quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Até a próxima, se o universo permitir


Dizem os experts físicos que o tempo é a quarta dimensão  do universo que conhecemos. Mas somente do que ainda é conhecido pela inteligência humana.  Quando se fala em inteligência e racionalidade sabemos que existem seres inferiores ao homem, os chamados seres irracionais. Então por que não existiriam seres superiores neste nosso vasto mundo de possibilidades? O homem é demasiado arrogante para pensar o contrário.

Muitos livros de ficção como os de Blake Crouch e Diana Gabaldon contam histórias de viagens no tempo, os dois distinguindo-se pelo espaço de tempo viajado. O primeiro trata de passagens de poucos anos, meses, e até dias; no segundo os personagens percorrem dois séculos para frente e para trás. Essas leituras sugestionam e mais ainda, instigam a assimilar e entender que não existe passagem de tempo de uma maneira linear como estamos condicionados e como o autores bem sugerem em seus textos.

"Na física clássica e na percepção intuitiva humana, o tempo é visto como um parâmetro à parte das dimensões espaciais. Na teoria da relatividade, desenvolvida sobretudo pelos trabalhos de Henri Poincaré e Albert Einstein, o tempo é visto como uma das dimensões do espaço quadridimensional chamado de espaço-tempo". ( Wikipédia)

Mas o que seria a passagem de tempo não linear? Ou melhor dito, como imaginar que o tempo não passa, e sim que ele é estanque. Não existe passado, presente, tampouco futuro. Segundos, minutos, horas, dias, meses, anos e séculos são somente convenções. Tudo está acontecendo  neste momento em linhas de tempo paralelas. Num futuro(?) distante talvez seremos capazes de dar uma olhadinha em nós mesmos quando crianças, na maturidade ou mesmo na hora da morte?

E se o tempo não transcorre da maneira que imaginamos, será mesmo que a morte existe? Quando somos tocados pelo desaparecimento de seres queridos, um turbilhão de dúvidas acercam-se de nosso espírito tentando entender para onde foram seus saberes, suas experiências, suas vivências. É um enigma de difícil aceitação que a vida se resuma somente na matéria com três dimensões e que a morte seja apenas um corpo inerte que vai desaparecer. A despeito de que o luto inevitavelmente um dia acabe nos tocando, os mortos permanecem vivíssimos na nossa memória. Na pior das hipóteses morreremos todos então, quando não houver mais ninguém para lembrar de ninguém?

Voltando à questão do tempo, quando vemos uma estrela brilhando no céu estamos olhando para um passado muito distante, pois essa mesma estrela demorou anos-luz*—unidade de distância usada na astronomia— para chegar até nossos olhos. Bem, a pergunta que não cala é se existe a morte ou se a vida é um conjunto de acontecimentos entrelaçados que podem ser mudados, extintos ou mantidos quando tivermos uma consciência superior, percepções mais avançadas da vida e do mundo a nossa volta. Será preciso a morte para que se revelem esses mistérios? Será essa a razão da morte? A revelação?

Oxalá seres superiores ou grandes mentores da humanidade recebam em seus mundos—se existem— nossos entes queridos ou nos visitem por aqui de vez em quando e nos ensinem o que desconhecemos. Senão estaremos eternamente significando a vida como sendo a morte o fim de tudo e seu único e derradeiro desfecho.

* 1 ano-luz equivale a cerca de 9 trilhões de quilômetros



terça-feira, 4 de outubro de 2022

Autorretrato

 


Me gustan los libros. Me gustan las historias. Me gusta leer y escribir. Me gusta la gente alegre. No me gustan las personas arrogantes. No me gustan los toscos. No me gusta falta de empatía. Me gustan los escrupulosos y razonables. Me gusta soñar con un mundo mejor y no me gusta la violencia. No me gustan las armas. Detesto injusticias. Me gusta el café, las cafeterías y estar con amigos. Me encantan las lenguas, los sonidos de las palabras y los acentos. Me gusta viajar. Me gusta conocer otras culturas. Me gusta desarrollar mí conciencia.  Me gustan las películas que hacen pensar. Me gusta alcanzar un reto. Me gusta la libertad de elegir y no me gustan juicios sencillos sobre temas complejos. Me gusta el mar y la playa.  Me gusta el paisaje de Galicia.  Me gusta aprender cómo hacer algo nuevo. Me gusta cuidar del medio ambiente. Me siento una extraña en mi propio país. A veces en mi propia familia. Me siento sola. Me gustaba enamorarme y no me gustó nada perder un amor. No me gusta la solitud que él me ha dejado. No me gusta la idea de la finitud. Afortunadamente tengo más filias que fobias. 

Como ejercicio de similitud utilicé el video original de los 13 autorretratos emitidos por el programa "Carta Blanca" em La 2 de TVE española de Nacho Piedra en 2006 que decía:

Autorretratos surgió de la dirección del programa de entrevistas como una forma original de presentar a invitados diferentes a cada semana a través de algunas de las cosas que más y menos les gustan en la vida alternando con la fórmula amo/odio en la manera del famoso cortometraje de Jeunet y Caró.



 

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Venturas em Nova Iorque


Meu marido J. tinha 17 anos em 1974, quando começou a navegar em barcos pesqueiros espanhóis como ajudante de cozinha. Pela sua juventude, iniciou no mais baixo grau da hierarquia de um barco, el marmitón. Sua função era lavar e secar pratos, talheres, panelas, recolher a louça das refeições, descascar e cortar alimentos para o cozimento e limpar toda a cozinha e o refeitório. Fazia turnos das sete da manhã às quarto da tarde e depois das seis às dez da noite ajudando o cozinheiro-chefe na atividade de fornecer as três refeições diárias para uma tripulação de uns 30 homens. Havia uma máquina lava-louças e uma descascadora de batatas, mas de tão antigas danificavam a todo momento e o jovem marinheiro calculava que lavava mais ou menos umas 250 peças de louça a cada dia.

Assim começou sua aventura num grande pesqueiro industrial chamado Arosa Noveno, onde um amigo de seu irmão era o capitão. Seu primeiro destino foi para os pesqueiros da costa africana na pesca de merluza, depois a empresa obteve licença para a pesca de lulas—calamares— na costa americana na altura de Nova Iorque para a mesma viagem que duraria alguns meses.

À medida que seu corpo, mesmo jovem, sentia a dureza daquele trabalho, ele viu-se aos poucos fascinado pela atividade desenvolvida pelos marinheiros e pela paisagem de alto-mar do Oceano Atlântico, coisa que desfrutava muito nas horas vagas. Estava acostumado a embarcar com seu pai somente para os labores de pesca artesanal na costa espanhola em pequenos barcos desde os 13 anos. Quando soube que chegariam próximo da grande metrópole americana, sentiu um enlevo, um valor pessoal em poder desfrutar ao menos da vista da cidade desde o barco. 

Porém, durante o trajeto, já perto da zona de pesca americana, a embarcação foi tocada por uma forte tempestade de vento e as ondas atingiram até cinco metros de altura, rompendo os vidros da ponte de comando e, mais gravemente, lançando dois marinheiros ao mar que nunca foram encontrados malgrado os esforços de toda a tripulação. Com o acidente, o capitão ordenou que o barco rumasse para o porto de Nova Iorque para reparar as avarias, onde atracaria por tempo indeterminado. Enquanto não atracavam, a pesca de calamares continuava abundante. Inclusive lagostas gigantes também eram capturadas nos aparelhos, espécimes que J. nunca havia visto tão grandes—suas patas dianteiras tinham a medida de sua mão. No entanto tinham que devolver ao mar, pois só os barcos americanos tinham licença para a captura e os espanhóis, na verdade, ainda não davam muito valor a este grande crustáceo.

Com a notícia da atracagem no porto nova-iorquino, o jovem J. alegrou-se pois poderia desembarcar e visitar seus tios e primos que viviam nos Estados Unidos—no bairro do Bronx— havia já uns quatro anos. Tinha o endereço e telefone anotados numa cadernetinha que levava na sua mochila de viagem. Nem bem chegados ao ancoradouro já se vislumbrava a impressionante ponte Verrazano-Narrows, uma das maiores do país e a Estátua da Liberdade, o grande símbolo americano. O barco atracou em frente à Ilha de Manhattan, no bairro do Brooklin, na época um bairro muito pobre e sujo, como se vê nos filmes, com fogueiras, colchões e lixo espalhados pelas ruas. Desde o cais do porto também se avistava as Torres Gêmeas. Depois que a embarcação foi inspecionada pelos agentes de imigração, a tripulação estava livre para desembarcar. 

A busca pela família gerou um fato insólito e divertido para J. Era pelas 11 da manhã do dia seguinte à chegada, quando ele baixou à terra em busca de um telefone público ao longo do cais do porto. Logo encontrou um e discou os números que tinha apontado na caderneta. O telefone não dava aquele sinal padrão de chamada e provocava somente um ruído estranho. Comprovou se discava os números certos e nada aconteceu. Desistiu naquele momento, pois não podia afastar-se por muito tempo dos afazeres daquela hora.

Pelas cinco da tarde desceu aos cais novamente e deparou-se com um carro conversível azul com a capota abaixada bem perto da cabine telefônica. Um casal dentro do carro observava os barcos no porto. A mulher ocupava o volante, usava uma echarpe colorida, os cabelos castanhos voavam no vento, usava óculos escuros e fumava. Parecia uma imagem dos anos 20, pensou J. Ao aproximar-se do elegante veículo reconheceu uma conversação em espanhol com sotaque latino entre o casal, o que o encorajou a dirigir-se ao homem para pedir alguma informação já que não entendia nada de inglês. Um pouco envergonhado explicou que queria comunicar-se com seus tios e travou-se o seguinte diálogo:

—Boa tarde, notei que vocês falam a minha língua, poderiam ajudar-me? 
—Sim, claro.—disse o homem.
Tenho este número de telefone de minha família aqui de Nova Iorque, mas não consigo completar a chamada, não sei se falta algum número ou algum código local. Eles moram no Bronx. — O homem olhou para a anotação dizendo que parecia estar tudo correto e completou:
— Acompanho você até a cabine telefônica e lhe ajudo. Vi quando desceu daquele barco. De onde você é?—perguntou saltando do carro e foram andando.
—Sou espanhol.
—Espanhol de onde?
—Sou galego, de Galícia.
O homem insistiu: 
—E de que parte de Galícia?
—Sou de Pontevedra. —respondeu, já meio enfadado do homem querer saber tantos pormenores.
—E de que lugar de Pontevedra?
—Eu sou de um pueblo pequeno. Não é muito conhecido.
—Mas qual é o nome?—perguntou, ainda insistindo no mesmo tema.
—Sou de Combarro. —respondeu J.  já bastante desconfiado e contra a vontade.
Afinal, o homem virou-se para seu interlocutor com um grande sorriso e completou:
—Eu logo vi que seu sotaque era muito familiar. Pois eu sou de Bueu.

J. nunca poderia imaginar que dentre os 15 milhões de habitantes daquela cidade naquela época, a primeira pessoa que encontraria naquele enorme porto fosse alguém de seu país e ainda mais de um povoado tão perto do seu. Pura sorte. Assim ele pode contatar com sua família e seu primo veio de imediato encontrá-lo. Por fim, J. desfrutou muito daquela breve estada na cidade com agradáveis passeios e conversações familiares graças ao conterrâneo e aos centavos de dólar que faltavam para completar a ligação.



terça-feira, 27 de setembro de 2022

A Moeda Lusa

 



Luiza saiu cedo naquela manhã para a feira livre de Barcelos, distrito de Braga. O percurso era de pouco mais de 100 quilômetros desde sua cidade galega de Vigo até a região norte de Portugal, limítrofe com a Espanha. Gostava de passear por aquelas pequenas cidades portuguesas. Conhecia muito bem o trajeto, pois havia feito com o marido inúmeras vezes e agora solitária, dirigindo o mesmo Hyundai azul, o passeio ajudava a abrandar a falta que sentia dele.

Uma vez na feira, foi repassando cada tenda, misturando-se à pequena multidão que sempre se acercava àquele lugar tão antigo, quanto encantador. Era início de primavera e já havia muitos turistas, as falas se misturavam em diversos idiomas e sotaques, porém a comunicação era perfeita. Podia-se encontrar de tudo naquele enorme bazar que cobria uma grande alameda central chamada Campo da República. Havia roupas, sapatos, utilidades domésticas, artigos de cama, mesa e banho, artesanato— os icônicos galos portugueses de cerâmica de todos os tamanhos— produtos coloniais, mudas de plantas, hortaliças, frutas e uma parte muito atrativa com objetos e livros antigos. Tinha bons produtos, outros nem tanto como toda feira popular. Pelas inúmeras vezes que tinha estado ali ela até já conhecia de vista algum feirante com quem conversava. Uma senhora da barraca de frutas certa vez comentou, depois de perceber que Luiza falava o português do Brasil:

—Os brasileiros são nossos irmãos. — Disse a senhora. Foi quando Luiza comprovou a amabilidade do povo português, lamentando o desconhecimento e a falta de reciprocidade dos brasileiros. Muitos estudaram pouquíssimo a vasta e rica história em comum entre os dois países, o que os limitava ao trivial costume de difundir as piadas sem graça de português, que estava habituada a ouvir quando ainda morava no Brasil.

Naquele dia, a mesma vendedora reconheceu a freguesa, apesar da máscara, mais pelo sotaque e indagou:

—Me desculpe perguntar, mas que aconteceu com seu marido? Tenho visto a senhora sozinha por aqui nos últimos tempos.

—Faleceu já faz quase um ano.

—Ah, sinto muito! Covid?

—Não, câncer. Obrigada. Vou levar essas peras e um cacho de bananas das Canárias, por favor. — Luiza deu um jeito de pagar para ir-se logo dali, evitando mais perguntas sobre um assunto que ainda doía muito, apesar da amabilidade da senhora. Alcançou-lhe uma nota de 10 euros e ela devolveu-lhe o troco em moedas.

Depois ela esteve algum tempo entretida com as antiguidades. Naquele dia havia um espaço maior dedicado àqueles produtos e muitas peças interessantes estavam dispostas em estantes de madeira tipo caixotes ou mesmo em cima de lonas no chão. Depois de dar voltas, encantou-se por um par de xícaras de chá de uma fina porcelana de cor rosa antigo com detalhes de bordas douradas. O vendedor disse que era porcelana chinesa, mas ela duvidou. O preço pedido não era para tanto. Pensou em ficar com o par, estava íntegro e bem conservado, mas acabou desistindo. Já tinha acumulado um tanto de objetos antigos naquelas suas andanças por Portugal e o objetivo daquele dia era mais pelas frutas e verduras— mais baratas que na Espanha— necessitava de mais um abrigo impermeável e obviamente para desfrutar do dia de passeio.

Naturalmente ela sempre acabava levando mais coisas do que previa e esquecendo de outras. Ao estar de volta em casa, desembrulhou as compras e percebeu que não tinha trazido nada para jantar, nem tinha previsto nada para o café da manhã do dia seguinte. Tinha tido um almoço farto quase às duas da tarde no mesmo restaurante que ia com o marido, no A Muralha na cidade vizinha de Ponte de Lima, onde se comia um bacalhau à brasa de morrer. Também no trajeto de volta tomou o tradicional café com pastel de nata na cafeteria de Valença do Minho—outra parada obrigatória.

Pegou seu porta-níqueis e desceu rapidamente à padaria da esquina antes que fechasse. Pediu duas baguetes de pão artesanal, algumas gramas de presunto serrano e alcançou três moedas para a atendente que, depois de conferir o pagamento, voltou-se para Luiza:

—Senhora, uma dessas não tem valor. É uma moeda portuguesa antiga. Veja! —disse, entregando a moeda de volta.

—Como? Nem reparei, pensei que era de um euro. Na verdade, estive hoje mesmo na feira de Barcelos, acho que foi ali que me deram. Ah, seus portugueses, tão queridos e pela primeira vez me passando a perna no troco! —Pensou ela. A moeda não tinha valor nem em Portugal, porque já fazia duas décadas que tinha sido adotado o euro em toda a União Europeia. Foi repassando mentalmente as compras pelas quais tinha pagado em dinheiro e recebido o troco em moedas: as frutas, os legumes, a muda de alfazema, os estacionamentos e o café de Valença. Seria difícil descobrir a procedência do objeto.

Enquanto fazia a última refeição do dia, ela ficou observando a moeda lusa. Era de 100 escudos portugueses cunhada em 1990, cujo valor—verificou depois—seria de mais ou menos uns 50 centavos de euro. Largou no aparador da entrada dentro de um pequeno prato de vidro colorido que tinha trazido de Murano, numa visita à Veneza. Serviria para lembrá-la de estar mais atenta na próxima ida à feira.

Estava cansada do dia cheio, tinha saído cedo. Depois de jantar, tomou uma ducha, falou uns minutos com a filha pelo aplicativo de mensagens, deitou-se, leu um pouco e logo adormeceu. Depois de um tempo impreciso, ela foi despertada por um som débil de uma música tocando. Pensou ter deixado a televisão da sala programada para transmitir algo e se levantou meio trôpega para desligar. Passando pelo aparador, sem acender as luzes, reparou que a moeda de escudo irradiava um brilho estranho, reluzia como ouro, iluminando o ambiente. Impressionada, pegou a moeda com a mão espalmada, sentindo que o brilho lhe provocava uma certa tontura e um pequeno desconforto no fundo do olho, pensou que seria por estar dormindo e ter levantado muito rápido.

Logo depois ouviu como uns toques de teclado de computador e a música suave continuava na sala. Um tanto amedrontada, mesmo assim dirigiu-se para ali devagar, ainda com certa vertigem. Para seu espanto e perplexidade viu seu marido no lugar que ocupava sempre, sentado no sofá diante do laptop que mantinha numa mesinha baixa. Estava concentrado na tela do computador, mas em seguida virou-se e sorriu-lhe, enquanto ela se aproximava atônita. Por segundos teve dificuldade para falar, a voz ficou trancada na garganta. Depois, disse lentamente, como que medindo as palavras:

—Pablo??... Estás... bem?? Como... chegaste até aqui? —perguntou Luiza entre espantada e incrédula indo devagar em direção a ele.

—Como cheguei? Eu moro aqui, lembra? Perdi o sono tendo umas ideias para aperfeiçoar o conteúdo do curso. Estou aqui finalizando o projeto. Desculpa se te acordei. Já estava indo para a cama. — disse ele, extremamente concentrado, quase nem reparou no estado em que sua mulher se dirigia a ele.

Luiza se sentou devagar ao lado do marido, abraçou-lhe e depois passou a mão por seu cabelo, pelo rosto saudável e aparentemente mais jovem. Sentiu o calor do corpo dele, a textura muscular firme dos ombros e braços sob o suéter azul e o mesmo perfume da loção após barba. A última lembrança que tinha dele era com o aspecto extremamente frágil, cansado, esquálido, afônico, com poucos fios de cabelo e um curativo na mandíbula. E triste, muito triste.

—Ei, que te passa? —perguntou ele, agora sim, estranhando o gesto da esposa.

— Nada...Só que...Está passando uma reprise de Cuéntame como pasó a essa hora? — ela perguntou, notando que passava na televisão a famosa série espanhola da TVE1.

—Não, acho que é um capítulo inédito! Me disseste que estavas cansada e que o verias amanhã pela tarde no aplicativo. Estavas aí pintando tuas mandalas, não lembras? Só deixei a TV ligada, nem estava prestando atenção.

 A atmosfera da sala estava iluminada só com as luzes da televisão, da tela do computador e pelo luar que entrava pelo vidro da sacada, o que fazia reluzir ainda mais a moeda de escudo que ela mantinha forte na mão direita.

—Inédito?? Mas que dia é hoje?

—Quinta-feira, amor! Estás bem? Te noto estranha!

—Quinta-feira...—Ela pensou que fazia sentido, tanto a feira de Barcelos quanto a série de TV aconteciam nesse dia da semana. — Mas, por favor me diga em que mês e que ano estamos...

—Por Deus, Luiza, que pergunta é essa? Quase meia-noite, então ainda é dia nove de abril de 2015. E? Estás sonhando? Tenho uma mulher sonâmbula e não sabia? —disse ele olhando o relógio de pulso, rindo e imperturbado.

—2015!! — Ela exclamou, enquanto olhava para o calendário na barra inferior do laptop e viu um de seus cadernos de mandalas jogado na mesinha de centro junto com a caixa de canetas. Folheou rapidamente o caderno, pois costumava colocar a data quando finalizava o trabalho. A última mandala confirmava, era dia 9 de abril de 2015.

—Queres me dizer o que te passa? Estás me assustando...— Pablo, então percebeu o nervosismo dela.

—E de que curso estás falando? —ela retomou as perguntas.

—O curso que tenho que ministrar em Madrid na semana que vem, não lembras? Já está tudo acertado. Vais comigo e poderemos aproveitar a cidade juntos depois do trabalho, terei as tardes livres.

—O curso em Madrid? Aquele do hotel da estação do metrô Campo de Las Naciones, perto do parque Juan Carlos I?

—A secretária já me mandou o comprovante da reserva, mas ainda nem tive tempo de me deter no nome do hotel, tampouco do endereço. Só sei que tomando o metrô são somente duas ou três trocas de linha até o centro. Já tenho as passagens de trem também. Te encaminhei por e-mail a cópia da reserva? Não lembro. —Indagou, intrigado.

—Não, não me enviaste nada por e-mail... estou um pouco confusa, só sei que já estivemos lá. —Arriscou explicar-se. — Tens certeza de que estás bem? Não sentes nenhuma dor? Noto que ganhaste peso e pareces mais jovem e mais bonito.

—Luiza, vem aqui...— E Pablo abraçou a mulher. — De que dor estás falando? Não vou à médico há anos e estou perfeitamente! Ok, depois dos cinquenta não faria mal um check-up, posso estar mais gordinho também e obrigada pelo bonito. Mas por que tantas perguntas? Estavas aqui até umas horas atrás e não me falaste nada disso. Tiveste um pesadelo?

—Acho que estou sonhando sim, mas é um sonho maravilhoso...Vem, vamos para a cama. Está tarde e precisas relaxar. Teu curso será um sucesso, não duvides de tuas capacidades—disse ela com a moeda agora firme em uma das mãos e puxando o marido com a outra.

—Obrigada pela confiança, mas sabes que sempre me ponho um pouco ansioso e preocupado nessas situações.

Já na cama, Luiza deitada sobre o peito do marido, menos atordoada e ainda sem largar a moeda disse:

—Eu não estava só te animando quanto ao curso. Eu sei que sairá tudo bem e teremos ótimos momentos por lá. Inclusive teu case de sucesso será compartilhado e divulgado para vários setores da administração pública. —Ela arriscou mais uma vez a dar pistas do que sabia na tentativa de descobrir o real estado psicológico do marido.

—Que exagerada! Vou só relatar uma boa experiência com bons métodos.

—Não estou exagerando e não te preocupa, vai sair tudo bem, confia em mim.

—Obrigada, mas te noto estranha mesmo assim. Quer me contar?

—Eu estou bem. Só quero aproveitar tua companhia, teu calor, tua proximidade, ouvir tua voz, te beijar, te abraçar, fazer amor e tudo que temos direito.

—Pois aqui me tens, mas me deixas preocupado com essa conversa. Ah!...Me disseste que estava tudo bem com os exames de rotina que fizeste semana passada! És mais cuidadosa com isso do que eu. Era verdade, está mesmo tudo bem? Perguntou, lembrando do fato.

—Sim, não tem nada que ver comigo. Estou bem de saúde.

—Pois eu também...

—E se eu te pedisse que fosses a um dentista ou um médico de garganta. Irias? —indagou Luiza, pensando que talvez pudesse mudar o rumo dos acontecimentos ou ao menos retardar o inevitável.

—Não faz nem seis meses que visitei o dentista, e ver a garganta para quê? Não sinto nada... Não coloca caraminholas na cabeça.

—Tudo bem... por agora, me abraça e me deixa dormir bem perto de ti. Quero que saibas que te amo para sempre e que aconteça o que acontecer estarei contigo.

—Eu sei disso! E te digo o mesmo! —disse Pablo, ainda desconfiado.

—Agora me beija, antes que amanheça...—pediu ela.

Então naquela noite, Luiza deixou-se levar pelo inusitado, pela fantasia, pelo sonho, pela alucinação, pelo que quer que fosse que estava acontecendo. Desistiu de questionar a razão, a materialidade, a tangibilidade das coisas, dando valor somente aos seus significados. Deixou-se levar pela magia que atribuía à moeda lusa, que continuou brilhando mesmo depois de largada na mesa de cabeceira perto do celular. Não quis mais usar palavras, nem dar, nem pedir explicações. Negou-se a entender e a tentar mudar os fatos. O momento era para celebrar aquele encontro com o passado, reviver sentimentos e reforçar o amor que sentia pelo marido, apartado da vida tão cedo. Ele não precisava saber de mais nada, além do quanto era amado.

Na manhã seguinte, acordou sozinha. Virou-se para procurar a moeda e ela não estava mais. Buscou por todos os lados, pelo chão do quarto, no meio dos lençóis e nada. Correu até o aparador, vasculhou a sala e nem rastro da moeda. Com a claridade do dia tudo ficava mais real, escondendo a noite anterior numa bolha de ilusão, ao mesmo tempo que tinha tudo nítido na memória. Ela era uma pessoa sensata, não bebia, não usava drogas e sabia que não estava perdendo a razão. Tentou raciocinar, mas o que tinha vivido não se enquadrava na racionalidade. O marido estava morto havia meses. Se contasse para alguém o sucedido, diriam que tudo não passara de um sonho. Ela cogitou a possibilidade, pois pensava nele dia após dia. Era justamente a ausência dele que acompanhava toda a sua rotina, porém o que tinha acontecido na noite anterior, mesmo inverossímil, tinha sido real. Jamais poderia contar a alguém.

 Sem sombra de dúvidas, ela tinha reencontrado com seu marido Pablo numa noite de sete anos atrás, num momento extremamente feliz de suas vidas— ali teve a mais pura percepção de felicidade— sem doença, sem hospitais, sem tratamentos desumanos, sem médicos emitindo falsas esperanças, sem a mais remota ideia de uma separação.

Como não encontrou a moeda, agarrou-se à esperança de que Pablo tivesse entendido o sinal e que voltasse outra noite através do escudo português, que lhes servisse de chave para uma nova porta do passado e os dois pudessem entrar e continuar viajando como sempre fizeram. Assim poderiam ser felizes além da vida e sempre antes de amanhecer.


                                                    _____💓_____                                

                                                                                          

 

                                         

 

 

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Brasil, 200 anos


Museu Imperial, Petrópolis- Rio de Janeiro


Faz tempo que eu não escrevo sobre política e sociedade por aqui. Primeiro, porque nos últimos meses, minha vida pessoal foi bastante afetada e ainda estou tentando elaborar os acontecimentos e ordenar as mudanças que ocorreram. Segundo, porque nunca deixei de acompanhar as notícias e a cada fato escabroso, a cada má notícia, a cada ato e declarações desprezíveis de nosso mandatário e de seus pares me sinto vivendo num lodaçal, numa desarrumação, no lugar mais abominável do planeta. Não me refiro de maneira nenhuma à Pátria ou ao solo brasileiro que são maiores que tudo isso, mas por este governo que eu não acreditava sequer seria eleito, quanto mais que completaria o mandato. 

Então, tenho me resignado simplesmente a ouvir e ler as atrocidades diárias e não escrever nada sobre, porque também nunca imaginei que o ambiente político e a sociedade brasileira fossem tão vulneráveis a essa barbárie a que estamos agora submetidos. Sinto cansaço e desolação como tenho percebido em muita gente. Realmente, era ingenuidade pensar que estávamos seguros, só porque tínhamos e temos uma bela Constituição progressista que garante direitos individuais e pleno Estado de Direito, além dos pressupostos de sanidade, civilidade, humanidade e impessoalidade que devem estar implícitos para qualificar governantes. Apesar disso, está no poder o presidente mais incompetente, grosseiro, vergonhoso e ególatra que jamais tivemos, só para citar uns poucos adjetivos, todos depreciativos como é justo a um ser desqualificado como ele. Há muito mais. Para exprimir com precisão seria necessário um texto à parte como bem escreveu a jornalista Mariliz Pereira Jorge num artigo para a Folha de São Paulo meses atrás.

A grande lição que estamos a aprender é que a democracia é um sistema que deve ser buscado e conquistado incessantemente, depois que esse governo extremista, hipócrita, corrupto, desumano e caótico vem devastando o país nos últimos anos. E será a única lição que vão deixar. O mundo inteiro está vivendo tempos estranhos também. Muitos ideólogos de extrema-direita que estavam adormecidos saíram de suas sombras em várias partes do planeta e o Brasil sempre esteve vulnerável. Uns lugares mais que outros. Tempos de reacionarismo, ditadura, autoritarismo, violência e falta de informação já foram vividos em outras épocas por aqui. Agora se somam tempos de ódio, intolerância, mais violência, desinformação e a volta de um ideário fascista que já deveria estar há muito enterrado. 

O que me move hoje a escrever sobre o Brasil é que estamos a ponto de completar 200 anos de independência no próximo Sete de Setembro, quando o país deixou de ser uma das colônias de Portugal pela determinação de audazes brasileiros e brasileiros de coração como Pedro I e sua esposa, a austríaca Leopoldina. A história oficial não conta, mas a atuação dela muito influenciou e foi decisiva na concepção do Império do Brasil, quando a Colônia foi desligada da metrópole europeia.  Aliás, recomendo muito a leitura da biografia da imperatriz, Dona Leopoldina, a história não contada de Paulo Rezzutti. Uma mulher notável. 

Hoje, conhecendo Portugal como conheço, não consigo conceber como um país tão pequeno—mesmo sendo um dos precursores das grandes navegações— foi capaz de "conquistar" e manter durante três séculos a posse de um gigante em extensão como o Brasil e este ter mantido até hoje essa dimensão territorial. Claro, o sacrifício de milhares de vidas tanto dos exploradores e colonizadores de várias nacionalidades, quanto dos nativos indígenas contribuíram para isso, além dos 300 anos de economia escravagista utilizando a mão-de-obra de homens, mulheres e crianças, vidas humanas que eles simplesmente capturavam no continente africano. O país foi concebido num ambiente de espoliação, pilhagem, exclusão, racismo e desigualdade e essas características vêm se reproduzindo até os dias de hoje entre boa parte da classe brasileira mais endinheirada— os autênticos vira-latas— inclusive entre as classes médias, que tristemente normalizam a miséria e a pobreza. Eles somente tratam de proteger-se dos pobres. Os menos ricos compram o discurso dos mais ricos de que a pobreza é potencialmente criminosa por definição.

Lembro bem da comemoração dos 150 anos, o Sesquicentenário da Independência em plena ditadura militar. A pequena cidade onde eu morava foi toda para a rua assistir ao desfile que fechava a Semana da Pátria daquele 1972.  Eu era uma adolescente e desfilei orgulhosa com minha turma do colégio vestindo um traje especial que não era o uniforme usual; era uma saia plissada vermelha bem curta, shortinho de malha vermelho, camiseta branca, meias e tênis Conga brancos, num pelotão ou uma ala só de meninas. Talvez chamar de pelotão se adeque mais para definir, dada a época militarizada em que vivíamos. Levávamos arcos forrados com fitas de cor verde-amarelas e fazíamos uma performance ao longo do trajeto. Tudo muito ensaiado nas aulas de Educação Física. Naquele tempo era um orgulho para todos estar ali, afinal os meios de comunicação oficiais e os alinhados com a ditadura eram hábeis em omissões, simplificações e mentiras, enquanto incitavam o povo ao ufanismo e patriotismo como é característico do poder militar. Afinal, quem ousasse pensar ou dizer o contrário era perseguido, morto ou exilado. A diferença de hoje é que, mesmo num governo dito civil, não perderam a habilidade de manipular, perseguir, desaparecer e matar pessoas. Ficou apenas um pouco mais difícil, porém não de todo impraticável.

Não merecíamos que essa comemoração acontecesse no meio desse ambiente caótico e violento e sendo planejada e conduzida por esse simulacro de governo em pleno século XXI. Bem, não sei por que tínhamos a noção de que o mundo se aperfeiçoaria a partir deste século. O tão propalado XXI até agora está feito somente de avanços tecnológicos. As causas sociais e comportamentais ao mesmo tempo que avançam pequenos passos, regridem outros largos. Até quando o espírito humano seguirá imperfeito, conflitante e beligerante? Enfim, passados 200 anos, estaremos aqui, infelizmente sem nada a comemorar e com a certeza de que os inquilinos do Planalto usarão a data para suas maquinações, calúnias, para a difusão de bizarras teorias, evocando seus instintos golpistas e tentando deturpar e desacreditar o processo democrático eleitoral que já se avizinha. A grande esperança é que as urnas sejam demolidoras para eles. Ojalá!




sábado, 25 de junho de 2022

Aquela tarde vazia




A primeira vez que ela chamou, ele estava na cafeteria que costumava se refugiar. Aquela tarde tinha começado infinitamente vazia, ainda que o vazio e o infinito pareçam antagônicos. Igualmente a manhã tinha sido das mais rotineiras. Saiu do escritório rumo à casa com o tédio colado no corpo.  Sentia falta de novos planos, expectativas, algo criativo para dedicar-se. Estava cansado das tardes quentes do último verão fazendo manutenção no jardim e na casa, embora essa atividade ajudava a preencher alguns dias menos desastrosos, assim como o trabalho no escritório e a companhia dos colegas davam certo suporte a sua rotina.

Depois do almoço, sempre às três da tarde, ele ficou uma hora ou mais sentado em frente ao computador, relendo as notícias da manhã meio sonolento. Sua mulher seguia o hábito de assistir todas as novelas da tarde na sala da televisão no andar de cima da casa, coisa que o enfadava já havia algum tempo.  A desatenção, a indiferença e a frieza foram corroendo o relacionamento e agigantando a distância entre eles. Os diálogos eram breves e somente sobre temas da vida prática. Uma barreira imaterial chamada desamor tinha se levantado e qualquer convite que viesse da parte dele, mesmo por mera cortesia, era recusado. 

Pelas cinco resolveu pegar a moto e sair. Ninguém na casa sentiria sua falta àquelas horas. Talvez se não voltasse, também não. Nos últimos anos acostumou a sair sem avisar, pois sentia não ter mais relevância na vida daquela família. Quando começou a derrocada do casamento, ressentiu-se muito do rumo das coisas e tentou com todas suas forças consertar o que mais tarde entendeu que não tinha conserto. Desistiu. Agora o assunto divórcio era um tema que deveria ser tratado, porém ele sabia que não partiria dela, era uma pessoa demasiado retraída, avessa a expor seus sentimentos e, comumente de pouca atitude. Se quisesse que algo acontecesse deveria partir dele, mas adiava, não sabia bem porquê.

O tempo estava bom, embora o verão estivesse quase acabando e a temperatura já diminuíra. Ele gostava de passear de motocicleta, além de ter mais liberdade no tráfego e mais vagas nos estacionamentos, a sensação do vento contra o corpo sempre o despertava, como se mudasse seu estado psicológico. A velocidade o reavivava e o mundo desde aquela perspectiva parecia transcorrer diferente. 

Depois de quase trinta minutos de trajeto estacionou perto da cafeteria Aroa. Já era cliente habitual daquele ambiente. Os fregueses eram na maioria turistas desconhecidos e ele escolheu a última mesa do fundo, sua preferida e quase sempre livre. Pediu o café para a atendente, uma moça de olhar cansado e perdido, de avental e lenço em forma de bandana, ambos pretos amarrados em sua respectiva parte do corpo. Ela fazia todo o trabalho, atendia as mesas, cobrava, buscava os pedidos na cozinha, ia e voltava equilibrando a bandeja cheia.

Retirou o tablet que carregava consigo na bolsa a tiracolo e conectou-se à rede da cafeteria. Adorava aquele dispositivo comprado recentemente, vinha com muitos recursos e obtinha ótimas fotos. Já tinha dezenas delas na galeria, pois a paisagem era digna de ser capturada. Morava numa zona litorânea e era encantado pelo lugar onde tinha nascido, crescido e vivia até então.

Tinha descoberto havia algumas semanas e participava de vez em quando de um fórum de idiomas. Ali conectavam-se pessoas do mundo inteiro interessados em aprender inglês, espanhol, alemão, italiano, mandarim, etc. Porém nem sempre os assuntos lhe interessavam. A maioria dos usuários eram pessoas muito jovens e para um senhor de 50 anos muito do que era tratado ali não fazia muito sentido. Assim que não era sempre que interagia. No entanto, face ao nível de tédio daquela tarde, resolveu entrar e divertir-se um pouco vendo o que sucedia naquele mundo virtual.

Escrevia, lia e compreendia razoavelmente o inglês e gostava de ensinar os que tinham interesse por sua língua nativa. Ensinava os significados, as flexões, as construções frasais e verbais, as expressões do seu idioma, assim que quando lhe cabia essa tarefa a vida parecia fluir com mais propósito. Nesses momentos, pensava que deveria ter sido professor, ao invés de ter se metido a trabalhar com  assuntos burocráticos da administração pública.

Ao abrir a página de idiomas logo percebeu que havia uma notificação de mensagem. Era algo incomum, pensou que seria dos próprios desenvolvedores ou da inteligência artificial advertindo sobre alguma atualização.  Abriu e leu o seguinte texto em inglês: 

Prezado @vivendosemar,

Procuro pessoas para compartilhar conhecimentos de inglês. Tenho nível intermediário e gostaria de poder tratar de temas diferentes dos que comumente são tratados nas salas deste website. A maioria dos usuários são pessoas muito jovens e com interesses e preferências diversos de pessoas da minha idade. Vi em seu perfil que partilhamos da mesma geração e talvez você tenha a mesma percepção que a minha. Se for do seu interesse entre no meu perfil e veja minhas preferências, de onde sou e todo o resto. Poderíamos formar um grupo diverso já que a plataforma nos permite esse movimento.

Atenciosamente,

@entediadacriativa

No mesmo instante ele foi ao perfil da Entediada, pois teve afinidade com seu nome de usuário e logicamente com o conteúdo da mensagem. Ela vivia em outro continente, mas falavam a mesma língua nativa. O perfil não dizia muito mais: 50 anos, professora de História, vivia numa grande cidade da América Latina, gostava de viajar, de ler e gostaria de adquirir fluência em Inglês. Em seguida ele formulou a resposta e enviou:

Prezada @entediadacriativa

Interessante sua proposta. Entendo sua preocupação, por isso quase não frequento esse ambiente. Portanto eu aceito seu convite. O que devo fazer?

Att

@vivendosemar

Esperou uns minutos para ver se obtinha resposta, enquanto navegava por outras páginas da internet. De repente surgiu a pequena janela de mensagens instantâneas:

@entediadacriativa: Olá, por ora não precisa fazer nada, estou com dificuldades para encontrar pessoas com o nosso perfil, por enquanto só quem aceitou foram uma italiana, um belga, um panamenho e tu.

@vivendosemar: Olá...Bem, já somos cinco. Desde quando buscas?

@entediadacriativa: Nem imaginas, já faz mais de mês. Estou para desistir.

@vivendosemar: E os outros o que pensam?

@entediadacriativa: Não sei...Eles só aceitaram participar, mas estão sempre off-line como podes ver...

Ele passou os olhos pelos nomes do grupo. Ali estavam @madalenaruggeri, @antonbraich e @juanjomorales, além deles, todos off-line. Teve a curiosidade de ver a foto da Entediada. A imagem parecia coincidir com a idade informada, cabelo castanho, óculos escuros, mostrava ela de corpo inteiro com roupas de viagem, carregando uma mochila numa espécie de colina com a vista de uma imensa ponte sobre um rio e uma grande cidade por detrás. Parecia bonita e até aparentava menos idade do que estava no perfil, mas essas fotos sempre dão margem para desconfiar da autenticidade.  Com a curiosidade aguçada, resolveu continuar o chat e provocar um pouco a interlocutora, sempre em inglês:

@vivendosemar: Pela sua foto de perfil vejo que não combina muito com seu nickname...parece mais uma viajante e aventureira, nada entediada.

@entediadacriativa: O seu também não combina, se não não estaria aqui falando comigo...Ou te perguntaria, onde é esse lugar que se vive sem ar?  Porém, creio que entendo a metáfora e me lembra uma música.

@vivendosemar: Claro que é uma metáfora, gosto da música do Maná. Então, me explicas porque o tédio?

@entediadacriativa: Claro, se me explicas porque escolheste o "viver sem ar"...

@vivendosemar: Já disse ...gosto da música, principalmente os primeiros acordes...Conheces?

@entediadacriativa: Conheço, também gosto...Bem, quanto ao tédio...Não sou uma nômade, embora gostaria, mas não posso estar viajando o tempo todo como na foto de perfil. Então entre uma viagem e outra o tédio se estabelece e preciso criar formas suportáveis de viver...Daí vem o nickname. E a falta de ar? 

@vivendosemar: Faz sentido tua explicação. Bem, a falta de ar está instalada desde um tempo impreciso, mas ainda não desisti de voltar à superfície e poder inspirar e expirar normalmente.

@entediadacriativa: E estar aqui ajuda ou dá na mesma?

@vivendosemar: Às vezes ajuda, outras dá na mesma...

Assim os dois mantiveram um agradável diálogo por mais de três horas sem que os demais companheiros de grupo aparecessem. Em dado momento ele percebeu que já estava tarde,  gentilmente despediu-se prometendo que estaria ali em outro momento e a ajudaria a captar interessados naquela conversação. 

@entediadacriativa: Ok, obrigada, foi um prazer falar com você. Da próxima vez traga um tema para discussão, embora nosso chat tenha sido bastante divertido e diferente.

@vivendosemar: Já vi que tens hábitos de professora...Ok, vou pensar em algo, mas você também pode fazer o mesmo. 

@entediadacriativa: Desculpe, não era uma ordem, apenas para não ficarmos aqui como os adolescentes, discutindo temas dispensáveis, irrelevantes, fazendo piadinhas sem graça e rebelando-se com um mundo que desconhecem. Confesso que estou um pouco cansada deles. 

@vivendosemar: Entendo e também achei a conversa muito agradável.  Costumo estar aqui sempre por estas horas, assim que se te parece bem, amanhã falamos. A ver se me ocorre um bom tema...Boa noite.

@entediadacriativa: Amanhã por estas horas estarei em classe, porém mais tarde, seguramente...Boa noite!

Ele seguiu o rumo da casa já passava um pouco das nove da noite, a conversa tinha lhe absorvido e, entretido, não viu o tempo passar. Sua interlocutora pareceu-lhe uma pessoa agradável, inteligente, bem informada e os temas que abordaram vinham de encontro às suas ideias e pensamentos em sua maioria. Nem um, nem outro deram detalhes pessoais de suas vidas, local exato de moradia, estado civil, tampouco se tinham família, filhos, e sequer seus nomes verdadeiros. Os temas giraram em torno de viagens, lugares conhecidos ou para conhecer, atividades desenvolvidas em suas respectivas profissões, alguma ideologia política e pensamento de mundo.

Na tarde seguinte ele precisou deslocar-se até o centro da cidade em busca de reparos para a porta da garagem, pois o sistema remoto tinha emperrado. Acabou demorando-se por lá,  encontrou um amigo e ficaram colocando assuntos em dia. À noite, conectou-se à página de idiomas, pois lembrou da agradável companhia da tarde anterior. Ela estava online e havia um chat em desenvolvimento entre ela e o tal @juanjomorales, o panamenho.

@vivendosem ar: Boa noite a vocês!

@entediadacriativa: Boa tarde, sr. Sem Ar!!!Pensei que não estaria por aqui hoje.

@vivendo sem ar: Estive a tarde ocupado, mas agora estou livre. Bem, vejo que já tens companhia. Prazer, @juanjo.

@juanjomorales: O prazer é meu. Boa tarde! Para nós aqui da América ainda é cedo.

@vivendosemar: @entediadacriativa, sinto, mas não tive tempo de preparar um tema. De que assunto tratam hoje? 

@entediadacriativa: Sem problema, estamos aqui falando de amenidades. É a primeira vez de Juanjo por aqui e lhe expliquei o objetivo do grupo.

@juanjomorales: Sim, e achei interessante, embora não posso prometer que estarei muito por aqui. No próximo mês estarei envolvido com um trabalho novo que vai me absorver bastante. Me dedico a projetos governamentais ambientais. Sou Engenheiro. Agora mesmo tenho que deixar vocês. Até outro dia.

Assim Nora e Luiz, ele espanhol, ela uruguaia estabeleceram uma comunicação incessante a partir daquela tarde. Deixaram para trás a página do Inglês e seus nomes fictícios que a partir dali não faziam mais sentido. Ela por nunca mais ter se entediado, embora continuasse criativa e ele porque conseguira sorver ar para respirar. Depois de um mês adotaram uma comunicação mais privada através dos vários aplicativos disponíveis e puderam compartilhar suas vidas por inteiro até que numa noite de julho de 2013, menos de um ano após àquela tarde, ele desembarcou em Montevidéu para um primeiro encontro.

Nunca foram tão felizes!









                                                       

 






















terça-feira, 7 de junho de 2022

Eu só queria te ver mais uma vez


Monção, Portugal - arquivo pessoal


Evelina vislumbrou seu próprio corpo sem vida na cama daquele precário hospital espanhol do começo da década de 40. Havia acabado de dar à luz. O bebê tinha sobrevivido e dava pequenos murmúrios alheio à morte da mãe no colo da bisavó que chorava num misto de alegria e tristeza. Apesar de ver seu corpo inerte e o rosto pálido daquela perspectiva extracorpórea, ela sentia que tinha outro corpo, mais leve, mais volátil, menos denso. Uma luz forte, um tanto irritante, tinha lhe atraído para aquela posição. Não sentia mais as dores do parto difícil que tivera e intuiu que estava noutro patamar, além da vida, um estágio pós-morte.

Percebera a gravidez um mês depois da morte do marido. Julián tinha sofrido um acidente no mar. A embarcação em que ele trabalhava fora atingida por uma forte tempestade e naufragou. Seu corpo foi encontrado dias depois em meio às rochas, alguns quilômetros do povoado costeiro onde viviam. Por este infortúnio, Evelina passou toda a gestação imersa em depressão profunda. Pensou até em dar um fim àquele estado que sabia só lhe traria recordações de uma vida que não teria mais. Amava Julián, estavam casados há pouco mais de dois anos, eram muito felizes. Julián era um marido maravilhoso e distinto dos homens daquela época, quando concebiam as mulheres apenas como servidoras de casa, mães de uma prole, objetos sexuais e moeda de troca para negócios familiares. Sua avó tinha por certo que a vinda da criança lhe serviria como grande consolo. Ela duvidava, porém entregou-se apática àquela situação que o destino lhe colocava pela frente.

Sabia que seu filho seria bem cuidado, então estava em paz naquele momento que entendeu que partia. Quem sabe poderia reencontrar Julián. O padre em seus sermões na missa não falava em vida eterna? Pois haveria de comprovar. Com isso em mente encheu-se de esperança, deixando-se levar por aquela sensação indefinível. Depois de uns minutos naquele interposto, o mesmo sinal de luz arrancou-lhe subitamente dali. Sentiu que viajava numa velocidade extrema, atravessando algo como um túnel gigante. Flutuou por ali sem medo, não havia atrito com nada material. Não sabia que direção percorria, pois o movimento era ultrarrápido o que prejudicou seu raciocínio, e foi perdendo o tênue fio que ainda mantinha de consciência e discernimento.

Evelina acordou depois de um tempo impreciso. Estava numa alameda com muitas árvores em frente a um enorme edifício cinza e envidraçado. Havia muitas pessoas por ali usando roupas estranhas e multicoloridas. As mulheres vestiam calças masculinas ou saias e vestidos exageradamente curtos. Os homens usavam o mesmo modelo de calça de um tecido azul meio desbotado, camisetas um tanto apertadas no tórax e muitos usavam os cabelos compridos, confundindo-se com as mulheres. Todos levavam livros nos braços ou carregavam mochilas nas costas. O ambiente era animado. Passou os olhos, impressionada, por aquela gente estranha e pelos inúmeros carros estacionados no meio fio, modelos muito diferentes dos poucos que conhecia. Até que avistou Julián. Ele conversava animadamente com um grupo de pessoas. Dirigiu-se para perto deles lentamente para ouvir o que diziam. Falavam de assuntos ininteligíveis para ela, ainda que em sua própria língua. Chegou mais perto e tocou-lhe o braço. Afora a roupa que usava e o cabelo mais farto, tinha a mesma aparência daquela noite que tinha saído ao mar para não mais voltar. Ele virou-se para ela, o que a deixou perplexa e feliz, reconhecendo o mesmo sorriso e os mesmos olhos azuis do marido.

—Pois não, moça. — O rapaz reagiu, com um olhar entre amistoso e curioso.

—Julián, não me reconhece? —Ela perguntou devagar e amedrontada.

—Desculpa, não estou lembrado. Precisa de ajuda?

—Que lugar é esse? Ainda é 1941? —Ela perguntou e os ouvintes começaram a rir da pergunta e da maneira que Evelina estava vestida, uma roupa que só viam em fotos antigas de família.

—Aqui em frente é o prédio da Faculdade de Direito de Santiago de Compostela e estamos em 1985. Você está bem? —O rapaz respondeu intrigado e paciente, pedindo mais respeito da parte dos colegas, enquanto notava familiaridade na voz e nos olhos da moça. Logo uma jovem do grupo abraçou-se a ele tentando desviar a atenção da desconhecida, dizendo:

—Vamos, Julián, ela deve ser aluna do curso de Teatro ensaiando alguma fala e pelo jeito fumou ou bebeu de tudo hoje.

Evelina ficou desconcertada e decepcionada notando a intimidade entre eles:

—1985?? Meu nome é Evelina, se você lembrar de mim, manda um sinal. Hoje só queria te ver mais uma vez. —E desapareceu da vista de todos pelo mesmo portal de luz do qual tinha saído.

—Ei, que tipo de sinal? — o rapaz tentou alcançá-la, surpreendido. Lembrou de um retrato em preto e branco do casamento de seus avós na sala de casa, onde estava escrito à mão com uma letra de criança no verso:  Mis papás, Evelina e Julián, 1938, hasta siempre!                                                                                                       


Insônia