Contos, crônicas, viagens, sentimentos, escrita criativa para inventar e curar a vida.
sábado, 6 de março de 2021
De hora em hora só o Brasil piora
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021
O lapso e a esperança
Sempre soube que as situações e circunstâncias da vida são incertas e impermanentes. E saber disso, de certa maneira me dava relativo controle sobre o incontrolável. Só que essa incerteza e impermanência era percebida para uma escala de tempo de maior grandeza, não dias e meses e sim anos, talvez décadas. Até aqui pouquíssimas coisas aconteceram de forma abrupta. O que vivo hoje é um momento de pausa e de espera agravado pela pandemia que todos, assim como eu, estão tentando escapar fazendo as manobras higiênicas para esquivar-se e sair vivo.
Nunca fui saudosista ou enaltecedora do passado. Sempre vivi na expectativa de um futuro que custava a chegar, característica dos ansiosos ou dos inquietos ou dos inconformados ou dos insatisfeitos com a impressão do presente sempre incompleto. Até que um dia o futuro chega e descubro que suas peculiaridades e atributos são exatamente esses, a pausa, a espera, a trégua, o recesso, a interrupção, um lapso no tempo.
Agora, nesse exercício forçado de travar a ansiedade— nem sempre negativa—sinto que deveria ter corrido com mais velocidade em busca do imaginado. Teria chegado antes e antes perceberia que aquele futuro era justamente o que buscava desde sempre, uma vida completa.
Hoje o que consola é que da mesma forma que as alegrias são fugazes, os reveses também. A vida se vive em ondas. Não tenho claro se tudo isso obedece uma ordem natural e energética de planos que nossa própria mente comanda. Todos querem estar saudáveis, ninguém tenciona adoecer. Dizem que se um organismo foi capaz de desenvolver uma doença, por que ele não seria capaz de desenvolver sua própria cura? Acaso a desordem tem mais poder que a ordem? O caos é maior que o arranjo?
E agora resta o tempo, vilão ou herói, ele dará as respostas. Enquanto isso, me agarro com a esperança. 🌷
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
Uma estrangeira há dois mil dias
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| Vista do Porto Deportivo de Combarro- arquivo pessoal |
Marlena de Blasi, chef e escritora americana radicada na Itália escreveu Mil Dias em Veneza, publicado em 2002 contando como se transferiu dos Estados Unidos para a Itália numa decisão baseada em amor. Li o livro em meados de 2009 e algo ali me parecia muito familiar, como um pressentimento.
Anos mais tarde fiz a mesma mudança de continente pelo mesmo motivo de Marlena e agora já passa de dois mil dias desde que me transladei de mala e cuia— literalmente— para esse paraíso chamado Galícia, extremo oeste da Península Ibérica, terra dos antigos celtas, das fadas, das Rias Baixas, dos mariscos, do Finisterra—o Fim da Terra— do galego, língua irmã do Português e de Combarro, um dos pueblos mais bonitos da Espanha.
Cheguei no último dia de verão de 2014, 21 de setembro— dos breves dias de calor e praia galegos— e começo da temporada gelada e úmida que dura mais ou menos até abril. Entrei no país com o passaporte visado pelo Consulado Espanhol de Porto Alegre e em seguida dei entrada nos documentos necessários para permanência: permiso de residencia—carteira de identidade de estrangeiro—empadronamiento—registro na prefeitura—conta em banco e linha telefônica.
Nos dois primeiros anos senti muita falta de antigos hábitos, de lugares, de pessoas, da família e até do trabalho do qual já me havia retirado. Felizmente já existiam os aplicativos de mensagem e os grupos aonde permaneci conectada e voltei ao Brasil todos os finais de ano para passar as festas. Apesar da saudade da família— preço a pagar por essas escolhas—seja uma constante, a falta de amigos, os costumes e o idioma foram desafios ora já superados.
O idioma
Logo que cheguei descobri um curso de Espanhol na Cruz Vermelha que, além de serviços médicos, presta atendimento à idosos, crianças, imigrantes etc. As aulas eram gratuitas, ministradas por voluntários e tinham como objetivo a inserção social dos imigrantes em seu novo país. Ali conheci pessoas de vários lugares. A maioria eram mulheres de nacionalidade marroquina que fazem parte de uma grande comunidade aqui na Espanha.
Além delas conheci também dezenas de brasileiros que nos últimos anos haviam emigrado para a Península em busca de oportunidades de trabalho, estudos ou pelo casamento. Este curso porém, não foi muito efetivo para meu aprendizado, porque meus colegas de língua árabe exigiam um ritmo mais lento, mais atenção dos professores e não avançávamos muito. No entanto, esse convívio foi uma rica troca de experiências com outras culturas, com gente muito querida e divertida.
Na verdade, meu primeiro contato com a língua foi mais custoso, porque aqui coexistem dois idiomas oficiais, o castelhano e o galego e no início não os distinguia bem. O galego é similar ao português, porém tem uma entonação muito diferente e a escrita me parece uma mistura de português antigo com castelhano. Faz parte do currículo escolar, todos entendem, mas nem todos falam. Há um certo preconceito por parte da sociedade que se recusa a falar em galego, pois considera uma língua de pueblo— linguajar de interior. A ditadura franquista—que durou quarenta anos até 1978—não reconhecia o idioma, o que obrigava as pessoas a falar somente em castelhano. Porém, nas últimas décadas isso mudou, existem canais de televisão transmitidos em galego, o povo adquiriu mais segurança no falar e os jovens são incentivados a ter orgulho do idioma de sua terra.
Assim eu pouco entendia os nativos e eles também não me entendiam. Fui educada em meio à ditadura militar, onde a língua Inglesa era mais valorizada e não havia a disciplina de Espanhol. Nós, brasileiros acostumados a estar de costas para nossos vizinhos sul-americanos, parece que desconsideramos a cultura vizinha. Preferimos cultivar apenas vazias rivalidades no futebol em detrimento do saudável intercâmbio social e cultural. Isso faz com que muitos brasileiros pensem que é fácil comunicar-se nos países de língua espanhola bastando puxar aquele famoso portunhol. Não é verdade.
Passei a assistir telejornais, novelas, séries e filmes, prestando atenção até na publicidade para acostumar o ouvido. Nos primeiros tempos, quando precisava ir à lojas ou supermercados levava as frases memorizadas. Mais tarde, após deixar o curso na Cruz Vermelha, decidi preparar-me sozinha para as provas de certificação de nível A2 em espanhol pelo Instituto Cervantes—uma das exigências para entrar com o pedido de nacionalidade espanhola. Agora leio e compreendo perfeitamente os dois idiomas oficiais, mas como segui falando português em casa e fiz muitas amizades brasileiras não adquiri fluência, embora use naturalmente muitas palavras em espanhol no meio das frases.
A Gastronomia
Meu marido trabalhava de oito às três da tarde, então me incumbi de cozinhar. Precisava manter meu horário de almoço até, no máximo à uma da tarde como o hábito brasileiro. Os espanhóis costumam almoçar por volta das 3— mas nunca me adaptei. Inclusive alguns pequenos comércios fecham nessa hora para reabrir das 5 às 9 da tarde—mesmo no inverno, quando o dia se faz noite, eles chamam tarde até pelas 22 horas.
Tive um pouco de dificuldade para adaptar-me com a comida, não que eu exigisse muito, mas carne, feijão e arroz tiveram que ser substituídos por peixes, mariscos, batatas e verduras em pratos bastante simples e únicos. Estamos acostumados no Brasil com uma variedade de iguarias nos buffets à quilo e por isso me resultava estranho preparar somente um ou dois pratos acompanhado de fatias de pão, ítem obrigatório.
Eu procurava substituições por outros ingredientes que pudessem adaptar-se aos pratos que estava acostumada, mas na prática não dava muito certo. Foi difícil, por exemplo, substituir a banana-prata—meu alimento favorito no café da manhã— pelo plátano das Ilhas Canárias, um fruto maior e menos doce, mas o café solúvel de sempre e o pão de barra tradicional galego equilibraram os meus sentidos.
O arroz mais popular é um tipo integral de grãos redondos ou de aspecto quebrado muito usado nas típicas paellas—prato de arroz caldoso com frango e mariscos— que se quisermos cozinhar como o arroz no Brasil não há maneira de ficar solto. Tempos depois, uma amiga brasileira me apresentou o arroz Basmati tailandês, um tipo de arroz muito branco e fininho que cozinha rápido e sempre fica soltinho.
O feijão preto está sempre disponível nos supermercados, mas não é costume. Aqui preferem o feijão branco, aquele grão maior, para fazer fabada—prato típico asturiano com linguiça— ou nas saladas. Outro grão muito apreciado são os garbanzos — grão de bico— que é cozido como se fosse feijoada com muitas carnes e especiarias.
A yuca é um tubérculo como a mandioca, cozinha muito rápido, vem da América envolta em parafina para não estragar e é muito fácil de descascar. Também está disponível nas fruterías a papaya—mamão— também uma planta tropical. Ambos não são produtos baratos, mas são encontrados facilmente. Embora tenha trazido os apetrechos—cuia e bomba— para tomar chimarrão, não me animei a experimentar a única marca de erva-mate que encontrei por aqui— a argentina Cruz de Malta. Tanto que abandonei o hábito.
Enfim, era preciso adaptar frutas, verduras e legumes mais usados aqui e empreender a mudança para o consumo de pescados— opção audaciosa para quem estava acostumada a comer peixe só na Sexta-Feira Santa— e um caminho resignado para a sobrevivência, o menor dos males. Torço para que os nutricionistas não voltem atrás nas recomendações de gorduras ômega-3— presente nos peixes— para a saúde do coração e do sistema circulatório.
As pescaderias e as lonjas —postos de venda de pescado direto das cooperativas de pescadores ao consumidor—possuem sempre grande variedade, aonde diariamente chegam peixes frescos como merluzas brancas ou rosas, atum, rape, bacalhau, raia, sardinha, jurel, cavala, rapante, linguado etc. Aprendi a comer mariscos, aqui muito apreciados como pulpo, mejillones, calamares, chocos, langostinos, cigalas, almejas, berberechos e zamburiñas. Hoje já não me faz falta comer arroz e carne todos os dias, que foram substituídos por ovos, batatas, legumes variados ou massa e peixe intercalando com frango.
Pelas tardes adquiri o hábito de frequentar cafeterias, costume muito arraigado aqui, onde as pessoas estão desde o café-da-manhã—nas milhares que existem em todos os lugares—antes de irem para o trabalho. Esses locais têm por tradição oferecer um petisco grátis—um pincho—tanto se pedes um café ou uma bebida. Os pinchos podem ser desde frutos secos, batata chips, pequenos churros, um pedaço de bolo, uma bolachinha industrializada ou até um doce cheio de creme. Um verdadeiro perigo para o sobrepeso.
Às vezes éramos convidados para jantar em casa de amigos espanhóis e ali as curiosidades eram muitas. Os pratos podiam ser churrasco de solomillo—picanha— ou chuletón, ambos feitos com pouco sal e malpassados para meu paladar. Uma noite havia arroz com bogavante—um tipo de lagosta—e me custou comer aquele bicho que antes tinha visto mover-se na panela. Nunca faltava a tortilla de patata—o prato genuinamente espanhol— ou as batatas fritas com pimentão, pão, cerveja ou vinho. No final, para fazer a digestão, uns vermutes, café com leite ou chá de camomila—manzanilla.
O Contraponto
Galícia tem uma área territorial semelhante ao Estado de Alagoas— segundo menor Estado brasileiro— com menos de 30 mil km². Possui um deslumbrante relevo costeiro e uma paisagem verde, fértil e abundante no interior, faz bastante frio e chove muito no inverno. As cidades possuem uma coleção de parques, praias e pistas de caminhada que favorecem e estimulam o exercício físico e a higiene mental pelo contato com um dos cenários mais bonitos do mundo.
Tínhamos por hábito sair todas as tardes para conhecer lugares diferentes, explorar um lugar turístico, um castelo medieval, uma festa de pueblo, uma praia de mar aberto, um porto marítimo, um sendero pouco conhecido, um mirante e os centros históricos sempre cheios de gente como os de Pontevedra, Vigo, Santiago de Compostela ou A Coruña lindas cidades que dariam um capítulo à parte desta narrativa.
Vexames recreativos
O Brasil é um lugar inigualável para bizarrices na política, embora na vida em sociedade também não lhe escape fatos anômalos, que em outros países seriam tratados com muito mais seriedade.
O fato de políticos serem flagrados pela polícia escondendo dinheiro debaixo das roupas ou em malas dentro de apartamentos vazios não é novidade. Os criminosos de gravata conseguem façanhas insuperáveis em montante e criatividade se comparados com ladrões comuns que são rapidamente encarcerados em flagrante delito e assim mantidos povoando as prisões.
Um faminto roubando comida num supermercado, um usuário de drogas assaltando pedestres, ladrões de bancos ou veículos parece que provocam mais revolta na opinião pública do que os atos criminosos dos senhores de Brasília ou de quaisquer outros cargos eletivos, protegidos, para o bem da democracia—mas valendo-se da malversação— pela imunidade que lhes confere o artigo 53 da Constituição Federal.
Além da imunidade esses distintos senhores que, entre outras qualidades se intitulam patriotas e cristãos—mesmo portando dinheiro público em espécie e de finalidade questionável— aproveitam-se do espírito jocoso, bem-humorado, abstraído da realidade e da memória curta dos brasileiros calejados de tanta impostura e assaltos aos cofres públicos.
Assim, por breve tempo, o senador com dinheiro nas partes íntimas é alvo de piadas, memes, vídeos, mensagens instantâneas que infestam as redes sociais e os veículos de comunicação de divertimento e perda de tempo, sem que haja uma linha de desprezo e repúdio por parte de seus pares ou da instituição da qual faz parte. Sequer há um pedido de afastamento e de aclaração do assunto por parte do próprio senador perante, ao menos, aos eleitores de seu Estado.
A bem da verdade é bem difícil explicar tanto dinheiro em espécie fazendo volume entre as nádegas do distinto senhor. Fosse uma mulher teria a opção do sutiã, local mais digno onde pequenas notas podem ser camufladas. Mas não era uma mulher, tampouco eram poucos reais. Num país sério, honradez e retidão de caráter seria o mínimo exigido de um homem público e é intolerável para os racionais tamanha falta de decoro e descaramento. No entanto, o sistema político brasileiro banaliza os fatos, abraça o corporativismo, não age com presteza e rigor e persiste dando margem para que o povo associe sempre política com vigarice.
Vivemos num país escaldado pelas rudezas, pela sordidez e o cinismo de homens públicos, escolhidos pelo povo, muitas vezes de maneira desvirtuada e irresponsável, segundo interesses de uma minoria e fora do interesse coletivo. O dito senador talvez seja afastado num processo moroso e dissimulado, mas seguramente voltará ao parlamento ou será convidado para exercer outro cargo público. Precisamos aprender a votar? Sim, é preciso aprender, mas antes de tudo, há lições mais importantes a serem aprendidas pelos parlamentares e instituições. Eles devem respeito às leis, aos eleitores, ao patrimônio público que deve continuar público e à população que tem o direito de não ser eternamente expoliada e enganada. Parece simples e elementar, mas essa é a utopia brasileira.
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
A janela de Maria Antonieta
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| Janela dos aposentos de Maria Antonieta, Palácio de Versalhes Arquivo Pessoal |
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| Aposentos de Maria Antonieta, Palácio de Versalhes Arquivo Pessoal |
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Realeza irrealista
Alguma vez você já chamou seu filho(a) ou neto(a) de príncipe ou princesa?
Se eles nasceram no final da década de noventa ou nos dois mil, origem e apogeu da exibição social proporcionada pelas redes, certamente que sim. Essa forma de nominar crianças e jovens popularizou com o advento das redes sociais. Meu filho nasceu em 1981 e nunca meus pais, meus amigos e amigas que tiveram filhos na mesma época chamaram os seus assim— os netos, talvez. Hoje as crianças são fotografadas mal saem da barriga da mãe e já ganham seu título de nobreza.
Segundo o dicionário Caldas Aulete, príncipe/princesa significa filho de reis, membro de família reinante, alguém que governa um principado e no sentido figurado, alguém que é o primeiro em mérito e talento ou pessoa que está sempre bem vestida, que é gentil e educada. Ainda, que é o primeiro ou principal, que está em primeiro lugar.
Obviamente, o adjetivo ou o pronome de tratamento não cabem no Brasil que é uma República há mais de cem anos. Pelo mundo restam poucas monarquias—a maioria tenta manter muita discrição— e o rechaço por esse tipo de regime só tende a crescer. O problema está— claro —no sentido figurado da palavra. O problema é reconhecer como estão se comportando ou se comportarão esses príncipes e princesas na vida adulta. Alguns, ao que tudo indica— embora sempre bem vestidos— passam longe de gentis e educados.
À primeira vista a crítica pode parecer exagerada para algo aparentemente singelo, como decorar o quarto das crianças com adornos pomposos ou enfeitá-las com coroas e capinhas de pele. No entanto, é preciso estar atento à educação que esses pequenos nobres estão recebendo. Alguns podem carregar para a vida uma percepção de família e de mundo equivocadas, quando tratados por um adjetivo que os distingue dos demais, pelo dinheiro que suas famílias possuem ou por características inerentes de distinção social que acreditam ser dotados.
Exemplifico. Muitas pessoas acreditam que brancos são melhores que negros, que os ricos são melhores que os pobres, médicos pensam que são melhores que o restante de todas as profissões de saúde, alguns empresários pensam que são melhores que seus funcionários, cristãos acreditam que são melhores que todos os que professam outras religiões, ocidentais que são melhores que orientais, alguns homens— incrivelmente— ainda pensam que são melhores que as mulheres, etc.
Vejo um modo tirânico de ver a vida e uma permissividade quase patológica em alguns jovens e adultos que talvez passe despercebida pelas famílias e pela sociedade. Há uma supervalorização de egos aliado a essas percepções discriminatórias, à banalização das desigualdades sociais e a intolerância com a diversidade que faz com que não avancemos nesse terceiro milênio.
Nos últimos tempos temos tido exemplos realmente aterrorizantes de jovens e adultos, brasileiros de classe média e alta que apenas se vêm nesse mundo de individualidades, egocentrismos e aparências. Ao que parece, recusam enxergar que o mundo não é só deles, que existem os outros e outras realidades fora de seus condomínios e dos centros comerciais.
Comecemos pelas atitudes na pandemia. Já foram muitas as histórias de negação ao isolamento social, recusa a usar máscaras e a adotar medidas de proteção nos locais públicos ou de respeitar o horário de fechamento de bares e restaurantes. Presenciamos muitas reações arrogantes desses nobres jovens e adultos proclamando a sua liberdade em detrimento da saúde de todos.
Por conta de irresponsabilidade promoveram festas clandestinas e já provocaram a segunda onda da pandemia em diversos países. Muitos deles saíram às ruas, contrariando a ciência— mesmo estudados e diplomados—reagindo aos governos, cuja obrigação de conter a propagação do vírus e proteger a população lhes custa entender. Esses príncipes e princesas podem ter sido criados tão superprotegidos que acreditam estar imunes a tudo— inclusive às leis e às regras de boa convivência.
Muitos estão acostumados a dar carteiradas identificando-se como médicos, engenheiros, advogados, amigos de autoridades e ostentando sobrenomes, exigindo o cumprimento de seus desejos que, segundo o antropólogo Roberto Damata, no livro Carnaval, Malandros e Heróis é sintoma de uma cultura que tem aversão ao igualitarismo.
Outros adotam comportamentos em público sem atentar que as mínimas regras de convivência lhes impõem limites e diferenciam atitudes privadas de públicas por uma questão de respeito ao outro. Por exemplo, em alguns países o ato de arrancar flores de um jardim é atitude muito reprovável, assim como beijar em público em países islâmicos. Cometer esse tipo de atitude nesses lugares em nome de nossa liberdade é ignorar e desrespeitar pessoas e culturas.
Trata-se de algo simples de entender para quem enxerga os outros além de sua individualidade, mas para a nossa nobreza brasileira arcaica e inculta resulta bem difícil. Segundo a jornalista Mariliz Pereira Jorge do canal My News esse tipo de comportamento típico de Balneário Camboriú dos anos 90 é cafona e ultrapassado. Ela deve estar com a razão em relação ao balneário, porém cafona e ultrapassado são adjetivos bastante generosos para designar certas atitudes.
Fale com seu príncipe ou sua princesa sobre isso, enquanto ainda há tempo para que se tornem homens e mulheres de verdade.
sábado, 12 de setembro de 2020
Coincidências em Londres
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