quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Me conta algo bom




Me conta alguma história, algo bom...— J. me pediu por escrito recostado no sofá da sala, num dia de costumeira letargia provocada pela sua condição de saúde, ainda assim com relativo conforto físico. Enquanto sua comida—um líquido amarelo e espesso— saía de uma garrafinha de plástico adaptada a um cabideiro da casa e fluía por um tubo que ia direto ao seu estômago, sentei bem perto dele. Com um tom de voz um pouco mais alto e compassado para que ele me ouvisse bem, eu comecei.

Contei a história de um casal cujo encontro era tido como totalmente impossível. Porém, à medida que foram se conhecendo, a princípio por um aplicativo de idiomas depois por mensagens instantâneas e correios eletrônicos descobriram que eram como poucos para se entender e que valeria a pena um projeto de acercamento. O segredo desse entendimento era dizer tudo e transparecer. Nada a esconder, dourar, disfarçar ou dissimular fosse o que fosse: o clima chuvoso da terra dele, o inverno rigoroso europeu, o dinheiro escasso, a barreira dos idiomas, os preconceitos a respeito de costumes e cultura mútuos e receios normais de quem nunca havia saído de seu continente. Inclusive um temor fantasioso e hilário se o ar seria respirável nos seus respectivos hemisférios, tudo isso foi considerado e relatado um para o outro.

Haviam nascido com uma diferença de apenas três meses e cresceram separados pelo Oceano Atlântico, mais de oito mil quilômetros, vivenciando fatos pessoais e coletivos mais ou menos semelhantes, crescendo sob ditaduras e em famílias amorosas de classe trabalhadora. Estudos, casamentos, filhos, trabalhos e desejos de acumulação de pequenos patrimônios foram eventos comuns de suas vidas, nada extraordinário para aquela geração de baby boomers, nascidos no final da década de 1950.

Um dia, depois de muitos planos, ideias, esquemas e conjecturas—inclusive após uma incrível e objetiva análise de risco que um deles realizou utilizando seus conhecimentos técnicos— esse encontro fez-se possível. Aí começou a maior aventura romântica de suas vidas. Eles nunca tinham vivido semelhante atmosfera de romance até então, um verdadeiro idílio, mesmo os dois já tendo passado dos cinquenta anos.

Os sonhos e anseios de toda uma vida permaneciam latentes nos lugares mais recônditos de suas almas, uns por impossibilidades variadas, outros por impositivos alheios, muitos por simples renúncia. Ao serem revelados, descobriram uns tantos em comum e o compromisso recíproco de serem resgatados passou a ser um projeto de vida único. Havia um mundo a ser criado um para o outro cheio de oportunidades, uma felicidade factível pronta para ser perseguida. Era a última chance que tinham para aprender, ao fim e ao cabo, o que significa amar e ser amado. Quando se aprende a amar, o mundo passa a ser seu, já dizia Legião Urbana.

E contei a J. todos os lugares por onde passaram aqueles dois aventureiros desde os aeroportos em que aterrissaram ou decolaram, os lugares que mostraram um ao outro e os que desbravaram juntos. Eles alcançaram bons pedaços de mundo, foram muitos quilômetros percorridos a pé, de carro, barco, trem, ônibus e avião com as músicas dos anos 70 e 80 em sua maioria soando nos ouvidos de ambos como dois adolescentes.

À menção de cada lugar ou cada situação J. sorria, um sorriso que tinha ficado difícil de esboçar pelo seu permanente estado de abatimento e pela musculatura da face —não sei se mais afetada pela enfermidade ou pela radiação. Ele também não podia falar, pois o tratamento tinha atingido suas cordas vocais. Porém, ele sorria com o coração a cada detalhe narrado da história— aquele café na Plaza Mayor de Salamanca, a longa espera na fila debaixo de sol para subir na Torre Eiffel e a corrida para conseguir alcançar um barco que saía para Greenwich Park pelo Rio Tâmisa, ouvindo o barqueiro gritar alto: Hurry up! The boat is leaving! —Depressa, o barco está partindo!

Houve uma vez que eles caçoaram de um grupo de turistas asiáticos com a boca coberta por máscaras higiênicas, andando disciplinadamente enfileirados, comandados por um guia, subindo uma ladeira estreita de uma ruazinha de Toledo—de máscara, mesmo quando uma pandemia ainda era inimaginável para o mundo. Quão sábio é aquele povo! Concluímos naquela hora em que estávamos vivendo o confinamento imposto pela emergência sanitária.

Relatei as visitas deles ao Brasil nos finais de ano, sempre enriquecedoras para ele—o estrangeiro— tanto no aprendizado da língua, quanto dos costumes, derrubando vários estereótipos brasileiros que ainda perduram pelo mundo, mesmo com o advento da internet e do fenômeno da globalização. 

E houve o dia do auge do encantamento quando os dois visitaram Veneza e cruzaram os canais num vaporeto—principal meio de transporte da cidade. Concordaram que os passeios nas tradicionais gôndolas tinham preços exorbitantes. Mesmo assim, não se incomodaram de pagar cinco euros por um simples café pertinho da Praça São Marcos, comer com a mão pedaços de pizza na hora do almoço ou arriscar derrubar o sorvete, enquanto eles se espremiam com os demais turistas para atravessar a Ponte di Rialto.

Contei-lhe também dos muitos sábados ensolarados e despreocupados que eles iam à feira livre em Vilanova de Cerveira, um pequeno município de Portugal na fronteira com a Espanha. Ali ela remexia em pilhas de casacos ou suéteres de frio pela bagatela de dez euros a peça, enquanto ele esperava pacientemente. Depois compravam verduras e frutas orgânicas, para finalmente terminar o passeio tomando café com pastel de nata na pastelaria Velha Rosa.

Os encontros divertidos com os amigos brasileiros, os cafés com os amigos de infância de J. no pequeno povoado espanhol em que viviam e se encontravam aos finais de semana também tiveram que ser mencionados. Veio também a lembrança da pizza Olívia do Bar Farol— com rúcula, tomate cherry, queijo de cabra e nozes, a preferida dela. A dele era sempre acompanhada por uma generosa porção de batatas fritas, mistura um pouco rara para os padrões brasileiros.

Contei também sobre as longas caminhadas pela praia de Sanxenxo e dos incontáveis pores de sol na Lanzada, maior praia de mar aberto da região. Relatei também as vezes em que eles davam de comer às gaivotas que insistiam em aparecer depois dos almoços de verão na sacada do apartamento. E sobre a vista das luzes da cidade de Marin refletidas no mar, enfeitando as noites e o horizonte de seu pequeno povoado. Antes de fechar as persianas do quarto era a última imagem antes de dormir, o mais belo e simples cenário.

Foi quando finalizei a história contando de um beijo durante o trajeto no teleférico da cidade do Porto registrado em uma foto que está bem guardada que ele, enquanto tentava sorrir, deixou escorrer uma lágrima. Pedi que ele relevasse aquele detalhe que pareceu lhe trouxera muita emoção e certo desassossego. Afinal ele havia pedido uma boa história. E a história que eu tinha para contar era essa, real, encantadora e inesquecível. 

O mundo nos esperou até que J. não pode mais ficar nele. Ele foi embora deixando ao mesmo tempo uma vastidão de memórias e um imenso vazio de histórias interrompidas ou quiçá adiadas.


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Sonhos interrompidos

Foto: Arquivo Pessoal, Praia das Catedrais, Espanha

Eu nunca tinha tido curiosidade de visitar as Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul. Por muita insistência de J. passamos um final de semana em São Miguel das Missões no verão brasileiro de 2020, quando a pandemia já se avizinhava na longínqua Wuhan na China. Ele tinha toda a razão de querer conhecer, constatei depois de assistirmos a representação da história da Missão que é exibida ao ar livre todas as noites em frente às ruínas. É emocionante e o lugar é muito bonito. Ficamos surpreendidos.

Outra vez, creio que na segunda que ele veio ao Brasil, me propôs uma viagem de carro desde Santa Maria até Foz do Iguaçu para visitar as cataratas. Mostrei-lhe o trajeto inteiro no Google Maps, disse-lhe que desconhecia totalmente a região e as condições das rodovias e ele nunca mais falou em viajar por terra até ali, embora a vontade de conhecer persistiu. Foi quando ele teve a percepção do gigantismo e das proporções continentais do Brasil.

J. só conhecia São Paulo e Rio de algumas vezes em que precisou trocar de aeroporto nas suas inúmeras chegadas e partidas do Brasil, mas tínhamos planos de visitar da mesma forma que ele tinha curiosidade por conhecer Salvador onde há uma comunidade imensa de galegos que emigraram da Espanha para ali décadas atrás.

Ele ficou encantado por Florianópolis e pelo litoral de Santa Catarina, principalmente por suas praias de águas quentes que usufruía como se fosse criança. Entrava na água e não queria mais sair. Acho que seria um dos únicos lugares que poderia adaptar-se, por se acaso um dia viéssemos morar no Brasil como planejávamos.

Fomos uma única vez a Londres, Paris e à região de Vêneto na Itália onde nos hospedamos em Pádua e Veneza; viajamos muitas vezes à Lisboa e região e muitas mais à Madrid e às comunidades espanholas, Astúrias, Andaluzia e Castilla y León. Posso dizer que percorremos juntos meia Espanha e meio Portugal, além de esquadrinhar todas as províncias galegas desde Pontevedra, Coruña, Lugo e Ourense. Num longínquo final de tarde em Finisterra, choramos junto com dezenas de turistas vendo o pôr-do-sol e ouvindo o tema de A Missão —Gabriel' s Oboé de Enio Morricone—que alguém colocou para tocar no celular.

Num verão eu sugeri ir para as Ilhas Baleares, Palma de Mallorca, mas estava demasiado caro e acabamos indo para Nazaré em Portugal, ou seria Ofir, Espinho ou Póvoa de Varzim? Já me confundo com muitos verões e primaveras que saíamos de passeio. Demais de lindo qualquer uma delas, porém as praias portuguesas são de água muito fria—quase tão frias como as da Galícia— com imensas faixas de areia, mar aberto e muito vento principalmente à noite.

Nessa estadia em Nazaré, um dia quase pegamos um barco desde Peniche— distrito de Leiria— até as Ilhas Berlengas. Felizmente(ufa!) já tinha saído o último daquele dia. Tinha ouvido dizer que o trajeto até as Ilhas pode ser perigoso e terrificante por causa das ondas altas na região, mas um ex-marinheiro como ele não se intimidava com esse tipo de aviso. Acho que ele sabia bem como era e eu teria ido, mesmo apavorada. Parece que a paisagem do destino compensa o enjoo marítimo e o trajeto assustador.

Assim como eu queria mostrar a ele como era bonito passear por Buenos Aires e Montevideo que eu já conhecia, ele queria me mostrar o quanto era divertido viajar em um navio de cruzeiro pelo Mar Mediterrâneo. Pensar em passar dias e noites no meio do mar, confesso me inquietava um pouco e adiava esse passeio, mas havia me comprometido a fazermos depois que passasse a pandemia, quando tudo prometia voltar à normalidade. Naquele tempo, independente da pandemia, uma esperança imensurável nos acompanhava cada dia. 

Tínhamos uma listinha de lugares para visitar onde constava, sem ordem de prioridade, Havana, Biarritz, Nova York, Amsterdam, Saint Michel na Normandia, Nápoles e Dublin. A prioridade era a capacidade econômica, obviamente, aproveitando ofertas ou pacotes de viagens de baixa temporada. Nunca fomos mochileiros, não gostávamos de pousadas com banheiros compartilhados, por exemplo, tampouco éramos hóspedes cinco estrelas. Buscávamos sempre por voos e alojamentos confortáveis, porém mais baratos. E antes da pandemia isso era totalmente possível. 

Por fim, veio o câncer, "o imperador de todos os males", essa epidemia silenciosa, renunciante, traiçoeira e devastadora. Esse crescimento maligno microscópico e  macroscópico de células anormais e disformes apoderou-se de todos os nossos sonhos, interrompeu nossa caminhada, rompeu nossos corações e nossas esperanças e acabou consumindo com a vida de J. 

Esse gigante invisível, insidioso, que se escamoteia por detrás de tratamentos infrutíferos e malogrados goza do poder de ser ainda maior que esse mundo todo que tanto percorremos e ainda nos faltou percorrer. O destino tem duas caras, por vezes é aprazível, clemente e bondoso e outras impiedoso, cruel e atroz. Assim é a vida, porém em sua memória estou tentando ainda ter fé como dizia Gonzaguinha em Sementes do Amanhã. A voz do menino J. ecoa no meu ouvido cada vez que me deprimo e penso em desistir.



domingo, 21 de novembro de 2021

A viagem


Foto: Arquivo Pessoal

Ele despertou devagar, sentindo-se um pouco atordoado, sem noção de hora, nem dia, nem lugar. Parecia que havia dormido uma medida de tempo totalmente indefinida. Abriu os olhos aos poucos e a visão foi aclarando. Havia luz natural de um dia de sol, que chegava de uma janela com uma fina cortina branca e transparente que tremulava por conta de suave brisa que vinha de fora.

Estava deitado numa cama estreita e macia e os lençóis brancos cheiravam algo semelhante a alfazema. Olhou para si mesmo e viu seu corpo, mãos, tronco, braços, pernas, sua musculatura era de jovem, forte como quando tinha trinta, quarenta e até aos cinquenta anos. Sem demora, passou a mão pelo rosto e sentiu a pele sadia, totalmente hígida e íntegra, com um pouco de barba crescida. Nem rastro daquela ferida enorme que tinha na mandíbula e nenhum desconforto físico. Se sentia inteiro, só ligeiramente aturdido e muito confuso.

Tentou levantar-se, mas sentiu uma leve tontura, deitou-se de novo e resolveu que seria melhor sentar-se primeiro, depois tentar descobrir onde estava e se havia alguém ali. Será que o haviam transladado para outro hospital sem que se dera conta? —pensou. Porém, estava tudo muito silencioso, não escutava nada daquela azáfama a que tanto estava acostumado naqueles últimos tempos. Apurou a visão e atentou para os detalhes do quarto. Tinha as paredes de pedra, soalho de tábuas escuras, uma única janela pequena em madeira, aberta para fora, sem vidros. O pouco mobiliário que havia era antigo como os da casa de sua avó ou de tempos mais remotos ainda. Numa parede havia somente um pequeno quadro expondo uma singela pintura de um barco navegando. Não, decididamente não estava em um hospital. 

A temperatura era agradável, quase quente e vestia somente uma calça marrom parecida com as que seu pai usava, amarrada na cintura. Ele se levantou da cama devagar, de pés descalços e foi até a janela. Dali viu que estava no segundo pavimento de uma casa e teve uma visão bonita de uma larga faixa de areia muito branca e o mar a sua frente.  Não reconheceu o lugar. Dali de cima viu um muro baixo de pedras circundando a casa, um pequeno portão de madeira, um quintal com jardim e uma árvore alta, quase batendo o telhado.

Foi nesse momento que avistou uma senhora que aparava umas roseiras no jardim e percebeu que ela parecia uma pessoa muito familiar. Para seu espanto, ela levantou a cabeça, viu-o na janela e lhe acenou de maneira muito natural como se lhe conhecesse de há muito e estivesse ali também fazia tempo. Ele acenou de volta devagar, meio encabulado e espantadiço.

Permaneceu na janela sem entender absolutamente nada, se perguntando quem era aquela mulher. Ao menos ela lhe parecia gentil. Seria uma enfermeira contratada por sua família e estava numa casa de repouso? Mas não se sentia doente, tampouco envelhecido. Bem, talvez estivesse ainda mais doente do que tinha estado por tanto tempo, mas se sentia bem fisicamente. Muito bem.

Procurou um espelho e havia um pequeno junto à cômoda antiga com marcas do tempo, com os contornos um pouco oxidados. Viu sua imagem e levou um susto. Era ele, mas estava com uma aparência bem mais jovem, talvez a mesma de seus quarenta e poucos anos, um pouco mais magro, cabelo farto, naquela cor entre o ruivo e o castanho e os olhos azuis mais brilhantes. Ele lembrou que pouco depois dos cinquenta anos já tinha o cabelo quase todo grisalho e acostumara-se com suas feições e o corpo de um senhor de idade, por isso o espanto. Afinal, já podia ser avô, mas esse assunto sequer havia sido cogitado por suas filhas.

Voltou a analisar mais detidamente seu rosto no espelho e apenas tinha aspecto um pouco abatido, talvez pela sensação que tinha dormido durante muito tempo. No entanto, pensou que tudo não passava de um sonho. Deveras real, mas seguramente era um sonho, delírio ou alucinação provocados pelas grandes doses de psicotrópicos e analgésicos que vinha usando durante sua longa enfermidade.

Voltou à janela e antes que ele pudesse indagar algo, a senhora falou lá de baixo:

Me espera, eu já subo aí.

Ele assentiu com a cabeça, pensou que devia obedecer a aquela ordem, pois até a voz da senhora lhe soava muito familiar. Passados uns minutos ela entrou no quarto. Era uma mulher perto dos cinquenta anos, cabelos pretos presos com um lenço floreado na cabeça, olhos grandes e verdes, vestia roupas de uma moda antiga e um pouco gastas, era bonita e chegou sorrindo.

Bom dia, que bom que estás desperto...Vamos, beba tudo que vai te fazer bem! — disse a senhora chegando no quarto com uma xícara saindo um líquido fumegante.

—Olá, senhora, por favor, me diga onde estou e que estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Que dia é hoje? —ele perguntou em seguida, atropelando todas as perguntas.

Tranquilo, logo já vais entender...não te preocupa.

Foi minha mulher e minhas filhas que mpuseram aqui para que fosse cuidado? Afinal dei tanto trabalho que até entendo que se cansaram.

Não, ninguém te trouxe aqui...Vieste sozinho e meu marido e eu te acolhemos.

—Não entendo como pude vir sozinho para cá...Há tempos dependo de que me levem para todo lado...Não reconheço a senhora, nem esse lugar, não tenho ideia de como cheguei aqui! Minha família sabe que estou aqui? Virão me ver? Já me sinto tão bem!

Calma, homem! Uma pergunta de cada vez!

—Ok, primeira pergunta...Quem é a senhora e seu marido?

—Quando conseguires me ver com o coração, vais lembrar quem sou ou quem fui. Meu marido saiu ao mar bem cedo, como todos os dias. Volta logo.

Por que a senhora não pode me responder objetivamente? Tenho uma vaga ideia que lhe conheço de algum lugar, mas não sei de onde.

—Não precisa ter pressa!... Tu estás sem memória e necessitarás tempo para recordar coisas.

—Não me diga! Além do câncer, estou com amnésia?? Que desastre essa minha vida, que azarento. — disse, exasperado.

Não, a falta de memória é normal e temporária depois do que te aconteceu...Agora, termina de beber e te aquieta. Necessitas descansar! Tudo a seu tempo.

Ele obedeceu e bebeu todo o líquido da xícara que lhe pareceu uma mistura de ervas e um cheiro forte indescritível.

—Muito bem! —disse a senhora depois que ele lhe entregou a xícara vazia de volta. Quando queiras, podes descer, dar um passeio pela praia. Refletir te fará bem, te ajudará a recordar...Agora te deixo, tenho coisas que fazer...Ah...Abaixo tem livros se quiseres ler um pouco.

Obrigada, mas até quando tenho que ficar aqui? O que realmente aconteceu comigo? Quando poderei ir para minha casa? Onde está meu telefone? Preciso falar com minha mulher—continuou sua série de dúvidas.

—Por Deus, homem! Primero, aqui também é tua casa, então podes ficar o tempo que quiseres e segundo, aqui não temos telefone e tu chegaste sem nenhum objeto pessoal...E quanto a tua família, estão todos bem. Quando chegar o momento, poderás comunicar-te com quem queiras. Mas antes, tens que aprender algumas coisas.

Por Deus, assim a senhora não me aclara nada! —disse levantando da cama e fazendo menção de sair. Bem, se não estou preso aqui, vou sair...Preciso saber onde estou.

Procura as respostas dentro de ti...Tem roupa e calçados no armário. Coloca uma camiseta, o sol está queimando.

A maneira maternal que a mulher lhe falava remeteu-lhe à infância, mas com pressa de sair e fazer o reconhecimento do lugar, esqueceu logo aquela sensação. Quando deu por si, ao procurar a roupa para sair, ela já havia sumido em silêncio. Vestiu uma camiseta branca que lembrava as que usava quando esteve no exército aos dezoito anos e os chinelos eram de couro, pareciam feitos à mão. Ele desceu à parte de baixo da casa por uma escada íngreme, cujos degraus de pedra marcavam sua antiguidade e desgaste por pequenas concavidades do subir e descer de milhares de passos anteriores aos seus.

Aquela característica da casa o fez pensar que estava em uma construção de séculos passados, nada incomum em seu país que era um grande museu a céu aberto. Pensou também que poderia estar hospedado numa casa rural. Este tipo de acomodação estava muito em moda nos últimos anos, era um tipo de negócio que tinha crescido bastante. Só estranhou que mantinham o mobiliário antigo, não via instalações elétricas e as hidráulicas estavam muito defasadas.

Na parte de baixo comprovou que havia uma sala grande e uma estante cheia de livros. Com uma passada de olhos pelas lombadas viu que ali estavam todos os seus filósofos favoritos e muitas obras de autores importantes da literatura mundial. De relance, olhou para dentro de uma grande cozinha igualmente antiga, fogão de pedra, madeira estocada para queimar, armários, mesa e cadeiras de madeira de lei e muitos utensílios domésticos. Só lhe pareceu que ali já não se cozinhava nada havia muito tempo.

Saiu à rua pelo portão da entrada e não havia nenhuma outra casa próxima, só a grande extensão de praia a sua frente e um caminho arborizado protegendo a casa do sol pleno daquela hora. Caminhou em direção ao mar, teve vontade de nadar, enquanto pensava que precisava falar urgente com sua mulher, tentar passar uma mensagem. Haveria de encontrar um telefone público ou um lugar com internet. Ela deveria estar aflita e ele não tinha ideia desde quando não se viam e precisava dizer o quanto estava se sentindo bem e que parecia totalmente curado, ainda que isso parecesse um prodígio inacreditável. Algum milagre teria acontecido enquanto ele esteve dormindo? Quanto tempo havia passado desde que chegara naquela casa por seus próprios pés, segundo a senhora lhe havia dito? Não se lembrava de absolutamente nada.

Um longo mergulho no mar deixou-lhe ainda mais revitalizado. A água estava morna, como as águas do Mediterrâneo ou do Atlântico Sul nas costas brasileiras onde já havia estado algumas vezes. Como a praia estava deserta deu-se ao luxo de entrar completamente nu para não molhar suas novas roupas.

Depois do banho de mar, vestiu-se e tratou de buscar um lugar com telefone ou computador para comunicar-se. Olhou em volta, mas só via a casa à beira-mar de onde tinha saído, a pequena vegetação em volta dela e uma imensidão branca e azul de areia, céu e mar. Nada mais. Pensou consigo:

—Que deserto é esse, quem é aquela mulher, que mistério é esse em torno de minha vinda para cá? — Por mais que tentava, sua mente era uma escuridão. A última coisa que lembrava nitidamente era de uma médica, muito gentil que cuidava dele, colocando uma máscara de oxigênio em sua boca e nariz. Lembrou da sensação de respirar com dificuldade e parecia que o ar já não lhe chegava aos pulmões. Ao mesmo tempo, recordou de uma indescritível sensação de paz posterior aos momentos em que respirava mal.

Quando resolveu voltar à casa viu uma pequena embarcação aproximando-se da praia. O pescador acenou e ele ajudou a trazer o barco à praia, enquanto perguntava:

—O senhor é o marido daquela senhora da casa em frente?

—Sim, me chamo Fernando. E tu como estás? Me parece melhor hoje, depois de tanto dormir, vejo que acordou bem-disposto. Vi quando nadava.

O homem regulava com a idade da mulher, tinha a aparência típica de um pescador artesanal, usava vestimentas simples, um chapéu de palha, tinha olhos azuis, cabelos alourados e pele queimada de sol. A fala era pausada e parecia de índole sossegada e amigável.

—Sim, realmente me sinto bem e preciso saber muitas coisas. Sua esposa não me explicou nada como vim parar aqui. Aliás, nem o nome dela ela me disse...

—Se chama Cayetana...É um pouco distraída com esses detalhes, me desculpe, estamos aqui para ajudá-lo, mas tens que entender que deve ser pouco a pouco.

—O senhor também com enigmas!! Ao menos pode me dizer onde há um telefone mais perto ou um lugar conectado à internet?

Não temos telefones por aqui e não sei o que significa internet...É alguma palavra inglesa? Me desculpa, mas só falo espanhol.

—Tudo bem, não importa! Me diga então há quanto tempo fica o povoado mais perto a pé ou de barco. Me emprestaria o seu, se acaso precise?

O povoado mais próximo fica a um piscar de olhos daqui, mas primeiro tens que exercitar tua mente para poder estar ali.

—Fale mais claro, por favor! — já começava a irritar-se com tanto mistério, falta de informação e conversas cifradas.

—Venha, vamos para dentro. Cayetana está esperando que eu lhe traga a pesca de hoje para o almoço e deve ter uma merenda preparada. Aproveita tua energia e bem-estar, podemos conversar um pouco e te relaxas. Não precisa ter pressa para nada.

—Senhor Fernando, entenda que estou preocupado que minha família não sabe nada de mim. Preciso falar urgente com minha mulher! Ela precisa saber que estou aqui!

—Meu amigo, não há que preocupar-se por sua família. Estão todos bem.

—D. Cayetana também me disso isso...E como vocês sabem?

Aqui sabemos de tudo...De bem e de mal. Confie em mim. Sua mulher e filhas estão, por ora, tristes, abatidas, consternadas com lembranças suas a todo momento, mas estão apoiando-se, têm as outras pessoas da família, têm os amigos, estão bem. Com o tempo vão superar que estão afastadas de você.

—Como o senhor sabe que tenho filhas? E como assim, superar?? Não quero continuar afastado delas...Quero ir para casa...

Julián, é assim que você se chama, não? Vamos entrar, podemos beber algo e conversar com tranquilidade. Olha, está Cayetana no jardim...

—Sim, desculpe...Também não me apresentei. Mas parece que nem precisava. Vocês sabem tudo sobre mim. E por quê? Como? —seguia perguntando, enquanto chegavam à casa e eram recebidos por Cayetana.

Foram em direção à cozinha e surpreendentemente, apareceu ali uma mesa cheia de verduras, frutas e legumes que não havia antes e o fogão de lenha ardia em brasas que não esquentava o ambiente daquele dia quente. Fernando entregou à esposa várias sardinhas que tinha pescado e eles convidaram o hóspede para tomar um refresco num alpendre atrás da casa.

—Como foi o banho de mar? Te vejo com mais energia, meu filho...—disse Cayetana.

—Bem, creio que a senhora não tem idade para ser minha mãe, podes me chamar pelo nome...Sou Julián, dona Cayetana...Bem, creio que também posso chamar a senhora de Cayetana, não?

Aqui o tempo, as idades, as aparências e essas formalidades não contam muito. Escolhemos uma aparência que nos recordamos e que gostamos mais e a adotamos.

Aqui! Onde é aqui? —Por favor, já está na hora que vocês me expliquem de uma vez por todas que lugar é esse...

Diga-me primeiro qual é tua última recordação antes de acordar hoje pela manhã? —perguntou-lhe Cayetana.

—Pois, estava no hospital e a médica que me cuidava colocou-me uma máscara de oxigênio para que eu respirasse melhor, lembro que estava com dificuldade.

E depois, te sentiste melhor? Digo, depois de te colocarem a máscara.

—Talvez não logo, aspirei e expirei com certa dificuldade algumas vezes, mas depois lembro de um instante de muito relaxamento que parecia que voava acima de meu corpo— De súbito, Julián parou de falar, pensou e teve um olhar de espanto para o casal a frente dele e fez um gesto de levar uma das mãos até o braço de Cayetana e a outra até o braço de Fernando. No que fez isso, levantou-se rapidamente apavorado, constatando:

—Vocês não são reais!! Isso tudo é um sonho!! Quero sair daqui. —E saiu correndo em direção à praia. Ali, ao menos tudo era palpável.

Acabava de fazer uma assombrosa descoberta. Aquelas pessoas não eram reais, aquele lugar não existia e ele definitivamente estava morto. Sim, aquilo só podia ser a morte. Na verdade, não de todo ruim, pois sentia-se bem com seu corpo e tinha um corpo. Apenas sentiu um vazio, uma solidão inexplicável e uma mistura de comiseração e preocupação consigo mesmo, perguntando-se que seria dele. Que faria com a sua morte, se fosse o caso? Para onde deveria ou poderia seguir? Era livre para decidir? Ele era o mesmo de sempre. Recordava de toda sua vida, das pessoas, de tudo que havia vivido, só estava um pouco confuso e as memórias mais recentes haviam se apagado.

Andou, andou muito pela beira da praia até deixar aquela casa bem longe de sua visão. Não sentia fome, nem sede, nem calor, nem frio, nem sono. Estava alerta e cheio de energia. Talvez pudesse andar a esmo grandes distâncias e assim mesmo não se sentiria cansado. Haveria de encontrar outro lugar, uma cidade ou povoado onde pudesse esclarecer em que mundo realmente tinha ido parar.

Pensou na morte e constatou que era seu único caminho depois de tudo que passara desde quando descobrira o câncer e todo o agravamento e sofrimentos passados no último ano. Não havia forma de continuar vivo naquele estado aonde chegara seu corpo. Ele sabia disso desde alguns meses, mas não podia desistir em nome das pessoas que amava, principalmente de sua mulher. Eles tinham uma vida perfeita até antes dele adoecer, eram muito apegados, tinham muitos planos de vida e continuavam muito apaixonados desde o dia em que se conheceram.

Ela sofreria mais ainda, como já sofria sua falta, pois a doença o levara a internações periódicas e já estavam muito afastados intimamente por causa das inúmeras limitações físicas que ele tinha adquirido no último ano. No entanto, ela não perdia a esperança de vê-lo curado, embora ele percebesse, às vezes, seu cansaço e desalento por uma recuperação que não vinha.

Envolto nesses pensamentos, perdeu a noção de quanto havia andado. O mar estava ali, a grande extensão de praia também e a casa de Cayetana e Fernando tinha desaparecido do horizonte. Estacou, sentindo o sol na cabeça, tirou as sandálias e refrescou os pés na água. Em alto-mar viu algumas embarcações, um barco cargueiro, um pesqueiro e uma pequena lancha vindo em direção à praia. Pensou que podia estar perto de um porto.

Fez sinal para a lancha que se aproximou e de longe ele gritou a pergunta para o único ocupante do veículo:

–Olá, podes me deixar no próximo porto? Está perto daqui?

É claro, suba! — respondeu um rapaz jovem e queimado de sol.

—Obrigada! — disse subindo com as roupas molhadas.

Tem roupas secas ali, podes trocar...—

—Obrigada, mas quanto tempo temos até o porto? —

Questão de poucos minutos...Estás perdido? Teu barco naufragou?

—Totalmente perdido, mas não cheguei de barco aqui, não... Podes me dizer que lugar é esse e a que porto estamos indo?

Ah, estás sem memória, então...É normal.

—Ah, por favor...Tu também com essa conversa de que tudo que acontece aqui é normal. Eu estava na casa de Fernando e Cayetana, conheces?

Não, mas já ouvi falar deles. São muito boas pessoas. Estão aqui pela zona auxiliando quem chega.

—Quem chega de onde?

Da vida.

—E aqui é o quê afinal, a morte?

—Aqui é somente um interposto entre tua vida anterior e o lugar para onde desejares ir depois.

—Depois de que?

Depois que entenderes tudo que te aconteceu.

—Ah, sim? E quem vai me explicar tudo isso?

As pessoas que irás encontrando pelo caminho. Olha, chegamos...

Como se uma bruma se desfizesse a sua frente, Julián percebeu que chegaram rapidamente num porto pesqueiro de um pequeno povoado igual aos milhares que conhecia no litoral de seu país. Ali podia ser qualquer ponto do Oceano Atlântico Norte ou do Mar Mediterrâneo. Já estava começando a acostumar-se com o pouco esclarecimento e as evasivas que as pessoas lhe dispensavam. Empreenderia, então a busca por explicações à medida que fosse encontrando pessoas. Alguém haveria de elucidar aquele enigma e o porquê tinha entrado naquela estranha aventura. Agradeceu a carona do rapaz da lancha e adentrou ao povoado.

Já entardecia e havia uma luz amarelo-laranja intensa cobrindo o cais do porto. O mar estava calmo e soprava leve brisa. Havia muitos barcos de passeio e de pesca atracados. Viu um grupo de mulheres sentadas no chão em círculo, costurando redes, enquanto conversavam na frente do mercado de peixe, naquela hora quase vazio. Dirigiu-se até o outro lado da rua à procura de uma cafeteria. Ali poderia pedir um jornal do dia e afinal, saberia em que lugar estava e em que data. Logo avistou um bar-café, mas subitamente lembrou que não carregava dinheiro e isso quase o fez desistir de entrar. Nisso, uma voz detrás dele chamou:

Olá...Procuras algum endereço? Ou alguém em especial? Vejo que estás um pouco indeciso de entrar aí. Esse povoado é muito pequeno, talvez eu possa ajudar. —Perguntou um senhor de idade, cabelos grisalhos, andando com uma bengala.

—Olá, na verdade não procuro ninguém em especial. Só estou procurando um jornal do lugar para saber onde estou e que dia é hoje. Tive amnésia recentemente. — E teve vergonha de dizer que estava sem dinheiro.

Vamos, entre aí, tomamos um café.

—Não, obrigado...Só quero mesmo ver o jornal. Depois já me vou. —disse quase fugindo do senhor.

Vamos, homem...Te pago o café. Aqui somos muito hospitaleiros com os forasteiros. — E foi carregando Julián para dentro da cafeteria. E se queres saber que lugar é esse te digo logo. Estamos num lugar semelhante à Ria de Viveiro na Galícia, num povoado chamado Celeiro. Já deves ter ouvido falar.

—Sim, muito...Já naveguei por aqui algumas vezes, mas confesso não reconheci. Bem, é que estou com esse problema para lembrar das coisas. E que dia é hoje? —perguntou enquanto eles se sentavam numa mesa e Julián olhava em volta. Havia pouca gente naquela hora.

—O tempo é relativo. Pode ser medido, sentido ou simplesmente ignorado. Aqui quase que o ignoramos não fosse a exigência de procedimentos práticos como registros de nascimentos, mortes, datas comemorativas etc.

—Outra resposta evasiva! — pensou e concluiu que encontrava com seres cada vez mais delirantes. Olhou em volta, mas não havia jornais. O senhor pediu dois cafés com leite e logo perguntou se Julián havia sido pescador também como ele.

—Sim, fui, mas somente quando era muito jovem para ajudar meu pai. Depois fui para a Escola Naval, me formei em Patrão de Pesca. Naveguei um tempo em grandes buques, depois me casei e fui trabalhar em terra. Por falar nisso, o senhor disse que poderia me ajudar. Preciso avisar minha mulher onde estou, ela estará preocupada. Me diga onde encontro um telefone.

Não precisas de telefone para encontrar tua mulher. Tu poderás sintonizar com ela desde onde estás e ela saberá que estás bem e tu saberás dela.

—Sintonizar? E como se faz isso? Sintonizo uma rádio do carro, um canal de televisão, mas uma pessoa eu não sei sintonizar...

Na verdade, vocês estão em sintonia sempre. Não vejo por que preocupar-se.

—Quero vê-la, estar com ela! Entende, senhor?

Então pense num lugar e envie-lhe uma mensagem. Ela virá, se quiser, se puder e quando puder.

Julián refletiu sobre a resposta do senhor e deduziu que se estivesse morto não haveria de querer que sua mulher também morresse para encontrá-lo. Na dúvida, encerrou o assunto, agradeceu o café e saiu quase correndo do lugar.

Lá fora já anoitecia e não sabia mais que rumo tomar. Sozinho, com nada mais fazendo muito sentido, sentou-se na amurada do passeio marítimo e ficou olhando o mar durante um tempo que não saberia precisar. Quando escureceu percebeu as luzes de um pequeno farol acendendo e apagando, orientando os marinheiros. Ficava a uns trezentos metros daquele ponto onde estava e sentiu-se impelido a seguir para ali. Quando chegou mais perto do farol viu uma construção de pedra ao lado e muita luz e movimento vindos lá de dentro. Parecia uma taberna de cais de porto.

Ficou parado diante da porta de madeira aberta de par em par, meio corroída pelo tempo, com fechadura e dobradiças enormes muito antigas. O ambiente interno era pequeno, pé direito baixo, as paredes eram de pedras brutas, grandes e maciças sem reboco. A iluminação vinha de pequenas lanternas dispostas de longe em longe nas paredes e de um grande lampadário pendurado no teto central.  Sob o balcão pendiam taças, copos e peças de queijo e presunto defumado. Uma prateleira exibia grande quantidade de garrafas de bebidas. Havia bancos e mesas em forma de barris de vinho. E o vinho estava estocado em um grande barril em cima do balcão. Muitas pessoas se aglomeravam pelo local, homens e mulheres sentados pelas mesas, rindo, conversando ou dançando. Tocava uma música alegre num ambiente descontraído. Antes de entrar ele olhou para a parede de fora da taberna, havia uma placa escrito em letras meio góticas onde leu Lanterna dos Afogados e a partir daquele instante tudo começou a fazer sentido.

Prontamente lembrou de Evelina, uma jovem de vinte anos que havia conhecido ali naquele mesmo lugar. E a imagem dela e de sua atual esposa se embaralharam em sua cabeça, pois definitivamente eram a mesma pessoa. Decidiu, então que esperaria por ela ali, com aquelas pessoas, naquele ambiente, exatamente no lugar onde um dia eles tinham se encontrado. Não lembrava bem quando isso tinha acontecido, mas sabia que o lugar era aquele. Teve breves lapsos de memória de um tempo em que eles eram muito jovens e foram viver juntos num lugar perto dali. Ela o esperava chegar do mar todos os dias, até que num dia de tempestade seu barco não voltou mais, porque ele e seus companheiros foram tragados pelas águas.

Mais tarde ele procuraria e estava certo de que encontraria a casa onde eles viveram e se amaram. Isso o ajudaria a lembrar mais detalhes de sua vida. Agora já estava descansado e curado e a Evelina do passado, sua esposa no presente saberia onde encontrá-lo. Ele queria estar ali quando ela chegasse e esperaria quanto fosse preciso. E seguiriam juntos, como sempre. Afinal, aprendeu que o tempo pode ser ignorado, quando se espera com a alma. 

                                                        ★★★★


 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

11 de novembro de 2021

 


Era 11 de outubro, J. me escreveu em seu último caderno em letras grandes na sua costumeira mistura de português, galego e espanhol quando se dirigia a mim:

—Hoje estou fazendo 63 anos e 11 meses. 

Li, concordei com a cabeça, pensando comigo se ele contava como uma conquista ou já fazia uma contagem regressiva. Nunca vou saber, não me cabia perguntar. As duas opções já me pareciam absolutamente sem sentido.

Hoje é 11 de novembro e já se vão vinte dias de sua partida, quando completaria 64 anos, mas  mantinha a cabeça de um jovem audaz, aventureiro, inteligente, curioso e louco pela vida se essa impiedosa enfermidade não o tivesse pego de jeito e colocado nossas vidas no meio de um turbilhão.

Por mais que eu tente, não sou capaz de conceber o que passa na cabeça de uma pessoa que conviveu com tanto sofrimento físico vendo a transformação de seu corpo vigoroso e saudável em uma frágil vida. Aceitação, renúncia, entrega, rendição? Afinal a dor e os padecimentos têm poder, fazem o corpo desmoronar e a mente implora por piedade, clemência, capitulação.

Muito se lê que o câncer há que ser combatido com ânimo e pensamento positivo, que é uma luta que enobrece o doente. Exigir isso de quem passa por duros tratamentos me parece desumano, porque por mais que se tenha esperanças na cura, às vezes é uma luta inglória e a pessoa não é capaz de reagir. Romantizar a dor e o sofrimento alheios é demasiado cruel. 

E J. entregou-se a seu destino, quando nos acenamos naquela noite em despedida. Por mais complexos e misteriosos que sejam os enredos de vida e morte, ambos sabíamos que seria a última vez que nos veríamos e nos tocaríamos.

No entanto, ele segue e seguirá vivo em meu coração, no coração de suas filhas, de sua família e de seus inúmeros amigos. Sua inigualável fé na justiça social e na educação como molas propulsoras para o desenvolvimento humano era uma de suas maiores virtudes. Sua competência e inteligência reconhecidas por seus pares em seus longos anos de trabalho, sua ideologia progressista, defensora dos direitos humanos e da natureza, sua aversão a toda forma de discriminação de raça, gêneros, crenças e violência também serão lembradas como seus maiores valores por todos os que o conheceram. 

Ele tinha tanto orgulho e convicção de seus posicionamentos, que às vezes vibrava com vaidade e confiava pouco em quem tivesse posições contrárias ao que ele qualificava como antidemocráticos. Apesar disso, respeitava a todos. Ele tinha em mente sua utopia, um mundo hipotético bem formatado que, infelizmente está longe de ser alcançado nesse nosso mundo dominado pelo poder do dinheiro, que abre fossos de iniquidades por cada vez mais falsos, ilusórios e distorcidos ideais de democracia. Isso tudo combinado com um coração extremamente generoso, amoroso e obsequioso.

Hoje, no dia de seu aniversário, desejo imensamente e do meu mais profundo querer que ele finalmente tenha se livrado de seu pobre corpo doente e seu espírito esteja livre, leve, cheio de luz e energia, descansando ou viajando por lindos lugares, mares, montanhas, rios, cidades ou trilhas para outro dia voltar e começarmos tudo de novo, se assim o quiser.

—Onde quer que estejas, feliz aniversário, J. sinta todo amor que deixaste aqui comigo. Há uma intensidade tua que quase não cabe em mim e ainda dói muito tua falta, mas pouco a pouco prometo serenar. Confio que teu espírito e nossas melhores memórias hão de me ajudar a superar tanta tristeza.

E, finalmente que os todos os deuses, anjos, teus ancestrais e espíritos de luz te protejam e te abençoem para sempre!

                                              💓💓💓💓

Brasil, 11 de noviembre de 2021.

En 11 de octubre, J. me escribió en su último cuaderno con letras grandes en su usual mezcla de portugués, gallego y español cuando se dirigía a mi:

—Hoy cumplo 63 años y 11 meses. 

Yo leí, asentí con un movimiento de cabeza, pensando para mi si él hacía esta cuenta como tiempo conquistado de vida o empezaba una cuenta atrás. Nunca lo voy a saber, no procedía preguntar. Las dos opciones ya me parecían absolutamente sin sentido.

Hoy es 11 de noviembre y ya hace veinte días de su partida, cuando cumpliría 64 años, pero mantenía la cabeza de un joven audaz, curioso, inteligente, aventurero y con muchísimas ganas de vivir si esta imperiosa enfermedad no lo hubiese golpeado y puesto nuestras vidas patas arriba.

Por más que yo intente no soy capaz de comprender lo que pasa en la mente de una persona que vivió tanto sufrimiento físico respecto de su cuerpo vigoroso y saludable, transformándose en una frágil vida. ¿Aceptación, renuncia, entrega, rendición? Al final el dolor y los padecimientos tienen poder, hacen al cuerpo derrumbarse y la mente implora piedad y clemencia. 

Decir que el cáncer tiene que ser combatido también con ánimo y pensamiento positivo, que es una lucha que engrandece a los enfermos me parece inhumano, porque por más que sí, se tiene esperanza, la lucha a veces es sin gloria y el enfermo no puede hacer nada. No me gusta romantizar el dolor ajeno, es cruel. Y J., al final se rindió a su destino, cuando nos abrazamos en aquella noche de despedida en su habitación de aquel hospital. Por más complejas y misteriosas que sean las tramas de la vida y de la muerte, los dos sabíamos que sería la última vez que nos mirábamos y nos tocábamos.

Sin embargo, él sigue y seguirá vivo en mi corazón, en los corazones de sus hijas, de su familia y de sus incontables amigos. Su obstinada fe en la justicia social y educación como premisa para el desarrollo de la humanidad era una de sus mayores virtudes. Más allá de su notable y reconocida inteligencia y capacidad ejercida en su trabajo a lo largo de la vida y sus sueños por un mundo ideal y armonioso. Su ideología progresista, siempre en la defensa de los derechos humanos y de la naturaleza, su repulsa a todas formas de discriminación de razas, géneros, creencias y una aversión a todas las formas de violencia también han de ser recordadas como sus más elevados valores por todos los que lo conocieron. Estaba tan orgulloso y convencido de sus ideas, que a veces se ponía muy vanidoso y poco confiaba en alguien que tuviese actitudes o ideas contrarias, aunque respetaba a todos. Él llevaba em su mente el deseo de un mundo hipotético, aún utópico, pero bien formateado que desafortunadamente está lejos de hacerse realidad en este mundo gobernado por la sed por dinero y poder y por cada vez más falsos demócratas. Todo eso unido a uno corazón extremadamente generoso, agradecido y cariñoso.

Hoy, en el día de su cumpleañosdeseo inmensamente y desde mi más profundo querer que él finalmente esté libre de su pobre cuerpo enfermo y su espíritu pueda volar libre, ligero, lleno de luz y energía, descansando o viajando por hermosos lugares, mares, montañas, ríos, ciudades o senderos para otro día volver y empezaremos todo de nuevo, si así lo deseara.

—Donde estés, mi amor que seas feliz, feliz cumple, J. Siente todo el amor que dejaste aquí conmigo. Hay toda una intensidad tuya que casi no cabe en mí y aún duele mucho, pero poco a poco prometo ponerme más tranquila. Confío que nuestras mejores memorias y tu espíritu puedan ayudarme a superar tanta tristeza.

Y, ¡finalmente que todos los dioses, ángeles, tus ancestros, elevados espíritus de luz te protejan y te bendigan para siempre!

 






terça-feira, 2 de novembro de 2021

Quando veio a chuva

Imagem: Unplash.com 

Eu costumava conversar apenas com a lua, depois que conheci você comecei a conversar com as estrelas. Quando você se foi passou a ser inevitável entregar minhas confissões à chuva.

A chuva selou nosso relacionamento do início ao fim. Lembro do nosso último beijo, de parar algumas ruas antes de casa e você me pedindo com um brilho de esperança no olhar "uma palavra" um sorriso triste, de nós dois. Uma palavra e você voltaria pra mim, apenas uma. E eu não a disse.

Está chovendo agora. Sua voz ecoa em mim a cada gota que cai e eu volto no tempo, revivo aquele momento, desfaço o nosso final e refaço o nosso abraço e cada beijo se torna sem fim. O milésimo de segundo antes que a gota chegue ao chão passa a ser infinito. Eu não posso perder aquilo, não mais uma vez. Mas, o momento sempre acaba. Quando eu volto à realidade e encaro o céu, a tempestade já não é mais do lado de fora. Antes, eu sorria com a chuva me lembrando de você Hoje, cada gota me faz chover também.

Texto enviado a este blog por Lua.

domingo, 24 de outubro de 2021

20 de outubro, quarta- feira, 20 horas



Faz quatro dias que me despedi de J. depois de passar algumas horas com ele no hospital. Por sugestão da enfermeira, saímos por alguns minutos a fazer um passeio pelo largo corredor, naquela hora, começo de noite, praticamente vazio. No meio do caminho ele quis descer da cadeira de rodas e andar um pouco, porém cansou logo, retomamos com a cadeira e demos mais outras pequenas voltas. Naquele diminuto trajeto, não nos dissemos nada. Apenas eu lhe pedia que fôssemos mais devagar, enquanto caminhávamos e nos segurávamos um ao outro. Ele sempre andava mais rápido que eu. Depois de uns minutos, ele sinalizou que queria voltar e retornamos ao quarto daquela Unidade de Cuidados Paliativos.

Perto da vinte horas, era a hora da despedida. Sem chorar, me abracei a ele, disse que o amava e não conseguia deixar de segurá-lo tentando reter aquela proximidade. No fundo, eu sabia que não seria um "até breve". Ele, me segurando os braços, forçou-me lentamente a deixá-lo, sinalizando que já era tarde, que era hora de ir-me. Peguei minhas coisas na cadeira devagar e da porta atirei um beijo, aí sim, lágrimas já me molhavam a máscara. Ele retribuiu o beijo, mas continuou me recordando, com sinais, que se fazia tarde. E fui... Nem lembro mais como cheguei em casa naquela noite. 

A hora da despedida foi decidida por ele ali. Tudo parecia determinado. Quarenta e oito horas depois eu já estava no Brasil e ele já não respirava mais. Nossa história chegava ao fim.

Nos últimos meses, nos comunicávamos por escrito, porque o tratamento tinha lhe quitado a fala. Do hospital, um dia me escreveu um e-mail, extremamente conformado e aconselhando-me com sua costumeira sensatez:

"A tristeza e a depressão não nos servem de nada. Eu não posso mais te fazer feliz e a mim tampouco ninguém mais pode. Ao menos não aqui, nessa situação de dor e impossibilidades físicas. Seja feliz tu onde queiras, refaz tua vida da maneira e no lugar que preferires. Ser feliz é uma obrigação. Eu vou te amar para sempre."

Sim, meu amigo, meu amor,  só o tempo vai me ajudar a refazer minha vida. Mas neste momento e sempre resultará impossível esquecer nossa curta e plena vida em comum. Desde nosso primeiro encontro no aeroporto de Porto Alegre em 2013 até aquele quarto de hospital em Pontevedra foram oito breves anos de amor, "ganas de vivir", de vontade de abarcar o mundo, de desfrutar da maturidade, de realizar sonhos de juventude, de aplacar nossas sedes e desejos, de nos apaixonarmos de novo, e mais, só mais uma vez...

Queda comigo tua alegria, teu otimismo, teu impressionante senso de justiça, tua placidez, tua prudência, teus ensinamentos, tua fé na vida e nas pessoas. Levo comigo teu olhar azul que disfarçava bem teus rancores e ressentimentos passados, teu sorriso feliz quando chegava em casa do trabalho, assim como tua recente luta, teu sofrimento físico e tua coragem dos últimos tempos.

Vou te amar para sempre desejando que nos encontremos de novo um dia, não na morte, mas numa outra vida se isso é possível. Assim, quando tivermos nossos vinte anos de novo eu estarei te esperando lá no nosso farol, na Lanterna dos Afogados, porque sei que voltarás do mar. Como siempre!

Temos um amor para continuar, nossos filhos querem nascer. Então, descansa agora, mas depois, vê se não demora!

Foto: Arquivo Pessoal, Paris, setembro de 2015. 

sábado, 23 de outubro de 2021

Escritos do amanhecer

Combarro, Galícia Foto: Arquivo pessoal

Fazia mais ou menos três meses que eu não tinha o prazer de dormir sete horas seguidas. Foi desde que J. voltou do hospital, não para convalescer, mas pela simples e dura razão que o setor de Oncologia informou que não poderia fazer mais nada por ele. Estive ocupada esse tempo atendendo suas demandas, tentando confortar e aliviar suas dores e uma multiplicidade de sintomas que um paciente com câncer pode acumular.

A minha dor física começou justamente aí, quando os médicos oncologistas o abandonaram depois de três anos de tratamento e minha dor psicológica já estava há muito instalada. Comecei, então a me encher de cansaços, de ansiedade, de dores por todo corpo. Tinha dificuldade até para levantar da cama de manhã, os músculos pareciam enrijecidos, doía para me vestir, para esticar as pernas e até para pentear os cabelos. Fui atrás de ajuda médica, porque os dias estavam tornando-se insuportáveis e empilhando mais um doente dentro de casa. Com dois eu não podia.

Minhas dores, as quais eu atribuía de origem emocional, se converteram num diagnóstico comprovado por testes de laboratório chamado de polimialgia reumática.  O médico prescreveu um tratamento com prednisona durante três meses e disse: Tranquilavás a te poner bien. Ele tinha razão, eu já estava bastante aliviada em cinco dias de tratamento. 

Agora, precisamente há dois dias, J. voltou para o hospital. Está na Unidade de Cuidados Paliativos e eu prestes a tomar um voo de volta para o Brasil. Tinha passagem comprada desde julho, mês que costumava começar a me organizar para passar o final de ano no Brasil. Mas naquele ano, as coisas estavam tomando um rumo diverso. Ele não iria comigo e eu não queria estar presente quando ele partisse. Era sabido que isso podia acontecer a qualquer momento. Pensei que uma despedida ali nos Cuidados Paliativos seria menos dolorosa. O ambiente hospitalar, embora pesado e propício a emoções mais fortes, sempre podemos dar um jeito de dissimular e fazer do momento como se fosse algo trivial. E ele, seguramente, estará entorpecido e letárgico, já não mais aflito com a sua e a nossa tragédia pessoal, mas ansiando somente que não tenha dores e possa estar tranquilo.

Agora sozinha em casa e tendo só a mim para cuidar, nesta manhã de domingo me sinto quase feliz. Ontem adormeci muito rápido com a ajuda de um fitoterápico, de um comprimidinho tarja preta, lendo um romance bobo de Danielle Steel e com o barulho de uma chuva forte que caía. Dormi horas seguidas e repus boa dose de energia. Ao me levantar, precisei logo de um café, porque depois de tomar a prednisona fica um gosto forte na garganta. 

As malas estão prontas e há um checklist curto ao lado do computador: comparecer amanhã ao laboratório para o teste PCR exigido pela companhia aérea, preencher um formulário de saúde para o governo brasileiro e fazer uma recarga em meu celular do Brasil. Liguei a televisão da sala e levei o controle até um canal de rádio como sempre fazia quando J. estava saudável, trabalhando e só chegava às três da tarde. Na Melodia FM tocava Phil Collins, seu Easy Lover como num dia tranquilo, porém disfarçado de cotidiano. Tentei abstrair, porque definitivamente os tempos não estão normais. 

Assim como é provável que J. não volte mais para casa, eu não sei se volto a esse lugar e a esse país que me concedeu uma outra nacionalidade. Aqui nesse apartamento tive a sorte de viver tendo uma das vistas mais lindas do litoral da Galícia, acordando todas as manhãs com o barulho de barcos e de gaivotas. Aqui vivi durante mais de cinco anos plenos de felicidade, amor e crescimento pessoal. Porém, ficarão sentimentos contraditórios, de dor e alegria, incredulidade e aceitação, inquietação e paz.

De agora em diante, uma pergunta seguirá comigo para sempre ou até que eu seja digna de uma resposta. Por quê?

                                                                                             17 de outubro de 2021

 


Insônia