domingo, 28 de abril de 2019

Tempos de ódio


A personagem Carminha interpretada por Adriana Esteves na novela Avenida Brasil da Rede Globo

Já contei certa vez numa postagem em rede social um breve episódio que passei com uma colega brasileira que conheci no Curso de Espanhol para imigrantes na Cruz Vermelha Espanhola. Era uma manhã de março de 2016, ela chegou um pouco ofegante e alguns minutos atrasada na sala de aula. Entre eufórica e um tanto perturbada ela começou a me contar que a Polícia Federal brasileira tinha acabado de prender o ex-Presidente Lula. Foi aquele dia bizarro da condução coercitiva, mas que muitos desavisados desfrutaram como uma efetiva prisão. A polícia em consonância com a mídia fez questão de apresentar um grande espetáculo midiático para deleite do sistema punitivo de exceção que já dava ares de tomar conta do país. Só que isso tudo passei a entender algum tempo depois.

Minha colega estava visivelmente ansiosa, com a respiração curta, não prestava atenção na aula, tentava falar comigo, mas atrapalhava a classe. Achei melhor pedirmos para sair um momento, porque percebi que ela quase passava mal. No corredor me contou os detalhes da tal prisão, que tinha acompanhado tudo pela TV Globo Internacional. Interessante que as pessoas saem para morar fora do Brasil, mas não conseguem sair da TV Globo. 

Minha colega citava muito o nome de um tal juiz chamado Sérgio Moro, dizendo que era o "seu herói". Fazia só dois anos que eu tinha saído do Brasil e nunca tinha ouvido falar nesse tal juiz que ela citava. Pedi mais explicações e ela tentava contar, mas com a fala entrecortada, hiperventilando, com sinais de muita ansiedade. Dizia que horas antes tinha até brigado com a própria irmã, que estava no Brasil, por conta do assunto. 

Tentei acalmá-la, enquanto pedia mais explicações e ao mesmo tempo já me espantando com seu olhar e seu jeito de desfrutar do fato que contava, não de uma maneira relaxada, mas com um misto de prazer e ódio incomuns, uma mistura de patológico e teatral que eu só tinha visto em novelas de televisão. Só faltava espumar como um animal raivoso. Percebi um misto de raiva e deleite. Tempos depois, quando eu lembrava da reação de minha colega me divertia comparando o fato com cenas de ódios homéricos entre os personagens Nina e Carminha da novela Avenida Brasil, como não poderia deixar de ser, da Rede Globo. Naquela época a novela estava passando na Antena 3 , canal da Espanha. 

Claro que o momento não foi divertido. Naquela hora eu tentei acalmá-la, enquanto explicava que eu era simpatizante do bandido preso a que ela se referia e que se alguém ali deveria ficar perturbada com a notícia seria eu. Foi nesse dia que eu presenciei pela primeira vez o ódio não só a um grupo partidário, ali também já se configurava uma aversão à política e aos políticos em geral, coisa que só algum tempo depois eu passei a conhecer melhor e até hoje tento entender.

Relato o fato tendo plena consciência que ninguém está obrigado a gostar ou defender políticos, tampouco partidos políticos de siglas A, B ou C. A democracia é para ser exercida, a diversidade de ideias é um princípio, no entanto as normas que regulam um Estado Democrático estão todas escritas e devem ser respeitadas. E naquele momento daquela suposta prisão ninguém precisaria ser um profissional das leis e do direito para perceber que alguns artigos da Constituição Federal e do Código Penal estavam sendo violados.

Outra experiência que tive depois com a mesma colega talvez explique o porquê alguns brasileiros não odeiam somente determinados políticos, mas a classe política como um todo e a própria democracia e a diversidade como prerrogativa legal e civilizatória.

Em outra ocasião estávamos na Festa das Nacionalidades que a Cruz Vermelha promove todos os anos para confraternizar professores, voluntários, funcionários e alunos da Entidade. Os estudantes eram obviamente de várias nacionalidades, mas a presença de pessoas do Marrocos, Paquistão, Egito, Senegal, Bangladesh etc. países originalmente de religião muçulmana ou de países do Continente Africano era bastante numerosa. 

Muitas colegas marroquinas compareceram vestindo seus elegantes trajes típicos, túnicas multicoloridas, lindos véus encobrindo as cabeças— os hijab que usavam todos os dias— seus instrumentos musicais, havia muita comida típica e uma alegria contagiante. Minha colega levou a filha pequena na festa. A menina devia ter uns cinco anos de idade e mal entrou no local do evento e começou a choramingar dizendo que tinha "medo de muçulmanos". Me estranhou muito que uma criança tão pequena soubesse quem eram aquelas pessoas e indaguei de minha colega o porquê da criança reagir assim. 

Ela me respondeu de uma maneira meio sonsa e dissimulada, dizendo que não fazia ideia, desconversou e ainda repreendeu a menina. Obviamente uma criança de cinco anos não faz esse tipo de comentário. Ficou claro para mim que ela já tinha ouvido falar de muçulmanos em casa e era de casa que vinha seu sentimento. Crianças não dissimulam. Naquele momento não precisei ouvir mais nada. Eu acabava de conhecer minha companheira brasileira de curso e percebi que não era alguém que valesse uma amizade. 

Na época até nem me preocupei com o discurso antipolítica que ela exaltava, mas percebi nesse pouco contato outras características e reações de sua parte— além da intolerância e do preconceito— ela tinha aquele ar de quem pensa que tem mais valor que os demais. O que me estranhou é por qual razão ela estava ali frequentando um local público e gratuito de apoio à imigrantes e que fomenta a integração entre pessoas multiculturais como a Cruz Vermelha. De um certo modo ela estaria negando sua própria condição de imigrante e com seus preconceitos e "medos" de culturas diversas.

Nesse momento lembro que alguns seres humanos são da maior mesquinhez no momento de dar, mas em igual proporção são ávidos no momento de receber. Por questões de sobrevivência, saber o idioma do país onde se vive é condição básica, então nesse caso o peso das aulas de espanhol gratuitas fez com que engolisse em seco o preconceito o mais que pôde.

Felizmente, essa colega foi uma exceção, mas também um aprendizado. Conheci muitos outros brasileiros e pessoas de outras nacionalidades, antes e depois dela na mesma Organização e mantenho até hoje boas amizades. Claro que me afastei dela, nos vimos outras vezes nas aulas, nunca mais falamos sobre o assunto, evitei encontros e telefonemas. O curso acabou naquele semestre, ela não retornou nos outros períodos e nunca mais nos vimos. De lá para cá, desejo que ela tenha aplacado seu ódio e seus preconceitos e não tenha se juntado às fileiras que cresceram desde 2016 e levado o país à catástrofe social e política que está hoje mergulhado.

Eu desejo que tenha sido assim, mas no fundo sei que não foi. Ela já era forte candidata às fileiras do ódio.


quarta-feira, 17 de abril de 2019

A derradeira lição do Mestre

https://palavracomum.com/as-leccions-do-mestre-castelao/


Alfonso Daniel Manoel Rodriguez Castelao ( 1886-1950 ) foi um escritor, dramaturgo, político e artista galego/espanhol. Estudou Medicina, mas costumava dizer: Fiz-me médico por amor a meu pai, não exerço a profissão por amor à humanidade. Sua emblemática obra, uma pintura chamada A derradeira Lección do Mestre uma das gravuras presentes no livro Galícia Mártir foi há pouco transladada da Argentina para a Galícia onde está exposta na Cidade da Cultura em Santiago de Compostela. Também é lembrado como O Guernica Gallego. 

O tema do professor assassinado é um dos mais recorrentes para significar a guerra civil espanhola ocorrida no início do século XX entre os anos 1936 e 1939 que favoreceu o início  da ditadura franquista e sua prolongada permanência no poder durante quarenta anos até 1976. O quadro mostra um cenário de terra arrasada e crianças choram ao lado do cadáver ensanguentado de seu professor.

A história da humanidade e do Brasil está repleta de atrocidades cometidas não só contra professores, também contra pensadores, artistas, cientistas, ativistas, políticos, etc. eliminados com o intuito de calar, silenciar, demonizar e expurgar do convívio pessoas que tinham o poder de ensinar, mostrar caminhos, iluminar e libertar mentes e corpos.

Nos dias de hoje, infelizmente não só professores mas o próprio conhecimento vem sendo assassinado e rebaixado para tons de zombaria e de insignificância quando vemos mestres de renome, intelectuais, cientistas, jornalistas, escritores e suas obras sendo enxovalhados em suas reputações na tentativa de diminuir e até suprimir seu valor e relevância. Os atores dessa façanha contemporânea são indivíduos de flamante ignorância irradiados para um meio mundo de outros iletrados onde se sentem todos muito confortáveis no seu culto ao obscurantismo e ao reacionarismo encerrados num constrangedor e ao mesmo tempo perturbador orgulho à burrice.

O caráter subversivo, insurgente, rebelde e questionador do espírito de bons mestres e pensadores incomoda os iletrados, porque eles não entendem e tampouco querem entender a dinâmica do pensar. Preferem reagir sem apresentar bons argumentos. Menosprezam o vanguardismo nas idéias, na literatura, nas artes, nas ciências sociais e políticas como fatores de influência e consequências do tempo presente e do desenvolvimento e evolução humanos. 

Jean Wyllys, professor universitário, jornalista e político recentemente auto-exilado na Alemanha cita aos 35 minutos de uma entrevista concedida em 2019 ao jornalista Pedro Bial  uma passagem de sua infância. Conta que aos seis anos—isso seria meados de 1980—foi à padaria a pedido de sua mãe e ali pediu seis pães, assim com o plural bem colocado. Um homem perguntou-lhe se ele era viado ou estudado com toda a assistência ao redor rindo da pergunta. Isso coloca as duas palavras em nível de igual preconceito, porque uma pergunta como essa feita a uma criança de seis anos mostra a abismal ignorância, insensibilidade e desrespeito por parte do indivíduo que despreza tanto os homossexuais quanto as pessoas que estudam e falam corretamente. 

Não obstante, para o caso em questão, uma criança de seis anos traz o bem falar de exemplos da casa, porque sequer ainda está alfabetizada e o bem falar só é aceito entre brancos e ricos, potenciais doutores desde a infância. Entre os pobres, para alguns é característica de efeminados. Esse é um típico exemplo do ódio ao saber com o agravante homofóbico, sintoma de uma sociedade pobre de princípios, discernimentos e doente de valores. Chamo atenção para o fato ser de ocorrência atemporal, pois tanto poderia ter ocorrido no Brasil Colônia, no século XX ou nos atuais anos 2000.

A leitura no quadro de Castelao desvela o extremo pesar com o assassinato da pessoa que transmitia o conhecimento muito bem retratada pelo artista. Seria essa a derradeira lição do mestre? Luzes e trevas, vida e morte em eterna batalha? Enquanto de tempos em tempos a luz avança, as trevas nunca desistem e como ciclos vão se alternando. Assim, desenvolvimento humano e evolução postergam-se ou simplesmente estacionam para deleite dos democratas de fachada e dos fundamentalistas. 

Um dia alguém acende uma luz, outro dia, vem outro e apaga. 


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Impossível evoluir com os olhos vendados



                                    

Os que deram de ombros para a catástrofe Bolsonaro com o único, fútil e vazio intuito  anti-petista agora se fazem de otimistas e patriotas e "torcem para o governo dar certo". Chega a ser patético, porque e
ssa torcida é irrelevante, desnecessária e sem sentido pois o próprio governante age incessantemente contra ele mesmo todos os dias. É o primeiro governo recém-empossado mais mal avaliado da história em menos de cem dias. Sem torcida ou com torcida está condenado ao fracasso.

Essas pessoas certamente são algumas das que responderam à última pesquisa Datafolha que considera o presidente pouco inteligente, mas mesmo assim votaram nele, porque lembrem qualquer coisa era melhor que o PT. Diante disso escolheram não só uma Qualquer Coisa, mas uma verdadeira bancarrota, a decadência de um país inteiro no qual eles mesmos estarão submetidos durante quatro anos, porque é impossível desvincular o governo de um país do cotidiano das pessoas. Atos, escolhas, programas e políticas públicas fazem parte do desenvolvimento ou da derrocada de uma sociedade.

Não me atrevo a dizer que todos os eleitores bolsonaristas ou seus apoiadores sejam desprovidos de inteligência, porque muitos já perceberam a catástrofe que o país se meteu. O que fica explícito ao tentar dissimular, explicar a má escolha ou a omissão por escolher o voto nulo é a  irresponsabilidade e a total falta de maturidade como cidadãos. Com os olhos vendados, seguirão coniventes e cúmplices dos mal feitos e arrastarão consigo as tragédias futuras, sempre "torcendo para dar certo" mas nunca evoluindo para uma tomada de consciência.

Pobre Brasil, um Big Brother repleto de brutalidades, frivolidades e desrespeito ao ser humano. Quanto mais piora, a incompetência dá conta de piorar ainda mais.

sábado, 30 de março de 2019

Quem com impeachment fere, com impeachment será ferido


A fala mais contundente, cruel e desumana naquela inesquecível sessão da Câmara dos Deputados do dia 17 de abril de 2016, quando se votava o impeachment da Presidenta Dilma Roussef foi do atual Presidente da República. Aos gritos, ele pronunciava e dedicava seu voto a um coronel torturador da ditadura que, segundo ele era o terror da Presidenta. Ele fez questão de proferir tal torpe minidiscurso, quando poderia ter se limitado a dizer somente sim. E a cena correu o mundo para vergonha de muitos e deleite de outros tantos.

Foi nesse exato momento que a democracia e a boa política começaram a morrer dando lugar à suspeição, à descrença e à exasperação contra todos os temas contraditórios ou divergentes na sociedade e contra ações e políticas públicas civilizadas e civilizantes implementadas nos últimos anos, seja qual fosse a cor partidária que as tenha implementado.

Não é estranho que o mesmo desprezível discursante tenha sido eleito presidente dois anos e alguns meses mais tarde e tenha instalado no país o ódio como o maior vitorioso e a desinformação como seu suporte. Quem venceu, literalmente as eleições no Brasil em 2018 foi o ódio à política e aos políticos. Infelizmente, uma população desinformada, ignorante e alienada deixou-se tocar pela cólera ao sistema político como um todo, sem imaginar que a importante ação de votar e escolher seus representantes se voltaria contra ela em curtíssimo espaço de tempo.

Agora os ventos parecem mostrar a precisão do antigo dito bíblico que diz que todas as más ações feitas pelo homem se voltarão contra o próprio homem:
Quem com ferro fere, com ferro será ferido, que na verdade diz em Mateus 26:52, todos os que lançarem mão da espada, pela espada morrerão...

Então, fazendo a analogia, quem com impeachment fere, com impeachment poderá ser ferido.
Numa democracia é altamente traumatizante e trás impactos bastante negativos quando se derruba um representante popular eleito legitimamente, principalmente com motivação desprovida de sentido legal e  sem provas de crime de responsabilidade. Agora o outro polo social pode estar prestes a sofrer na própria pele tudo que desejou, planejou, disseminou e engendrou contra os adversários em 2016, quando apoiou a destituição de uma pessoa honesta e democrata. 

O impeachment que se avizinha, mais cedo ou mais tarde, talvez seja um mal natural pela comprovada incompetência e delírios do chefe do executivo que, diga-se de passagem, já cometeu mais crimes de responsabilidade em três meses de mandato do que sua antecessora foi acusada. Além disso, pode ser um mal necessário para que o outro lado experimente do mesmo remédio amargo neutralizando, quem sabe, a polarização já tão exacerbada pelas cada vez mais insanas e irresponsáveis declarações do presidente eleito em cujo caráter faltam sabedoria e sensibilidade para governar um país tão diverso de 200 milhões de habitantes.

Haverá, entretanto uma abismal diferença entre os dois casos de impeachment. No primeiro, houve uma defesa articulada, inteligente, fundamentada e aguerrida do mandato. No segundo caso, um covarde, incompetente e insano certamente fugirá do enfrentamento e assim uma vez na vida poderá mostrar um pouco de dignidade, não restando-lhe saída melhor e mais descomplicada a não ser a renúncia. O futuro sem ele é incerto e não isento de bastante confusão também. A Constituição Federal deve ser respeitada e seguida. Os embates ideológicos, as lutas e desafios hão de continuar, contudo o impedimento desse presidente e o consequente afastamento de seus familiares e gurus de governo podem ser a retomada de uma luta mais democrática e construtiva. 

terça-feira, 19 de março de 2019

Meu pai feminista



Artículo dedicado al Día de los dos Padres y dia de San José en España
 19 de marzo.

Em 1926 Getúlio Vargas foi eleito deputado federal e a partir daí  foi consolidando seu avanço político até ser eleito presidente do Brasil por processo indireto em 1934 e tornar-se um ditador em 1937, quando iniciou-se o período histórico do Brasil denominado Estado Novo. Ainda nesse ano Washington Luís foi eleito pelo voto direto à Presidência da República com pouco mais de 688 mil votos e com a larguíssima margem de 99% dos votos, embora com o comparecimento de apenas 2% da população. Em setembro deste mesmo ano foi promulgada a reforma da Constituição de 1891, houve um golpe de Estado em Portugal, o partido fascista italiano torna-se partido-estado e as células do nazi-fascismo e do anti-semitismo já vão se formando na Alemanha de Hitler. Nesse mesmo ano de 1926 nasceram o comediante Jerry Lewis, a Rainha da Inglaterra Elisabeth II, a atriz Marilyn Monroe, o filósofo Michel Foucault, o escritor Carlos Heitor Cony, o grande líder cubano Fidel Castro e muitas outras figuras importantes na história mundial. As Olimpíadas estavam em sua 8ª edição e ainda não havia a premiação dos Oscar pela indústria do cinema. Chuá, Chuá, música antológica brasileira de Pedro de Sá Pereira e Ari Pavão, gravada por muitos artistas e em várias versões, mais recentemente por Xitãozinho e Xororó encabeçava a lista dos sucessos do ano juntamente com "Ave Maria" de Bach/Gounod  interpretada por Vicente Celestino, o carioca da voz Orgulho do Brasil.¹ 

Foi nesse cenário político e cultural que nasceu meu pai em agosto de 1926, oitavo filho de uma família de doze irmãos. Viveu a infância e parte da juventude numa pequena propriedade rural da família no interior do Rio Grande do Sul. Cursou só o ensino primário e ajudava a família trabalhando com os pais e irmãos. Ao cumprir os 18 anos partiu para Porto Alegre para alistar-se ao exército e,  felizmente a Segunda Guerra Mundial já havia acabado, porque se os tivesse cumprido dois ou três anos antes talvez teria  sido levado a juntar-se à Força Expedicionária Brasileira. Naquela época, engajar-se no exército era uma das poucas oportunidades para os jovens que pretendiam sair de seus povoados no interior e tentar uma vida na cidade grande. Muitos dos meus tios, seus irmãos, seguiram a carreira militar.

Ainda bem jovem, depois de servir ao exército andou um pouco pelo Brasil, Rio de Janeiro, mais especificamente e lá fez alguns trabalhos. Minha mãe mantêm até hoje as cartas que recebia dele, enquanto ainda eram noivos e ele estava longe. Mais tarde, voltando ao Rio Grande do Sul, casou-se em 1956 e foi trabalhando como motorista de táxi, motorista particular, representante comercial, comerciante e viajante que começou os primeiros tempos de sua vida profissional e de casado.

Ele tem até hoje uma letra bonita, com as maiúsculas muito desenhadas própria de quem era exigido fazer caligrafia, um exercício para ter uma escrita bonita e legível, tema obrigatório e que era dado muita ênfase nas escolas da época. Meu pai também sempre teve grande habilidade para os cálculos que fazia mentalmente, sem erros, nos longos anos em que trabalhou com comércio próprio onde aliava seu espírito empreendedor com a sensatez para os negócios.  Teve primeiro um bar-armazém, tipo as mercearias de hoje, depois, por longos anos uma loja de produtos para agricultura e medicamentos veterinários e por último, antes de se aposentar, auxiliava minha mãe que estava a frente de um pequeno bazar de artigos de decoração e presentes. Lembro de auxiliá-lo no balanço anual com os produtos agropecuários e veterinários, quando ainda não tínhamos as calculadoras digitais e as caixas registradoras não eram obrigatórias. Lembro apenas de uma pequena máquina de somar, mas creio que ele usava só para confirmar a soma mental que fazia das muitas linhas com os valores dos produtos discriminados. Posteriormente, tudo era entregue bem caprichado ao contador em folhas de papel-almaço.

Não conheci outro homem mais ligado à família do que ele. Jamais saía sem minha mãe e os filhos. Nunca fazia programas sozinho ou com amigos fora de casa, o que não indica genericamente um valor ou um defeito, mas um espírito que escolheu livremente pela dedicação à família. Nas horas livres usava seu tempo no cuidado da casa, jardim, gramado, consertava coisas, pintava e tinha habilidade com estofaria.  Nunca o vi subir o tom de voz em brigas, reclamações ou expressar preconceito ou discriminação a nada, nem a ninguém. Responsabilidade, respeito, honestidade, delicadeza, atenção e um trabalhador incansável sempre foram seus pontos fortes.

Foi o primeiro homem feminista que conheci, mas foi depois de muitos anos que percebi essa qualidade no caráter dele. Os muitos conceitos de feminismo falam em promover a afirmação, investir de poder e liberar as mulheres dos padrões patriarcais, mas meu pai, além disso ele antevia a igualdade de gêneros.  Lembro que ele levantava de noite e me dava xarope para tosse ou AAS infantil diluído na água numa colherinha. Em muitas fases da nossa vida, minha mãe mantinha uma empregada, mas lembro dele cozinhar, levar a família para passear nos fins-de-semana, nos comprava livros, roupas e nos tomava os pontos da escola. Lembro que um dia queria escrever para minha avó, antes de entrar para a escola, mas apenas conhecia as letras e ele me ditou o texto. 

Durante as décadas de 60, 70 na minha infância e adolescência o mundo passava por uma série de transformações, o avanço do feminismo, o movimento hippie, a contracultura, o descontentamento popular com guerras, conflitos e governos, o movimento negro, os embates raciais e sociológicos e as palavras dele eram sempre de respeito ao ser humano, à condição feminina de minha mãe, suas filhas, mãe e irmãs, embora politicamente não fosse engajado, como a maioria do povo não era. Quando irrompeu a ditadura militar e o golpe de Estado em 1964 ele já estava casado, com duas filhas e outra prestes a nascer. Deste ano, pouco tenho lembranças, somente de alguns fatos pontuais como andar em um carro grande e verde que ele tinha para trabalhar de taxista, brincar em frente a um sobrado branco das ruas do bairro em que morávamos, de assistir desenho animado numa televisão novinha em folha na casa de uma tia, de ganhar um anel de pedra vermelha e visitar no hospital minha mãe que acabava de ter sua terceira filha, um bebê gordinho com uma carinha muito vermelha num dia de calor naquele março de 1964.

Enquanto meu pai esteve estabelecido com comércio, minha mãe foi sempre a sua parceira, pois trabalhavam e planejavam juntos. Jamais o vi atuar para impor sua vontade ou passar por cima das liberdades dela ou minimizar a inteligência e o valor que minha mãe agregava ao seu trabalho.

Só depois de adulta constatei também que meu pai sempre foi um feminista mesmo sem saber, mesmo não militante, pois eu não percebia que havia a supremacia do homem nas famílias e na sociedade. Quando passei a conviver com colegas de escola e frequentar outras casas fora da família, percebi o quanto a figura do homem era tida como autoridade máxima, com as mulheres em sua grande maioria, realizando exclusivamente serviços domésticos, assumindo a criação dos filhos e com o homem no centro do poder. Nossa casa era cheia de mulheres, com um único irmão bem mais novo e eu não fazia diferença entre a autoridade de minha mãe e a de meu pai e nunca percebi atitudes machistas da parte dele. Meus pais sempre  compartilharam a nossa educação, as tarefas, o trabalho e as decisões. Minha mãe nunca foi uma mulher submissa, ao contrário, às vezes era até criticada por alguns membros da família por manter uma relação mais igualitária com o marido. 

Ele nunca submetia a família à ordens extremamente autoritárias ou sem fundamento e exercia sua autoridade de pai na medida do exemplo e da sensatez, embora naquela época em que éramos crianças não houvesse diálogo, as relações familiares eram mais formais e a pedagogia era tarefa para a escola.  Mesmo assim nunca batia nos filhos, ainda que fosse uma época que surras e castigos à crianças eram vistos com muita normalidade e faziam parte da educação. Aos filhos foi um incentivador inesgotável da necessidade do estudo e de seguir uma profissão, dando-lhes liberdade para trilhar seus caminhos e escolhas, embora nem tudo fosse de seu acordo. Como nunca é. Hoje, depois dos filhos adultos é um avô e bisavô ainda mais apaixonado. 

Creio que o feminismo em um homem só nasce de um temperamento justo, decente, ético, inteligente e generoso. Um homem precisa dessas qualidades para ser feminista. Meu pai é um feminista não só porque esteve ao lado de minha mãe nas tarefas domésticas, na criação dos filhos e nas decisões da família, mas porque reúne todas as qualidades de um homem íntegro que evoluiu com o tempo, com as mudanças sociais, científicas, políticas, de pensamento e de convivência humanas. Definitivamente é um exemplo a ser seguido pelos netos e bisnetos que já estão sendo ou serão um pouco dele no futuro, estendendo seus feitos, prolongando seu caráter e sua memória.


F E L I Z   D I A   D O S   P A I S, P A I.💖


 https://www.youtube.com/watch?v=Z6jLwDFZALw

1.https://asmusicasmaistocadas.wordpress.com/2013/09/28/musicas-cancoes-mais-populares-no-brasil-em-1926/


Propriedade da Família de meus avós onde meu pai nasceu- Fotos: Sérgio Silva


quinta-feira, 14 de março de 2019

Tragédia Anunciada



Eu sabia que daqueles gestos de arma na mão em crianças, jovens e adultos incentivadas pelo presidente enquanto candidato não sairia coisa boa. Aqueles gestos eram demasiado surreais, absurdos e insensatos para quem não se conecta com violência, não cultua ódios e não se identifica com  morte e destruição. Com armas não se brinca, armas são feitas para matar, ferir e intimidar. Não há outra função para elas e por isso só devem estar nas mãos de quem tem o dever de promover segurança e estar capacitado para a função. Armar os cidadãos é política pública de truculentos, insanos e de incompetentes que preferem eliminar ou aprisionar pessoas, ao invés de enfrentar os problemas em sua profundidade. São estes que dormem com uma arma do lado por medo de um inimigo que vive dentro deles mesmos, a sua própria loucura e sua visão enviesada do mundo. São os instaladores da barbárie.
O massacre na escola em Suzano não é o primeiro caso no Brasil, mas é o primeiro episódio pós-gestos campanha eleitoral de um governo que condescende, estimula e baseia seu pensamento na apologia do ódio e da violência. O alvo dessa gente insana e truculenta é a destruição... da educação, do pensamento plural, da cultura da paz, etc...
O lema deles é odiar, aniquilar, destruir e com isso instilar o medo nas pessoas.
Como muitas tragédias brasileiras, Suzano já era anunciada. Quase ninguém percebeu, quase ninguém falou dos gestos. O que os pais daquelas  crianças de 3, 4 , 6 anos às quais o presidente tirou foto gesticulando estarão pensando agora? Vão definitivamente mandá-las armadas para a escola ou ou o quê? Estarão refletindo sobre o ocorrido?
Se eu pudesse mandava escrever nos céus do Brasil um imenso S.O.S.(Save Our Souls)
Pode ser que algum extra-terrestre veja e mande ajuda humanitária de verdade ou nos mostre um mundo melhor que esse.
A essas alturas, deixo aqui uma importante reflexão sobre uma frase que ouvi de um amigo numa conversa sobre ambientalismo : "Quem corre mais risco de extinção, transformação ou destruição é o homem e não o meio-ambiente." 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Vida sana, mejor no endulzar (artigo escrito para o website Origen Autentico)


La caña de azúcar es originaria de Nueva Guinea y después la llevaron a India. Allí se la conoce desde el siglo V a.C. El libro de los Vedas que abarca los himnos hindúes, tiene un curioso escrito que dice: “Esta planta brotó de la miel, con miel la arrancamos, nació la dulzura y yo te enlazo con una corona de caña de azúcar para que no me evites, para que te enamores de mí, para que no me seas desleal”.
Podemos decir que hace mucho que ya se conocían las propiedades endulzantes de la planta de la que “nació la dulzura”. Distinto endulzante es la miel, producto natural del néctar de flores. Nacido del trabajo de las abejas. La palabra azúcar es derivada de shakkar o sarkara que quiere decir “arena gruesa”, en sánscrito.

Un poco de historia

En los comienzos de la humanidad, la caña era la materia base del azúcar. Hoy sabemos que también se puede extraer el azúcar de otras plantas como la remolacha. Se usaba únicamente como una especia o como medicamento para curar heridas. Para endulzar y dar sabor a los alimentos se utilizaba la miel. Pero a partir del siglo XII, y con base en el conocimiento de los indios, empieza en Europa la producción de azúcar. El zumo de la caña se obtenía machacando su tallo de donde salía un jarabe muy dulce (la melaza). Éste después se transformaba en cristales muy solubles en agua, siendo transformados en polvo. Posteriormente se refinaba para hacerlo blanco y puro como hoy lo conocemos.
Hubo esa necesidad porque, junto al incremento del consumo de bebidas como el té, café y chocolate, percibieron que esas bebidas se hacían mucho más ricas y placenteras cuando se endulzaban con el producto de la caña. Es importante resaltar que el aporte de energía al organismo que proviene del azúcar también fue decisivo para que las poblaciones aprobasen cada vez más su consumo. La razón es porque el cuerpo humano está acostumbrado al aporte de carbohidratos complejos en su dieta como las raíces, los granos, las semillas, etc. La glucosa y los azúcares simples son de rápida digestión y provocan muchísima saciedad.
De ese modo, ha sido creada una forma muy efectiva de “educar” nuestro paladar. Así aceptamos los alimentos dulces y añadimos azúcar cada vez más en nuestras bebidas, comidas, postres y recetas en general. Pero en aquella época aún era a pequeña escala. Fue un producto caro y raro durante algunos siglos.

Una cuestión de salud

Con la revolución industrial y el avance de los sistemas de cultivo, el azúcar se popularizó. El comercio azucarero alcanzó niveles altísimos de productividad y rentabilidad. Y la industria alimenticia pasó a usar cada vez más el azúcar. No sólo para que los alimentos supieran bien, sino, también, para que fuesen más atractivos, aromáticos, con texturas más exquisitas y mayor durabilidad. Sin embargo, a mediados del siglo XX, los científicos, amparados en estudios a través de la Medicina basada en evidencias, empezaron a alertar a los gobiernos y a la comunidad médica de la relación directa entre el excesivo contenido de azúcares añadidos a los productos alimentarios y su relación con las enfermedades metabólicas degenerativas como Diabetes tipo II, enfermedades cardiovasculares y la propia obesidad.
En paralelo a estas investigaciones y contraponiendo el estudio que apuntaba al azúcar como gran villano, otros estudios también llamaban la atención por la ingestión de grasas saturadas de origen animal que provocaban casi los mismos desórdenes metabólicos. Por otra parte, se empezó también a evidenciar la transición epidemiológica en la mortalidad de las poblaciones. Es decir, que las muertes por enfermedades infecto-contagiosas estaban en disminución. Esto por el advenimiento de las vacunas, de las medidas de higienización. Pero las enfermedades crónicas, provocadas por las costumbres de la modernidad estaban en constante crecimiento.

Cómo reacciona nuestro cuerpo

Los carbohidratos simples y complejos provenientes del azúcar (glucosa, fructosa, sacarosa y lactosa) sean extremadamente necesarios para el metabolismo humano. Para la respiración celular, para los intercambios metabólicos y la producción de energía. Pero cuando hay exceso de azúcar libre circulando en la sangre, se suele agotar el páncreas que es el órgano responsable de la producción de insulina. Esta hormona promueve la entrada de glucosa en las células. Ese agotamiento, en general, sucede con individuos más susceptibles. Los que están por encima de 40 años de edad, pudiendo desarrollar la llamada Diabetes tipo II. Altos niveles de azúcar que circulan en sangre, cuando no son usados para generar energía, quedan acumulados en forma de grasa. Ésta se deposita en el hígado y en los tejidos inter-viscerales, produciendo sobrepeso y grasas localizadas. También obstrucciones arteriales, tensión alta, ictus, infartos… Además de problemas articulares y de locomoción.
Adaptar o condicionar nuestro organismo para recibir y vivir con menos azúcar en la alimentación es un desafío permanente para evitar esas enfermedades y las complicaciones metabólicas. Varios órganos del cuerpo pueden verse muy afectados: el páncreas, hígado, corazón, ojos y los nervios periféricos, por ejemplo.

Cuestión de educación nutricional

En realidad, no es tarea fácil cuando tenemos hijos pequeños o adolescentes. Sobre todo por la presión constante de la publicidad llena de golosinas, galletas, piruletas, refrescos, helados, yogures y similares. A los adultos, nos pasa igual por la grande y variada oferta de productos en los supermercados de marcas mundialmente famosas. Se ofertan alimentos y bebidas “ricas”, muchas de las cuales son conocidas de toda la vida. Y eso aunque todos sabemos también que no todo alimento rico es sano.
Reflexionando un poco sobre nuestros hábitos, sería interesante buscar formas de reducir el consumo de azúcar. Intentar reeducar nuestro paladar y costumbres alimentarias. Algunos pequeños cambios incrementan nuestra calidad de vida y conllevan un ahorro económico. También un posible encuentro armónico entre cuerpo y cerebro con menos “serotonina azucarera”.
La serotonina es un neurotransmisor, una hormona natural del bienestar que controla el humor, el sueño, el apetito, la sensibilidad a dolores, etc. Cuidando nuestra alimentación somos capaces de regular el humor, los dolores físicos, psicológicos y otras dificultades. Resulta necesario, por razones de salud pública, reducir el consumo excesivo de azúcar.

Regulación impositiva: impuestos al azúcar

Algunos gobiernos de la Unión Europea, preocupados con el excesivo consumo de azúcar y la obesidad infantil, están fijando impuestos sobre los refrescos edulcorados desde 2016. La industria reconoce que el aumento de impuestos ha disminuido el consumo. El gobierno espera que la medida resulte eficaz y conduzca a una disminución de las muertes por enfermedades metabólicas.
En EspañaCataluña aplica el impuesto sobre bebidas azucaradas desde mayo 2017. Según un informe del Centre de Recerca en Economia i Salut de la Universitat Pompeu Fabra y el Institut d’Economia de la Universitat de Barcelona: “Hay una relación directa entre el aumento de precios, como consecuencia de la entrada en vigor de la ley, y la reducción de la ingesta de bebidas azucaradas. Sin ninguna duda, el impuesto ha sido efectivo y ha conseguido el objetivo que buscaba a corto plazo”. Afirma la coautora del estudio Judit Vall.

Hábitos saludables para una vida más sana

Algunos dicen que los mayores placeres humanos son tomar sol, comer chocolate, tomar una copa de vino, escuchar música, reír, dormir… También hay quienes valoran el dinero, las posesiones o hacer compras. Aquí se puede mencionar también la actividad “comer con la familia y los amigos”.
Algo muy placentero y que puede ser un buen escenario para debatir nuestras costumbres. Educar nuestros hábitos alimentarios y poner en práctica los cambios necesarios para una vida más plena y saludable para todos.

Insônia