sábado, 4 de janeiro de 2025

2025

 

Foto: Pinterest

Essa noite eu tive um sonho. 2025 tinha desistido de sua estreia e era 2008 de novo. Não entendi o porquê de voltar 17 anos atrás. Terá sido 2008 um ano cabalístico, com um significado oculto? Ou só um número aleatório? Foi bom ver algumas pessoas conhecidas bem mais jovens, saudáveis, outras vivas e alegres. Eu não me vi, pois protagonizava aquele delírio noturno, mas sentia que os 17 anos tinham passado em meu espírito, alojados à força, a despeito da rebeldia do 2025.

A humanidade se curva ao tempo, mas no meu sonho pela primeira vez o tempo se curvou à humanidade. Posso até imaginar, o clichê Bebê 2025 espiando o Senhor 2024 antes da meia-noite e vacilando se nascia ou não. Bem, anos não nascem como bebês, são imateriais, mas este talvez tivesse certa racionalidade humana(?), certo sentido de prudência, sensatez e clarividência. É isso, clarividência.

A despeito dos melhores augúrios para 2025, ele próprio não estava convencido. Os anos anteriores, principalmente de 2020 em diante, ano da pandemia, não foram propriamente alvissareiros, só para lembrar um passado recente. Acho que também estou me recusando a deixar passar o tempo usando termos que quase não se escutam mais. É a mania de ler os clássicos.

2025 assustou-se que em seu nome pudesse ficar registrado mais selvageria de humanos contra humanos, um capitalismo mais exacerbado, um fascismo desavergonhado, tentando derrubar jovens democracias. Tudo isso alinhado com o surgimento de lideranças políticas associadas ao reacionarismo cada vez mais popular e o fundamentalismo religioso emergindo das cinzas da idade das sombras. O tempo já andava aturdido com o crescimento das estatísticas do individualismo social, da depressão e da ansiedade controlando as mentes, com a iminência de desastres ambientais cada vez mais destruidores e da forte probabilidade de uma terceira guerra mundial. Por isso o compreensível vacilo.

Somente espíritos livres e desprendidos são capazes de ter esperança na humanidade. Até a esperança é usada como objeto de marketing para vender coisas nessa época do ano. Eu não tenho esperança. Não sou livre, nem desprendida, sou presa a toda sorte de medos, incertezas e o consumo às vezes supre minhas fragilidades. Pensando bem, não seria má ideia voltar a 2008. Eu poderia corrigir erros, evitar ou traçar outros caminhos, persistir e lutar ao invés de fugir. Mas tudo não passou de um sonho, óbvio.

2025 está aí e é preciso encarar, como encaramos todos os outros. O tempo não para, a cada batida desse teclado é um segundo a menos e a vida continua. De qualquer maneira há uma vida para viver! Para muitos nem isso resta ou restará.
Mesmo sem esperança, um pouco de sonho nos faz humanos e para mim é a única alavanca para continuar. Como diz Milton Nascimento: "É preciso ter sonho sempre"...pois, "quem trás no corpo essa marca possui uma estranha mania de ter fé na vida" .
Feliz Ano Novo!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

O Caderno, escritos do amanhecer




Queria escrever no teu caderno. Naquele que resgatei, antes de ser largado no lixo. Fiz isso talvez, digo talvez, por uma súbita intuição de desfecho.

Queria ler e juntar teus pensamentos com os meus, misturando as letras e os manuscritos. Queria poder juntar nossas inspirações, talvez criar um romance, um conto, uma narrativa breve que seja, mesmo que tenhamos estilos diferentes e tua criatividade vá muito além da linguagem e do meu amadorismo.

Queria misturar nossos traços, rascunhos,  já quase ilegíveis, formados numa infância onde se fazia caligrafia— isso já faz tanto tempo!—até produzir um texto ao menos coerente e coeso como mandam as leis da escrita. Ou não, pois ainda busco a licença poética dos artistas, que têm liberdade com as palavras, ao contrário das palavras ditas que podem ser a nossa desgraça.


Eu precisava do caderno, não para descobrir teus segredos, mas para ter o privilégio de escrever de meu punho, junto ao teu, naquelas folhas amarradas em espiral com uma capa que lembra sempre que a Arte Salva.


Mas agora só resta mesmo a materialidade de um caderno. Tuas mãos, tuas canetas e tuas ideias estão longe dele e de mim e pouco ou nada ficou a salvo—dúvida cruel— a não ser nas memórias das conversas, dos risos, do aconchego, do prazer e nas imagens digitais. Memórias em geral são tristes e doloridas na mesma proporção da felicidade concreta. Mesmo assim, são necessárias, pois compõem a jornada da vida, que alterna amargos e doces períodos, como bem escreveu Cervantes há séculos.


Esse encontro de escrever seria lindo, mas a nossa brevidade impediu a escrita de uma longa história. As páginas que estavam em branco continuarão em branco, a não ser por uma pequena tentativa de intertextualidade com uma única reflexão pessoal tua em meio à anotações científicas. Ao menos, meu manuscrito ficará ali, perto do teu e a capa colorida da coleção de casarios para sempre, recordando a arte, o artista e a minha estupidez.    


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

O Morro do Caracol

Foto: Rua Cabral, Barão de Ubá ao fundo e o Mato da Vitória à esquerda
Arquivo Pessoal

O povoamento de uma pequeníssima área do bairro Bela Vista em Porto Alegre, mais especificamente nas ruas Barão de Ubá que vai desde a rua Passo da Pátria até a Carlos Trein Filho e a rua Cabral, que começa na Ramiro Barcelos e termina na Barão de Ubá, está historicamente relacionado com a vinda de algumas famílias oriundas do município de Formigueiro, região central do Estado do Rio Grande do Sul. 


O início dessa migração, provavelmente, ocorreu no final da década de 40, início dos anos 50, quando o bairro ainda não havia sido desmembrado de Petrópolis e aquele pequeno território era chamado popularmente Morro do Caracol. Talvez tenha sido alcunhado por esses mesmos migrantes ao depararem-se com aquele tipo de terreno. Quem vai saber!


O conceito em Wikipedia de que o bairro Bela Vista é uma zona nobre da cidade, expressão usada para lugares onde vivem pessoas de alto poder aquisitivo, pode ser aplicado apenas para um passado recente e para o presente.  O lugar foi sempre inquestionavelmente uma zona residencial, mas delimitando no tempo estas duas ruas em particular e outras no entorno, como a Jaraguá e a Passo da Pátria eram formadas em sua maioria por construções baixas de madeira ou tijolos, sobrados de dois pavimentos,  propriedades de trabalhadores e alguns pequenos comércios.  No entanto, na parte mais alta do Morro as construções, aí sim eram mais ostentosas,  havia muitos palacetes, como as pessoas costumavam chamar, construções maiores, com grandes áreas de terrenos murados e ajardinados, seguindo padrões da arquitetura de décadas anteriores.


A única menção a Caracol encontrada em buscas pela internet, foi em Praça do Caracol ou Praça Carlos Simão Arnt ou Praça da Encol, localizada na atual Avenida Nilópolis e inaugurada pelos idos da década de 80. A título de curiosidade pessoal, Encol foi uma grande empresa de construção civil brasileira que “adotou” a área da tal praça (sic) e mais tarde entrou em decadência nos anos 90 por um processo de falência.


O Morro do Caracol foi assim chamado pelos residentes evidentemente pela sua geografia e relevo, localizado numa parte alta da cidade com suas ruas desenhadas sob o formato de várias curvas muito fechadas que lembravam um caminho em espiral ou em zigue-zague. Dava impressão, e se confirma verificando mapas atuais, que a cada curva as ruas mudavam de nome, mas de maneira geral o nome do lugar era reduzido a simplesmente Morro ou Caracol pela vizinhança e pelos visitantes daquele microcosmo.


Segundo levantamento, ao menos vinte casais com raízes formigueirenses— chegados em diferentes tempos e por diferentes razões— fixaram residência distribuídos entre as ruas Barão de Ubá —que foi um português radicado no Rio de Janeiro, político, comerciante de couros e charque gaúchos e escravagista do século XIX— e a Rua Cabral, nosso “descobridor”, que dispensa apresentação. Salvo exceções, o Brasil nunca foi muito feliz, tampouco democrático ao nomear lugares públicos; os logradouros homenageiam em sua maioria homens de reputação duvidosa ou claramente já desmascarados. Há um rol de militares, ditadores, golpistas, torturadores, etc. Mas esse é outro assunto.


Conforme depoimento de pessoas que viveram ali na época, essa migração para a capital do Estado ocorreu pela busca de melhores condições de vida, emprego e em muitos casos para proporcionar educação formal aos filhos menores e/ou adolescentes já que a maioria dos adultos só havia feito até a quinta série do ensino primário, que era o que estava disponível na zona rural. Muitos venderam suas propriedades em Formigueiro e investiram na compra de casa própria no Bela Vista que naquela época florescia. 


Alguns destes adultos talvez tiveram a oportunidade de seguir com os estudos, principalmente os homens que tinham mais liberdade de escolha. As mulheres daquela geração, todos sabemos, ficavam restritas à criação dos filhos e ao cuidado da casa. No entanto, muitas delas não só complementavam a renda, mas certamente agregavam importante aporte para a economia familiar desde que realizassem trabalhos exclusivamente femininos como cozinhar, fazer doces, lavar, passar, costurar e/ou reparar roupas sob medida.


Há um relato de que antes da mudança de Formigueiro para Porto Alegre, uma das mães de família estava mais pesarosa por ter que abandonar suas belas panelas de barro com que cozinhava no fogão à lenha do que ter que deixar a casa no seu lugar de nascimento. Imagino que ela foi mais persuadida do que ter ficado convencida de que na Capital poderia ter panelas de alumínio e fogão à gás, belas modernidades da época, as quais ela não estava familiarizada. 


Certamente, nenhuma mulher teve voz nessas decisões tão importantes que cabiam só aos homens. O único que lhes restava era aceitar e acompanhar seus maridos e filhos fosse como fosse. Ideais feministas passavam longe dali e ainda hoje no século XXI andamos às voltas ora avançando, ora retrocedendo. Mas isso também é outro assunto.


Agora explico minha relação com o Morro do Caracol. Começa com a mudança de minha família, quando eu tinha não mais que três anos de idade, no início da década de 60. Vínhamos de Canoas, depois que meu pai vendeu a casa onde morávamos com a finalidade de mudar para mais perto do trabalho dele. Era taxista e minha mãe, dona-de- casa, já com duas filhas pequenas, a terceira nasceria 10 dias antes do golpe militar de 1964 e o único menino viria em 1967. Anos mais tarde, em 1974, nasceu uma menina “temporona", mas ela faz parte da história de outros lugares.


 Meu pai tinha um “auto de praça” como costumavam chamar os táxis naquela época. O ponto ficava na popularmente chamada Praça do Triângulo, nome nunca oficializado por questões burocráticas do plano diretor de Porto Alegre. Desde 1966, a tal praça (uma pracinha, na verdade) se chama Marquesa de Sévigné que fica no entroncamento das ruas Lima e Silva, Coronel Genuíno, André da Rocha e Fernando Machado. O automóvel era um modelo Ford Mercury verde-claro da década de 50 e a mim parecia enorme, quando ele nos levava de passeio de vez em quando para o Parque Saint Hilaire(?) ou para um almoço de domingo em algum restaurante no caminho para a Serra Gaúcha. Visualizando a praça recentemente não pude entender como estacionavam os táxis ali naquele espaço tão diminuto.



Foto: Arquivo pessoal

Fomos morar em um dos apartamentos do número 1500, um sobrado branco da Rua Cabral. O prédio é dos poucos ou é o único que resta ainda daquela época, com a diferença que está todo gradeado e pintado de um tom verde oliva. A vizinhança, como mencionei no início, era de muitas famílias amigas e parentes oriundas da cidade natal de meus pais, Formigueiro. Sobrenomes como Cassol, Simões Pires, Wegner, Scherer, Machado, Kessler, Becker, Zambon, Tonelotto, Meleu e Santos— além de Brum e Silva, minha família direta— são muito conhecidos meus, lembro das pessoas, tanto dos adultos como das “crianças” que, como eu, são da geração baby boomers. 


Uns anos mais tarde nos mudamos para outra casa também no Bela Vista, número 363 da rua Amélia Teles (eis aqui uma exceção, um nome de mulher) onde meu pai teve uma mercearia. As impressões sobre esse endereço já descrevi longamente noutro texto, cheio de cheiros, gostos, tatos e acontecimentos. Ali moramos até 1970, quando meus pais decidiram retornar para o interior do Estado. Por isso, eu nunca tinha ouvido falar na Praça da Encol, e a “rua” Nilópolis me lembra só um campinho de futebol. 


A decisão de voltar para o interior afetou toda a família. Só depois de adulta pude sentir o quanto perdi— ou perdemos— por termos saído da cidade que foi minha grande referência de infância, onde morei exatamente até os 12 anos de idade. Sei quais foram as razões de meu pai, respeito e nunca falei sobre isso com ele. E essa mudança de cidade foi só o começo das dezenas de lugares que passei a viver a partir da adolescência e idade adulta. Inclusive também passei alguns anos morando fora do Brasil recentemente. 


Talvez seja uma sina, mudar e mudar, mas quase nenhum lugar me trás mais memórias afetivas do que o Caracol. Ir para a escola com o ônibus da linha Bela Vista, descer a Protásio de bonde, ir ao cinema com uma prima mais velha, receber o carinho dos adultos, passear na Redenção, ouvir o barulho dos carrinhos de lomba dos meninos descendo a calçada, jogar amarelinha— que chamávamos “sapata”— com as meninas da vizinhança e a memória de uma enorme fogueira de São João no meio da rua são detalhes muito bem guardados.


Espero que alguns leitores se identifiquem, principalmente os da turma da Barão, Cabral e adjacências e possam trazer mais informações, histórias ou corrigir dados que possam estar equivocados—afinal, as impressões e memórias aqui relatadas são infantis— e assim recontarmos sobre esse canto de mundo, sobre essas pessoas, sobre esse tempo, sobre esse lugar pelo qual guardo tanta lembrança e benquerença.


Foto: Arquivo pessoal

quarta-feira, 15 de maio de 2024

A devastação




Quando calamidades coletivas acontecem como foi na pandemia de Covid-19 e agora na devastação provocada pelas enchentes do Rio Grande do Sul, nos primeiros dias eu travo, fico bloqueada pelo impacto e pelo temor de que possa vir algo ainda maior e pior, pois o evento está em andamento. Imagens chocantes chegam de todos os lados, os fatos vão se desencadeando, como dominós caindo—no caso casas, estradas, pontes, pessoas, animais, plantações. O medo e a angústia tomam conta. Ouvir o barulho da chuva durante a noite já não é reconfortante, é gatilho de terror.  Me recuso a ler comentários de rede social, só busco informação em canais oficiais de jornalismo. Sou leiga no assunto, por isso nessas horas não leio achismos, maledicências, calúnias, discursos de ódio e principalmente não quero saber que fake news andam espalhando. Eu travo mesmo, não consigo organizar as ideias para escrever alguma coisa sobre ou simplesmente desmentir absurdos. Os mal-intencionados não deixarão de ser mal-intencionados. Devem, sim ser responsabilizados por seus atos.

Hoje com a volta do sol, sim, é claro que o sol sempre volta, só o que eu posso avistar é um longo período de ação e reflexão que se avizinha, aos menos entre os mais ajuizados e sensatos. Sim, acho que eles existem. E entre eles estão os voluntários, os cientistas e os funcionários públicos que estão na linha de frente, salvando vidas, tentando reduzir danos e já estudando formas para que eventos dessa gravidade não aconteçam de novo. Porém, há relatos de pessoas que já passaram por inúmeras situações semelhantes— há que lembrar dois eventos significativos na Serra Gaúcha ocorridos há menos de um ano e outras inundações pontuais em localidades de moradia de populações vulneráveis e invisíveis para o senso comum.  E isso nos revela que as ações sempre foram só paliativas. 

Obviamente diante do tamanho da desgraça, a solidariedade e o espírito de caridade despertam a população, e são muito importantes, pois há necessidades básicas a serem supridas. Mas tudo isso a longo prazo acaba diluindo, porque essas ações não mudam a vida das pessoas, logo ali pode vir tudo de novo, e arrasa com tudo, de novo. Como veio para a região do Vale do Rio Taquari.

 A água é democrática e pelo princípio físico dos vasos comunicantes atingiu lugares nunca antes atingidos. Varreu áreas enormes. Os desaparecidos vão começar a aparecer sob a forma de corpos quando a água baixar. Porto Alegre e região me parece que poderá virar um grande campo de refugiados. Sim, é um achismo, mas não consigo enxergar algo mais do que lonas espalhadas em alguma zona seca, similar às zonas de guerra, quando as águas baixarem e as pessoas não poderão ou serão impedidas de voltar às suas casas—as que estiverem em pé— e obviamente lugares classificados agora, inegavelmente, como áreas de risco. 

Espero que a ambição e a arrogância de parte do povo gaúcho— nem todos são anjos protetores nessa hora— sejam reconhecidas como partes do problema. Muitos são responsáveis pelo não cumprimento de normas, regras, resoluções ambientais, etc. A negligência parece que está no DNA de nós sul-americanos, quando a máxima tão difundida no tempo das colônias hispano-americanas "Se acata, pero no se cumple" campeia não só no Rio Grande do Sul, mas pelo Brasil afora. É só lembrar de Brumadinho, do acidente radiológico com Césio 137 em Goiânia, das enchentes nas serras carioca e paulista, do rompimento da Barragem de Mariana, etc. com as devidas diferenças entre as características de cada evento.

Espero que tudo isso ao menos sirva de lição, mas à custa de muito sofrimento e desolação, como sempre.


quinta-feira, 14 de março de 2024

A lâmpada mágica

 

Foto: Pinterest

Em um distante povoado de algum lugar vivia um povo infeliz, mas em perfeita ordem. O governador não permitia sonhos, então eles iam dormir quando as lâmpadas das ruas se acendiam e levantavam quando elas se apagavam. Quando as lâmpadas estavam acesas não se via o céu e o povo que ali vivia nunca tinha visto o brilho das estrelas.

Tudo era perfeito até que um dia uma das lâmpadas não funcionou como deveria e não acendeu. O governador logo pensou num ataque terrorista ou de opositores de seu governo.

À princípio apenas poucas pessoas tiveram interesse em acercar-se até o poste apagado, e às escondidas puderam perceber um pequeno pedaço de céu estrelado e contaram aos amigos tão encantadora experiência.

O governador solicitou urgente a reparação da lâmpada. Entretanto, o eletricista tentou encontrar onde estava o problema, mas como não obteve sucesso, resolveu trocar por outra lâmpada.

Porém a lâmpada nova não funcionava bem, acendia e apagava quando queria a qualquer hora do dia e sempre quando as noites estavam nubladas. Era um mistério que ninguém conseguia entender.

Pouco a pouco, as pessoas começaram a frequentar aquele ponto da rua onde estava a misteriosa lâmpada,  porque dali podiam ver as estrelas quando era noite clara e ficavam ali a admirar, a conversar uns com os outros, a fazer planos, amizades, jogavam, riam e foram desenvolvendo fortes vínculos dia após dia. E a cada dia chegava mais gente. Começaram a amar aquela lâmpada defeituosa porque ela espalhou a harmonia e o amor por aquele povoado como nos contos de fadas.

O governador ficou preocupado e furioso, porque foi perdendo a autoridade  e o poder sobre aqueles que dizia ser "seu" povo e armou um plano. Mandou sabotar a entrega de água em alguns pontos da cidadezinha, destruiu pequenos pontilhões que serviam à comunidade, queimou árvores de frutas e alguns galpões de armazenamento de alimento e depois culpou a misteriosa lâmpada pelas adversidades que o lugar estava passando.

Os acontecimentos deixaram a maioria do povo com medo, ficaram vulneráveis e enfraquecidos  e acreditaram no governador que incutiu no povo a culpa numa suposta malignidade e poder da lâmpada. Pouco a pouco, eles foram voltando para casa, para sua ordem e normalidade anteriores.

Foram poucos os sonhadores que não acreditaram no governador e tentaram uma revolta, mas no final o governo se reuniu e tomou a decisão de destruir a tal lâmpada mágica e sumir com os revoltosos. Quando isso foi feito, ninguém mais teve sonhos naquele lugar, ninguém mais riu, ninguém mais brincou, nunca mais viram as estrelas e voltaram a ser os autômatos, frios e tristes de antes.

Moral: Lute contra tudo e todos que pretendam destruir seus sonhos, não se deixe intimidar, mantenha sua lâmpada mágica sempre intacta acendendo e apagando a seu bel-prazer.

Tradução livre do original em inglês, The Magical Street Lamp, autor desconhecido

sábado, 9 de março de 2024

O desespero



Um dia ela começou a ser perseguida pelo desespero que durante vários momentos insistia em tomar conta de seu humor já muito combalido. Era preciso estar atenta, pois ele vinha a qualquer hora, assim como relatam pessoas com pânico. Talvez, similar ao pânico, o desespero é um pouco disso, uma desesperança, uma angústia, uma dor que não dói fisicamente, é uma dor do espírito. 

Era o desespero do tempo passando, das lembranças, das perdas, das confusões, dos erros, das vidas deixadas para trás, dos amores perdidos, da solidão, das casas vazias, dos objetos espalhados e esquecidos nos cantos. Ela precisava fugir da desesperança e tentava reinventar tudo a sua volta.

Na casa nova—já tinha parado de contar quantas— objetos significantes foram reunidos, não importava se fossem trastes velhos. Havia novos também para contrabalançar. Precisava ter por perto coisas que faziam parte de tempos que pareciam indefinidamente felizes. Ela nada sabia sobre a impermanência de tudo e todos. Nada sabia sobre a morte que veio de roldão, rasgando as páginas de seus projetos de vida. Quem parte deixa uma desordem, isso é um fato, e ela que ficou viva, não sabia o que fazer para pôr tudo em ordem de novo. Era preciso acostumar-se com a desordem como seu novo normal.

Agora ela teme os projetos longos, porque aprendeu que de hora em hora, Deus não melhora, como diz o dito popular. Tudo muda, se por interferência divina, não sabia. Agora ela entendia até de sua própria impermanência. Por isso somente vai lutando contra o desespero dia após dia, pois desesperar não resolve nada, mesmo porque uma parte dela já tinha ido, lutava então pela parte que ficou.  


terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Aprenda a dizer adeus


Quando um câncer terminal afetar alguém querido, por favor não faça dele um herói, será exigir muito de uma pessoa com o emocional já tão exigido. Não tente reter a vida e a presença dele para seus interesses egoístas. Ninguém imagina o sofrimento físico/psicológico que cada doente carrega. É impossível continuar vivendo com um corpo tão fragilizado. Não deixe que ele fique preso à emoções que não são dele. Você está saudável e continuará vivo. Ele, não! O caminho dele foi traçado por sabe-se lá quem ou o quê. Ânimo e pensamento positivo não curam câncer. Honre, ame, aceite o que ele já aceitou e deixe ir. Ele escolherá a hora quando estiver liberto das emoções, do medo e das esperanças vãs de todos os que o rodeiam. 

Uma vez pensei que tinha me despedido, mas só agora entendendo isso, eu me despeço verdadeiramente!

Aprenda a dizer adeus! 

Inspirado no filme "Enquanto Vivo" (De son vivant) de Emmanuelle Bercot


sábado, 13 de janeiro de 2024

Idades

 



Aos 5 anos eu perdi meu anel de pedra vermelha. Aos 10, eu queria ter 15. Aos 15 eu só tinha espinhas, cólica menstrual, cabelo rebelde e perguntas. Aos 20, eu estudei muito para entrar para a universidade. Minha cabeça e a parede do quarto estavam cheias de fórmulas matemáticas. Entrei, pois as fórmulas me ajudaram. Aos 25 eu queria trabalhar. Fui. Aos 30 eu procurava um amor e encontrei. Aos 40 nós queríamos ter uma casa. Tivemos. Aos 50, eu comecei a querer ter 15 de novo, porque só tinha domado o cabelo, a cabeça revirou. Aos 55 eu fui viajar e não voltei. Aos 60 eu perdi tudo. Agora aos 65, eu queria nascer de novo porque a vida é cheia de probabilidades e continua cheia de perguntas por perguntar e responder. Quem disse que experiências e memórias trazem felicidade? Felicidade são milhares de folhas em branco para preencher com uma vida inteira e se não for possível com vida real, pelo menos que seja com palavras, letras, frases, pontos e vírgulas, como isso aqui.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Solidão linguística

  1. Mirador A Granxa, Raxó, Galicia: arquivo pessoal

    Solidão, português Soledad, espanhol. Solitude, francês Solitudine, italiano
  2. Loneliness, inglês Einsamkeit, alemão Odinochestvo, russo Gūdú, chinês.
  3. Kodoku japonês Wahda, árabe Monaxiá, grego Mbotu tupi-guarani
  4. Solitudinis, latim. B'didot, hebraico Ensamhet, sueco
*Estado de quem está só, retirado do mundo ou de quem se sente desta forma mesmo estando rodeado por outras pessoas; isolamento.Etimologia (origem da palavra solidão). Do latim solitudo.inis.Era só esse o post...




sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

É só um número



É só mais um ano que acaba e outro que começa. Dia 1º de janeiro será um dia normal. A grande diferença é a ressaca pela mistura de cerveja e espumante e o remorso pelos exageros na comida. De novidade, só uma agenda ou um calendário diferente trazido de brinde de um supermercado. Salvo os que estarão de viagem em janeiro ou fevereiro, estes manterão o entusiasmo e a ansiedade no topo e no final voltarem para suas rotinas dias depois cansados de tanta atividade de lazer e pouco descanso. Será só mais um dia depois do outro, com a diferença que há festejos e rituais variados conforme o continente, o país e a região. Alguns tampouco têm a mesma contagem de tempo do ocidente. Segundo o fuso horário, as ilhas de Kiribati e Samoa inauguram o Ano Novo e ele vem vindo do Leste para o Oeste, fazendo o mesmo trajeto fantasioso do Papai Noel, mudando a folhinha de país em país. Coisas boas e coisas ruins vão acontecer em 2024. Crianças vão nascer e pessoas vão morrer. As guerras, as doenças, os problemas socioeconômicos e a ameaça climática vão continuar. O tempo trás mudanças coletivas, mas na maioria das vezes pontuais ou imperceptíveis. Exceto uma pandemia como aconteceu em 2020. A rotina acaba tomando conta e as estações virão e irão embora como sempre. Podemos comer lentilha, colocar folhas de louro na carteira, usar determinada cor de roupa que, salvo nos tocar a mega sena, não nos tornaremos milionários. Nós do hemisfério sul temos mais sorte, porque é verão, então há mais ambiente para festa. Vamos para as ruas, para os bares ou para a beira da praia assistir a shows de música e espetáculos de fogos. No hemisfério norte faz um frio de morte, as cerimônias são restritas dentro das casas e a confraternização é mais contida. A única vez que passei lá, todos estavam reunidos ao redor da mesa comendo as doze uvas—uma para cada mês do ano— enquanto acompanhávamos pela TV o relógio da Porta do Sol em Madrid dar as doze badaladas da virada. Tradição que segundo consta, traz prosperidade.

Perdoem o desencanto, mas é certo que dia 2 tudo volta ao normal. Mas ainda podem sonhar com o carnaval. O importante é esperar que o 24 venha ao menos com saúde, se os deuses quiserem.

 


quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Sinais Fechados




Certo dia ouvi dizer que não há necessidade de encontrar com as pessoas, porque já estamos informados de tudo pelas redes sociais. No momento até concordei, mas depois me pus a pensar. E os abraços? E as conversas? E o "quanto tempo", "eu vou bem", "eu vou indo"? como na música "Sinal Fechado" de Chico Buarque.

No entanto, a rede social é o topo do iceberg na vida de todos. O que acontece na realidade não está ali(aqui). Dores, tristezas, dificuldades, doenças, fracassos, enfim a vida real está invisível assim como se mantém invisíveis milhares de pessoas que apenas seguem perfis e vice-versa e não compartilham nada. A invisibilidade é outro ponto que venho tratar aqui. 

Curiosamente, acho que há uma conexão entre os invisíveis que, por falta de tempo, de vontade ou por falta de manejo com a tecnologia etc. sejam os mesmos que se esquivam dos encontros.  Eles se distraem com a exposição alheia, mas nunca se expõem. Saber se fulano parece bem já é suficiente. Se ele está ativo nas redes sociais parece estar vivo, ainda que só pareça.  

Outro comportamento interessante é em relação às ligações telefônicas. No passado, podíamos fazer ligações livremente sem pedir licença, mas hoje já ouvi pessoas dizerem que não atendem telefone. Agora parece ser mais correto pedir permissão por mensagem de texto. Impossível prever quando virá a resposta. São mudanças comportamentais que se estabeleceram. Eu, particularmente não sou capaz de manter familiares no modo silencioso e nunca desligo o celular. Talvez por ter vivido um tempo fora do país, isso me deu um sentido de estar sempre alerta. E a recíproca não é verdadeira, pois quem fica não sente a mesma falta dos que vão embora. O que vai para longe precisa da conexão para continuar pertencendo.

De qualquer maneira, eu respeito a maneira de ser de cada um. Só observo e escrevo, e obter visibilidade no ato de escrever através da rede social é uma ferramenta que gosto de usar, mesmo que para provocar debates, causar incômodos e receber críticas.

Não nego que rede social é um lugar recheado de positividade tóxica, felicidade obrigatória e de aparências feitas com filtros e IA para ganhar likes, encantar amigos, seguidores, consumidores, etc. E esses ambientes nem fariam sentido se não houvesse gente disposta a se expor, mostrar sua vida, suas habilidades, etc.  Não espero que os invisíveis nos deem o privilégio de vê-los no mundo virtual, creio que nunca nos brindarão com algum conteúdo. Mas sei que seguirão ali, afinal a curiosidade é bem maior que o bem-querer, se me permitem a constatação.

 


sábado, 23 de dezembro de 2023

O paradoxo das meninas

              

As duas irmãs de Renoir- Global Gallery
  Laura tinha um sonho recorrente desde a infância. Sonhava que sua mãe corria assustada com ela no colo em meio a uma mata escura, depois elas subiam as escadas e embarcavam num imenso avião. No sonho, ela tinha a sensação de que viajavam para longe e abandonavam uma vida.

Cresceu sem o pai. Só sabia que ele vivia na Espanha. A menina percebia que o assunto desagradava a mãe que refletia no rosto um misto de pesar e pânico sempre que perguntava por ele. Tinha uma vaga memória de um homem jovem, bonito, de olhos azuis que brincava com ela e levava para passear. Depois de crescida, ela começou a insistir com a mãe para saber os detalhes de sua origem, cujo fato mais relevante que sabia era que elas tinham emigrado daquele país, quando tinha pouco mais de três anos.

A mãe, depois de muita insistência de Laura, já adolescente, contou uma história:

—Quando tu tinhas uns dois anos teu pai sofreu um acidente no barco pesqueiro em que trabalhava. Era marinheiro. Ele ficou em coma vários meses e perdeu a memória. Depois do acidente não reconhecia mais a nós duas, tampouco a vida que levávamos juntos. A amnésia e as sequelas o deixaram muito transtornado e ele passou a viajar cada vez para mais longe e por mais tempo. Quando ele voltou de uma dessas viagens, pediu o divórcio e nos afastamos. Pouco depois, eu soube que ele estava casado com outra mulher. Vivíamos na mesma cidade. Um dia eu me distraí passeando contigo e essa mulher te roubou de mim de dentro de uma loja.

—Me roubou? Como sabes que foi ela? —perguntou a filha desconfiada. 

—Ela queria ter filhos com teu pai e não conseguia. Então ela resolveu te tirar de mim. Mas ela já tinha me tirado teu pai, eu não poderia permitir que levasse a ti também. Então, fiz o mesmo. Um dia estavas numa pracinha em companhia de uma tia que te cuidava e eu te levei dali. Em resumo, embarcamos para cá para o Panamá em seguida e nunca mais tive notícias deles. 

—O resumo de um resumo. Imagino que deve haver muito mais conteúdo nessa história e não queres me contar. Depois de um divórcio, a justiça determina que os filhos recebam uma pensão, visitas etc. Um vínculo há que ser mantido, não? Em meus documentos nem sequer consta o nome dele! 

—Eu não queria nada dele e precisávamos fugir. 

—Tudo isso é muito vago e sem sentido. Fugir de que? 

—Não podíamos continuar vivendo lá. Tive medo. —disse-lhe a mãe hesitante. 

— Deves ter uma foto ao menos. Eu queria lembrar dele. 

—Um homem lindo, eu o amei muito. — Buscou entre uns guardados a foto do casamento onde aparecia um casal de noivos jovens e sorridentes em frente a uma igreja e mostrou à filha. 

—Eu lembro dele! Sim, este é o meu pai! E havia uma mulher morena, bonita e sorridente que cuidava de mim. Devo ter passado bom tempo com eles, do contrário não lembraria. 

—Mas jamais te deixarei ir procurar por eles, nos causaram muito sofrimento. 

—Não podes me impedir. E quem me garante que eu seja tua filha e a mulher de meu pai não seja minha verdadeira mãe? — implicou a menina. 

—Não diga sandices! Depois de tudo que arrisquei e abandonei ainda me acusas? Pois vá. Não me encontrarás mais aqui quando voltares. 

—Tu sempre dramatizando e me chantageando. Fizeste isso a vida inteira sempre que eu falava de meu pai. 

—Eu precisava te proteger. —disse a mãe, relutante. 

—Proteger a mim ou a ti? Eu já tenho quase 18 anos, quero ir à Espanha e procurar por ele. Ninguém vai me impedir. Poderias ir comigo, nunca mais viste tua família, tua terra. De que tens medo? Se sou tua filha legítima é muito fácil comprovar. Basta um exame de DNA. 

—Exame de DNA? Estás louca? Tu duvidas de mim? 

—Até que me contes a verdade, continuarei duvidando. Tuas histórias foram mudando conforme a minha idade e não me convencem. Além do mais posso me proteger sozinha. Vamos, conte de uma vez por todas a verdadeira razão de termos fugido para cá. Se fui sequestrada pela mulher de meu pai, porque não acionaste a polícia, simplesmente resolveste me tomar de volta? Eu sempre tive a sensação de que vivíamos em fuga e escondidas. 

—Eu estava desatinada e furiosa com aquela mulher, ela tinha me tomado teu pai e te queria também. Fiz o que devia ser feito e não tens o direito de me julgar. Se fores para a Espanha, já sabes, me mato. 

—Tuas ameaças não me assustam, vou descobrir a verdade, está decidido.                                                                                                                                                                                                                                                                    ✽✽✽✽

Virginia tinha um sonho recorrente na infância. Sonhava que uma mulher desconhecida corria com ela nos braços no meio de uma mata escura. Depois se via ao pé da escada de um enorme avião e a mulher ainda com ela no colo, aos gritos, impedia que seu pai a retirasse dos braços dela. Não sabia se seu pai a salvava da mulher do sonho, pois a última imagem que tinha era sempre da mulher gritando, seu pai lhe estendendo os braços e ela lhe dando os bracinhos chorando.

Ela cresceu assim com a imagem de um pai herói, seu salvador das garras de uma bruxa ou de uma ladra de crianças. Porém, a mulher não parecia uma bruxa, não era má, nem feia, nem tinha rugas no rosto. Virginia não tinha medo da mulher, somente da visão de seus olhos arregalados, de seus gritos desesperados e do quão forte se sentia apertada entre seus braços.

Por vezes, ainda criança, quando tinha desavenças com a mãe, fantasiava que a mulher do sonho podia ser sua verdadeira mãe e que aquela com quem vivia podia ser uma ladra. Tinha um certo ciúme dela com o pai, pois os dois viviam aos beijos e abraços. Ela amava aquele pai bonito e carinhoso que antes de ser seu pai era o marido da sua mãe.

Adorava quando saíam só os dois a passear e isso passou a acontecer mais depois que sua irmã nasceu. Ele era cuidadoso, gentil, nunca levantava a voz, comprava sorvete, limpava seu rosto, levava na praia, faziam castelos na areia, corria com ela nas costas, dava banho e o jantar. Virginia só não gostava quando ele tentava ensinar-lhe a nadar. A água era sempre muito fria, ela tinha medo de mergulhar, então ele acabou desistindo. Sua irmã, sim, tornou-se excelente nadadora graças a ele.

Sua mãe era professora de línguas, uma mulher bonita, inteligente, sorridente e carinhosa quando estava tranquila e despreocupada. Quando se apresentavam problemas e temores, frequentemente mais temores que problemas, ela se punha um tanto colérica e desatinada. Tinha uma certa mania por limpeza e organização, estrita com horários e regras. Depois que teve duas crianças, nascidas muito perto uma da outra, mesmo com a ajuda da cunhada e do marido, parece que cultivava uma ansiedade que se lhe aflorava a pele. Ela tinha temores infiltrados, temores de perdas, temores de ausências.

Depois dos 10 anos, mais ou menos, Virginia nunca mais teve o mesmo sonho, acabou esquecendo e nunca contou a ninguém. Certo dia, depois de completar 18, ela estava com a irmã e a tia na casa do avô, pai de seu pai, sentadas ao redor da mesa da cozinha olhando umas fotografias antigas. Elas queriam conhecer a avó que há muitos anos tinha falecido. Entre os guardados havia a foto de um casamento. A tia tentou esconder das meninas, porém Virginia percebeu, o que aguçou sua curiosidade.

—Esta foto é do primeiro casamento do seu pai, mas não deixem sua mãe saber que eu mostrei a vocês. —pediu a tia, rendendo-se. 

—Nós sabemos que ele foi casado com outra mulher quando era mais jovem. Qual o problema de ver a foto? —indagou Virginia.

—A ex-mulher dele provocou muito sofrimento aos pais de vocês e o assunto virou um tabu na nossa família. Nem sei como seu avô não destruiu isso e ainda está aqui perdida. 

A tia alcançou afinal a foto às meninas e ali elas puderam ver seu pai, bem mais jovem, lindo, num terno escuro e gravata prateada, uma noiva igualmente linda, com vestido longo branco, suas duas tias e seu avô, vestidos elegantemente. Todos posavam sorridentes em frente à Catedral de Santa Maria de Vigo. Virginia ficou vários minutos observando a foto, intrigada, tentando entender os sentimentos que lhe provocaram a imagem daqueles rostos em sua maioria tão familiares. Porém, ela se deteve no rosto da noiva e isso fez com que num dado instante ela relembrasse o sonho da infância e contou de imediato à tia e à irmã. 

—Mas essa é a mulher do meu sonho. Eu sonhava com essa mulher quando era criança! —disse Virginia alarmada. 

—Que sonho, Gina? —perguntou a tia. 

—Seguidamente eu tinha um sonho sempre igual, nunca contei para ninguém, ou talvez para alguma colega de escola. Depois de adolescente nunca mais aconteceu e eu já tinha até esquecido. 

E Virginia contou o teor de seu sonho infantil e ficou ainda mais convencida que aquela noiva da foto era a mesma mulher. A tia foi ficando cada vez mais atordoada à medida que a sobrinha ia falando. Era impressionante como alguns aspectos do sonho e da vida real se encaixavam. 

—De onde ela é? Onde vive agora? —quis saber Virginia.

—E para que queres saber? —perguntou a tia, preocupada por ter trazido aquele assunto à baila. 

—Só por curiosidade, tia! 

—Ela era daqui mesmo de Vigo, mas essa mulher já morreu. — E contou o sucedido de muitos anos antes.

Virginia havia sido sequestrada pela ex-mulher de seu pai, quando tinha quase quatro anos, numa pracinha da vizinhança durante um momento de distração da tia que era sua babá. A mulher planejou friamente uma vingança contra o ex-marido e a esposa. Ela nunca aceitou o fim de seu casamento, que havia acontecido em circunstâncias totalmente manipuladas por ela. Foi um caso clássico de um triângulo amoroso cheio de mentiras, correspondência interceptada e desencontros. O fato de ter sido descoberta em suas manipulações, ter sido abandonada e não ter conseguido construir a família que tanto sonhava com o homem que amava, transformou-a numa pessoa totalmente ardilosa e transtornada.

A polícia investigou e descobriu em poucas horas que o plano da mulher era embarcar com a menina Virginia num voo da Espanha para o Panamá com um passaporte falso em nome de Laura, filiação e sobrenome somente em nome da sequestradora. O pai de Virginia auxiliou nas buscas, enquanto a mãe se desesperava em casa abraçada o tempo todo na filha menor, ainda um bebê. O relato do sonho era o mesmo da vida real que a tia acabou contando às meninas. E Virginia foi resgatada pelos braços do pai, enquanto a mulher gritava:

— Olha, é a nossa filha! Aquela mulher me roubou. Vem, vamos juntos embora daqui. —Ela gritava em desatino.

As meninas ficaram boquiabertas com a revelação da tia e as três com a similaridade que o fato tinha com o sonho relatado.

—Então, se ela não tivesse sido presa, teria me levado para o Panamá e mudaria todo o curso de minha história! —concluiu Virginia.

—Sim, mas ela estava muito transtornada, deixou muitos vestígios do crime que estava cometendo e felizmente tudo se resolveu em pouco mais de 24 horas, porém o choque pós-traumático foi intenso, principalmente para tua mãe.

A mulher foi julgada e condenada, cumpriu alguns anos da pena, mas por conta do diagnóstico de um transtorno psiquiátrico obteve liberdade condicional. Contudo, suicidou-se logo depois de sair da prisão. Era um ser que não aceitava a felicidade alheia, cultivava uma obsessão irracional por possuir pessoas e um espírito vingativo. Uma dor que não suportou carregar. A sua maneira, ela também amava o pai de Virginia. A mãe de Virginia, depois que soube da morte da mulher, serenou e nunca mais temeu perder ninguém. 

  

                                                                                                                                                                                                                                       

                                                                                    

                                     

                                                                              


Insônia