sábado, 6 de março de 2021

De hora em hora só o Brasil piora



De hora em hora, Deus melhora era uma expressão que ouvia muito de minha mãe que certamente aprendeu com sua mãe e avós. Eu não tenho o costume de evocar o nome de Deus, mesmo acreditando na onisciência e onipresença de um ser  elevado e acima da compreensão humana. Pouco me atrevo a molestar essa entidade que, na maioria da vezes, não tem nada que ver com os desatinos provocados pela humanidade. Contudo, a expressão, reconheço, tem um poder consolador.

Hoje não há esforço suficiente para que esta expressão ouvida na infância faça algum sentido. Com os rumos que as coisas tomaram no Brasil durante a pandemia de coronavírus só consigo parafraseá-la : De hora em hora, tudo piora. Agora tenho a certeza que o buraco que o Brasil está metido, realmente não tem fundo e cada dia algo ou alguém trata de cavar mais um pouco.

Introduzo aqui a expressão para referir-me ao manifesto dos médicos de Santa Maria em favor do malfadado tratamento precoce para Covid-19.  De pronto, me chama atenção o nome de uma sumidade em infectologia da cidade, que quase não acreditei que estaria entre os signatários. E lá está, junto a outras dezenas de profissionais cujos nomes estão associados à credibilidade, à competência e que, certamente já salvaram muitas vidas. O dito manifesto não cita um único estudo reconhecido mundialmente. O texto é vazio nesse sentido, fala de estudos científicos atualizados, trabalhos e guidelines. Quais? De onde? Quais instituições? Quem estudou? Onde está tendo sucesso? 

Segundo o Art. 32 do Código de Ética Médica, é considerada infração grave: "deixar de usar todos os meios disponíveis de promoção de saúde e de prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças, cientificamente reconhecidos e a seu alcance, em favor do paciente.

Em nenhum lugar do mundo se falou em tratamento precoce durante a pandemia, portanto não existe estudo sério que referende essa prática.  Não tenho notícia que algum país tenha adotado os medicamentos citados no manifesto como preventivos e nunca ouvi a expressão tratamento precoce nas inúmeras exposições dos profissionais de saúde nas intervenções oficiais do Estado espanhol durante a pandemia. Tanta excelência científica tem o Brasil que é o único que faz o manejo correto? Não duvido da qualificação dos profissionais de saúde brasileiros, mas os que avalizam essa prática, fazem do Brasil o país mais errado no combate à pandemia. Primeiro, porque atingirá a marca dos países com mais mortos do mundo e segundo, porque a corporação optou por mesclar ciência com proselitismo político. 

Na Espanha, onde tenho passado a maior parte da pandemia, o país está lutando para que o vírus não se propague com as únicas alternativas factíveis: o distanciamento, o isolamento social, as restrições de movimentos, o uso de máscaras e as vacinas que estão chegando pouco a pouco. Nunca foram citados quais medicamentos estavam sendo usados nas intervenções clínicas nos pacientes com a doença em curso, a não ser o grupo dos corticóides. Usar medicamento off-label (sem indicação para covid-19) pode ser um direito do médico, porém a questão ética deve ser avaliada para que se mantenha o sigilo dos tratamentos e em comum acordo com os pacientes ou estarão praticando experiências para as quais não estão autorizados.

"E num momento que centenas de casos surgem em nossa cidade, não podemos ficar de braços cruzados e deixar de tratar esses pacientes!" Diz o manifesto.

Claro que devem ser tratados, mas com os protocolos e diretrizes clínicas referendados e para tratar os sintomas decorrentes da infecção. Ainda não existe um medicamento curativo para Covid-19. Há muitos estudos em andamento, porém inconclusivos. Mas o objeto do manifesto dá ideia que existe um grupo de medicamentos que fazem os pacientes acreditarem que estarão livre da contaminação e assim desobrigá-los da responsabilidade social de cumprir a prática coletiva do distanciamento.  Entende-se por precoce como ideia de anterioridade, de prevenir, de acautelar, de precaver. Quantas pessoas acorrerão certamente às farmácias para automedicar-se como já fazem, vendo os cartazes de "Temos Ivermectina" estampados nos estabelecimentos? Por conta dessa irresponsabilidade quantos vão continuar a minimizar a doença, a aglomerar-se e a proporcionar cada vez mais replicações do vírus originando novas mutações e mais letais?

Qual a necessidade desses médicos manifestarem publicamente suas decisões e manejos clínicos? Isso é irresponsabilidade, é desespero, é desserviço, é gerar gastos públicos desnecessários, é atirar para todos os lados, quando deveriam apoiar o distanciamento social, o uso de máscaras, o funcionamento somente de serviços essenciais, apoiar as autoridades locais na proibição de festas, reuniões, fechamento das praias e horários de reclusão. A serviço de quem está o manifesto? Eu entendo o desespero. Orientações desencontradas e falta de um plano nacional único e articulado com os governos estaduais para combater a pandemia, está levando o caos aos serviços de saúde e até aos serviços funerários. E há um dado interessante. Uma escolha errada feita no passado pelas entidades médicas brasileiras começa a cobrar fatura.

 É muito triste e vergonhoso constatar que o extremismo de direita está vencendo a ciência, que uma entidade de classe tão importante permite que a medicina se transforme em magia e seus profissionais em charlatães. Num país onde médicos ainda são tratados como deuses, os tratamentos e curas milagrosas chegam mais rápido que um trem-bala. A crença e o comércio de práticas médicas abandonadas ou rechaçadas em outros lugares são campo fértil num país de imaturos, inconsequentes e indisciplinados. E ainda, onde o individualismo está totalmente acima do coletivo, não me admira que já são 250 mil mortos caminhando para 300 mil. E quantos mais serão?

E Deus, a essas alturas, creio que só balança a cabeça, porque não tem nada a ver com isso.




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O lapso e a esperança




Sempre soube que as situações e circunstâncias da vida são incertas e impermanentes. E saber disso, de certa maneira me dava relativo controle sobre o incontrolável. Só que essa incerteza e impermanência era percebida para uma escala de tempo de maior grandeza, não dias e meses e sim anos, talvez décadas. Até aqui pouquíssimas coisas aconteceram de forma abrupta. O que vivo hoje é um momento de pausa e de espera agravado pela pandemia que todos, assim como eu, estão tentando escapar fazendo as manobras higiênicas para esquivar-se e sair vivo.

Nunca fui saudosista ou enaltecedora do passado. Sempre vivi na expectativa de um futuro que custava a chegar, característica dos ansiosos ou dos inquietos ou dos inconformados ou dos insatisfeitos com a impressão do presente sempre incompleto. Até que um dia o futuro chega e descubro que suas peculiaridades e atributos são exatamente esses, a pausa, a espera, a trégua, o recesso, a interrupção, um lapso no tempo.

Agora, nesse exercício forçado de travar a ansiedade— nem sempre negativa—sinto que deveria ter corrido com mais velocidade em busca do imaginado. Teria chegado antes e antes perceberia que aquele futuro era justamente o que buscava desde sempre, uma vida completa.

Hoje o que consola é que da mesma forma que as alegrias são fugazes, os reveses também. A vida se vive em ondas. Não tenho claro se tudo isso obedece uma ordem natural e energética de planos que nossa própria mente comanda. Todos querem estar saudáveis, ninguém tenciona adoecer. Dizem que se um organismo foi capaz de desenvolver uma doença, por que ele não seria capaz de desenvolver sua própria cura? Acaso a desordem tem mais poder que a ordem? O caos é maior que o arranjo?

E agora resta o tempo, vilão ou herói, ele dará as respostas. Enquanto isso, me agarro com a esperança. 🌷


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Uma estrangeira há dois mil dias

Vista do Porto Deportivo de Combarro- arquivo pessoal


Marlena de Blasi, chef e escritora americana radicada na Itália escreveu Mil Dias em Veneza, publicado em 2002 contando como se transferiu dos Estados Unidos para a Itália numa decisão baseada em amor. Li o livro em meados de 2009 e algo ali me parecia muito familiar, como um pressentimento.

Anos mais tarde fiz a mesma mudança de continente pelo mesmo motivo de Marlena e agora já passa de dois mil dias desde que me transladei de mala e cuia— literalmente— para esse paraíso chamado Galícia, extremo oeste da Península Ibérica, terra dos antigos celtas, das fadas, das Rias Baixas, dos mariscos, do Finisterra—o Fim da Terra— do galego, língua irmã do Português e de Combarro, um dos pueblos mais bonitos da Espanha.

Cheguei no último dia de verão de 2014, 21 de setembro— dos breves dias de calor e praia galegos— e começo da temporada gelada e úmida que dura mais ou menos até abril.  Entrei no país com o passaporte visado pelo Consulado Espanhol de Porto Alegre e em seguida dei entrada nos documentos necessários para permanência: permiso de residencia—carteira de identidade de estrangeiro—empadronamiento—registro na prefeitura—conta em banco e linha telefônica.

Nos dois primeiros anos senti muita falta de antigos hábitos, de lugares, de pessoas, da família e até do trabalho do qual já me havia retirado. Felizmente já existiam os aplicativos de mensagem e os grupos aonde permaneci conectada e voltei ao Brasil todos os finais de ano para passar as festas. Apesar da saudade da família— preço a pagar por essas escolhas—seja uma constante, a falta de amigos, os costumes e o idioma foram desafios ora já superados.

O idioma

Logo que cheguei descobri um curso de Espanhol na Cruz Vermelha que, além de serviços médicos, presta atendimento à idosos, crianças, imigrantes etc. As aulas eram gratuitas, ministradas por voluntários e tinham como objetivo a inserção social dos imigrantes em seu novo país. Ali conheci pessoas de vários lugares. A maioria eram mulheres de nacionalidade marroquina que fazem parte de uma grande comunidade aqui na Espanha.

Além delas conheci também dezenas de brasileiros que nos últimos anos haviam emigrado para a Península em busca de oportunidades de trabalho, estudos ou pelo casamento. Este curso porém, não foi muito efetivo para meu aprendizado, porque meus colegas de língua árabe exigiam um ritmo mais lento, mais atenção dos professores e não avançávamos muito. No entanto, esse convívio foi uma rica troca de experiências com outras culturas, com gente muito querida e divertida.

Na verdade, meu primeiro contato com a língua foi mais custoso, porque aqui coexistem dois idiomas oficiais, o castelhano e o galego e no início não os distinguia bem. O galego é similar ao português, porém tem uma entonação muito diferente e a escrita me parece uma mistura de português antigo com castelhano. Faz parte do currículo escolar, todos entendem, mas nem todos falam. Há um certo preconceito por parte da sociedade que se recusa a falar em galego, pois considera uma língua de pueblo— linguajar de interior.  A ditadura franquista—que durou quarenta anos até 1978—não reconhecia o idioma, o que obrigava as pessoas a falar somente em castelhano. Porém, nas últimas décadas isso mudou, existem canais de televisão transmitidos em galego, o povo adquiriu mais segurança no falar e os jovens são incentivados a ter orgulho do idioma de sua terra.

Assim eu pouco entendia os nativos e eles também não me entendiam. Fui educada em meio à ditadura militar, onde a língua Inglesa era mais valorizada e não havia a disciplina de Espanhol. Nós, brasileiros acostumados a estar de costas para nossos vizinhos sul-americanos, parece que desconsideramos a cultura vizinha. Preferimos cultivar apenas vazias rivalidades no futebol em detrimento do saudável intercâmbio social e cultural. Isso faz com que muitos brasileiros pensem que é fácil comunicar-se nos países de língua espanhola bastando puxar aquele famoso portunhol. Não é verdade. 

Passei a assistir telejornais, novelas, séries e filmes, prestando atenção até na publicidade para acostumar o ouvido. Nos primeiros tempos, quando precisava ir à lojas ou supermercados levava as frases memorizadas. Mais tarde, após deixar o curso na Cruz Vermelha, decidi preparar-me sozinha para as provas de certificação de nível A2 em espanhol pelo Instituto Cervantes—uma das exigências para entrar com o pedido de nacionalidade espanhola. Agora leio e compreendo perfeitamente os dois idiomas oficiais, mas como segui falando português em casa e fiz muitas amizades brasileiras não adquiri fluência, embora use naturalmente muitas palavras em espanhol no meio das frases. 

A Gastronomia

Meu marido trabalhava de oito às três da tarde, então me incumbi de cozinhar. Precisava manter meu horário de almoço até, no máximo à uma da tarde como o hábito brasileiro. Os espanhóis costumam almoçar por volta das 3— mas nunca me adaptei. Inclusive alguns pequenos comércios fecham nessa hora para reabrir das 5 às 9 da tarde—mesmo no inverno, quando o dia se faz noite, eles chamam tarde até pelas 22 horas.

Tive um pouco de dificuldade para adaptar-me com a comida, não que eu exigisse muito, mas carne, feijão e arroz tiveram que ser substituídos por peixes, mariscos, batatas e verduras em pratos bastante simples e únicos. Estamos acostumados no Brasil com uma variedade de iguarias nos buffets à quilo e por isso me resultava estranho preparar somente um ou dois pratos acompanhado de fatias de pão, ítem obrigatório. 

Eu procurava substituições por outros ingredientes que pudessem adaptar-se aos pratos que estava acostumada, mas na prática não dava muito certo. Foi difícil, por exemplo, substituir a banana-prata—meu alimento favorito no café da manhã— pelo plátano das Ilhas Canárias, um fruto maior e menos doce, mas o café solúvel de sempre e o pão de barra tradicional galego equilibraram os meus sentidos. 

O arroz mais popular é um tipo integral de grãos redondos ou de aspecto quebrado muito usado nas típicas paellasprato de arroz caldoso com frango e mariscos que se quisermos cozinhar como o arroz no Brasil não há maneira de ficar solto. Tempos depois, uma amiga brasileira me apresentou o arroz Basmati tailandês, um tipo de arroz muito branco e fininho que cozinha rápido e sempre fica soltinho. 

O feijão preto está sempre disponível nos supermercados, mas não é costume. Aqui preferem o feijão branco, aquele grão maior, para fazer fabada—prato típico asturiano com linguiça— ou nas saladas. Outro grão muito apreciado são os garbanzos — grão de bico— que é cozido como se fosse feijoada com muitas carnes e especiarias.

A yuca é um tubérculo como a mandioca, cozinha muito rápido, vem da América envolta em parafina para não estragar e é muito fácil de descascar. Também está disponível nas fruterías papaya—mamão— também uma planta tropical. Ambos não são produtos baratos, mas são encontrados facilmente. Embora tenha trazido os apetrechos—cuia e bomba— para tomar chimarrão, não me animei a experimentar a única marca de erva-mate que encontrei por aqui— a argentina Cruz de Malta. Tanto que abandonei o hábito.

Enfim, era preciso adaptar frutas, verduras e legumes mais usados aqui e empreender a mudança para o consumo de pescados— opção audaciosa para quem estava acostumada a comer peixe só na Sexta-Feira Santa— e um caminho resignado para a sobrevivência, o menor dos males.  Torço para que os nutricionistas não voltem atrás nas recomendações de gorduras ômega-3— presente nos peixes— para a saúde do coração e do sistema circulatório.

As pescaderias e as lonjas —postos de venda de pescado direto das cooperativas de pescadores ao consumidorpossuem sempre grande variedade, aonde diariamente chegam peixes frescos como merluzas brancas ou rosas, atum, rape, bacalhau, raia, sardinha, jurel, cavala, rapante, linguado etc. Aprendi a comer mariscos, aqui muito apreciados como pulpo, mejillones, calamares, chocos, langostinos, cigalas, almejas, berberechos e zamburiñas. Hoje já não me faz falta comer arroz e carne todos os dias, que foram substituídos por ovos, batatas, legumes variados ou massa e peixe intercalando com frango. 

Pelas tardes adquiri o hábito de frequentar cafeterias, costume muito arraigado aqui, onde as pessoas estão desde o café-da-manhã—nas milhares que existem em todos os lugares—antes de irem para o trabalho. Esses locais têm por tradição oferecer um petisco grátis—um pincho—tanto se pedes um café ou uma bebida. Os pinchos podem ser desde frutos secos, batata chips, pequenos churros, um pedaço de bolo, uma bolachinha industrializada ou até um doce cheio de creme. Um verdadeiro perigo para o sobrepeso.

Às vezes éramos convidados para jantar em casa de amigos espanhóis e ali as curiosidades eram muitas. Os pratos podiam ser churrasco de solomillo—picanha— ou chuletón, ambos feitos com pouco sal e malpassados para meu paladar. Uma noite havia arroz com bogavante—um tipo de lagosta—e me custou comer aquele bicho que antes tinha visto mover-se na panela. Nunca faltava a tortilla de patata—o prato genuinamente espanhol— ou as batatas fritas com pimentão, pão, cerveja ou vinho. No final, para fazer a digestão, uns vermutes, café com leite ou chá de camomila—manzanilla.

O Contraponto

Galícia tem uma área territorial semelhante ao Estado de Alagoas— segundo menor Estado brasileiro— com menos de 30 mil km². Possui um deslumbrante relevo costeiro e uma paisagem verde, fértil e abundante no interior, faz bastante frio e chove muito no inverno. As cidades possuem uma coleção de parques, praias e pistas de caminhada que favorecem e estimulam o exercício físico e a higiene mental pelo contato com um dos cenários mais bonitos do mundo.

Tínhamos por hábito sair todas as tardes para conhecer lugares diferentes, explorar um lugar turístico, um castelo medieval, uma festa de pueblo, uma praia de mar aberto, um porto marítimo, um sendero pouco conhecido, um mirante e os centros históricos sempre cheios de gente como os de PontevedraVigo, Santiago de Compostela ou A Coruña  lindas cidades que dariam um capítulo à parte desta narrativa. 

As belezas naturais, o modelo de mobilidade urbana, a segurança pública, a infraestrutura educacional, de saúde e serviços, a estabilidade social e econômica, a valorização dos espaços públicos e de ócio que se desfruta nesse lugar são exemplos de qualidade de vida. Sou privilegiada por estar aqui e, não renegando meu país e minha cultura, a Galícia—definitivamente—é um lugar onde gostaria de ter nascido e crescido.












Vexames recreativos

O Brasil é um lugar inigualável para bizarrices na política, embora na vida em sociedade também não lhe escape fatos anômalos, que em outros países seriam tratados com muito mais seriedade.

O fato de políticos serem flagrados pela polícia escondendo dinheiro debaixo das roupas ou em malas dentro de apartamentos vazios não é novidade. Os criminosos de gravata conseguem façanhas insuperáveis em montante e criatividade se comparados com ladrões comuns que são rapidamente encarcerados em flagrante delito e assim mantidos povoando as prisões.

Um faminto roubando comida num supermercado, um usuário de drogas assaltando pedestres, ladrões de bancos ou veículos parece que provocam mais revolta na opinião pública do que os atos criminosos dos senhores de Brasília ou de quaisquer outros cargos eletivos, protegidos, para o bem da democracia—mas valendo-se da malversação— pela imunidade que lhes confere o artigo 53 da Constituição Federal.

Além da imunidade esses distintos senhores que, entre outras qualidades se intitulam patriotas e cristãos—mesmo portando dinheiro público em espécie e de finalidade questionável— aproveitam-se do espírito jocoso, bem-humorado, abstraído da realidade e da memória curta dos brasileiros calejados de tanta impostura e assaltos aos cofres públicos.

Assim, por breve tempo, o senador com dinheiro nas partes íntimas é alvo de piadas, memes, vídeos, mensagens instantâneas que infestam as redes sociais e os veículos de comunicação de divertimento e perda de tempo, sem que haja uma linha de desprezo e repúdio por parte de seus pares ou da instituição da qual faz parte. Sequer há um pedido de afastamento e de aclaração do assunto por parte do próprio senador perante, ao menos, aos eleitores de seu Estado. 

A bem da verdade é bem difícil explicar tanto dinheiro em espécie fazendo volume entre as nádegas do distinto senhor. Fosse uma mulher teria a opção do sutiã, local mais digno onde pequenas notas podem ser camufladas. Mas não era uma mulher, tampouco eram poucos reais. Num país sério, honradez e retidão de caráter seria o mínimo exigido de um homem público e é intolerável para os racionais tamanha falta de decoro e descaramento. No entanto, o sistema político brasileiro banaliza os fatos, abraça o corporativismo, não age com presteza e rigor e persiste dando margem para que o povo associe sempre política com vigarice.

Vivemos num país escaldado pelas rudezas, pela sordidez e o cinismo de homens públicos, escolhidos pelo povo, muitas vezes de maneira desvirtuada e irresponsável, segundo interesses de uma minoria e fora do interesse coletivo. O dito senador talvez seja afastado num processo moroso e dissimulado, mas seguramente voltará ao parlamento ou será convidado para exercer outro cargo público. Precisamos aprender a votar? Sim, é preciso aprender, mas antes de tudo, há lições mais importantes a serem aprendidas pelos parlamentares e instituições. Eles devem respeito às leis, aos eleitores, ao patrimônio público que deve continuar público e à população que tem o direito de não ser eternamente expoliada e enganada. Parece simples e elementar, mas essa é a utopia brasileira.

“Não podemos enxergar essas ações como aceitáveis. Precisamos continuar no esforço de desnaturalização das coisas erradas no Brasil.” (Ministro Luis Roberto Barroso - STF)




quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A janela de Maria Antonieta

Janela dos aposentos de Maria Antonieta, Palácio de Versalhes
Arquivo Pessoal

Foi em 2006 meu primeiro contato com a personagem Maria Antonieta, a rainha consorte da França através do filme de mesmo nome estrelado pela atriz Kristen Durst. Última rainha da França, condenada à morte por decapitação aos 37 anos em 1793— seu marido Luis XVI obteve a mesma pena. Suas prisões, julgamentos sumários e assassinatos representam um dos capítulos mais importantes da história da humanidade, a Revolução Francesa.

Maria Antonieta, na biografia escrita por Stefan Zweig, é retratada à princípio como uma menina assustada, de poucas letras, apegada à família, obediente e consciente de seus deveres protocolares. Sua mãe Maria Teresa da Áustria ao ficar viúva precisou engendrar vários planos de manutenção de poder e territórios costurando o matrimônio político de sua filha mais nova com o príncipe consorte francês Luis, futuro Luis XVI, um jovem pouco mais velho que ela, neto de Luis XV. Antonieta foi contemporânea de Mozart e a história conta sobre um encontro deles no palácio em Viena, quando ainda eram crianças e o músico ainda pequeno já começava a dar concertos. Depois de adulta e já como rainha da França permaneceu inculta, avessa à leitura, ao estudo, despolitizada e apaixonada por festas e banquetes. Foi muito criticada pelos franceses por suas frivolidades e caráter perdulário. 

Antonieta estava com 15 anos quando se despediu da Áustria, do palácio onde havia nascido e crescido, da mãe e dos familiares para nunca mais voltar. Uma suntuosa caravana da monarquia austríaca com mais de cem pessoas a deixou nos limites entre os dois impérios, próximo a Estrasburgo onde ali esperava o séquito francês também numeroso e imponente.

Nesse ato de entrega a menina teve que despir-se de toda sua vestimenta, deixar todos os pertences austríacos e vestir-se com roupas francesas, numa cerimônia que estabelecia uma renúncia total ao seu país, inclusive ao idioma alemão e declarar obediência e fidelidade à corte de seu futuro marido. Não por acaso, naquela época de casamentos puramente por interesse, Maria Antonieta seria a tia-avó da também austríaca e que se tornou a princesa brasileira Dona Leopoldina, cuja biografia desvenda um dos personagens mais marcantes da história do Brasil. Ao contrário da tia, Leopoldina foi uma mulher culta, estudiosa, uma pessoa generosa, querida pelo povo e por vezes bastante ativa politicamente na corte brasileira. 

Em 2015 visitei o Palácio de Versalhes em Paris e durante a passagem por alguns das centenas de cômodos— impossível ver tudo num só dia—me pus a imaginar Antonieta vivendo ali, tendo seus filhos, num convívio nem tão difícil com o marido que era sua antítese—um homem retratado como um tanto débil, muito tímido e alienado—e com os todos os rigores e hipocrisias sociais,  familiares e palacianas. Talvez fosse injusto acusar de frívola uma mulher que apenas estava tentando viver, já que não teve direito a muitas escolhas na vida.

Imaginei as extravagantes e pródigas festas da monarquia, as decisões políticas tomadas ali frente à organização social da época, o trabalho exaustivo e pouco valorizado de toda a criadagem para alimentar e manter além da família real, a nobreza francesa, seres totalmente parasitas do Estado. Não por acaso, contrastando com a miséria do povo essa vida de iniquidades, ambições, esbanjamentos e ostentações culminaram numa revolução popular, inaugurando a Idade Contemporânea em 1789.

No entanto, simpatizei com a jovem Antonieta. Viver naquele mundo fechado representava a única vida que ela conhecia— limitada por muros e jardins palacianos, dentro da rigidez da época, com muito controle de tutores, da Igreja, sobretudo por sua condição de mulher  e tendo a vida particular completamente exposta ao público. Conta-se que ela foi a primeira vez numa festa no centro de Paris fugida da vigilância—junto com o marido—muitos anos depois de chegar a Versalhes.

Em sua biografia o autor conta também que o casamento só se consumou sete anos depois por inabilidade e imaturidade do jovem marido, ademais do dormitório do casal ser extremamente frequentado durante as 24 horas do dia.  Antonieta sentia-se muito incomodada com estes costumes atrasados dos franceses. Era obrigada a deixar-se vestir e desvestir todos os dias por pessoas desconhecidas. Era comum que pessoas da nobreza passassem por ali pelas manhãs a saudar os reis, a lhes fazer mesuras, assim como na hora do almoço ou jantar eles também terem assistência. Aos nobres era uma verdadeira honraria assistir as refeições dos monarcas, numa demonstração de puro servilismo e adoração.

Enfim, eram dois jovens alienados do mundo real, emocionalmente imaturos, forjados por e para o absolutismo, pensando ser divindades com poderes supremos, assim como até hoje alguns reis acreditam ou hipocritamente creditam sua posição privilegiada a um caráter divino.

Certamente Antonieta jamais se perguntou de onde vinha tanta abundância de comida e riquezas que tinha ao alcance da mão ou de uma simples ordem aos criados. Talvez nunca tenha olhado através das janelas para saber em que condições eles trabalhavam às centenas nos jardins, nas cozinhas, nas lavanderias, nas cocheiras. Seguramente ela não sabia quantos exerciam submissos suas funções mal pagas, somente à custa de comida e teto e alguns até felizes e honrados de seu servilismo.

Com que espírito e percepção da situação Antonieta, o marido e dois filhos—outros dois já haviam falecido crianças—fugiram, quando o povo faminto marchou até Versalhes e invadiu o palácio alguns meses depois da Queda da Bastilha dando início à Revolução Francesa? O que sentiu tempos depois quando foram todos presos—inclusive as crianças? O mais jovem e herdeiro denominado pela monarquia Luiz XVII acabaria morrendo aos 10 anos na prisão depois do assassinato dos pais pelas péssimas condições do cárcere. A filha mais velha na época com 13 anos foi a única sobrevivente, porque foi acolhida pela família austríaca.

Maria Antonieta passou quase quatro anos na prisão antes da sentença final num julgamento marcado por misoginia, calúnias, humilhações e privação do direito de defesa. Como seu marido, foi condenada à morte pela guilhotina, método aplicado na França sugerido pelo  médico J. Guillotin, que segundo ele, causava menos dor aos condenados. Teve seu martírio assistido por uma multidão na Place de la Concorde em Paris no dia 16 de outubro de 1793—alvorecer do século 19. Estava com 38 anos. Certamente é uma grande história de uma das mais importantes personalidades mundiais daquele final de século.


Aposentos de Maria Antonieta, Palácio de Versalhes
Arquivo Pessoal







sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Realeza irrealista



Alguma vez você já chamou seu filho(a) ou neto(a) de príncipe ou princesa? 

Se eles nasceram no final da década de noventa ou nos dois mil, origem e apogeu da exibição social proporcionada pelas redes, certamente que sim. Essa forma de nominar crianças e jovens  popularizou com o advento das redes sociais. Meu filho nasceu em 1981 e nunca meus pais, meus amigos e amigas que tiveram filhos na mesma época chamaram os seus assim— os netos, talvez. Hoje as crianças são fotografadas mal saem da barriga da mãe e já ganham seu título de nobreza. 

Segundo o dicionário Caldas Aulete, príncipe/princesa significa filho de reis, membro de família reinante, alguém que governa um principado e no sentido figurado, alguém que é o primeiro em mérito e talento ou pessoa que está sempre bem vestida, que é gentil e educada. Ainda, que é o primeiro ou principal, que está em primeiro lugar.

Obviamente, o adjetivo ou o pronome de tratamento não cabem no Brasil que é uma República há mais de cem anos. Pelo mundo restam poucas monarquias—a maioria tenta manter muita discrição— e o rechaço por esse tipo de regime só tende a crescer. O problema está— claro —no sentido figurado da palavra. O problema é reconhecer como estão se comportando ou se comportarão esses príncipes e princesas na vida adulta. Alguns, ao que tudo indica— embora sempre bem vestidos— passam longe de gentis e educados. 

À primeira vista a crítica pode parecer exagerada para algo aparentemente singelo, como decorar o quarto das crianças com adornos pomposos ou enfeitá-las com coroas e capinhas de pele. No entanto,  é preciso estar atento à educação que esses pequenos nobres estão recebendo. Alguns podem carregar para a vida uma percepção de família e de mundo equivocadas, quando tratados por um adjetivo que os distingue dos demais, pelo dinheiro que suas famílias possuem ou por características inerentes de distinção social que acreditam ser dotados. 

Exemplifico. Muitas pessoas acreditam que brancos são melhores que negros, que os ricos são melhores que os pobres, médicos pensam que são melhores que o restante de todas as profissões de saúde, alguns empresários pensam que são melhores que seus funcionários, cristãos acreditam que são melhores que todos os que professam outras religiões, ocidentais  que são melhores que orientais, alguns homens— incrivelmente— ainda pensam que são melhores que as mulheres, etc. 

Vejo um modo tirânico de ver a vida e uma permissividade quase patológica em alguns jovens e adultos que talvez passe despercebida pelas famílias e pela sociedade. Há uma supervalorização de egos aliado a essas percepções discriminatórias, à banalização das desigualdades sociais e a intolerância com a diversidade que faz com que não avancemos nesse terceiro milênio.

Nos últimos tempos temos tido exemplos realmente aterrorizantes de jovens e adultos, brasileiros de classe média e alta que apenas se vêm nesse mundo de individualidades, egocentrismos  e aparências. Ao que parece, recusam enxergar que o mundo não é só deles, que existem os outros e outras realidades fora de seus condomínios e dos centros comerciais.

Comecemos pelas atitudes na pandemia. Já foram muitas as histórias de negação ao isolamento social, recusa a usar máscaras e a adotar medidas de proteção nos locais públicos ou de respeitar o horário de fechamento de bares e restaurantes. Presenciamos muitas reações arrogantes desses nobres jovens e adultos proclamando a sua liberdade em detrimento da saúde de todos. 

Por conta de irresponsabilidade promoveram festas clandestinas e já provocaram a segunda onda da pandemia em diversos países. Muitos deles saíram às ruas, contrariando a ciência— mesmo estudados e diplomados—reagindo aos governos, cuja obrigação de conter a propagação do vírus e proteger a população lhes custa entender. Esses príncipes e princesas podem ter sido criados tão superprotegidos que acreditam estar imunes a tudo— inclusive às leis e às regras de boa convivência.

Muitos estão acostumados a dar carteiradas identificando-se como médicos, engenheiros, advogados, amigos de autoridades e ostentando sobrenomes, exigindo o cumprimento de seus desejos que, segundo o antropólogo Roberto Damata, no livro Carnaval, Malandros e Heróis é sintoma de uma cultura que tem aversão ao igualitarismo.

Outros adotam comportamentos em público sem atentar que as mínimas regras de convivência lhes impõem limites e diferenciam atitudes privadas de públicas por uma questão de respeito ao outro. Por exemplo, em alguns países o ato de arrancar flores de um jardim é atitude muito reprovável, assim como beijar em público em países islâmicos. Cometer esse tipo de atitude nesses lugares em nome de nossa liberdade é ignorar e desrespeitar pessoas e culturas. 

Trata-se de algo simples de entender para quem enxerga os outros além de sua individualidade, mas para a nossa nobreza brasileira arcaica e inculta resulta bem difícil. Segundo a jornalista Mariliz Pereira Jorge do canal My News esse tipo de  comportamento típico de Balneário Camboriú dos anos 90 é cafona e ultrapassado. Ela deve estar com a razão em relação ao balneário, porém cafona e ultrapassado são adjetivos bastante generosos para designar certas atitudes.

Fale com seu príncipe ou sua princesa sobre isso, enquanto ainda há tempo para que se tornem homens e mulheres de verdade.







 

sábado, 12 de setembro de 2020

Coincidências em Londres




Em seis anos vivendo na Europa fui uma única vez a Londres. Era novembro de 2014, meu marido e eu saímos do aeroporto de Lavacolla em Santiago de Compostela pelas sete da noite e chegamos passava um pouco das nove horas em Stansted, aeroporto mais afastado e mais ao norte de Londres. Dali tomamos um ônibus que nos deixaria na Estação Victoria no centro, distante uns 60 quilômetros do aeroporto. O trajeto de ônibus ao chegar à cidade contornava o Rio Tâmisa e já pudemos ver o Big Ben todo iluminado. Era uma noite fria e àquela hora as ruas e o trânsito ainda estavam movimentados.

Tínhamos uma reserva num hotel em Norfolk Square perto da Estação do Metrô de Paddington. Tomamos um táxi na Estação Victoria, um carrinho preto Mini Cooper tipo Mr.Bean e passamos o endereço do hotel a um motorista impaciente e pouco simpático. Foram pouco mais de três quilômetros e pagamos uma tarifa de 14 libras—hoje quase 100 reais. O hotel ficava em frente a uma simpática praça num conjunto de prédios típicos parecidos com os do filme Um lugar chamado Notting Hill e, preparados com nosso razoável inglês para viagem, nos identificamos, dissemos de onde vínhamos e a moça da recepção, percebendo nosso acento latino, disse:

Podeis hablar en castellano, soy de Madrid. Primeira coincidência de um mundo pequeno. Ou talvez nem tanta, depois eu vim a saber que desde a crise de 2008, milhares de espanhóis de todas as idades saíram do seu país em busca de trabalho e oportunidades em outros países da União Européia.

Tivemos problemas com a fechadura da porta do quarto e a moça madrilenha nos transladou para outro provisoriamente. O cômodo era um tanto estranho. Uma peça grande no térreo com o chão mais rebaixado, sem estar no subsolo, tinha um degrau logo na entrada da porta, duas camas de solteiro, aspecto úmido e frio, mas com boa calefação, um banheiro razoável e bastante silêncio.

O café da manhã era bem escasso segundo minha experiência com hotéis brasileiros, espanhóis e portugueses onde há sempre abundância de frutas, sucos e variedades de pães. Logo na entrada era preciso esperar o atendente e fazer pedido de suco, café ou chá. Eu queria suco e café, mas parece que não era possível. Pedimos café, claro. Em cima da mesa já estava um pequeno bule com leite frio, depois serviram na mesa outro bule enorme com um café fraco e fumegante. Havia um diminuto buffet com mais raridades como rodelas de tomate, pedaços de manga e laranja e—felizmente— uns mini-croissants quentinhos. Não fosse pelos croissants teria passado fome. Quem come tomate e manga no café da manhã?

Optamos por nos locomover de ônibus pela cidade para aproveitar os double-decker vermelhos londrinos—ônibus de dois andares—onde nos púnhamos sempre na parte de cima para observar a paisagem. As primeiras horas andando no trânsito foi um pouco nauseante, creio que desequilibra o aparelho vestibular—o labirinto—por causa da direção pelo lado esquerdo e os volantes do lado direito, mas depois logo acostumas. Bem, ao menos para quem não está dirigindo.

Foram quatro dias divertidos apesar do frio e do tempo cinzento. Alguns momentos caía um garoa fina e o dia se punha a escurecer antes das cinco da tarde, então tínhamos poucas horas de claridade para os passeios. Vimos quase todos os emblemas da cidade, o Big Ben, a Abadia de Westminster, a cerimônia de troca da guarda no Palácio de Buckingham, andamos pela Oxford Street, pelo Saint James Park, tiramos fotos em Picadilly Circus—um cruzamento de ruas famosas e conhecido pelo seus cartazes luminosos. Esquadrinhamos a Oxford Square molhada pela chuva da noite, almoçamos em frente ao London Eye— uma roda gigante de 135 metros também chamada Roda do Milênio— e fizemos um passeio de barco pelo Rio Tâmisa até Greenwich Park onde está o marco zero do meridiano de mesmo nome. 

De noite jantávamos fish and chips—peixe com batatas fritas— comprados nos inúmeros botequinhos take away—comida para levar—perto do hotel. Era uma opção mais barata que os almoços no centro. Uma manhã andamos ao longo do Rio Tâmisa até a London Brigde, uma das pontes mais bonitas e famosas do rio. Perto dali havia uma instalação com milhares de tulipas de cerâmica em comemoração aos 100 anos da Torre de Londres. A imagem era linda e impressionava a todos os visitantes. 

Um dia fomos até à Estação Saint Pancras encontrar um casal nosso conhecido da internet e passamos o dia com eles nos mostrando a cidade e tentando entender-nos, pois eles só falavam inglês ou pouquíssimas palavras em espanhol. 

Outro dia aproveitamos para passear em Candem Town e erramos a direção da volta, porque não estávamos acostumados à mão contrária do trânsito, acabamos indo em direção ao final da linha do bairro e tivemos que voltar. Mas tudo era aventura. 

Não houve tempo para conhecer Abbey Road e fazer a foto tradicional do disco dos Beatles, nem foi possível andar pelo Hide Park num dia de sol e tampouco tomar um café ou comprar artesanato em Covent Garden.

Numa das saídas do hotel pela manhã, já alojados em nosso quarto original no segundo ou terceiro andar—não me recordo— tomamos o elevador junto com outras duas pessoas. Os dois devem ter percebido nosso acento quando perguntamo-nos algo e a moça quis saber de que parte éramos da Espanha— de Galícia, dissemos ela também era. O rapaz deduziu que eu era brasileira, confirmei e ele disse que era de Santos, São Paulo. Todos rimos, porque era inusitada a situação. Alguns segundos de viagem num elevador foram suficientes para se reconhecerem dois galegos e dois brasileiros no meio de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. A linguagem e nossa capacidade de comunicação é algo maravilhoso.

Em Candem Town também encontramos com grupos de brasileiros, porém naquela época isso não configurava casualidade. Em anos anteriores e mais alguns dois ou três posteriores àquele 2014, os brasileiros viajaram muito e era normal encontrar grandes grupos, famílias ou casais em lugares turísticos pela Europa. Em praticamente todos os lugares que visitei sempre me chamava atenção o quanto ouvia pessoas falando em português do Brasil. 

Infelizmente, em 2018 muitos destes brasileiros preferiram sabotar-se e ajudar a conduzir o país para essa vergonhosa situação em que hoje se encontra. Agora com a Inglaterra fora da União Européia, o real sendo uma das moedas mais desvalorizadas do mundo, a libra custando quase 7 reais, esse passeio a Londres está restrito somente à brasileiros muito ricos. E só depois de passar a pandemia, porque muitos países estão com as fronteiras fechadas para viajantes brasileiros.





Insônia