quinta-feira, 17 de março de 2022

O sentido da tristeza


Foto: Arquivo Pessoal


Tristeza é um substantivo feminino, abstrato, estado de quem sente insatisfação, mal estar ou abatimento, por vezes sem razão aparente; melancolia; angústia; inquietação. O que provoca estado depressivo ou nostalgia; pena; mágoa; aflição; consternação e ...Saudade. Essa é a síntese semântica da tristeza segundo a consulta VOLP (Vocabulário da Língua Portuguesa). Apesar de meu convívio quase que diário com os dicionários, tenho tentado entender a tristeza além da semântica e dos estados psíquicos comandados por neurotransmissores bioquímicos. Empiricamente ouso aqui classificar os estados anímicos em graus de tristeza, de alegria ou nos seus extremos, o desespero e a euforia respectivamente. O que estaria no centro, no grau cinco, por exemplo numa escala de zero a dez? Tranquilidade, paz, indiferença, neutralidade? Em que posição temos estado a maioria das vezes nessa vida? 

É certo que os extremos são temporários, tanto a euforia quanto o desespero logo se abrandam, porém sempre deixam fortes marcas na memória: a entrada na universidade, um presente, um amor, o nascimento dos filhos, um emprego novo, a casa própria, uma viagem. Por outro lado, uma doença grave, um fracasso profissional, uma catástrofe, a morte de alguém muito próximo, um acidente são exemplos destes estados. Perseguimos um utópico nível 10, percorrendo essa escala pela vida e se houvesse um aplicativo—deve haver— que salvasse num gráfico nossos estados anímicos diários nos veríamos, em média em que nível, em que número?

Os desenvolvedores desse aplicativo certamente se ocupariam de colocar uma caixinha no perfil dos usuários para assinalar com um x algumas características intrínsecas ao ser humano como otimismo, pessimismo, reconhecimento, etc. Ingratidão e revolta, embora sentimentos mais que humanos, são condições demasiado negativas para aferir felicidade, pois atualmente o parâmetro das redes sociais usa e abusa do quesito gratidão e no mundo virtual a felicidade impera. 

Porém, não faço ideia de como esse aplicativo avaliaria a dissimulação dos usuários nesses quesitos. Sim, todos dissimulamos, pois parece inadequado não agradecer a todo momento pela dádiva da vida e a tristeza perturba o mundo da felicidade das redes e dos padrões. É a chamada positividade tóxica. Ainda assim, conheço gente realmente otimista que mesmo nas maiores decepções, perdas e dores, sua linha estaria lá acima do seis. E há os totalmente negativos que mesmo nas grandes alegrias e júbilos, eles nunca passariam do cinco—oh! dor...oh! vida...oh! azar. Um dia todos ainda haveremos de querer habitar no Metaverso e fugir da realidade. Mas isso é outro assunto.

Conjeturas à parte, o que pretendo aqui não é significar e explicar a tristeza, porque o sentimento é indefinível em palavras e é a dor, o desalento, os fracassos, a falta de perspectivas, as doenças e a pior de todas, a morte que são seus grandes motivadores. Certo é que muitas vezes nem sabemos a razão de estar tristes, assim é preciso também não confundir tristeza com preocupação ou com depressão—que é uma patologia— senão estaríamos permanentemente abaixo do nível 3, mesmo que uma grande tristeza possa evoluir para depressão e morte. Quem nunca ouvir falar de alguém que morreu de desgosto?

Mas afinal qual o sentido da tristeza? Para que serve esse sentimento tão humano e tão presente? Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa e Silva a tristeza é um estado de reflexão absolutamente importante na vida das pessoas. Entendo pelas palavras dela que seja um momento de parada, deixando que as lágrimas que correm de vez em quando lavem o espírito. Então, reflito a minha tristeza e me pergunto todos os dias o que devo aprender? Ela será capaz de algum dia remendar a alma, resgatar os pedaços que foram partidos, colar as partes quebradas e como um remédio (amargo) devolver-me a vida perdida(sei que não) e permitir reinventá-la mesmo carregando a mesma tristeza/saudade até o fim? E o mais importante, ela será capaz de responder a pergunta que me persegue...Por quê ou, melhor dizendo para quê?



quarta-feira, 9 de março de 2022

O etarismo nosso de cada dia



Imagem: Freepik gerada por IA

Eu sei que já faço parte da fila dos prioritários, mas ainda não sou capaz de assumir e usar de maneira determinada e confortável essa vantagem ou privilégio. Apenas uma vez, quando viajava de volta ao Brasil, estava numa sala de embarque lotada fui para a fila das prioridades, porque uma moça praticamente me obrigou. Gentilmente ela foi me empurrando para a frente e me dizendo:

— Passe, senhora... Já estão chamando os prioritários.

Foi quando me dei conta que eu já tinha aparência de prioridade. Fui, então uma das primeiras pessoas a entrar naquele avião, junto de adultos com crianças pequenas, atrás de um casal de velhinhos e de duas senhoras com o cabelo todo grisalho, os quatro claramente uns quinze anos mais velhos do que eu. E claro, entramos depois dos passageiros da primeira classe, dos bilhetes gold, diamante, classe executiva e do diabo a quatro que serve para diferenciar a nós, os pobres, mas igualmente mortais da classe econômica. Mesmo assim ainda, hesitante, perguntei à funcionária, enquanto ela verificava meu passaporte, a partir de que idade era considerado embarque prioritário, se aos 60 ou 65 anos. Eu queria mostrar àquela moça que eu não era o que ela pensava que eu era. Mas eu era. A partir dos 60, somos considerados idosos no Brasil e no mundo. 

Não sei qual a palavra ou expressão que acho mais abominável para essa faixa etária se idoso, terceira idade ou melhor idade— este último é pura enganação. Alguém me prove que, pelo menos biologicamente, é melhor ter 60 anos ao invés de 40 ou 30, por favor. Particularmente eu preferiria o espírito e conhecimento que tenho hoje, porém com uma idade cronológica menor de 55 anos.

Há tempos percebo que as políticas públicas focadas nessa faixa da população induzem ou estimulam os mais jovens a tratar os mais maduros como crianças e até de certa forma como idiotas. Quem nunca escutou uma enfermeira ou um atendente querendo ser gentil e acolhedor, porém usando diminutivos como vovó e vovô para dirigir-se aos mais velhos nos estabelecimentos de saúde? Os mesmos vovós e vovôs, em contrapartida, estão cada vez mais obrigados a saber usar a tecnologia dos bancos e dos celulares, correndo o risco de exclusão do mundo tecnológico totalmente com os jovens no poder.

Dentro das famílias é a mesma tendência, havendo ainda uma predisposição de inversão de papéis quando muitas vezes os filhos assumem autoridade sobre os pais. Claro que aqui há que ter em conta o nível de independência de uma pessoa saudável que não é o mesmo tendo 60 ou 90 anos. As limitações vão chegando lentamente mesmo não aparecendo problemas de saúde mais graves. Há que ter muita sensibilidade ao tratar deste tema, porque corpo e mente não seguem o mesmo raciocínio em nenhuma idade. Há jovens velhos, há velhos jovens. Também há pessoas sem idade como Yoko Ono, mesma idade de minha mãe, elas completam 89 anos este ano e a Rainha da Inglaterra que nasceu no mesmo ano que meu pai, ambos prestes a completar 96.¹ Para mim essas quatro pessoas não têm idade. O espírito não tem idade e só quem não se permite ou não lhe é permitido, não se encanta com a vida em tempo nenhum.

Ciente da situação ainda assim hesito ou rejeito a ideia de assumir a idade por conta de meu próprio etarismo, que no meu caso não é discriminação com as pessoas mais velhas e, sim uma dificuldade para lidar com os estereótipos em torno da subjetividade da velhice que prefiro chamar de maturidade. O próprio termo velhice é cercado de ideias preconcebidas que ouvimos durante toda a vida, quando até pouco tempo pessoas a partir dos 45 ou 50 anos já eram consideradas ou se consideravam velhas. Esse adjetivo é, sem sombra de dúvida o mais cruel usado principalmente contra as mulheres. Há muita complacência e aceitação social quando um homem maduro se relaciona com mulheres jovens ou ocupa cargos importantes o que não acontece com as mulheres. Além disso o termo velho em si já trás a ideia de ultrapassado, usado, sem serventia, acabado, antigo, etc. Percebi que na língua espanhola há mais simpatia em relação ao termo, pois usam a palavra mayor ou muy mayor ao invés de viejo, embora o culto à juventude e à beleza segue muito forte lá e aqui, ao menos entre os ocidentais.

Somos preparados para crescer até o ápice da curva da idade adulta mas não somos preparados para viver a curva descendente, a curva do desgaste físico natural. Ao menos às mulheres não é permitido madurar com liberdade e excelência sem reduzi-las ao papel de mães, avós, tias e sogras, de preferência assexuadas. O senso comum continua padronizando atividades para o usufruto da terceira idade, termo igualmente horroroso. Pois eu rejeito veementemente os bingos, as excursões subsidiadas e os bailes nas matinés. Posso estar equivocada, mas só consigo ver solidão estampada nos rostos dos senhores que se entretêm com jogos de tabuleiro nas praças e nas senhoras apegadas à beatices ou a seus bichos de estimação. Eles não se permitem muito mais que isso, porque a sociedade não lhes permite.

Bem, mesmo que as pessoas continuem me empurrando para a fila dos prioritários, ainda assim eu não abro mão de viajar até quando puder subir num avião ou em qualquer meio de transporte. Além do café quero ainda poder desfrutar de uma boa xícara de chá que para a grande maioria dos brasileiros— bebedores de álcool— é um estranho costume de mulheres velhas. Essa cisma só existe no Brasil, porque lá fora vi muitos homens de todas as idades tomando chá, onde sabidamente em alguns países faz parte da cultura como na Inglaterra e em grande parte do oriente. Também me empenho em entender e usar a tecnologia para não me deixar ser engolida, ao menos até onde eu for capaz física e intelectualmente.

Refletindo sobre tudo isso me dei conta que sempre tive hábitos de uma senhora. Sempre gostei de conforto, sossego e silêncio. Minha mãe muitas vezes me chamava de comodista e eu pensava que era no sentido de preguiçosa. O fato é que nunca fui de boemias, meu organismo não se dá bem com o álcool e agora mais que nunca prefiro as noites e os dias para ler, estudar, recordar e fazer planos. Acabei de fazer 64 ² e certamente sinto mais cansaço, estou mais lenta, tenho que tomar alguns medicamentos, já fiquei viúva—outro termo horrível, amplamente estereotipado— mas ainda não perdi a vontade de experimentar e mudar, pois minha zona de conforto continua bastante ampla. 

Enfim, seguirei a vida, espero que com energia, pintando os cabelos, viajando, estudando, escrevendo e entreolhando igualmente para os mais velhos e para os mais novos, tirando lições dos dois lados. Um dia todos aprenderemos—e eu, principalmente— que é muito melhor adquirir idade cronológica, se possível com saúde, do que morrer cedo ou deixar-se morrer em vida. O último seguramente não é meu caso. 

1. Atualizando dados, meu pai e a rainha da Inglaterra faleceram com um intervalo de dias em setembro de 2022 e minha mãe e Yoko Ono já estão com seus 92 neste ano de 2025.
2. Agora 67.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Evelina

 

Imagem: Global Gallerry, Diana Romanelli

Evelina chegou esgueirando-se perto do farol. Dali poderia avistar seu avô. Como muitas noites da semana, sua avó a encarregava daquela amolação, tinha que buscar por ele na Taberna da Lanterna. Às vezes, ele não estava ali e elas não tinham ideia de seu paradeiro. Sua avó tinha desconfianças. Comumente ele estava e sempre esquecia da hora na animação das conversas sobrepujadas pela bebida. Voltava trôpego, alto de vinho, abraçado na neta e dando muitas risadas. Felizmente não era violento, como muitos que ela via por ali em meio àquele ambiente ruidoso que cheirava à álcool, presunto defumado e corpos sem banho.

A tarefa não era fácil, pois ele remanchava até terminar seu último gole de vinho como se fosse um líquido preciosíssimo e Evelina tinha que estar ali lembrando a todo momento que sua vó o esperava em casa onde fatalmente ouviria a habitual refrega entre eles. Ao mesmo tempo, tinha que enfrentar os olhares lascivos de alguns frequentadores da taberna que não a molestavam, mas somente porque o avô estava presente e era uma pessoa conhecida e respeitada no lugar. 

Ela tinha dezessete anos e fora criada com os avós paternos. A mãe morrera no parto e o pai acometido gravemente pela dor da perda da esposa, nunca chegou a olhar direito para a filha, nem quando recém-nascida nem nos anos que se seguiram. Fazia três anos que ele havia se juntado aos republicanos e a guerra civil era uma realidade. Ninguém sabia nada do pai de Evelina, se estava morto ou vivo. Nada.

Para ela, seu pai era aquele senhor marinheiro alto e forte que saía ao mar todas as madrugadas, mesmo tendo ido dormir com a cabeça cheia de vinho e sua mãe aquela senhora alquebrada e gentil que mariscava com as vizinhas para garantir mais algum alimento para o dia. Quando a maré estava baixa elas saíam a colher berberechos, almejas ou navajas remexendo no fundo arenoso da ría com suas enxadas e ancinhos. Todos lutavam para ter o mínimo de comida na mesa naquela época de muita fome no país inteiro.

Evelina não tinha muitas ilusões para sua vida real, embora muitos sonhos povoassem seu inconsciente. Nunca saíra de seu povoado e mal aprendera a ler, escrever e fazer cálculos. Seu avô, por conseguinte, ocupara-se de ensinar-lhe tudo sobre o mar, sobre barcos, sobre as marés, a nadar e a pescar sem importar-se que fosse a uma mulher. Depois que ela completou quinze anos a avó começou a encorajá-la para que escolhesse logo um marido. Seria um homem a mais para trazer comida para dentro de casa, já que faria tudo para que eles continuassem morando todos juntos.

Porém, Evelina ainda não tinha despertado interesse por rapazes. Sabia por algumas amigas algo sobre namoros e casamentos e o que sabia bastava para ainda rejeitar a ideia. Seus dias passavam entre os afazeres da casa ajudando a avó, buscando água na mesma fonte onde lavava as roupas da família, limpando, costurando redes de pesca ou fazendo algum bordado para um enxoval que precisava ser providenciado, mesmo que ainda não houvesse nem sombra de noivo. Quando podia escapar da vigilância da avó e das muitas tarefas que lhe cabia, ela saía a andar pela beira da praia, assistindo amanheceres, pores de sol e divagando sobre outros mundos e outras vidas possíveis.

O avô de Evelina achava cedo para que ela se casasse, planejava que ela um dia saísse ao mar com ele e lhe ajudasse no trabalho, mas sabia que haveria muita resistência por parte de sua mulher. Além do mais, os homens jovens estavam ficando escassos por ali. Muitos tinham sido convocados para lutar ao lado dos monarquistas nacionalistas, outros, como o pai de Evelina, foram aumentar as fileiras dos republicanos naquele conflito histórico que gerou a guerra civil espanhola entre os anos de 1936 e 1939.

Assim que a freguesia da Lanterna estava limitada à homens mais velhos, mulheres sozinhas ou órfãs cujos pais ou maridos foram cooptados pela guerra—não lhes restando mais que oferecer-se aos frequentadores masculinos para sobreviver— ou mesmo as muitas esposas que vinham ali em busca de seus maridos impertinentes viciados em álcool. Seguidamente Evelina presenciava ali brigas entre casais ou entre homens disputando mulheres. Afortunadamente, o taberneiro era de boa índole, e logo interferia nas altercações impedindo acontecimentos mais graves em seu estabelecimento.

Aquela era uma noite fria de novembro e o mar estava calmo depois de uma breve tormenta na parte da tarde. Quando havia vento e prenúncio de tempestade o farol era fortemente alvejado pelas ondas e muitas vezes, quando passava por ali Evelina saía respingada de água e, com as roupas tão úmidas que lhe entranhava um frio até os ossos. Ela gostava dos arredores do farol, era um lugar silencioso, nunca encontrara ninguém por ali e era para onde ia quando não queria ser encontrada, tanto de dia quanto de noite. Era como se fosse um lugar só seu.

Ela dirigiu-se à taberna e da entrada logo viu seu avô sentado no balcão. Naquela noite parecia mais lúcido, tinha o semblante mais sóbrio, os olhos sem o brilho da embriaguez e conversava sobre a guerra. Ele expunha suas opiniões abertamente a favor dos republicanos e da segunda República. O lugar estava cheio e havia muitas rodas de conversas. Evelina percebeu que ele falava com um grupo de desconhecidos, um senhor e dois jovens.

Parou ao lado do avô e ficou ouvindo a conversa. Era com pai e dois filhos, pescadores vindos de Ferrol que estavam ali escapando da tempestade da tarde em alto mar. Ficariam alojados em Celeiro naquela noite. Um dos jovens era quase um adolescente imberbe. O mais velho teria uns vinte ou vinte e poucos anos e chamou a atenção dela. Ele era bonito, tinha um olhar muito azul, meio perdido, não falava nada e logo que ela parou ao lado do avô, eles trocaram olhares tímidos. Felizmente, naquela noite ela não teve dificuldades para terminar sua tarefa. Depois de uns minutos, o avô tratou de encerrar a conversa com a família de marinheiros e foram para casa. Antes de deixar a taberna, Evelina despediu-se do jovem com um movimento de cabeça.

Na manhã seguinte, ela estava andando pela praia e avistou os dois rapazes que tinha visto na Lanterna na noite anterior. Estavam consertando o barco que tinha sido avariado com a tempestade. Passou por eles devagar e se sentou na borda do cais onde sempre costumava ficar admirando o mar. O sol apenas havia despontado e não havia nuvens, embora a temperatura baixa da noite ainda persistia. Ela fechou o casaco marrom tricotado à mão e empurrou a barra do vestido de lã para bem abaixo dos joelhos, enquanto se sentava. Passados uns minutos, o jovem mais velho, ao mesmo tempo que fazia sua tarefa, parecia perturbado com a presença de Evelina ali tão perto, vendo-a de costas sentada no cais. Os cabelos de um tom castanho acobreado lhe caíam até pouco mais dos ombros e o topo da cabeça estava coberto por uma touca de lã azul marinho.

Num dado momento, ela se levantou, aproximou-se e disse:

—Hoje vocês poderão voltar, não há mar de fundo e não há risco de tempestade.

—E como sabes? — perguntou-lhe o rapaz timidamente.

—Conheço o mar.

—Eu pensava que conhecia também, mas ontem ele nos pilhou.

—Ele é inconstante, precisa ser observado com prudência e calma.

E despediu-se. Antes de dar a volta para seguir, ouviu o rapaz dizer:

—Está faltando uma peça para consertar o barco. Meu pai foi buscar em Viveiro. Vamos ficar mais essa noite aqui. —disse o rapaz de maneira impulsiva, espantando-se consigo mesmo pela atitude que instintivamente teve de passar aquela informação para a moça.

Ela pareceu entender o recado, porque seguiu seu caminho sem assentir, nem nada, somente com um leve sorriso nos lábios e uma sensação de borboletas roçando seu estômago. Algo que nunca havia sentido.

Naquela noite, como em todas, Evelina saiu em direção à taberna com um ânimo diferente, estranhando a avó. Chegando perto do farol não enxergou nem vulto do avô o que na verdade contribuía para estar ali mais livremente e, pela primeira vez por questões particulares. Antes de entrar sondou o ambiente de fora da porta dissimulando procurar alguém. Entrou hesitante, porém o taberneiro logo avisou que seu avô não estava. Nesse momento avistou o jovem marinheiro numa das mesas jantando com o pai e o irmão. Ele também a viu.

Enquanto ela tentava dar meia volta depois do aviso do taberneiro, um homem desconhecido abordou-a, passou-lhe a mão pela cintura, enquanto lhe propunha sair e lhe empurrava grosseiramente para fora da taberna. No mesmo instante tanto o taberneiro como o jovem marinheiro pularam em cima do homem, impedindo que ele continuasse a importunar Evelina. Nisso, ela saiu correndo e escondeu-se no farol. Pensou que deveria continuar por perto, de um ponto em que pudesse ver o movimento da taberna sem ser vista. Depois de alguns minutos ela percebeu que o homem, visivelmente embriagado, tinha sido advertido pelo taberneiro e o ambiente havia acalmado. Logo depois o jovem marinheiro saía sozinho vindo em direção ao lugar onde ela estava.

—Ei, olá...Estás bem?  —Perguntou ele em voz alta, antes ainda de poder vê-la na escuridão.

—Como sabia que eu estava escondida aqui? —Evelina apareceu devagar vindo das sombras.

—Eu vi quando saíste correndo para cá.

—Obrigada por afastar aquele homem. Geralmente ninguém me importuna, mas hoje não encontrei meu avô e aquele homem é desconhecido por aqui. Ele pensou que eu fosse uma daquelas mulheres que procuram homens na taberna.

—Mesmo assim ele não tem o direito de sair agarrando toda a mulher que aparece, e tu és pouco mais que uma adolescente.

—Já tenho dezessete anos, muitas mulheres já estão casadas com a minha idade.

—Eu sei...Mesmo assim, deveria haver mais respeito por parte dos homens.

—Os homens só respeitam suas mães, filhas e irmãs...Às vezes, nem estas...

—O taberneiro é teu parente? Ele te protegeu...

—Não, é amigo de meu avô e me conhece desde criança. É um bom homem.

—Teu avô me pareceu um bom homem também...A verdade é que nem todos são desprezíveis.

—A maioria dos homens trata as mulheres como inferiores e são consideradas presas fáceis para eles, são feitas para serem caçadas. Já estou acostumada e sei me defender. Meu avô me ensinou, mesmo assim te agradeço.

—É verdade e vejo que tens coragem também.

—Instinto de sobrevivência. Agora tenho que ir, não encontrei meu avô. Hoje é daquelas noites que ele fica sumido. Minha avó pensa que ele está com outra mulher.

—Queres que te acompanhe até tua casa? Estarás em segurança, não sou como todos...

Ela deu de ombros, mas com o coração aos saltos e a boca do estômago povoada de bichos de asas, disse tentando dissimular a perturbação:

—Se queres...—e seguiram andando devagar lado a lado. —Já conseguiram consertar o barco?

—Amanhã finalizamos e seguimos viagem de volta.

—E vocês costumam navegar por esta ría?

—Sim, além das proximidades de Ferrol, às vezes saímos mais longe...

—Quer dizer que poderão voltar outra vez?

—Certamente. Já estivemos outras vezes aqui, mas é a primeira vez que temos que pernoitar.

—Pois nunca tinha te visto.

—Eu tampouco.

—Moro aqui. Obrigada. Tenho que entrar. — Ela disse estacando numa porta grande de madeira num dos casarios do povoado.

—Me chamo Julián. E tu?

—Evelina.

—Gostas de ler, Evelina?

—Gosto, mas aqui se lê pouco, não há nada para ler a não ser as páginas de periódicos e revistas velhas que minha avó trás embrulhando as compras da venda da esquina. Às vezes tenho sorte que há um pequeno conto inteiro numa página que eu desamasso e leio.

—Pois da próxima vez que eu vier te trago um livro.

—Nunca li um livro inteiro...E sobre que é?

—Ainda não sei. Eu tenho alguns em casa, vou escolher uma novela leve e alegre.

—E por quê?

—Por que o quê?

—Por que me acompanhaste até aqui e agora diz que volta e vai me trazer algo?

—Não sei..., mas eu sei que vou voltar até aqui à tua porta.

—Bem, tenho que entrar. —Ela disse um pouco embaraçada. Até outro dia, Julián.

—Até outro dia, Evelina.

Na manhã seguinte, seus avós ainda dormiam, ela teve um ímpeto de sair correndo à praia logo cedo com esperança de ver Julián pela última vez. Quando ela chegou ao cais, viu o barco deles se afastando. Só ficaram se olhando de longe, sem um aceno, sem nada para não despertar a atenção dos outros tripulantes.                                

A rotina de Evelina seguiu sem mudar absolutamente nada, somente um sentimento estranho e indescritível passou a acompanhar-lhe depois daquele brevíssimo encontro com o jovem marinheiro. Passados seis meses, já era primavera e ela estava em casa pela hora da sesta, entre entediada e relaxada bordando toalhas, quando bateram na porta. Era Julián.

—Olá, Evelina. Ainda lembra de mim?

—Quase que não...Demoraste demasiado a voltar. — Ela disse depois de uns segundos de surpresa e alvoroço, simulando contrariedade.

—Desculpa, estivemos navegando muito longe daqui. Voltamos há pouco de Terra Nova. Posso entrar?

—Claro. Minha avó está recostada e dormita essa hora e meu avô está no cais ajudando um amigo a consertar barcos.

—Eu sei, encontrei com ele ali e pedi permissão para vir te visitar. Toma, aqui está o livro que te prometi. — Disse Julián entregando uma pequena brochura antiga com páginas amareladas, enquanto se sentavam num banco de madeira que havia na sala da casa.

Las cumbres borrascosas¹ de Emily Brönte? — Evelina leu devagar o nome da autora.

—É um romance do século passado de uma escritora inglesa. Comprei lá em Terra Nova num comércio local e me chamou atenção que estava traduzido ao espanhol. Já li e penso que vais gostar.

—Muito obrigada. Nunca ganhei um livro de presente. E onde fica Terra Nova? —perguntou, enquanto acariciava a capa e as páginas, passando os dedos devagar pelo papel.

—Terra Nova fica na América do Norte, é uma grande ilha que pertence ao Canadá e estivemos ali meu pai e eu trabalhando num grande pesqueiro espanhol.

—E que língua falam lá?

—Inglês e francês, mas eu não entrei muito em contato com eles, não entendia nada que diziam...Estivemos pouco em terra.

Nisso, a avó de Evelina apareceu descendo as escadas.

—Vovó, esse é Julián. Nos conhecemos um dia na taberna, quando fui atrás do avô....

—Boa tarde, senhora. — Disse Julián levantando-se rapidamente.

—Boa tarde...E dirigindo-se à neta. — E teu avô o conhece?

—Sim...—preferiu responder Julián. Nos vimos mais que uma vez e creio que ele conhece a meu pai de Ferrol. Também somos pescadores.

—Ah...De Ferrol? Meu marido já foi muitas vezes a Ferrol. Aqui nesta região quem não pesca, não come... Convide seu amigo para jantar, Evelina. Mas antes vão dar um passeio pela praia, tenho que sair e seu avô, sabes bem, que tão cedo não aparece. Assim que não fica bem uma moça e um rapaz solteiros sozinhos dentro de casa. A vizinhança repara.

Assim os dois saíram andando devagar em direção à praia.

—Semana que vem faço dezoito anos. Assim que o livro já o considero como um presente de aniversário.

—Ah, sim? Pois na semana que vem tratarei de voltar se me convidares para a festa.

—Não haverá festa. Esta data não é muito festiva para minha família, pois foi quando morreu minha mãe e meu pai nunca superou. No máximo minha avó vai fazer um almoço e sobremesa mais caprichados e meu avô não vai sair para o mar. Agora mais que nunca ela vai querer que eu busque um marido. Não gosta da ideia de que eu comece a embarcar com meu avô, como ele pretende me levar logo...

—E tu conheces as lides do mar? Sabes que não é um trabalho comum para mulheres, não? Irias sem receios?

—Meu avô me ensinou tudo e como meu pai sumiu há anos, não tem ninguém para ajudá-lo. Sim, eu iria. Prefiro do que ficar limpando, lavando e bordando.

—Meu pai também quer que eu me case logo. Sempre diz que um homem tem que ter uma mulher para cuidar, ter filhos e outra para divertir-se. Eu, na verdade só quero uma para amar...Se encontrar...

—Pois vais te distinguir dos outros homens. Todos têm mais que uma mulher na vida, enquanto às mulheres lhes obrigam a casar até com quem não querem e lhes impõem fidelidade, senão ficam mal faladas.

—É verdade...Quer dizer que na próxima semana veremos uma marinheira na faina dos barcos com o avô?

—Não sei...Tenho muitas tarefas em casa, e minha avó não pode com tudo...Assim que não é uma decisão fácil para meu avô, eu entendo...talvez começaria somente alguns dias da semana. E tu, deixaria tua mulher te acompanhar no mar?

— Me acompanhar, creio que sim, mas sair sozinha a pescar, não sei...o trabalho é árduo e às vezes perigoso, sabes como é o mar... Olha, ali estão meu pai e teu avô.

Ambos se acercaram aos dois senhores marinheiros e eles esboçaram o mesmo sentimento de satisfação ao verem neta e filho passeando juntos. O avô de Evelina já havia feito o mesmo convite para que fossem jantar em sua casa na mesma noite, assim que os jovens ficaram contentes de poder estarem juntos sem a implicância de algum familiar o que era bastante comum naquela época de muita vigilância e repressão dentro das famílias.

Evelina e Julián seguiram o passeio até a praia, andaram um pouco pela areia depois sentados na escadaria de pedra do cais, ela perguntou:

—Quantos anos tens, Julián?

—21.

—E tua mãe, está em Ferrol?

—Sim, moramos perto do porto na vila dos marinheiros, chama-se Irene e tenho uma irmã menor, está com 13 anos, se chama Carmiña e meu irmão do meio é Enrique, acabou de fazer 15 anos.

—Deve ser bom ter irmãos, uma família completa...E que pretendes fazer com tua vida?

—Pois o mesmo que meu pai, pescar, sair ao mar... Se tivesse algum dinheiro iria a capital estudar, mas ainda não tenho condições. Talvez , um dia...Meu pai herdou algumas vinhas de meu avô, mas não gosta da agricultura e é minha mãe e dois empregados que se encarregam da vindima. Assim que não somos ricos e tampouco miseráveis.

—Tiveste sorte que ainda não te chamaram para lutar junto aos monarquistas.

—Não vão me chamar. Meu pai tem uma certa influência na região, embora seja contra eles...E eu não quero participar de uma guerra entre irmãos, embora eu ache que a luta é relevante e importante para o país. Somos todos espanhóis e as desigualdades e as lutas dos trabalhadores devem ser enfrentadas como asseguram os idealistas, como deve ser teu pai. Além do mais, os monarquistas cooptam somente gente muito pobre para suas fileiras ou os que já têm uma carreira no exército. Não prestei serviço militar, porque na época meu pai teve um problema de saúde e atestei que eu era arrimo de família. Os republicanos estão ali por convicção e idealismo. Não é meu caso, nem um, nem outro.

—Eu não entendo bem do tema, só sei que meu avô também é contra a monarquia. Meu pai sumiu há uns três anos e nem sabemos se está vivo ou morto. Dizem que ele se apegou a esses ideais políticos mais por ter pelo que viver. É um homem muito amargurado. Nunca o vi sorrir ou desfrutar de algo. Acho que me odeia, porque pensa que fui responsável pela morte de minha mãe. Sei que não fui. Muitas mulheres morrem de parto. Minha avó já me explicou isso muitas vezes, e se um dia me casar não vou querer ter filhos.

—E como faríamos para isso não acontecer? — Disse Julián num impulso, aproveitando o assunto.

—Faríamos?

—Sim...Se nos casássemos terias que me dizer como faríamos para que não tivéssemos filhos. Eu tenho algumas ideias, mas queria saber as tuas...

—Julián, esta é a segunda vez que nos vimos!!! Como podes falar em casamento?? Mal nos conhecemos!!! E nunca falei sobre essas questões a não ser com minha avó!!

—Eu te entendo, me desculpa a pergunta intempestiva. Mas não precisa ser para amanhã, nem para o mês que vem.... Eu poderia esperar...um pouco..., mas não muito, um ano, pensas que estaria bem para nos conhecermos melhor? —perguntou Julián encorajado.

—Não sei, me pegaste de surpresa...na verdade, desde que fostes atrás de mim no farol naquela noite e durante esses seis meses pensei muito em ti, mas não te conheço...precisamos nos conhecer melhor...Além do mais não estou atrás de marido como quer minha avó e a maioria das amigas de minha idade.

—Concordo que mal nos conhecemos, podemos esperar e te prometo vir aqui te ver uma vez por semana a partir de agora. Falo com teu avô essa noite mesmo, se me permitires. Eu nunca mais te esqueci esse tempo todo desde que te vi entrar naquela taberna. — E deram-se as mãos devagar e ensaiaram tímidos um primeiro beijo de amor ali sentados nas pedras do cais.

—Vamos, tenho que ajudar minha avó com o jantar. Ela vai ficar contente em saber que já tenho um noivo antes de completar os dezoito...—disse Evelina sorrindo, um pouco embaraçada com a situação.

—Aceitas, então?

—Aceito um noivado primeiro, se me prometes vir sempre...Depois, veremos...

—Te prometo. Se eu pudesse me mudava a Celeiro hoje mesmo e estaríamos mais perto, mas preciso conversar com meu pai, organizar algumas coisas.

Saíram andando em direção à casa e continuaram a conversa.

—Que coisas? — Quis saber ela.

—Por exemplo, onde vamos morar, se aqui ou em Ferrol, se consigo um barco para trabalhar, como vamos viver, enfim...

—Calma, eu ainda não disse que vou casar contigo, também preciso saber se sendo tua mulher poderia embarcar como gostaria meu avô...

—Esse é um pedido um pouco raro partindo de uma noiva...

—Mas terás que considerar, se queres casar comigo...poderíamos sair para o mar juntos todas as manhãs...

—E quem se ocuparia da casa?

—Ora, nós dois...!! Lembre-se que não haverá crianças...

—Não sei, isso me soa um pouco estranho...Teremos que falar sobre isso mais detalhadamente.

—Pois se vieres todas as semanas como estás dizendo, teremos muito tempo para conversar...

—Não me crês, não?

—Ainda não...

—E o beijo de agora há pouco? Quero dizer.... Gostaste? —quis saber Julián.

Ela relutou um pouco antes de responder:

—Está bem, gostei ...até mais do que deveria, mas gostei, porém, isso não quer dizer que confio em ti cem por cem...

—Pois deverias, foi meu primeiro beijo para valer também...

—Também? Como sabes que foi meu primeiro? Também não acredito que foi o teu...E o quer dizer “para valer”?

—Evelina, eu sei que foi e não minto...Quero dizer que foi um beijo de verdade. Antes eu só tinha beijado uma menina, e no rosto...E já faz muito tempo...

—Está bem...te creio. — E estacou na frente da porta de casa, sem palavras para definir o que estava sentindo e impetuosamente deu um beijo rápido em Julián despedindo-se:

—Nos vemos à noite...tenho que ajudar minha avó para a janta de logo mais...

—Nos vemos...—ele disse entre surpreso e contente.

Passados doze meses Evelina e Julián se casaram na Igreja de São Francisco em Viveiro numa cerimônia simples para uns poucos convidados da vizinhança e os parentes de Ferrol. O avô, depois de muitos copos de vinho durante a festa no pátio da casa chorou na despedida da neta, mesmo ela indo morar com o marido a poucas quadras dali. A avó foi voto vencido no quesito moradia.

Era uma casa simples recebida de presente pelo pai de Julián junto com o barco que ele passaria a trabalhar desde ali da Ría de Viveiro. Havia que fazer muitos reparos, mas eles estavam felizes por começarem uma vida juntos. Durante aqueles meses, eles puderam se conhecer melhor e Julián cumpriu com a palavra visitando Evelina todos os domingos.

Ele chegava sempre depois da missa das nove que ela ia junto com a avó, depois corria até o cais para esperá-lo. Um que outro domingo, se fazia mau tempo ele não aparecia, mas ela sabia o motivo e ficava rezando para que ele não tivesse embarcado antes das tempestades e estivesse em casa. Mesmo assim, na segunda-feira, ele mandava um recado ou uma carta por alguma embarcação informando como havia sido seu dia e perguntando por ela.

Num desses domingos quando estavam prestes a casar-se foram organizar a pequena casa que iam morar. Ficava numa ladeira íngreme do povoado e tinha apenas quatro cômodos, sala, cozinha e um quarto de banho na parte de baixo e o quarto de dormir na parte de cima. Havia um pátio interno atrás com jardim onde eles pretendiam plantar uma horta e flores.

Subiram ao quarto deles para guardar a roupa de cama junto a todo o enxoval de Evelina e ali entre carícias inadiáveis e toques há muito cobiçados por ambos, anteciparam entre nervosos e excitados sua lua-de-mel. Depois, Julián receoso do resultado daquele ato impensado, perguntou:

—Me deixaste seguir...Não há perigo de uma gravidez?

—Eu acho que não, porque estava com as regras até dois dias atrás e minha avó já me ensinou sobre algumas ervas que posso usar e nós já falamos sobre alguns métodos para evitar filhos. Não te preocupes. Gostei muito...E tu?

—Gostaste? Eu, claro...Gostei muito. Seremos muito felizes, tenho certeza...Te amo!

—Eu também te amo e melhor voltarmos à casa... e por favor disfarce esse seu sorriso quando chegar, minha avó pode perceber...

—E tu também...—repetiu Julián divertindo-se. Mas se ela perceber o que poderá fazer? Mais duas semanas e estaremos casados.

Assim Evelina e Julián começaram uma vida em comum naquele setembro de 1939. Julián cumpriu a promessa de levá-la consigo a navegar em alguns dias da semana e ela pôde aprender muito mais as artes da pesca e da navegação com seu marido, além de poderem estar mais tempo juntos. A convivência no trabalho e em casa proporcionou a ambos uma forma de relacionamento ímpar para aquela época cujo patriarcado, a religiosidade e a submissão da mulher eram a base daquela sociedade.  As pessoas estranhavam a atitude de Julián, pensavam que ele somente estava acatando um capricho passageiro da esposa e que ela logo se veria obrigada a abandonar quando viesse o primeiro filho.

Porém a decisão de não ter filhos era acordo tácito entre eles. Evelina tinha medo de engravidar e morrer deixando um filho sem mãe como ela. A avó temia o mesmo fim da neta, pensando que poderia ser alguma falha hereditária da família dela cujas tias também haviam morrido de parto. Julián em suas viagens fora do continente havia aprendido alguns truques de como as mulheres evitavam filhos naquela época, assim como a avó de Evelina tinha seus conhecimentos sobre plantas abortivas ou anticonceptivas: os brotos de acácia como espermicida natural, esponjas embebidas em vinagre, salmoura, suco de limão ou cera de abelhas. Tudo isso era oficialmente reprovado pela Igreja Católica que consentia o sexo—ao menos como dogma— somente como finalidade reprodutiva. Entretanto, mulheres como a avó de Evelina, mesmo religiosas, já praticavam seus conhecimentos, visando a evitar gravidezes simultâneas, mortes maternas decorrentes do parto e os altos índices de mortalidade infantil daquela época.

Evelina pensava, às vezes, que tinha tido muita sorte de encontrar um marido como Julián, já que mesmo não simpatizando à princípio com aquele destino feminino, apaixonou-se e nutria por ele além do amor romântico, uma amizade, um sentimento além do encontro físico entre homem e mulher. Era um encontro de almas. Eles tinham um convívio fácil e alegre, um cuidando do outro, não havia ciúmes, nem as costumeiras brigas que cresceu assistindo entre os avós.

A vida seguiu tranquila para o jovem casal, a guerra acabou e um dia o pai de Evelina apareceu de volta ao povoado com uma família, mulher e um menino de dois anos, empobrecidos, famintos e exaustos da viagem. Vinham da Catalunha e buscavam trabalho e acolhimento. Os avós acolheram com emoção e sem reservas o filho, pois já o consideravam morto. Temiam somente que ele estivesse sendo perseguido pelo governo, então trataram de não alardear muito a volta dele, o que se fazia um tanto impossível numa aldeia tão pequena. Porém, houve solidariedade entre os vizinhos que também trataram de ocultar dos desconhecidos a identidade daquela nova família que chegara de longe.

Antônio, Maria e o pequeno Victor foram instalados no antigo quarto de Evelina e o avô passou a dividir o trabalho e o barco com o filho, enquanto a nora passou a ajudar a sogra com os afazeres e o marisqueo. Antonio com o incentivo de Maria e dos pais tratou de reconciliar-se com a filha, provando que gostaria que o passado ausente ficasse para trás. Estava definitivamente vivendo outra vida e os acontecimentos de quase vinte anos estavam superados. Era mais feliz e a amargura de perder a primeira esposa havia sido substituída por uma singela saudade que estava personificada em Evelina, fisicamente igual à mãe.

O inverno de 42 foi particularmente frio, mais chuvoso, com mais borrascas no mar e os ventos atingiram fortemente aquela região litorânea galega. Os marinheiros já estavam dias sem sair ao mar, esperando que o tempo amainasse, porém, as semanas se alongavam e as borrascas não davam trégua. Foi numa madrugada de janeiro, Julián resolveu que deveria sair a trabalhar e reuniu outros companheiros em um mesmo barco para dividirem a pesca. Evelina ficou apreensiva com a decisão dele, mas já eram muitos dias parados e o mercado precisava ser abastecido, assim como eles precisavam de dinheiro. Em outros barcos sairiam também seu avô, seu pai e outros vizinhos todos para alto mar e fora da ría.

Antes de sair, Evelina pediu a Julián:

—Me leva contigo, assim não estarei aqui aflita te esperando...Eu conheço a situação.

—Nem pensar, fica em casa tranquila...sairemos somente até o final da ría. Não te preocupa, logo estaremos de volta. Sabes que tanto eu quanto teu avô já enfrentamos tempo ruim. — Beijou a mulher e foi descendo as escadas.

—Julián!! —chamou Evelina correndo atrás dele. —Te cuida, por favor! E beijou-lhe mais longamente.

—Fica tranquila, meu amor...Eu volto...

Julián e seus companheiros eram experientes e sabiam manejar os barcos nas tempestades, porém naquela madrugada, subitamente ventos muito fortes entraram pela ría formando altas ondas e muito movimento dos barcos. As embarcações foram surpreendidas por um temporal ainda mais violento que os dos últimos dias e dos sete barcos que estavam na zona, três foram atingidos brutalmente e afundaram com seus tripulantes. Entre eles estava o barco de Julián e seus companheiros. Naquele momento, cada embarcação fazia o que podia para safar-se, no entanto, Antonio viu quando o barco de Julián foi atingido e ele sumiu no mar. Os barcos estavam perto um do outro e ele pensou em saltar e retirar Julián das águas, mas seu pai o impediu, deu a entender que deveriam tratar de sair do meio daquele redemoinho que sugava tudo para o fundo do mar.

Assim, o barco de Julián e todos seus tripulantes desapareceram no meio das águas. O corpo dele foi encontrado somente uma semana depois entre as rochas de uma praia da ría de Viveiro. Evelina manteve esperanças de que o mar o devolveria vivo em alguma praia, ele era ótimo nadador e poderia ter sobrevivido ao naufrágio. Não podia crer que havia perdido o marido, o amor que tinha, um amor que nem sabia que existia até tê-lo vivido intensamente com Julián. Desesperou-se quando o corpo foi entregue à família e juntou-se aos sogros e cunhados naquele sofrimento indefinível.

Dois meses depois, Evelina estava morando com a família de Julián em Ferrol. Tinha a saúde debilitada pela perda e pela dor que sentia, quando percebeu que estava grávida e teve uma confusão de sentimentos. Se por um lado ficava feliz sabendo que carregava um filho de Julián, por outro tinha medo de deixar a criança sem mãe no momento do parto e outra pessoa passaria a criá-la, provavelmente a sogra. Passou a gravidez entre temerosa e o alento de que se morresse e houvesse vida eterna espiritual como propagava a religião da avó, sua morte serviria para encontrar-se novamente com Julián.

Por fim, sete meses depois nascia o pequeno Jose, que embora com todos os cuidados despendidos pela família no momento do parto, com a assistência de um médico e de uma parteira experiente, Evelina teve o mesmo fim das mulheres de sua família. Faleceu dois dias depois de febre puerperal, nem bem tinha completado vinte anos de idade.

Quando ela recuperou a lucidez depois das febres e seu espírito se energizava, viu seu filho no berço aos cuidados de sua sogra e avó chorosas, mas sentiu-se feliz e em paz, seu menino estaria bem cuidado como ela foi. Logo a seguir pressentiu o chamado de Julián vindo da Lanterna dos Afogados e foi para lá que ela correu.


1. O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë, clássico da literatura inglesa.

 

 

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

A anti-vida



A ciência já descobriu ao longo dos séculos a cura para as mais diversas enfermidades que afetam os seres humanos. Algumas até já foram erradicadas, outras não atingem mais a ninguém. Outras doenças mais simples, curáveis ou algumas  doenças crônicas ainda persistem pelas desigualdades sociais e econômicas entre regiões, países e continentes, como a desnutrição e a falta de segurança alimentar, ou por hábitos nocivos à saúde e estilos de vida ou ainda pelo stress nosso de cada dia. E aqui cabe citar a ansiedade e a depressão como males do século que estão muito bem medicalizados, digo por ironia, assim como o diabetes e as doenças do coração. Existem também uma infinidade de enfermidades raras e congênitas por desordens genéticas ou hereditárias cuja ciência também se ocupa com zelo e muitas têm tratamento eficaz que, se não cura, prolonga a vida das pessoas com qualidade. Outras nem tanto. 

A medicina baseada em evidências, a farmacologia, a bioquímica, a biotecnologia e os exames de imagem evoluíram num ritmo acelerado. Porém, na contramão da história, há que lembrar que algumas doenças infecciosas, as chamadas doenças da infância vêm ressurgindo por conta dos movimentos antivacina impulsionados pelo negacionismo e pelos negacionistas da ciência que, antes tímidos, se revelaram sem pudor, sem constrangimentos e com o mais vergonhoso orgulho em 2021, justamente em meio à pandemia da Covid-19 que está ainda longe de acabar.

Todavia o câncer, que pode acometer qualquer ser humano, há séculos vem abreviando vidas de todas as idades, de todas as cores e pelo mundo afora. Esta praga parece desafiar a ciência e o sonho humano da imortalidade ou da longevidade saudável. É uma doença complexa, subjetiva, grave e peculiar a cada indivíduo. Com altos índices de mortalidade, dependendo da localização primária, segue cercada de enigmas. O diagnóstico de um tumor maligno em qualquer parte do corpo trás de súbito uma sentença de morte certa e iminente não fosse a capacidade do ser humano agarrar-se fortemente à vida e acreditar que todo o sofrimento do tratamento— duríssimo em sua maioria—pode dar certo. Talvez a esperança seja a mola que estica a vida, mas muitas vezes essa vida já perdeu a qualidade, suprimindo um ou mais dos sentidos humanos por conta do próprio tratamento. Em outras o sofrimento é tamanho que a pessoa afetada se dispõe a participar de ensaios clínicos e clama por medicamentos que ainda nem foram testados em seres humanos tamanha é sua vontade de viver.

Há tempos venho me acumulando de perguntas e obtendo pouquíssimas e vagas respostas depois de conviver três anos testemunhando o desenrolar da doença, do tratamento, da vacilação e das informações desencontradas da equipe médica e, por fim do falecimento de meu companheiro. Depois de quase três anos desde o diagnóstico, ele foi abandonado pela Oncologia pela mais absoluta falta de protocolos clínicos que pudessem ser utilizados, passando então para Cuidados Paliativos. Em suma, não havia mais possibilidade de cura.

E as perguntas se avolumaram ainda mais. De onde vem, por quê e quando começa a desenvolver-se um tumor maligno? Por que as drogas usadas ainda não são capazes de curar todos os tipos de câncer, somente abreviam a morte ou dão relativa sobrevida? Mais recentemente, lendo o livro O imperador de todos os males, uma biografia do câncer do médico indo-americano Siddartha Mukherjee do qual separei algumas notas, me municiei de algumas pequenas pistas que podem trazer algumas respostas, porém nada alentadoras para os futuros doentes e seus familiares.

"A linguagem do câncer é gramatical, metódica e até mesmo— hesito em escrever isto—bonita. Genes falam com genes e trajetórias com trajetórias, no tom de voz perfeito, produzindo uma música conhecida, embora estranha, que se acelera cada vez mais para formar um ritmo letal." 

Aqui entendo que as células cancerígenas parecem perseguir uma perfeição maior que a natureza, como que esse defeito oncológico quisesse competir com a biologia molecular e citológica dos organismos saudáveis e travasse uma luta por um espaço naquele corpo humano. 

"A maioria das células normais, mesmo as que crescem rapidamente, prolifera ao longo de várias gerações e exaure sua capacidade de continuar dividindo-se. O que permite que uma célula cancerosa continue se dividindo interminavelmente sem exaurir, sem esgotar, geração após geração?"(celular)

Essa é uma pergunta que os cientistas ainda não sabem responder. Aparentemente as células cancerosas buscam uma sobrevida numa velocidade maior que as normais tentando permanecer, sobrepujar-se, tomar conta daquele organismo. No entanto, essa é uma decisão, a meu ver, pouco inteligente, porque elas levarão aquele corpo à falência e junto com ele  sucumbirão as mesmas células anormais que correram em sua busca vital. Salvo estejam em busca de uma mutação que lhes resista, mas que ao final podem transformar a espécie humana numa aberração fisiológica e/ou anatômica.

"...no câncer, onde não há cura simples, universal ou definitiva à vista— e é improvável que algum dia haja—o passado conversa constantemente com o futuro."

Muito ouve-se falar que não interessa economicamente à indústria a cura do câncer. As empresas farmacêuticas giram milhões e milhões de dólares com as doenças crônicas, com os tratamentos paliativos e o uso de drogas quimioterápicas, mas não creio que o entrave da cura do câncer seja este. Quando o vírus da AIDS assolou os Estados Unidos na década de 80, a comunidade gay e suas famílias—os primeiros afetados pela doença— impuseram fortemente aos governos o financiamento para a pesquisa daquele vírus desconhecido, de uma vacina ou de um medicamento. Em pouco menos de dez anos—muito tempo, na realidade— embora não haja ainda uma vacina, os pacientes começaram a receber o coquetel com os antirretrovirais e eles passaram a conviver saudavelmente com o vírus e a contaminação diminuiu drasticamente com as medidas educativas de sexo seguro etc. Desde o começo do século XX e final do XIX o apelo da classe científica, dos doentes e suas famílias foi igualmente forte em busca de vontade política para a pesquisa e financiamento para o tratamento do câncer. O livro conta a saga de verdadeiros mecenas leigos, cientistas e lobistas políticos que dedicaram uma vida em busca de tratamentos e medicamentos. Uns inclusive morreram de câncer como o caso emblemático de Marie Curie em 1934 expondo-se exageradamente à radiação em seus estudos da radioatividade. 

Quem vem vencendo batalhas e mais batalhas é a doença, por vezes escamoteando-se em frágeis triunfos comemorados pelos doentes, mas voltando a recidivar potentemente tempos depois, aniquilando vidas, abreviando sonhos e afligindo famílias inteiras. Não raro quando morre alguém famoso o título da matéria é sempre "lutava contra um câncer desde.." Infelizmente, uma luta inglória. Obviamente o assunto não se esgota aqui e concluo, por ora, que a morte não é uma antivida. A antivida é o câncer.


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Me conta algo bom




Me conta alguma história, algo bom...— J. me pediu por escrito recostado no sofá da sala, num dia de costumeira letargia provocada pela sua condição de saúde, ainda assim com relativo conforto físico. Enquanto sua comida—um líquido amarelo e espesso— saía de uma garrafinha de plástico adaptada a um cabideiro da casa e fluía por um tubo que ia direto ao seu estômago, sentei bem perto dele. Com um tom de voz um pouco mais alto e compassado para que ele me ouvisse bem, eu comecei.

Contei a história de um casal cujo encontro era tido como totalmente impossível. Porém, à medida que foram se conhecendo, a princípio por um aplicativo de idiomas depois por mensagens instantâneas e correios eletrônicos descobriram que eram como poucos para se entender e que valeria a pena um projeto de acercamento. O segredo desse entendimento era dizer tudo e transparecer. Nada a esconder, dourar, disfarçar ou dissimular fosse o que fosse: o clima chuvoso da terra dele, o inverno rigoroso europeu, o dinheiro escasso, a barreira dos idiomas, os preconceitos a respeito de costumes e cultura mútuos e receios normais de quem nunca havia saído de seu continente. Inclusive um temor fantasioso e hilário se o ar seria respirável nos seus respectivos hemisférios, tudo isso foi considerado e relatado um para o outro.

Haviam nascido com uma diferença de apenas três meses e cresceram separados pelo Oceano Atlântico, mais de oito mil quilômetros, vivenciando fatos pessoais e coletivos mais ou menos semelhantes, crescendo sob ditaduras e em famílias amorosas de classe trabalhadora. Estudos, casamentos, filhos, trabalhos e desejos de acumulação de pequenos patrimônios foram eventos comuns de suas vidas, nada extraordinário para aquela geração de baby boomers, nascidos no final da década de 1950.

Um dia, depois de muitos planos, ideias, esquemas e conjecturas—inclusive após uma incrível e objetiva análise de risco que um deles realizou utilizando seus conhecimentos técnicos— esse encontro fez-se possível. Aí começou a maior aventura romântica de suas vidas. Eles nunca tinham vivido semelhante atmosfera de romance até então, um verdadeiro idílio, mesmo os dois já tendo passado dos cinquenta anos.

Os sonhos e anseios de toda uma vida permaneciam latentes nos lugares mais recônditos de suas almas, uns por impossibilidades variadas, outros por impositivos alheios, muitos por simples renúncia. Ao serem revelados, descobriram uns tantos em comum e o compromisso recíproco de serem resgatados passou a ser um projeto de vida único. Havia um mundo a ser criado um para o outro cheio de oportunidades, uma felicidade factível pronta para ser perseguida. Era a última chance que tinham para aprender, ao fim e ao cabo, o que significa amar e ser amado. Quando se aprende a amar, o mundo passa a ser seu, já dizia Legião Urbana.

E contei a J. todos os lugares por onde passaram aqueles dois aventureiros desde os aeroportos em que aterrissaram ou decolaram, os lugares que mostraram um ao outro e os que desbravaram juntos. Eles alcançaram bons pedaços de mundo, foram muitos quilômetros percorridos a pé, de carro, barco, trem, ônibus e avião com as músicas dos anos 70 e 80 em sua maioria soando nos ouvidos de ambos como dois adolescentes.

À menção de cada lugar ou cada situação J. sorria, um sorriso que tinha ficado difícil de esboçar pelo seu permanente estado de abatimento e pela musculatura da face —não sei se mais afetada pela enfermidade ou pela radiação. Ele também não podia falar, pois o tratamento tinha atingido suas cordas vocais. Porém, ele sorria com o coração a cada detalhe narrado da história— aquele café na Plaza Mayor de Salamanca, a longa espera na fila debaixo de sol para subir na Torre Eiffel e a corrida para conseguir alcançar um barco que saía para Greenwich Park pelo Rio Tâmisa, ouvindo o barqueiro gritar alto: Hurry up! The boat is leaving! —Depressa, o barco está partindo!

Houve uma vez que eles caçoaram de um grupo de turistas asiáticos com a boca coberta por máscaras higiênicas, andando disciplinadamente enfileirados, comandados por um guia, subindo uma ladeira estreita de uma ruazinha de Toledo—de máscara, mesmo quando uma pandemia ainda era inimaginável para o mundo. Quão sábio é aquele povo! Concluímos naquela hora em que estávamos vivendo o confinamento imposto pela emergência sanitária.

Relatei as visitas deles ao Brasil nos finais de ano, sempre enriquecedoras para ele—o estrangeiro— tanto no aprendizado da língua, quanto dos costumes, derrubando vários estereótipos brasileiros que ainda perduram pelo mundo, mesmo com o advento da internet e do fenômeno da globalização. 

E houve o dia do auge do encantamento quando os dois visitaram Veneza e cruzaram os canais num vaporeto—principal meio de transporte da cidade. Concordaram que os passeios nas tradicionais gôndolas tinham preços exorbitantes. Mesmo assim, não se incomodaram de pagar cinco euros por um simples café pertinho da Praça São Marcos, comer com a mão pedaços de pizza na hora do almoço ou arriscar derrubar o sorvete, enquanto eles se espremiam com os demais turistas para atravessar a Ponte di Rialto.

Contei-lhe também dos muitos sábados ensolarados e despreocupados que eles iam à feira livre em Vilanova de Cerveira, um pequeno município de Portugal na fronteira com a Espanha. Ali ela remexia em pilhas de casacos ou suéteres de frio pela bagatela de dez euros a peça, enquanto ele esperava pacientemente. Depois compravam verduras e frutas orgânicas, para finalmente terminar o passeio tomando café com pastel de nata na pastelaria Velha Rosa.

Os encontros divertidos com os amigos brasileiros, os cafés com os amigos de infância de J. no pequeno povoado espanhol em que viviam e se encontravam aos finais de semana também tiveram que ser mencionados. Veio também a lembrança da pizza Olívia do Bar Farol— com rúcula, tomate cherry, queijo de cabra e nozes, a preferida dela. A dele era sempre acompanhada por uma generosa porção de batatas fritas, mistura um pouco rara para os padrões brasileiros.

Contei também sobre as longas caminhadas pela praia de Sanxenxo e dos incontáveis pores de sol na Lanzada, maior praia de mar aberto da região. Relatei também as vezes em que eles davam de comer às gaivotas que insistiam em aparecer depois dos almoços de verão na sacada do apartamento. E sobre a vista das luzes da cidade de Marin refletidas no mar, enfeitando as noites e o horizonte de seu pequeno povoado. Antes de fechar as persianas do quarto era a última imagem antes de dormir, o mais belo e simples cenário.

Foi quando finalizei a história contando de um beijo durante o trajeto no teleférico da cidade do Porto registrado em uma foto que está bem guardada que ele, enquanto tentava sorrir, deixou escorrer uma lágrima. Pedi que ele relevasse aquele detalhe que pareceu lhe trouxera muita emoção e certo desassossego. Afinal ele havia pedido uma boa história. E a história que eu tinha para contar era essa, real, encantadora e inesquecível. 

O mundo nos esperou até que J. não pode mais ficar nele. Ele foi embora deixando ao mesmo tempo uma vastidão de memórias e um imenso vazio de histórias interrompidas ou quiçá adiadas.


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Sonhos interrompidos

Foto: Arquivo Pessoal, Praia das Catedrais, Espanha

Eu nunca tinha tido curiosidade de visitar as Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul. Por muita insistência de J. passamos um final de semana em São Miguel das Missões no verão brasileiro de 2020, quando a pandemia já se avizinhava na longínqua Wuhan na China. Ele tinha toda a razão de querer conhecer, constatei depois de assistirmos a representação da história da Missão que é exibida ao ar livre todas as noites em frente às ruínas. É emocionante e o lugar é muito bonito. Ficamos surpreendidos.

Outra vez, creio que na segunda que ele veio ao Brasil, me propôs uma viagem de carro desde Santa Maria até Foz do Iguaçu para visitar as cataratas. Mostrei-lhe o trajeto inteiro no Google Maps, disse-lhe que desconhecia totalmente a região e as condições das rodovias e ele nunca mais falou em viajar por terra até ali, embora a vontade de conhecer persistiu. Foi quando ele teve a percepção do gigantismo e das proporções continentais do Brasil.

J. só conhecia São Paulo e Rio de algumas vezes em que precisou trocar de aeroporto nas suas inúmeras chegadas e partidas do Brasil, mas tínhamos planos de visitar da mesma forma que ele tinha curiosidade por conhecer Salvador onde há uma comunidade imensa de galegos que emigraram da Espanha para ali décadas atrás.

Ele ficou encantado por Florianópolis e pelo litoral de Santa Catarina, principalmente por suas praias de águas quentes que usufruía como se fosse criança. Entrava na água e não queria mais sair. Acho que seria um dos únicos lugares que poderia adaptar-se, por se acaso um dia viéssemos morar no Brasil como planejávamos.

Fomos uma única vez a Londres, Paris e à região de Vêneto na Itália onde nos hospedamos em Pádua e Veneza; viajamos muitas vezes à Lisboa e região e muitas mais à Madrid e às comunidades espanholas, Astúrias, Andaluzia e Castilla y León. Posso dizer que percorremos juntos meia Espanha e meio Portugal, além de esquadrinhar todas as províncias galegas desde Pontevedra, Coruña, Lugo e Ourense. Num longínquo final de tarde em Finisterra, choramos junto com dezenas de turistas vendo o pôr-do-sol e ouvindo o tema de A Missão —Gabriel' s Oboé de Enio Morricone—que alguém colocou para tocar no celular.

Num verão eu sugeri ir para as Ilhas Baleares, Palma de Mallorca, mas estava demasiado caro e acabamos indo para Nazaré em Portugal, ou seria Ofir, Espinho ou Póvoa de Varzim? Já me confundo com muitos verões e primaveras que saíamos de passeio. Demais de lindo qualquer uma delas, porém as praias portuguesas são de água muito fria—quase tão frias como as da Galícia— com imensas faixas de areia, mar aberto e muito vento principalmente à noite.

Nessa estadia em Nazaré, um dia quase pegamos um barco desde Peniche— distrito de Leiria— até as Ilhas Berlengas. Felizmente(ufa!) já tinha saído o último daquele dia. Tinha ouvido dizer que o trajeto até as Ilhas pode ser perigoso e terrificante por causa das ondas altas na região, mas um ex-marinheiro como ele não se intimidava com esse tipo de aviso. Acho que ele sabia bem como era e eu teria ido, mesmo apavorada. Parece que a paisagem do destino compensa o enjoo marítimo e o trajeto assustador.

Assim como eu queria mostrar a ele como era bonito passear por Buenos Aires e Montevideo que eu já conhecia, ele queria me mostrar o quanto era divertido viajar em um navio de cruzeiro pelo Mar Mediterrâneo. Pensar em passar dias e noites no meio do mar, confesso me inquietava um pouco e adiava esse passeio, mas havia me comprometido a fazermos depois que passasse a pandemia, quando tudo prometia voltar à normalidade. Naquele tempo, independente da pandemia, uma esperança imensurável nos acompanhava cada dia. 

Tínhamos uma listinha de lugares para visitar onde constava, sem ordem de prioridade, Havana, Biarritz, Nova York, Amsterdam, Saint Michel na Normandia, Nápoles e Dublin. A prioridade era a capacidade econômica, obviamente, aproveitando ofertas ou pacotes de viagens de baixa temporada. Nunca fomos mochileiros, não gostávamos de pousadas com banheiros compartilhados, por exemplo, tampouco éramos hóspedes cinco estrelas. Buscávamos sempre por voos e alojamentos confortáveis, porém mais baratos. E antes da pandemia isso era totalmente possível. 

Por fim, veio o câncer, "o imperador de todos os males", essa epidemia silenciosa, renunciante, traiçoeira e devastadora. Esse crescimento maligno microscópico e  macroscópico de células anormais e disformes apoderou-se de todos os nossos sonhos, interrompeu nossa caminhada, rompeu nossos corações e nossas esperanças e acabou consumindo com a vida de J. 

Esse gigante invisível, insidioso, que se escamoteia por detrás de tratamentos infrutíferos e malogrados goza do poder de ser ainda maior que esse mundo todo que tanto percorremos e ainda nos faltou percorrer. O destino tem duas caras, por vezes é aprazível, clemente e bondoso e outras impiedoso, cruel e atroz. Assim é a vida, porém em sua memória estou tentando ainda ter fé como dizia Gonzaguinha em Sementes do Amanhã. A voz do menino J. ecoa no meu ouvido cada vez que me deprimo e penso em desistir.



Insônia