segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Vexames recreativos

O Brasil é um lugar inigualável para bizarrices na política, embora na vida em sociedade também não lhe escape fatos anômalos, que em outros países seriam tratados com muito mais seriedade.

O fato de políticos serem flagrados pela polícia escondendo dinheiro debaixo das roupas ou em malas dentro de apartamentos vazios não é novidade. Os criminosos de gravata conseguem façanhas insuperáveis em montante e criatividade se comparados com ladrões comuns que são rapidamente encarcerados em flagrante delito e assim mantidos povoando as prisões.

Um faminto roubando comida num supermercado, um usuário de drogas assaltando pedestres, ladrões de bancos ou veículos parece que provocam mais revolta na opinião pública do que os atos criminosos dos senhores de Brasília ou de quaisquer outros cargos eletivos, protegidos, para o bem da democracia—mas valendo-se da malversação— pela imunidade que lhes confere o artigo 53 da Constituição Federal.

Além da imunidade esses distintos senhores que, entre outras qualidades se intitulam patriotas e cristãos—mesmo portando dinheiro público em espécie e de finalidade questionável— aproveitam-se do espírito jocoso, bem-humorado, abstraído da realidade e da memória curta dos brasileiros calejados de tanta impostura e assaltos aos cofres públicos.

Assim, por breve tempo, o senador com dinheiro nas partes íntimas é alvo de piadas, memes, vídeos, mensagens instantâneas que infestam as redes sociais e os veículos de comunicação de divertimento e perda de tempo, sem que haja uma linha de desprezo e repúdio por parte de seus pares ou da instituição da qual faz parte. Sequer há um pedido de afastamento e de aclaração do assunto por parte do próprio senador perante, ao menos, aos eleitores de seu Estado. 

A bem da verdade é bem difícil explicar tanto dinheiro em espécie fazendo volume entre as nádegas do distinto senhor. Fosse uma mulher teria a opção do sutiã, local mais digno onde pequenas notas podem ser camufladas. Mas não era uma mulher, tampouco eram poucos reais. Num país sério, honradez e retidão de caráter seria o mínimo exigido de um homem público e é intolerável para os racionais tamanha falta de decoro e descaramento. No entanto, o sistema político brasileiro banaliza os fatos, abraça o corporativismo, não age com presteza e rigor e persiste dando margem para que o povo associe sempre política com vigarice.

Vivemos num país escaldado pelas rudezas, pela sordidez e o cinismo de homens públicos, escolhidos pelo povo, muitas vezes de maneira desvirtuada e irresponsável, segundo interesses de uma minoria e fora do interesse coletivo. O dito senador talvez seja afastado num processo moroso e dissimulado, mas seguramente voltará ao parlamento ou será convidado para exercer outro cargo público. Precisamos aprender a votar? Sim, é preciso aprender, mas antes de tudo, há lições mais importantes a serem aprendidas pelos parlamentares e instituições. Eles devem respeito às leis, aos eleitores, ao patrimônio público que deve continuar público e à população que tem o direito de não ser eternamente expoliada e enganada. Parece simples e elementar, mas essa é a utopia brasileira.

“Não podemos enxergar essas ações como aceitáveis. Precisamos continuar no esforço de desnaturalização das coisas erradas no Brasil.” (Ministro Luis Roberto Barroso - STF)




quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A janela de Maria Antonieta

Janela dos aposentos de Maria Antonieta, Palácio de Versalhes
Arquivo Pessoal

Foi em 2006 meu primeiro contato com a personagem Maria Antonieta, a rainha consorte da França através do filme de mesmo nome estrelado pela atriz Kristen Durst. Última rainha da França, condenada à morte por decapitação aos 37 anos em 1793— seu marido Luis XVI obteve a mesma pena. Suas prisões, julgamentos sumários e assassinatos representam um dos capítulos mais importantes da história da humanidade, a Revolução Francesa.

Maria Antonieta, na biografia escrita por Stefan Zweig, é retratada à princípio como uma menina assustada, de poucas letras, apegada à família, obediente e consciente de seus deveres protocolares. Sua mãe Maria Teresa da Áustria ao ficar viúva precisou engendrar vários planos de manutenção de poder e territórios costurando o matrimônio político de sua filha mais nova com o príncipe consorte francês Luis, futuro Luis XVI, um jovem pouco mais velho que ela, neto de Luis XV. Antonieta foi contemporânea de Mozart e a história conta sobre um encontro deles no palácio em Viena, quando ainda eram crianças e o músico ainda pequeno já começava a dar concertos. Depois de adulta e já como rainha da França permaneceu inculta, avessa à leitura, ao estudo, despolitizada e apaixonada por festas e banquetes. Foi muito criticada pelos franceses por suas frivolidades e caráter perdulário. 

Antonieta estava com 15 anos quando se despediu da Áustria, do palácio onde havia nascido e crescido, da mãe e dos familiares para nunca mais voltar. Uma suntuosa caravana da monarquia austríaca com mais de cem pessoas a deixou nos limites entre os dois impérios, próximo a Estrasburgo onde ali esperava o séquito francês também numeroso e imponente.

Nesse ato de entrega a menina teve que despir-se de toda sua vestimenta, deixar todos os pertences austríacos e vestir-se com roupas francesas, numa cerimônia que estabelecia uma renúncia total ao seu país, inclusive ao idioma alemão e declarar obediência e fidelidade à corte de seu futuro marido. Não por acaso, naquela época de casamentos puramente por interesse, Maria Antonieta seria a tia-avó da também austríaca e que se tornou a princesa brasileira Dona Leopoldina, cuja biografia desvenda um dos personagens mais marcantes da história do Brasil. Ao contrário da tia, Leopoldina foi uma mulher culta, estudiosa, uma pessoa generosa, querida pelo povo e por vezes bastante ativa politicamente na corte brasileira. 

Em 2015 visitei o Palácio de Versalhes em Paris e durante a passagem por alguns das centenas de cômodos— impossível ver tudo num só dia—me pus a imaginar Antonieta vivendo ali, tendo seus filhos, num convívio nem tão difícil com o marido que era sua antítese—um homem retratado como um tanto débil, muito tímido e alienado—e com os todos os rigores e hipocrisias sociais,  familiares e palacianas. Talvez fosse injusto acusar de frívola uma mulher que apenas estava tentando viver, já que não teve direito a muitas escolhas na vida.

Imaginei as extravagantes e pródigas festas da monarquia, as decisões políticas tomadas ali frente à organização social da época, o trabalho exaustivo e pouco valorizado de toda a criadagem para alimentar e manter além da família real, a nobreza francesa, seres totalmente parasitas do Estado. Não por acaso, contrastando com a miséria do povo essa vida de iniquidades, ambições, esbanjamentos e ostentações culminaram numa revolução popular, inaugurando a Idade Contemporânea em 1789.

No entanto, simpatizei com a jovem Antonieta. Viver naquele mundo fechado representava a única vida que ela conhecia— limitada por muros e jardins palacianos, dentro da rigidez da época, com muito controle de tutores, da Igreja, sobretudo por sua condição de mulher  e tendo a vida particular completamente exposta ao público. Conta-se que ela foi a primeira vez numa festa no centro de Paris fugida da vigilância—junto com o marido—muitos anos depois de chegar a Versalhes.

Em sua biografia o autor conta também que o casamento só se consumou sete anos depois por inabilidade e imaturidade do jovem marido, ademais do dormitório do casal ser extremamente frequentado durante as 24 horas do dia.  Antonieta sentia-se muito incomodada com estes costumes atrasados dos franceses. Era obrigada a deixar-se vestir e desvestir todos os dias por pessoas desconhecidas. Era comum que pessoas da nobreza passassem por ali pelas manhãs a saudar os reis, a lhes fazer mesuras, assim como na hora do almoço ou jantar eles também terem assistência. Aos nobres era uma verdadeira honraria assistir as refeições dos monarcas, numa demonstração de puro servilismo e adoração.

Enfim, eram dois jovens alienados do mundo real, emocionalmente imaturos, forjados por e para o absolutismo, pensando ser divindades com poderes supremos, assim como até hoje alguns reis acreditam ou hipocritamente creditam sua posição privilegiada a um caráter divino.

Certamente Antonieta jamais se perguntou de onde vinha tanta abundância de comida e riquezas que tinha ao alcance da mão ou de uma simples ordem aos criados. Talvez nunca tenha olhado através das janelas para saber em que condições eles trabalhavam às centenas nos jardins, nas cozinhas, nas lavanderias, nas cocheiras. Seguramente ela não sabia quantos exerciam submissos suas funções mal pagas, somente à custa de comida e teto e alguns até felizes e honrados de seu servilismo.

Com que espírito e percepção da situação Antonieta, o marido e dois filhos—outros dois já haviam falecido crianças—fugiram, quando o povo faminto marchou até Versalhes e invadiu o palácio alguns meses depois da Queda da Bastilha dando início à Revolução Francesa? O que sentiu tempos depois quando foram todos presos—inclusive as crianças? O mais jovem e herdeiro denominado pela monarquia Luiz XVII acabaria morrendo aos 10 anos na prisão depois do assassinato dos pais pelas péssimas condições do cárcere. A filha mais velha na época com 13 anos foi a única sobrevivente, porque foi acolhida pela família austríaca.

Maria Antonieta passou quase quatro anos na prisão antes da sentença final num julgamento marcado por misoginia, calúnias, humilhações e privação do direito de defesa. Como seu marido, foi condenada à morte pela guilhotina, método aplicado na França sugerido pelo  médico J. Guillotin, que segundo ele, causava menos dor aos condenados. Teve seu martírio assistido por uma multidão na Place de la Concorde em Paris no dia 16 de outubro de 1793—alvorecer do século 19. Estava com 38 anos. Certamente é uma grande história de uma das mais importantes personalidades mundiais daquele final de século.


Aposentos de Maria Antonieta, Palácio de Versalhes
Arquivo Pessoal







sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Realeza irrealista



Alguma vez você já chamou seu filho(a) ou neto(a) de príncipe ou princesa? 

Se eles nasceram no final da década de noventa ou nos dois mil, origem e apogeu da exibição social proporcionada pelas redes, certamente que sim. Essa forma de nominar crianças e jovens  popularizou com o advento das redes sociais. Meu filho nasceu em 1981 e nunca meus pais, meus amigos e amigas que tiveram filhos na mesma época chamaram os seus assim— os netos, talvez. Hoje as crianças são fotografadas mal saem da barriga da mãe e já ganham seu título de nobreza. 

Segundo o dicionário Caldas Aulete, príncipe/princesa significa filho de reis, membro de família reinante, alguém que governa um principado e no sentido figurado, alguém que é o primeiro em mérito e talento ou pessoa que está sempre bem vestida, que é gentil e educada. Ainda, que é o primeiro ou principal, que está em primeiro lugar.

Obviamente, o adjetivo ou o pronome de tratamento não cabem no Brasil que é uma República há mais de cem anos. Pelo mundo restam poucas monarquias—a maioria tenta manter muita discrição— e o rechaço por esse tipo de regime só tende a crescer. O problema está— claro —no sentido figurado da palavra. O problema é reconhecer como estão se comportando ou se comportarão esses príncipes e princesas na vida adulta. Alguns, ao que tudo indica— embora sempre bem vestidos— passam longe de gentis e educados. 

À primeira vista a crítica pode parecer exagerada para algo aparentemente singelo, como decorar o quarto das crianças com adornos pomposos ou enfeitá-las com coroas e capinhas de pele. No entanto,  é preciso estar atento à educação que esses pequenos nobres estão recebendo. Alguns podem carregar para a vida uma percepção de família e de mundo equivocadas, quando tratados por um adjetivo que os distingue dos demais, pelo dinheiro que suas famílias possuem ou por características inerentes de distinção social que acreditam ser dotados. 

Exemplifico. Muitas pessoas acreditam que brancos são melhores que negros, que os ricos são melhores que os pobres, médicos pensam que são melhores que o restante de todas as profissões de saúde, alguns empresários pensam que são melhores que seus funcionários, cristãos acreditam que são melhores que todos os que professam outras religiões, ocidentais  que são melhores que orientais, alguns homens— incrivelmente— ainda pensam que são melhores que as mulheres, etc. 

Vejo um modo tirânico de ver a vida e uma permissividade quase patológica em alguns jovens e adultos que talvez passe despercebida pelas famílias e pela sociedade. Há uma supervalorização de egos aliado a essas percepções discriminatórias, à banalização das desigualdades sociais e a intolerância com a diversidade que faz com que não avancemos nesse terceiro milênio.

Nos últimos tempos temos tido exemplos realmente aterrorizantes de jovens e adultos, brasileiros de classe média e alta que apenas se vêm nesse mundo de individualidades, egocentrismos  e aparências. Ao que parece, recusam enxergar que o mundo não é só deles, que existem os outros e outras realidades fora de seus condomínios e dos centros comerciais.

Comecemos pelas atitudes na pandemia. Já foram muitas as histórias de negação ao isolamento social, recusa a usar máscaras e a adotar medidas de proteção nos locais públicos ou de respeitar o horário de fechamento de bares e restaurantes. Presenciamos muitas reações arrogantes desses nobres jovens e adultos proclamando a sua liberdade em detrimento da saúde de todos. 

Por conta de irresponsabilidade promoveram festas clandestinas e já provocaram a segunda onda da pandemia em diversos países. Muitos deles saíram às ruas, contrariando a ciência— mesmo estudados e diplomados—reagindo aos governos, cuja obrigação de conter a propagação do vírus e proteger a população lhes custa entender. Esses príncipes e princesas podem ter sido criados tão superprotegidos que acreditam estar imunes a tudo— inclusive às leis e às regras de boa convivência.

Muitos estão acostumados a dar carteiradas identificando-se como médicos, engenheiros, advogados, amigos de autoridades e ostentando sobrenomes, exigindo o cumprimento de seus desejos que, segundo o antropólogo Roberto Damata, no livro Carnaval, Malandros e Heróis é sintoma de uma cultura que tem aversão ao igualitarismo.

Outros adotam comportamentos em público sem atentar que as mínimas regras de convivência lhes impõem limites e diferenciam atitudes privadas de públicas por uma questão de respeito ao outro. Por exemplo, em alguns países o ato de arrancar flores de um jardim é atitude muito reprovável, assim como beijar em público em países islâmicos. Cometer esse tipo de atitude nesses lugares em nome de nossa liberdade é ignorar e desrespeitar pessoas e culturas. 

Trata-se de algo simples de entender para quem enxerga os outros além de sua individualidade, mas para a nossa nobreza brasileira arcaica e inculta resulta bem difícil. Segundo a jornalista Mariliz Pereira Jorge do canal My News esse tipo de  comportamento típico de Balneário Camboriú dos anos 90 é cafona e ultrapassado. Ela deve estar com a razão em relação ao balneário, porém cafona e ultrapassado são adjetivos bastante generosos para designar certas atitudes.

Fale com seu príncipe ou sua princesa sobre isso, enquanto ainda há tempo para que se tornem homens e mulheres de verdade.







 

sábado, 12 de setembro de 2020

Coincidências em Londres




Em seis anos vivendo na Europa fui uma única vez a Londres. Era novembro de 2014, meu marido e eu saímos do aeroporto de Lavacolla em Santiago de Compostela pelas sete da noite e chegamos passava um pouco das nove horas em Stansted, aeroporto mais afastado e mais ao norte de Londres. Dali tomamos um ônibus que nos deixaria na Estação Victoria no centro, distante uns 60 quilômetros do aeroporto. O trajeto de ônibus ao chegar à cidade contornava o Rio Tâmisa e já pudemos ver o Big Ben todo iluminado. Era uma noite fria e àquela hora as ruas e o trânsito ainda estavam movimentados.

Tínhamos uma reserva num hotel em Norfolk Square perto da Estação do Metrô de Paddington. Tomamos um táxi na Estação Victoria, um carrinho preto Mini Cooper tipo Mr.Bean e passamos o endereço do hotel a um motorista impaciente e pouco simpático. Foram pouco mais de três quilômetros e pagamos uma tarifa de 14 libras—hoje quase 100 reais. O hotel ficava em frente a uma simpática praça num conjunto de prédios típicos parecidos com os do filme Um lugar chamado Notting Hill e, preparados com nosso razoável inglês para viagem, nos identificamos, dissemos de onde vínhamos e a moça da recepção, percebendo nosso acento latino, disse:

Podeis hablar en castellano, soy de Madrid. Primeira coincidência de um mundo pequeno. Ou talvez nem tanta, depois eu vim a saber que desde a crise de 2008, milhares de espanhóis de todas as idades saíram do seu país em busca de trabalho e oportunidades em outros países da União Européia.

Tivemos problemas com a fechadura da porta do quarto e a moça madrilenha nos transladou para outro provisoriamente. O cômodo era um tanto estranho. Uma peça grande no térreo com o chão mais rebaixado, sem estar no subsolo, tinha um degrau logo na entrada da porta, duas camas de solteiro, aspecto úmido e frio, mas com boa calefação, um banheiro razoável e bastante silêncio.

O café da manhã era bem escasso segundo minha experiência com hotéis brasileiros, espanhóis e portugueses onde há sempre abundância de frutas, sucos e variedades de pães. Logo na entrada era preciso esperar o atendente e fazer pedido de suco, café ou chá. Eu queria suco e café, mas parece que não era possível. Pedimos café, claro. Em cima da mesa já estava um pequeno bule com leite frio, depois serviram na mesa outro bule enorme com um café fraco e fumegante. Havia um diminuto buffet com mais raridades como rodelas de tomate, pedaços de manga e laranja e—felizmente— uns mini-croissants quentinhos. Não fosse pelos croissants teria passado fome. Quem come tomate e manga no café da manhã?

Optamos por nos locomover de ônibus pela cidade para aproveitar os double-decker vermelhos londrinos—ônibus de dois andares—onde nos púnhamos sempre na parte de cima para observar a paisagem. As primeiras horas andando no trânsito foi um pouco nauseante, creio que desequilibra o aparelho vestibular—o labirinto—por causa da direção pelo lado esquerdo e os volantes do lado direito, mas depois logo acostumas. Bem, ao menos para quem não está dirigindo.

Foram quatro dias divertidos apesar do frio e do tempo cinzento. Alguns momentos caía um garoa fina e o dia se punha a escurecer antes das cinco da tarde, então tínhamos poucas horas de claridade para os passeios. Vimos quase todos os emblemas da cidade, o Big Ben, a Abadia de Westminster, a cerimônia de troca da guarda no Palácio de Buckingham, andamos pela Oxford Street, pelo Saint James Park, tiramos fotos em Picadilly Circus—um cruzamento de ruas famosas e conhecido pelo seus cartazes luminosos. Esquadrinhamos a Oxford Square molhada pela chuva da noite, almoçamos em frente ao London Eye— uma roda gigante de 135 metros também chamada Roda do Milênio— e fizemos um passeio de barco pelo Rio Tâmisa até Greenwich Park onde está o marco zero do meridiano de mesmo nome. 

De noite jantávamos fish and chips—peixe com batatas fritas— comprados nos inúmeros botequinhos take away—comida para levar—perto do hotel. Era uma opção mais barata que os almoços no centro. Uma manhã andamos ao longo do Rio Tâmisa até a London Brigde, uma das pontes mais bonitas e famosas do rio. Perto dali havia uma instalação com milhares de tulipas de cerâmica em comemoração aos 100 anos da Torre de Londres. A imagem era linda e impressionava a todos os visitantes. 

Um dia fomos até à Estação Saint Pancras encontrar um casal nosso conhecido da internet e passamos o dia com eles nos mostrando a cidade e tentando entender-nos, pois eles só falavam inglês ou pouquíssimas palavras em espanhol. 

Outro dia aproveitamos para passear em Candem Town e erramos a direção da volta, porque não estávamos acostumados à mão contrária do trânsito, acabamos indo em direção ao final da linha do bairro e tivemos que voltar. Mas tudo era aventura. 

Não houve tempo para conhecer Abbey Road e fazer a foto tradicional do disco dos Beatles, nem foi possível andar pelo Hide Park num dia de sol e tampouco tomar um café ou comprar artesanato em Covent Garden.

Numa das saídas do hotel pela manhã, já alojados em nosso quarto original no segundo ou terceiro andar—não me recordo— tomamos o elevador junto com outras duas pessoas. Os dois devem ter percebido nosso acento quando perguntamo-nos algo e a moça quis saber de que parte éramos da Espanha— de Galícia, dissemos ela também era. O rapaz deduziu que eu era brasileira, confirmei e ele disse que era de Santos, São Paulo. Todos rimos, porque era inusitada a situação. Alguns segundos de viagem num elevador foram suficientes para se reconhecerem dois galegos e dois brasileiros no meio de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. A linguagem e nossa capacidade de comunicação é algo maravilhoso.

Em Candem Town também encontramos com grupos de brasileiros, porém naquela época isso não configurava casualidade. Em anos anteriores e mais alguns dois ou três posteriores àquele 2014, os brasileiros viajaram muito e era normal encontrar grandes grupos, famílias ou casais em lugares turísticos pela Europa. Em praticamente todos os lugares que visitei sempre me chamava atenção o quanto ouvia pessoas falando em português do Brasil. 

Infelizmente, em 2018 muitos destes brasileiros preferiram sabotar-se e ajudar a conduzir o país para essa vergonhosa situação em que hoje se encontra. Agora com a Inglaterra fora da União Européia, o real sendo uma das moedas mais desvalorizadas do mundo, a libra custando quase 7 reais, esse passeio a Londres está restrito somente à brasileiros muito ricos. E só depois de passar a pandemia, porque muitos países estão com as fronteiras fechadas para viajantes brasileiros.





Rede social, religião e moralismo




Ter uma crença ou religião que não faça parte da supremacia cristã ou mesmo não ter nenhuma religião deveria ser algo mais respeitado entre as pessoas. Mas quem é católico ou evangélico, praticante ou não, não entende isso. O Cristianismo e a Igreja Católica conquistaram sua hegemonia e durante séculos vêm doutrinando povos e tentando extinguir e massacrar outras crenças e religiões, assim muitos católicos acreditam que sua fé, dogmas e ritos são unanimidades incontestáveis, inquestionáveis e indubitáveis.

Em verdade, está comprovado que a maioria da população mundial é adepta do Cristianismo que faz parte do Grande Grupo das religiões no mundo. Mas também estão de maneira expressiva no Grande Grupo o Islamismo, o Hinduísmo, o Budismo e as religiões tradicionais chinesas como o Taoísmo e o Confucionismo. Em outro grupo chamado de Grupo Médio estão o Xintoísmo, o Judaísmo, o Espiritismo, o Seicho-No-Ie, o Paganismo e o Zoroastrismo citando as mais conhecidas.

A categoria dos Sem Religião é também bastante expressiva, predominante no mundo ocidental e só vem atrás do Cristianismo—2000 milhões— e do Islamismo —1500 milhões—. Pessoas que se dizem sem religião são 1100 milhões e se caracterizam pela tradição cultural do Secularismo, princípio da separação entre as instituições governamental e religiosa, que afirma o direito de ser livre do jugo do ensinamento religioso e dá prerrogativas a um Estado Laico.

O Brasil segue no mesmo sentido de liderança do Cristianismo Católico e Evangélico, mas  são bastante expressivas também o Espiritismo, o Candomblé originário da África, a Umbanda, uma mescla de catolicismo com religiões africanas e as crenças dos povos da floresta Amazônica indígenas ou nãoSob a égide desta liderança, muitos cristãos ao falar em nome de Cristo se delegam garantias para defender seus moralismos e interesses seja no campo social, político e econômico. As Cruzadas, a Santa Inquisição e outros movimentos de ocupação territorial são exemplos do quanto em nome de Cristo foram praticados os mais infames genocídios, guerras e injustiças durante séculos em todo o mundo.

Portanto, o mesmo Jesus Cristo que, historicamente foi retratado como líder pacificador, tolerante, generoso, altruísta e avesso à violência pode ser instrumento de ameaças e outros tipos de maldições nas mãos de um equivocado ou mal-intencionado cristão contra os que ousam colocar sua doutrina sob suspeita ou debate.

Nesses tempos de facilidade de comunicação entre as pessoas através de redes sociais seja entre conhecidos e desconhecidos, amizades virtuais ou reais, se percebe frequentemente um tipo velado ou explícito de doutrinamento ou pequenas tentativas de moralização travestidas de ajuda espiritual. E isso se dá principalmente vindo de parte de cristãos. Percebo nas redes o uso de conteúdo religioso ou auto-ajuda—essas coisas já se mesclam um pouco—sem muito critério de conteúdo e enviados massivamente por meio do que considero um péssimo hábito, o envio de mensagens em bloco.

Na verdade, hoje em dia não passamos de contatos para muitas pessoas e o que me refiro é que se o conteúdo é religioso e cristão—ainda melhor— quem está do outro lado a receber ou ler os comentários deve engolir e aceptar este hecho, incontestável e inquestionável mesmo que supostamente o contato do outro lado não seja cristão. Ah, as falsas unanimidades! Quanto nos equivocamos por não perceber e não considerarmos—muitas vezes, sequer respeitarmos—a fé e as crenças alheias e tampouco o direito à falta de fé.

Aos crédulos cristãos pode caber-lhes o direito e o dever de espalhar a palavra de Deus, mas os não religiosos ou não-cristãos, na medida da tolerância têm o direito de contestar, ignorar ou questionar essas mesmas falas. Isso se chama autonomia e livre pensar que exercitamos muito pouco. Eu agradeço as mensagens que por vezes recebo e a boa vontade de quem manda, mas  digo que minha fé passeia por muitas crenças e, às vezes, meu Deus é uma mulher.

sábado, 29 de agosto de 2020

Me chamo Ler, Leer, Lire, Leggere, Read




Leitora voraz desde que aprendi a juntar letras e sílabas, apenas venho alternando gêneros,  descobrindo autores e mudando a forma de ler. Minha infância foi marcada por duas grandes obras, além dos livros de textos escolares. A primeira foi a Enciclopédia Delta Júnior, lançada em 1967 pela mesma editora responsável pela publicação em português do Delta Larousse e a segunda foi o Mundo da Criança também da Editora Delta.

Meu pai comprou a Delta Júnior pensando em termos em casa uma fonte de consulta para trabalhos escolares. A enciclopédia está bem guardada, tem doze volumes em capa vermelha, os verbetes se distribuem pelos volumes em ordem alfabética. As ilustrações são todas feitas com desenhos coloridos, não há fotos e guardo na memória muitos tópicos consultados quando era criança.

Conheci "O Mundo da Criança" quando íamos de férias para a casa dos primos e era a minha distração. Era um conjunto de doze a quinze volumes, livros grandes, pesados e de capa marrom. Lembro bem de ler aí A Rainha da Neve e A menina dos fósforos de Hans Christian Andersen. 

Além das enciclopédias eu gostava muito dos quadrinhos de Walt Disney que também foram meus companheiros da infância e de toda uma geração. Às vezes, ganhava pequenos livros de histórias com desenhos e dobraduras internas que se podia ler e brincar ao longo das páginas. Já eram os pioneiros da interação com o leitor, os "pop-up books" de hoje e que agora acredito, só encantam os bebês.

No final do ensino primário e durante o ensino médio li uma infinidade de clássicos da Literatura Brasileira, uns por obrigação escolar, outros por puro prazer. Com o estímulo de uma ótima professora de Literatura, percorri os períodos literários desde o Quinhentismo até o Pós-Modernismo, mas meus prediletos eram, sem dúvida, os do período Romântico e Realista tanto os autores parnasianos como os naturalistas.

Na casa de uma tia eu também tinha acesso a uma pequena biblioteca onde li a coletânea completa e encadernada de José de Alencar e algumas obras de Pearl Buck, escritora sino-americana cujos títulos A Boa Terra prêmio Pulizter de ficção e Os Filhos de Wang-Lung recordo hoje com saudade.

Na adolescência me apaixonei e filosofei com o libanês Khalil Gibran e seus O Profeta e Areia e Espuma, entre outros. Nessa época li muitas obras de Érico Veríssimo e me encantei com Clarissa, Vasco e os personagens de O Tempo e o Vento. Lembro que nessa fase intercalava os livros com revistas de fotonovelas, muito populares entre as jovens da minha idade e um passatempo mais barato.

Depois de adulta e podendo comprar meus próprios livros, li uma variedade de clássicos ingleses, lembrando aqui as irmãs Brontë com Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes, Jane Austen e um pouco de Agatha Christie. São dessa época minhas leituras dos americanos George Orwell, Ernest Hemingway, Jack Kerouac e Arthur Muller e os latino-americanos Eduardo Galeano e Gabriel Garcia Márquez. Também li sagas famosas como As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley e mais recentemente Outlander ou "A Viajante do Tempo" de Diana Gabaldon.

Consumi um bom tempo lendo livros que tratavam de Saúde Pública e Promoção de Saúde. Em minha vida laboral tive bastante interesse pelos referenciais teóricos e autores da Reforma Sanitária do final da década de 80 e pelo arcabouço legal do Sistema Único de Saúde Brasileiro. Hoje, depois de tantas construções, desconstruções, teorias, políticas e leis que não saíram do papel ou que foram mal conduzidas, evito voltar a esse tipo de leitura, apenas guardando na memória dezenas de experiências exitosas que pude vivenciar e que espero estejam ainda contribuindo no presente.

Como vivia longe das grandes livrarias frequentava bibliotecas públicas e tomava livros emprestados, mas em meados da década de 80 descobri e me associei ao Círculo do Livro uma editora brasileira fundada em 1973, parceria entre o Grupo Abril e a editora alemã Bertelsmann. Tudo se manejava pelos Correios. A editora mandava o catálogo dos livros num encarte mensal com as ofertas, os lançamentos e todo o conteúdo disponível. O cliente escolhia, fazia a encomenda e esperava a entrega em casa. Os livros tinham todos um formato capa dura de ótima qualidade e a empresa tinha uma enorme variedade de títulos e autores.

Aqui não posso deixar de citar meu grande livro da juventude comprado no Círculo, Os Rebeldes de James Michener, autor americano onde parte da história é ambientada em Torremolinos na Espanha, cidade que tive o prazer e a emoção de conhecer muitos anos mais tarde. Meu exemplar de "Os Rebeldes" doei para uma biblioteca pública anos antes de sair do Brasil, mas comprei outro igual num sebo online tempos depois, porque não consegui desapegar. O Círculo do Livro acabou encerrando suas atividades no ano 2000.

A década de 90 foi a fase áurea do gênero autoajuda e dos romances espíritas de Alan Kardec que lideravam minhas aquisições. Mesmo assim também permanecia atenta aos best-sellers nacionais e estrangeiros que embora não lesse de imediato, guardava como dicas de próximas leituras. Alguns certamente acabavam sendo bastante frustrantes, pois raramente coincidia meu gosto pessoal com a lista dos mais vendidos nas livrarias.

Entre outros gêneros também já li muito sobre História do Brasil nas obras de Laurentino Gomes, Eduardo Bueno e tantos outros. Gosto de História Antiga e Contemporânea, romances históricos e ficcionais, livros que viraram filmes, como os premiados A Casa dos Espíritos de Isabel Allende, O Nome da Rosa de Umberto Eco, o grande Jorge Amado com Dona Flor e seus dois maridos e Gabriela, Cravo e Canela e A menina que roubava livros de Marcus Zusak, lançado em 2005. Este último foi um dos melhores livros que li nesta época, guardo-o com carinho, esperando que um dia minha neta também leia.

Como Paulo Coelho é conhecidíssimo fora do Brasil e porque descreveu sua peregrinação pelo Caminho de Santiago em o Diário de um Mago fui reler alguma coisa dele, mas confesso que só consigo selecionar e rememorar O Alquimista que, merecidamente é o livro brasileiro mais vendido de todos os tempos.

Também tenho interesse por memórias e biografias e destaco aqui as de Alberto Santos Dumont, Amelia Earhart e Dona Leopoldina, a Imperatriz do Brasil figuras que conhecendo sua história passei a admirar.

Tenho também especial apreço por histórias ambientadas na Idade Média como Os Pilares da Terra de Ken Follet , dos períodos iluministas do qual destaco A Religiosa de Denis Diderot e os que antecedem ou que permeiam a Revolução Francesa. Inclusive é muito interessante a biografia de Maria Antonieta.

Também na década de 80, período pós- ditadura militar no Brasil, entrei em contato com muitas obras que denunciavam as torturas, o regime e a história recente do país como o projeto Brasil: Nunca Mais realizado pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), O que é isso, companheiro! do decepcionante Fernando Gabeira e um documentário jornalístico do Caso Riocentro escrito por Belisa Ribeiro.

Houve um tempo que li alguns títulos também em inglês num formato adaptado para meu nível intermediário, como Dr. Jivago de Boris Pasternak e Alexander, the Great de Philip Freeman só para exemplificar. Atualmente tenho tido contato com um pouco da literatura espanhola, pois consigo ler perfeitamente em espanhol. Meu primeiro livro neste idioma foi  La luz entre los oceanos de M.L. Stedman, embora seja um autor australiano e depois El tiempo entre costuras best-seller de Maria Dueñas, obra traduzida para mais de 20 idiomas.  

Há uns quatro anos, mudei radicalmente minha forma de ler. Como gosto de tecnologia, resolvi experimentar o livro eletrônico e resultou que me adaptei rápida e perfeitamente ao seu formato. Muitas pessoas dizem que não renunciam ao livro de papel, mas digo que é interessante experimentar. É um aparato pequeno, não pesa nada, não ocupa espaço, não consome papel, tem uma luz muito confortável diferente de computador ou tablet e acesso à internet para baixar os títulos, geralmente mais baratos que os livros físicos e com bastante conteúdo gratuito. 

Para não esquecer minhas primeiras leituras em livro eletrônico registro aqui o levíssimo El amor huele a café de Nieves Garcia Bautista, a leitura angustiante e estarrecedora de Vozes de Chernobyl de Svetlana Aleksievitch e o assombroso e revoltante El tren de los Huerfanos de Christina Baker. Estão na fila para releitura, entre tantos, Mulheres que correm com os lobos, porque preciso reforçar um feminismo que tenho ainda pouco explorado e ando em busca de uma versão digital em português ou espanhol de Os Mandarins de Simone de Beauvoir.

Tenho já uma biblioteca digital de mais de 200 títulos que está sempre comigo, na mesinha de cabeceira, na bolsa ou na mala quando viajo. Nesse dispositivo venho descobrindo e redescobrindo a literatura do mundo e agregando cada dia mais memória de histórias que me ajudam a entender a vida. 

Assim tenho acumulado meus livros em duas casas, em estantes, em caixas organizadoras, emprestados a outras mãos, na nuvem eletrônica e outros tantos, inesquecíveis seguirão guardados no coração.




                                               
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O baixo Brasil das bruxas soltas


Não gosto de ouvir o termo bruxa dirigido às mulheres, nem para designar a aparência, tampouco para atacar seu caráter. É um termo misógino e antifeminista usado desde tempos imemoriais para calar, reprimir e aviltar seres pensantes e que destemidamente buscavam a igualdade entre os gêneros. Muitos milhões de vidas pereceram brutalmente assassinadas ou encarceradas pelo crime de não se submeterem, de buscar respeito e relevância mais além da finalidade reprodutora, sexual e de sujeição às necessidades do gênero masculino. 

O arquétipo da bruxa está presente nos contos infanto-juvenis como a imagem da maldade, da inveja, da antiestética, da ambição. Expressam-se como seres dotados de alguma sabedoria, mas que o senso comum deixa claro que é uma sabedoria invariavelmente usada para o mal. Um dos exemplos que quebram esse paradigma da malignidade das bruxas é o filme Malévola, produzido pelos estúdios Walt Disney.

Na Língua Portuguesa, a expressão a bruxa está solta é uma forma de dizer que algo não vai bem, que acontecimentos estranhos estão surgindo muito repetidamente, que há uma maré de azar ou que estamos vivendo um período sinistro e muito ruim.

Pois nós, brasileiros advertidos ou inadvertidos estamos assistindo um período mais do que sinistro e ruim da nossa história. Está instalada uma verdadeira convenção de bruxos e bruxas saídos do mais funesto túnel do retrocesso e do obscurantismo social e político jamais visto desde o século XX.

Há uma mistura inaceitável de religião com política num Estado laico legitimado pela Constituição Federal, o que já mostra o fosso que o país se encontra, tentando se assemelhar às teocracias medievais. A hipocrisia religiosa está manifesta, quando doidos e mal-intencionados vão para frente de um hospital vociferar contra o aborto legal de uma criança, criminalizando o sexo feminino e a infância e ignorando o crime hediondo do indivíduo do sexo masculino.

O parlamento brasileiro está cheio de figuras bizarras e ignorantes de seu verdadeiro papel. Muitos se lançam na carreira política usando a enganação, a religião e a boa-fé dos eleitores. Ali já tentaram emplacar leis absurdas quanto aos costumes, se imiscuindo na sexualidade das pessoas, já tentaram censurar livros, obras de arte e fazer revisionismos em conteúdos escolares. A hipocrisia é escancarada, quando alguns desses parlamentares muito religiosos são acusados de ardilosos crimes contra a vida, e buscam a imunidade de seus cargos para escapar da prisão como temos acompanhado nos noticiários dos últimos dias.

Alguns juízes e procuradores de justiça se elevam a uma casta de ungidos e soberanos, enquanto tomam atitudes notoriamente punitivistas contra supostos inimigos da pátria, numa inquisição moderna que arrancaria palmas da Santa Inquisição. Ao mesmo tempo que se protegem de investigações e punições de suas próprias arbitrariedades, assim se tornam pródigos em combater a corrupção sendo corruptos.

Tempos atrás parte da classe médica promoveu uma campanha de ódio e xenofobia contra seus colegas cubanos, quando estes chegavam ao Brasil para ocupar postos de trabalho que vinham sendo rejeitados pelos mesmos profissionais brasileiros. Atitudes como essa, além de incivilizadas, mostravam o quanto esses médicos estavam alheios às necessidades da população, principalmente das zonas periféricas das cidades e dos sertões do país. Tempos depois, ainda mais estupidificados, desprezando a própria ciência que os formou e as diretrizes internacionais, se submetem, calados e aplaudem o governante leigo que propagandeia medicamentos sem comprovação científica. Irresponsavelmente, tanto os médicos como os governantes estimulam a automedicação no momento mais sensível da pandemia por coronavírus.

Governantes tentam calar seus oponentes e desrespeitar a liberdade de expressão criando supostas listas de pessoas monitoradas pela inteligência e segurança nacional num claro procedimento digno de ditaduras. Ao mesmo tempo insultam jornalistas, porque não têm respostas para perguntas embaraçosas e pertinentes. 

A população pobre e negra das periferias é morta pelo Estado como nos tempos da escravidão, quando estas vidas só importavam para arrancar-lhes o trabalho forçado e a dignidade.

A percepção da pandemia por parte da população segue a visão negacionista do governo, responsável pela inexistência de políticas públicas para a efetiva conscientização do problema e o país segue em número crescente de mortes e afetados, num ponto que já se banaliza a doença e a vida segue como se nada...

Por último e não menos grave é que parte da população e de alguns aproveitadores têm muita dificuldade de entender a diferença entre liberdade de expressão e produção de mentiras. Por isso as redes sociais seguem lotadas de fake news manipulando crédulos, aumentado a desinformação e corroendo a democracia.

Isso é só uma parte do Brasil das sombras. Os absurdos são muitos. Até quando os enfeitiçados pelo ódio  seguirão seu projeto de escuridão?

Nós, homens e mulheres descendentes das bruxas genuínas seguiremos aqui sua luta.


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Insônia