunscritos a  muitos contextos ao longo da vida e vemos como normal certas anormalidades e distorções.Em primeiro lugar, como é o nosso comportamento e nosso nível de consciência social na vida em comunidade? E aqui não quero generalizar e sim refletir sobre os comportamentos de uma maioria da população, por isso uso a terceira pessoa e me incluo em várias dessas situações :

a)Antes de votar raramente comprovamos se nossos candidatos idôneos e minimamente comprometidos com as causas sociais e coletivas ao invés de suas causas e projetos próprios.
b)Votamos em celebridades com muita visibilidade na mídia, apresentadores de TV, jornalistas, pastores de igrejas, atores, cantores, radialistas, jogadores de futebol, famosos e ricos em geral, personalidades aberrantes e histriônicas mas com pouco ou nenhum comprometimento e preparo.
c)Votamos em branco ou nulo com a finalidade de  protestar e nosso protesto beneficia sempre os piores. As vagas aos cargos não se extinguem com nossa atitude e tendem a ser preenchidas com os mais votados nas eleições majoritárias (presidente e governadores), mesmo que com percentuais abaixo dos votos brancos e nulos. Nas eleições para o legislativo(vereadores, deputados e senadores)valem os quocientes eleitorais no sistema vigente proporcional que, quando elege uma celebridade com muitos votos, elege junto candidatos pouco votados e sem expressão.
d)Nunca fiscalizamos a atuação do deputado ou vereador que ajudamos a eleger, muitas vezes sequer lembramos o seu nome, tampouco acompanhamos suas atividades, embora hoje existam diversas maneiras de fazê-lo.
e)Nunca cobramos do governo a aplicação de seu plano pré-eleitoral ou que honrem com  suas promessas informais de campanha.
f)Nunca participamos de audiências públicas e orçamentos participativos para debater assuntos e eleger as prioridades da nossa comunidade.
g)Não fazemos reclamações formais e fundamentadas à prefeitura quando algo não vai bem em nossa rua ou bairro.
h)Não frequentamos praças, parques e locais públicos de nossa cidade com medo da violência, assim não percebemos o descaso com a preservação, a falta de limpeza e manutenção por parte do poder público. A ocupação dos espaços públicos poderia contribuir para o sentido inverso.
i)Nos informamos somente através de oligopólios de comunicação e não procuramos  informação através de outros meios, sites, livros, livros de história, blogs, canais de televisão e rádios alternativas.
j) Permitimos, aceitamos ou não percebemos que os oligopólios de comunicação, que são concessões públicas de propriedade privada, manipulem e/ou omitam informações de acordo com o seus interesses.
k)Fazemos generalizações ao tecer opiniões e não buscamos meios informativos de qualidade para formar nossa própria opinião, discernir fatos de boatos e aprimorar nosso sentido de perceber incoerências.
l)Quando fazemos parte de um governo ou cargo eletivo, não abrimos espaços de comunicação para a participação efetiva da sociedade, respeitando o voto recebido.

Por fim, não exercemos plenamente a cidadania, não somos responsáveis como cidadãos, desmerecemos e muitas vezes criminalizamos ou ridicularizamos os ativistas, os manifestantes, os partidos de esquerda, os líderes de comunidades e bairros, os movimentos sociais de trabalho, terra e moradia.

Em relação à vida pessoal, podemos observar que reproduzimos muitos comportamentos que vem se perpetuando. Podemos  refletir o que isso pode influir nas relações sociais, na forma como nos organizamos politicamente e nas atitudes nossas de cada dia que proporcionam e autorizam  pequenas e grandes corrupções : 

a)Raramente nos colocamos  no lugar de outras pessoas que não sejam de nossa família ou amigos próximos e não exercitamos a empatia, o ato de tentar  se colocar no lugar de outros e ao menos, tentar perceber as circunstâncias alheias.
b)Somos indiferentes à miséria, à pobreza e às desigualdades sociais. Em contrapartida, enaltecemos grupos ou pessoas cujo patrimônio milionário lhes dá projeção e cultuamos o poder do dinheiro. 
c)No trânsito, não nos colocamos no lugar do pedestre e do outro usuário. O tamanho e o preço do nosso veículo nos dá a percepção de que temos prioridade no uso das vias públicas e os outros não existem ou estão ali só para nos atrapalhar.
d)Não temos um olhar crítico ao andar pela cidade e não percebemos quando há a falta do Estado em questões de manutenção e infraestrutura. Quando percebemos um buraco na rua ou calçada, quando não há calçada ou calçamento, um móvel quebrado, uma lâmpada apagada, uma praça vandalizada ou a sujeira generalizada nos limitamos a culpar um governo distante, inatingível cujas omissões são imutáveis.
e)Não percebemos o BEM PÚBLICO como efetivamente NOSSO, então banalizamos quando há falta de manutenção, quando não funciona bem e ainda aplaudimos  quando  gestores liberais os colocam à venda ou entregam para a manutenção pela iniciativa privada.
f)Não pesquisamos preços e compramos por impulso coisas que não precisamos e que muitas vezes nos endividam.
g)Compramos somente em grandes redes, o que propicia a concentração de renda; não priorizamos o mercadinho do bairro que pode ter produtos mais locais e frescos, a feira do fim-de-semana que comercializa alimentos de produtores locais. 
h)Compramos alimentos muito processados e industrializados das mesmas grandes redes, comida pronta e carne congelada que, embora possam ser mais baratos, fazem mal à saúde.
i)Nos deixamos influenciar pela publicidade massiva e compramos marcas e não produtos.
E também movidos pela publicidade, utilizamos exageradamente o cartão crédito e cheques especiais até para compras de pequenos valores estimulando a rentabilidade do capital em detrimento da produção.
j)Não conhecemos a importância da economia solidária, do consumo sustentável, o cuidado com o meio-ambiente e a destinação do lixo.
k)Praticamos velada ou declaradamente a intolerância religiosa,  o ódio aos estrangeiros, ao feminismo, a  homofobia,  o preconceito racial, a violência de gênero e o machismo seja por atos ou omissões.
l)Não percebemos ou aceitamos o machismo, o preconceito racial  e a homofobia encobertos por brincadeiras e piadas.
m)Desdenhamos ou somos contrários às políticas públicas de inclusão social, cotas , moradia, redistribuição de renda e projetos de renda mínima de cidadania disseminando a falácia da meritocracia.
n)Pagamos caro por vigilância privada em nossas casas e condomínios e não cobramos do Estado a efetiva segurança pública.
o)Acreditamos que a construção de mais presídios seja a solução para a violência urbana e aceitamos o fechamento ou sucateamento de escolas e universidades.
p)Negamos acontecimentos e modelos históricos relevantes da humanidade como o holocausto judeu, a escravidão humana, as ditaduras, o fascismo e o imperialismo.
q)Somos a favor do porte de armas indiscriminado, da pena de morte e dos massacres praticados pela polícia em zonas de conflito de terras, bens naturais  ou de tráfico de drogas. 
r)Julgamos, condenamos ou destruímos  reputações  pela régua moral das generalizações.
s)Fechamos os olhos para as injustiças sociais e acreditamos que os direitos universais da pessoa humana foram feitos somente para brancos, ricos e para nós mesmos.
t)Estamos muito preocupados em agradar ou causar inveja em nossos vizinhos e amigos ostentando bens materiais, impondo, assim, nocivas relações de hipocrisia.
u)Tratamos com arrogância e superioridade pessoas sob nossa supervisão no trabalho ou nos prestando serviços ou nos atendendo no comércio.
v)Estamos muito preocupados com a aparência, a beleza e a ostentação e isso nos toma muito tempo e dinheiro.
x)Gritamos contra a corrupção dos políticos e banalizamos a nossa corrupção diária furando filas, pedindo atestados médicos falsos, enganando pessoas com falsas promoções comerciais, estimulando o crédito, aceitando juros abusivos, entregando serviços de má qualidade, vendendo ou comprando votos, praticando pequenos furtos em lojas e supermercados, desrespeitando regras básicas de convivência como a lei do silêncio e as regras de trânsito.

Muitas vezes as circunstâncias da vida diária podem nos alienar dos problemas coletivos por conta de trabalhos muito estressantes ou absorventes, problemas familiares, doenças, mudanças radicais, troca de emprego, de casa, de cidade. Nos alienamos compulsoriamente como forma de não conseguirmos encarar satisfatoriamente os desafios e problemas, mas definitivamente não podemos nos individualizar tanto, pois corremos o risco de deixar que os outros resolvam tudo por nós.

Definitivamente não exercemos a cidadania plena e a participação popular, por isso os políticos exercem seus podres poderes, como diz Caetano Veloso, calcados nessa falsa e vazia representatividade e a falta de uma vigilância permanente os transforma em uma casta superior e não em um servidor público à serviço da coletividade.
Por último, professamos a mais diversas religiões, conhecemos seus dogmas, praticamos a fé em Deus, evocamos os mandamentos, vamos aos cultos, rezamos, praticamos caridade, doamos aos pobres, mas esquecemos de significados simples e vemos como pieguices o amor, a igualdade,  a fraternidade e a solidariedade entre os povos.
   Por fim, nos indignamos todos os dias, mas somos testemunhas inertes de algo muito      distante que somos incapazes de transformar.


                                            








segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Sobre a nossa brasileira negação sul- americana por Vitor Hugo Primola





Meninos peruanos: Google Images


Sobre a relação dos brasileiros e seus vizinhos sul-americanos, um comentário lúcido de um amigo em conversas facebookianas:

"Não é inacreditável isso? Mas será mesmo que isso se dá naturalmente? Você fala na "falta de visão" da irmandade entre os povos. Concordo. Mas você também sabe que o brasileiro, na prática, recebe de braços abertos e consegue conviver em plena harmonia com qualquer povo, de qualquer etnia, religião, etc. Mais do que a maioria dos povos de outros países conseguem. 

Talvez não tenhamos o discurso, mas na prática nos irmanamos com uma fluidez impressionante. Na minha modesta opinião vejo a nós brasileiros quase que como crianças, sabia? E isso não é um lenga-lenga folclórico, não. Estamos sendo "mantidos" assim ao longo dos séculos. Nunca tivemos guerra civil, só "revoltas". A maior parte das conquistas civis nos foram "concedidas" e não conquistadas com sangue e morte. Analfabetos em política que somos em nossa maioria esmagadora, você mesmo se ressente muito disso, tenho visto, temos sido "treinados" a confundir cidadania com direitos do consumidor. 

Insistem que nos contentemos em nos vermos reduzidos a um grande mercado consumidor. Aprendemos Inglês e até mesmo Francês nas escolas, línguas que são faladas por pouquíssimos povos do nosso continente. Espanhol é "opcional", relegado a uma categoria "inferior". Somos constante e intensamente bombardeados com tudo que diga respeito a Estados Unidos e Europa, ao passo que nos deparamos com uma tal escassez de "sinais" da mera existência da América do Sul que, se não fosse por aquilo que o mapa-múndi teimosamente indica, a maioria juraria de pé junto que não estamos aqui. 

Falando isso tudo aqui com você, acabo de concluir, agora mesmo, que existe, sim, uma forte barreira impedindo que haja essa integração. E não é nada, nada natural. É uma censura, sim. E forte. Ela se oculta naquilo que você mesma disse sobre estarmos de costas para a América Latina, porém mais ainda para a América do Sul. Essa censura, além da barreira linguística, que nunca é transposta, vem tendo sua vigência revalidada de tempos em tempos valendo-se de fatos históricos há muito tempo ocorridos do tamanho do território brasileiro, do orgulho que é constantemente infundido no brasileiro a respeito da posição de supremacia do Brasil, na rivalidade fomentada pela mídia com coisas de futebol, na invisibilidade dos países sul-americanos na mídia brasileira e muitas outras coisinhas. 

Porém, consigo identificar uma "coisona" que pode ser que seja o que faz com que vejamos nossos vizinhos como inimigos. Por estarmos sempre com os olhos voltados para os Estados Unidos e Europa (os ricos), e "de costas" para a América do Sul (os pobres), estamos sempre no meio do caminho. Aquela posição desconfortável, geralmente ocupada pela classe média que está sempre querendo ficar rica e sempre com medo de ficar pobre. É sempre ela a primeira a perder e é sempre a que perde mais. Acho que essa censura existe justamente para que não nos contagiemos com o bolivarianismo, com a dignidade, com a altivez, com a simplicidade e com a valentia de nossos vizinhos. 

Somos um povo mantido infantilizado, isolado e não podemos brincar na rua com os filhos dos vizinhos, mantido assim há muito tempo entre recompensas e castigos. Ultimamente, vimos sofrendo forte assédio moral e temos sido molestados "sexualmente" no nosso âmago. E também fomos estuprados. Como brasileiro é como eu me sinto. Mas acho que isso me explica um pouco do porquê de não haver panelas batendo nas ruas. A mamãe não deixou a gente sair na rua hoje. A gente só sai quando ela deixa ou quando ela pede. Valeu por acender meu estopim falador, Eliane Brum.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

O futuro próximo

Eu tinha essa foto salva no celular há algum tempo e esperava uma oportunidade para fazer uma postagem que fizesse jus à mensagem que passava a imagem.
Acabei postando, por acaso, na tarde do dia 14 de junho de 2017, quarta-feira, mas sem texto, porque a imagem por si só já dizia, e muito...
A minha surpresa foi que, na manhã do dia 15 tomo conhecimento do fato da barbárie da qual foi vítima a ocupação Lanceiros Negros em Porto Alegre e a minha postagem que estava pública, não parou ainda de ser compartilhada.
Já são quase 1.500 compartilhamentos em 48 horas e mais uns 50 convites de amizade no Facebook.
Obrigada, Marginal Comics, os autores— que não conheço— mas fico feliz por ter atingido e sensibilizado tantas pessoas com um tema tão importante: moradia para todos e um não às desigualdades.
Aqui de longe é só o que posso fazer.

Depoimento de morador da Cracolandia de SP dirigido ao prefeito , janeiro 2017!

Extraído do video Jornalistas Livres :

https://www.facebook.com/jornalistaslivres/videos/462914107165805/?pnref=story

https://www.youtube.com/watch?v=Kiok0T2WHf4

Esse depoimento foi gravado pelos jornalistas livres em janeiro de 2017 quando o prefeito de São Paulo, recém empossado, já começava os primeiros atos para desmantelar a Cracolândia. Esse morador de rua se chama (chamava) Carlos Eduardo Maranhão, vulgo Sarda e foi descoberto por antigos amigos de colégio ou faculdade, depois que o vídeo foi publicado.
Nesse depoimento contundente e inteligente, ele dá o recado para o "Prefeito perfeito " Dória.
Os amigos, em solidariedade, fizeram várias tentativas de tirá-lo das ruas para tratamento até que concordou em ir para uma clínica de reabilitação. Infelizmente, no começo de junho, o grupo de amigos que o apoiava noticiou  seu falecimento na clínica durante o período de abstinência. Tinha 46 anos, era carioca e estudou no tradicional Colégio Santo Inácio. Aqui reproduzo a sua fala.
Fica em paz, Carlos Eduardo! Que as músicas de Beto Guedes te embalem para sempre !



"Essa Craco existe não é porque o crack seja bom ou seja ruim, o uso de drogas preste ou não preste. Esse debate já existe. Até aonde eu pude averiguar como dependente químico, é uma doença, mas para outras pessoas é safadeza. Para mim são ambos, existe safado doente e existe safado que não é doente também. Tem lixo humano doente de dependência química e tem lixo humano político. Independente do perfume que eu use, que eu não uso ...Eu não lavo dente há 8 anos. É verdade, para quê vou lavar os dentes ? Para rir bonito para os políticos?
Eu tomo banho no máximo uma vez a cada dez dias, e olhe lá ...Eu não uso desodorante e não tenho cecê ...também não tenho mau hálito, não, porque o ph da minha boca é alto.. mas estão caindo os dentes . Mas para quê tanto dente ? Na verdade, não há mais muito o que comer. Tem muita comida de doação, mas eu não vivo de comida de doação, agradeço muito a quem doa, mas não tenho capacidade de comer salsicha todo dia. É muito ruim, sr. Prefeito!
O sr. Prefeito quando diz que parece que o que tem aqui é lixo humano, que o projeto de Braços Abertos ( de braços abertos com a morte) e que pretende usar esse outro projeto aí que considera a hipótese de internar compulsoriamente as pessoas, coisa que nem em manicômio pode mais...a lei parece que não permite mais isso ..depois tem que soltar todo mundo. Tá me parecendo que é algum tipo de vaidade, um problema estético. Pra mim, o que interessa a esse homem é que aqui fique tudo bonitinho. Eu também acho que tem que ficar bonitinho, só que os fins não justificam os meios. Isso deu em nazismo e essa maneira de pensar pode dar numa espécie qualquer de nazismo aqui.Certo ? Ou errado? Não sei...Eu só não quero que além dos problemas que eu tenho, que eu tenho que me sustentar, não é um problema, todo mundo tem que se sustentar, é normal....mas eu tenho uma dependência química, eu tenho que sustentar alguma droga. É caro, viu? Eu durmo na rua por conta disso, às vezes, pego uma infecção ou outra, tem que estar se tratando. Olha como tá minha perna ....tá um lixo, né,Prefeito ? Eu tomo antibiótico, o posto de saúde me dá, tem gente que ainda faz por onde, que sabe que seu problema estético está muito aquém do problema ético que é a gente ter uma estética dessas no meio de uma cidade rica como São Paulo.
Então, não adianta o senhor querer maquiar ou acabar com quem usa crack de acordo com o seu julgamento que pode não ser perfeito, não é seu prefeito?
Então vamos com calma, porque eu lhe digo que o que há aqui, não é o que há de melhor,mas também não é o que há de pior. Simplesmente há uma concentração de pessoas que sofrem de uma doença que, infelizmente, pode ser ligada, eu tenho que admitir, à criminalidade. Agora, o senhor chegar e querer tratar a gente como um câncer, como já quiseram fazer em 2012 e extirpar o câncer, o que vai acontecer é que, como esse câncer não tem tratamento, ele vai dar metástase na cidade inteira. O senhor vai desfazer uma cracolândia para conseguir vinte mais. Isso é inteligente ? Ou então para conseguir muita crítica pesada, porque no final, no final, no final, no final ( eu tenho vergonha de ser brasileiro hoje, não tenho orgulho), lá no final  sabe-se que o que tem por trás de pessoas pobres, dependentes químicos, trabalhadores, preguiçosos, deficientes, inteligentes, burros e o que forem, existe o ser humano. O que me parece que esse caminho que o senhor está querendo tomar para resolver esse ....não é um problema, para resolver essa situação...que ocorre mundialmente, em todos os lugares . Existe a solução chinesa que é dar tiro na nuca das pessoas que usaram drogas e existe a solução norte americana que é dar condição às pessoas de usarem a sua droga.( risos) Você parece que é alguém que admira os Estados Unidos, faz igual a eles! Dá condição!
Extirpar isso aqui, não é por aí.. Existem pessoas que sabem que existem seres humanos aqui.
Eu ainda não tenho vergonha de ser humano, mas to começando a pegar porque depois das declarações que o senhor fez ....ninguém é perfeito, não há problema nenhum em dizer : “Exagerei, chamei um monte de gente de lixo humano e mal sei eu que tem cara aí formado em universidade, que tem outro que já foi policial militar, que tem outro que estudou no mesmo colégio que eu, que a maioria tem mãe, filho, irmão”...Entendo que no calor da política, o senhor tenha dado uma declaração um pouco mais forte, mas causa receio porque é bastante fascista. Não podemos dar um passo atrás agora, não nesse momento . A gente precisa andar pra frente....Se o senhor já ouviu Beto Guedes, ele é claro : “ Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois, Terra, és o mais bonito dos planetas, tão te maltratando por dinheiro, porque és a nave nossa irmã”. Beto Guedes é maravilhoso e o senhor nunca deve ter ouvido essa música. Quem já ouviu essa música não consegue colocar todo um universo flutuante de mil pessoas e ter como lixo humano.
A minha vontade de chorar não é de raiva de você, é de tristeza da possibilidade de termos uma pessoa tão limitada com relação a compreender o outro e com um poder tão grande que é ser o prefeito de São Paulo. O senhor tem um poder muito grande na sua mão, quanto maior seu poder, maior sua responsabilidade consigo e com os outros.

Então peço sua ajuda para podermos conseguir, não uma saída, mas um caminho digno .. esteticamente também ...eu gostaria de poder andar mais bonito, mas existem coisas mais importantes antes disso !"
                                     Bandeira feita em ato em frente a SSP SP ( foto : Pedro Borges)

Insônia